O BRASIL E A CRISE 2017 (II) – O DOMÍNIO DO IMPONDERÁVEL

Quando publiquei o primeiro post desta série, minha ideia era escrever mais dois ou três,  talvez um abordando os sinais de recuperação da economia, outro sobre a questão da moralidade no trato da coisa pública, e por aí vai. Desisti da ideia. Ficarei só neste post pois vivemos um período no qual a velocidade e o caráter inusitado dos acontecimentos torna HOJE obsoleta a análise de ONTEM.

Vivemos sob o domínio do imponderável!

Estava iniciando o post sobre a recuperação da economia quando surgiu do nada o devastador escândalo envolvendo o presidente Temer. Esperar que, no Brasil, um político profissional há 40 anos tenha se mantido honesto é como esperar encontrar uma virgem em um prostíbulo. De fato, a política brasileira é desde sempre viciada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela corrupção.

Gosto de citar três frases que, a meu ver, representam muito bem estas características da política que se pratica no Brasil. A primeira, de autoria incerta, mas atribuída genericamente a um político mineiro, afirma que “Manda quem nomeia, transfere e demite, prende e manda soltar.”, ou seja, o Estado é como uma fazenda, onde o dono estabelece quem vai ou não trabalhar ali, quem vai ser ou deixar de ser punido. A segunda frase, atribuída a Getúlio Vargas (1882-1954), demonstra como a igualdade formal entre os cidadãos foi sempre uma farsa em nosso país: “Para os amigos, tudo; para os indiferentes nada; para os inimigos, a Lei.” E, finalmente, a conhecida frase, já mais que cinquentenária, “Ou restaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos.” do jornalista Sérgio Porto (1923-1968), mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, cujo humor cáustico nos deixou um retrato engraçado e um tanto constrangedor de uma sociedade que se modernizava aceleradamente nas décadas de 50 e 60 do século XX.

Se, como ensinava Aristóteles, “O homem é um animal político.”, pode-se dizer metaforicamente que a esmagadora maioria dos políticos, e particularmente os parlamentares, pertence ao gênero “latro” (do latim, ladrão),  animal político que se alimenta de propina. O gênero “latro” compreende algumas espécies distintas, conforme descrito a seguir.

A mais comum é o “latro vulgaris”, abundante no Planalto Central. Após séculos de sobrevivência na mata atlântica, foi introduzida e adaptou-se ao clima do cerrado. Vive em simbiose com o poder. Como se sabe, numa relação simbiótica os dois organismos obtêm benefícios, ainda que em proporções desiguais. No caso, o “latro vulgaris” fornece uma certa legitimidade ao poder e dele extrai uma quantidade moderada de propina.

Outra espécie conhecida é o “latro majoris”, animal político de alta periculosidade. A população de “latro majoris” aumentou exponencialmente desde 2003. A espécie sobrevive em uma relação parasitária com o poder. Na relação parasitária, somente um dos organismos (o parasita) recebe benefícios; o outro organismo (o hospedeiro) é exaurido pelo parasita, eventualmente até a morte, que representa geralmente também o fim do parasita. O apetite do “latro majoris” é insaciável, e ele abocanha propinas astronômicas,  como por exemplo, R$500.000 por semana durante 25 anos, o que totaliza a inimaginável quantia de CR$650.000.000,00 (seiscentos e cinquenta milhões de reais).

O Planalto Central abriga ainda a espécie “latro lulensis”. Trata-se de uma espécie de ferocidade incomparável. Os hábitos parasitários e a voracidade pela propina podem levar um observador desatento a confundi-lo com o “latros majoris”, porém análise mais detalhada dos espécimes capturados pela Polícia Federal mostra que o “latros lulensis” é, por natureza, um predador, que tem como objetivo final a aniquilação do hospedeiro e sua substituição por outro, com uma estrutura bem diferente.

Entre o “latro majoris” e o “latro lulensis” a diferença básica é essa: o “majoris” tem a propina como fim e mata seu hospedeiro ocasionalmente, como efeito colateral de sua voracidade; já o “lulensis” tem a propina como meio para liquidar seu hospedeiro.

Resumindo a história: Michel Temer, animal político que todos imaginavam ser um “latro vulgaris”, revelou-se um “latro majoris”!

Deixando de lado o humor que tento imprimir na descrição de um evento triste e humilhante para o Brasil e os brasileiros, acho que a situação é mais ou menos esta mesmo. Pois, vamos e venhamos, independente de quaisquer explicações, justificativas ou versões alegadas pelos advogados de Michel Temer, o FATO de um Presidente da República receber altas horas da noite um empresário suspeitíssimo já levanta o sinal de alerta; o FATO de um Presidente da República ouvir a confissão de que membros do judiciário foram subornados e ficar quieto é um escândalo de proporções gigantescas.

Temer deveria ter tomado imediatamente uma atitude firme; não sei se poderia ter dado voz de prisão ao sujeito, mas no mínimo deveria ter chamado alguém como testemunha, narrado o ocorrido e acordado o Ministro da Justiça e quem mais fosse preciso para definir o que fazer. Ora, Temer não fez isso e evidentemente cometeu um crime de responsabilidade ao acobertar ou simplesmente ignorar  a confissão de um crime gravíssimo.

Só esse FATO já seria motivo para um processo de impeachment. Do ponto de vista ético e moral, Michel Temer acabou; por consequência, seu governo também acabou. O melhor que o presidente será capaz de fazer é vender a ideia de que: (a) é apenas um “latro vulgaris” e; (b) já que ninguém presta mesmo, tanto faz Temer, como Emer, como Remer, pois são todos farinha do mesmo saco, logo fica-se com Temer. Assim, o atual ex-presidente Temer deve ocupar a cadeira e usar a faixa presidencial até o fim de 2018. Até nisto somos inovadores: temos o primeiro presidente zumbi de que se tem notícia na história.

A eleição de 2018 é uma grande incógnita e mais uma prova de que, neste momento, o Brasil é um país sem futuro!

Lula, o preferido nas pesquisas, poderá estar preso, inelegível ou morto em 2018. Afinal, é réu ou está indiciado em mais de 10 processos criminais; aos 71 anos, Lula enfrenta também sérios problemas de saúde. Se, contrariando todas as expectativas racionais (novamente, o imponderável), Lula for eleito presidente, caímos todos no abismo. O clima de ódio entre adversários políticos, a divisão do Brasil entre “nós” e eles”, o discurso envenenado pelo desejo de provocar a luta fratricida no país (veja o post “REDENÇÃO”, neste blog), tudo isto nos conduz para um desfecho trágico.

Com exceção de Lula, o PT não possui candidato viável. Ou alguém imagina Gleisi Hoffmann, ré em processo no STF e cujo consorte é acusado de roubar a nada módica quantia de R$100.000.000,00 (isto mesmo, cem milhões de reais) dos aposentados, concorrendo à presidência do Brasil?

Jair Bolsonaro é aclamado como o Salvador da Pátria. Mas dificilmente ganhará uma eleição presidencial falando sobre livros didáticos LGBT. Onde as grandes questões econômicas, políticas e sociais? onde o projeto para a Nação? Bolsonaro só terá chance de alcançar a presidência se arrumar uma excelente equipe de marqueteiros que o prepare bem para os debates e entrevistas.

Se Jair Bolsonaro for eleito, só terá chance de fazer um bom governo caso disponha de ampla maioria no Congresso e, além disto, consiga formar um ministério de qualidade excepcional, que lhe permita governar apesar se suas evidentes limitações. Mas será que num país com 35 partidos é possível construir maiorias sólidas no Congresso sem loteamento de cargos? A experiência dos últimos 30 anos mostra que não.

Outro problema que Jair Bolsonaro enfrentará é a decepção dos eleitores. O que atrai grande parte de seu eleitorado é o discurso do deputado sinalizando maior rigor no combate à criminalidade. Mesmo que vença as eleições, Bolsonaro terá extrema dificuldade para implementar eventuais propostas nesse sentido. A Constituição brasileira tem as chamadas “clausulas pétreas”, que não podem ser mudadas nem que 100% da população, 100% dos deputados e 100% dos senadores estejam de acordo. Assim, quaisquer medidas no sentido de endurecimento no combate ao crime e maior rigor na punição dos criminosos serão imediatamente alvejadas por uma saraivada de Ações Diretas de Inconstitucionalidade que os defensores dos direitos humanos impetrarão junto ao Supremo. E é mais do que certo que o egrégio tribunal irá considerar essas ADIN’s procedentes.

No PSDB também há problemas. Politicamente, Aécio está mais morto do que Tancredo. José Serra encontra-se em lugar incerto e não sabido, no que diz respeito à política, desde sua misteriosa renúncia ao cargo de Ministro das Relações Exteriores. Alckmin sonha com a candidatura, mas sua fama de incorruptível (a virgem no bordel?) foi um pouco dilacerada quando se soube que o codinome “Santo” usado nas planilhas de controle de propina da Odebrecht se referia a ele. Ademais, como eleger alguém cujo charme e simpatia lhe valeram o apelido de “picolé de xuxu”? Dória tenta se cacifar para uma eventual disputa, mas será que 2018 não é muito cedo? E os eleitores paulistanos, será que lhe perdoarão abandonar a prefeitura apenas dois anos após ter sido eleito com expressiva votação?

Menciona-se ainda a possível candidatura de Ciro Gomes, que encarna de forma perfeita um “coronel nordestino”, arrogante e prepotente, de uma grossura tão enraizada no caráter que nem a temporada em Harvard conseguiu torna-lo civilizado. Para este personagem folclórico, sobrarão os votos de seu curral eleitoral cearense.

Isto resume a situação política do Brasil em 2017: o Executivo e o  Legislativo completamente desmoralizados; o Judiciário ainda digno de algum crédito graças a Sérgio Moro e outros juízes de primeira instância de mesmo naipe. Entretanto as forças do Mal encasteladas no STF trabalham ativamente para destruir também este último sustentáculo da esperança de um Brasil melhor.

O final da história? Só Deus sabe…

TRANSPONDO O REGIME CUBANO PARA O BRASIL

A morte do ex-ditador cubano Fidel Castro teve o efeito de fazer com que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva interrompesse temporariamente esta que é hoje sua principal atividade: assacar injúrias contra o juiz Sérgio Moro e a força tarefa da Lava Jato.

Lula fez questão de viajar até Cuba para participar do funeral de Fidel, acompanhado pela nulidade que seu prestígio colocou na presidência de nosso país. Felizmente o desenxabido arremedo de governante já foi escorraçado do Palácio do Planalto, não se antes destruir a economia e infelicitar a vida de milhões e milhões de brasileiros.

A viagem de Lula e Dilma Rousseff para prestar as últimas homenagens ao fundador de uma das mais longevas ditaduras da atualidade não chega a surpreender. Fidel é o ídolo de boa parte da esquerda tupiniquim. Para esta gente, Cuba é o modelo do futuro que sonham para o Brasil: um regime de partido único, onde não há liberdade de opinião, nem de expressão e muito menos de reunião. Onde a economia é totalmente controlada  pelo Estado e os membros destacados do partido podem assaltar os cofres públicos sem absolutamente qualquer receio de que apareça um Sergio Moro para incomodá-los, visto que o  Judiciário faz o que o ditador ordena. Mas a mais invejada característica do regime cubano, que eles implantariam com absoluta prioridade caso assumissem o poder, é esta: os que ousam protestar são presos ou assassinados.

Esta semana foi notícia uma pesquisa do Datafolha, indicando que Lula ganharia a eleição, caso viesse a candidatar-se novamente à Presidência da República em 2018, Por mais absurdo e estarrecedor que seja o resultado desta pesquisa, não há dúvida que infundiu novo ânimo ao combalido PT e deu mais argumentos para que o ex-presidente se coloque como vítima de um plano maquiavélico das elites para impedir um novo mandato.

Para escrever este texto, imaginei  um cenário no qual Lula, após esmagadora vitória na eleição de 2018, decide tornar-se o Fidel brasileiro. Em primeiro de janeiro de 2019  o novo presidente anuncia publicamente os títulos aos quais se julga merecedor, declarando-se Grande Companheiro, Herói do Proletariado, Pai dos Pobres, Defensor dos Oprimidos e Salvador da Pátria. Com o apoio das massas e a complacência das Forças Armadas, fecha o Congresso, coloca na ilegalidade todos os partidos exceto o PT, estatiza todos os jornais, rádios e emissoras de TV, desabilita a internet e inicia a transformação do Brasil em uma Cuba de dimensões continentais.

Há várias avaliações sobre o grau de brutalidade da ditadura cubana, instalada em primeiro de janeiro de 1959. Supondo que sua versão brasileira tente emular o regime cubano, analisei algumas informações sobre a repressão aos opositores do regime praticada em Cuba e fiz uma projeção para o Brasil. Como fator de normalização utilizei dados sobre a população da ilha entre 1959 e 2014 e projeções para a população brasileira entre 2019 e 2074, com base em informações do IBGE. Munido destas informações, imaginemos o que poderia ocorrer se o Brasil repetisse nas próximas décadas os eventos da história cubana.

Segundo estimativas da organização Cuba Archive (www.cubaarchive.org), entre 1959 e 2014 foram mortos 7062 opositores ao regime (3116 fuzilados, 1166 assassinados pela polícia política, 839 em ações armadas contra o regime, 811 em tentativas de fuga, 316 por falta de assistência médica, 100  por greve de fome, etc.). Projetando estes dados para o Brasil, entre 2019 e 2074 cerca de 157.000 brasileiros seriam liquidados por discordarem do governo.

Mas os números do Cuba Archive.são bastante moderados. Outras fontes citam valores substancialmente maiores. O “Livro Negro do Comunismo”, publicado em 1999, fala em 15000 a 17000 fuzilamentos. Supondo que estes dados se referem aos anos de 1959 a 1998, a projeção para o Brasil seria de 357.000 a 405.000 fuzilamentos entre 2019 e 2058.

O livro “Cuba, Cronología, Cinco Siglos de Historia, Política y Cultura”, do historiador cubano Leopoldo Fornés-Bonavía, estima que ao menos 4.000 oponentes ao governo foram fuzilados até o final de 1961. No Brasil projetaríamos 120.000 fuzilamentos entre 2019 e 2021. Supondo que os esquadrões  de fuzilamento trabalhassem de segunda a sexta-feira, haveria 160 execuções por dia útil, todos os dias, durante três anos…

O livro “Cuba or The Pursuit of The Liberty” , do historiador britânico Hugh Thomas, traz a estimativa de que 5.000 pessoas foram fuziladas entre 1959 e 1970, o que significaria no Brasil uma projeção de 140.000 execuções entre 2019 e 2030.

É claro que nem todos os opositores do regime castrista foram fuzilados. A maior parte deles foi “reeducada” através de longos períodos em prisões, onde aprenderam a se comportar de acordo com os padrões estabelecidos pela ditadura. O próprio Fidel Castro admitiu que na década de 60 cerca de 20.000 dissidentes passaram pelas prisões cubanas. No Brasil isto representaria o encarceramento de nada menos que 560.000 presos políticos entre 2020 e 2029.

Será que vamos embarcar nesta aventura? Diante do que temos presenciado na política nestes últimos tempos, tudo é possível. Afinal, cada povo tem o governo que merece….

GOLPE?

Os defensores da presidente Dilma Rousseff dizem que o impedimento (uma palavra que a mim soa melhor que o anglicismo “impiximente”) é um golpe e apontam toda sorte de falhas no processo contra a presidente. Como é a tradição do PT, acusam os “golpistas” de odiarem o povo brasileiro e se ressentirem com a inegável melhoria das condições de vida de parcela considerável da população ocorrida desde 2001. Infelizmente, percebem todos os que não estão cegos pela ideologia lulo-petista, esta melhoria foi temporária e está sendo destruída pela brutal recessão em que o país foi mergulhado pelo (des)governo da atual presidente.

Ouvimos novamente o que discuti no texto “O discurso de Lula”. São sempre os mesmos argumentos primários e desprovidos de lógica, embora muito perigosos: a divisão do país em bons (os petistas e simpatizantes) e maus (todos os demais brasileiros) , a falsa idéia de que o governo petista foi o melhor que o Brasil já teve, a negação dos crimes cometidos com o pretexto de que ninguém presta, portanto apontar a roubalheira do PT é apenas um sinal do ódio da elites.

Como pode o impedimento ser golpe se se trata de um mecanismo previsto na Constituição Federal e que requer a aprovação de 2/3 dos deputados federais para que o processo seja enviado ao Senado? Ao acusar de ilegítima e golpista uma eventual decisão de 2/3 da Câmara, aí sim, o PT deixa claro sua natureza totalitária e seu ódio à democracia. O sonho dos petistas, já declarado abertamente diversas vezes, é retirar a legitimidade do Congresso Nacional, criando um mecanismo através do qual os “movimentos sociais” (naturalmente só aqueles aprovados e custeados pelo PT) aprovem as medidas do governo.

É o primeiro passo para a implantação de um regime totalitário no Brasil, que Lula e seus cúmplices sonham em ver transformado em uma grande Cuba ou Venezuela; foi o primeiro passo para que os bolchevistas tomassem o poder na Rússia após a revolução de 1917.

Ignorando as questões substantivas, os defensores de Dilma procuram apegar-se a tecnicalidades legais, como se o impedimento de um presidente fosse um processo de primeira instância envolvendo uma briga de botequim. Não é! Trata-se de um processo de carater político, no qual os representantes eleitos pelo povo vão, por maioria absoluta na Câmara e maioria simples no Senado, interromper o mandato de uma presidente que se revelou absolutamente incapaz de governar o país.

Incompetente como administradora e sem qualquer atributo de liderança, Dilma é apenas uma burocrata sem maior expressão que, por força das circunstâncias – principalmente o desejo de Lula de ter como sucessor alguém que ele pudesse controlar – foi alçada a um cargo para o qual nunca esteve preparada.

Seu impedimento é análogo à dispensa por justa causa de um empregado incompetente. Nós, o povo brasileiro, que a contratamos e pagamos seu salário, estamos cansados de tanta incompetência e vamos, espero, tomar as medidas necessárias para dispensá-la.  Só assim o Brasil terá uma pequena chance de se tornar um país decente.

O DISCURSO DE LULA

Em quatro de março de 2016, após ter prestado depoimento à Polícia Federal em São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou no diretório do PT, em São Paulo. Compreensivelmente emocionado com os acontecimentos, Lula demonstrou mais uma vez como sua visão da realidade e do comportamento que se espera de um ex-presidente é confusa e despida de grandeza e senso ético.

A íntegra do discurso do ex-presidente pode ser visto na Internet, por exemplo aqui. Acredito que Lula merece ser tratado de forma respeitosa em função do cargo que ocupou, e penso que o pedido de prisão preventiva encaminhado pelo Ministério Pública do Estado de São Paulo foi resultado de uma decisão precipitada. Mas o discurso revela que o ex-presidente parece sinceramente acreditar que os crimes de que é acusado não são crimes, pelo menos no caso dele.

Minha leitura é de que a argumentação do ex-presidente  se desenvolve segundo seis linhas principais,  identificadas abaixo, juntamente com as citações que as corroboram  e um comentário que expressa minha opinião sobre os argumentos apresentados.

 

L1:atacar a justiça e a imprensa:

A minha briga com o Ministério Público Estadual é porque o procurador já fez um pré- julgamento…

…preferiram utilizar a prepotência, a arrogância, num show e espetáculo de pirotecnia.

É lamentável que uma parcela do judiciário brasileiro esteja trabalhando em parceria com a imprensa brasileira.

Qualquer juiz que prende alguém recebe um prêmio da Rede Globo, da revista Veja e, assim, a partir do dia que receber o prêmio precisa prestar conta.

Sabe as pessoas ficam cúmplices, obedecem, por exemplo, a orientação da revista Época. O procurador resolveu fazer o papel da revista Época e pedir investigação das minhas palestras… 

COMENTÁRIO: O ex-presidente afirma seguidamente que é vítima de uma campanha orquestrada pelo Judiciário e pela grande imprensa. É verdade que os vazamentos seletivos de informação sobre os depoimentos da Operação Lava a Jato minam a credibilidade da Justiça e expõe os processos a contestações no futuro. Mas é absurdo imaginar que a investigação resultou de um conluio entre a imprensa e o Poder Judiciário para prejudicar Lula ou o PT. O fato, comprovado além de qualquer dúvida razoável, e que já resultou em muitas condenações, é que uma organização criminosa operou durante muitos anos na Petrobrás, causou um imenso prejuízo à empresa e distribuiu bilhões de reais para financiar as campanhas do PT e seus aliados. A única dúvida é até que ponto Lula estava envolvido na roubalheira!

 

L2: apresentar-se como vítima de perseguição das elites:

… não há nenhuma explicação para irem atrás dos meus filhos. Nenhuma explicação – a não ser o fato de eles serem meus filhos.

Um delegado de polícia que quer saber o que aconteceu com a medida provisória não tem que perguntar para o presidente.

Eles agora querem saber do acervo do Lula. .

…eu só quero pedir desculpas porque hoje, nesse país, ser amigo do Lula parece que virou coisa perigosa. 

COMENTÁRIO: Lula embaralha diversos assuntos e confunde causa e consequência. Seus filhos estão sendo investigados porque detêm um patrimônio absolutamente incompatível com a renda que poderiam ter auferido; tudo indica que utilizaram a condição de serem filhos de Lula para traficar influência e obter vantagens indevidas. O aparente enriquecimento ilícito tem que ser esclarecido, até mesmo para afastar qualquer suspeita sobre a honradez da prole do ex-presidente. Afinal, um dos filhos de Lula demonstra talento quase insuperável para os negócios: em poucos anos, passou de guarda de zoológico a suposto dono de um dos mais modernos jatinhos em operação no Brasil. Se tais negócios forem legais, teríamos aí um Ministro da Fazenda em potencial…

Assim como, em geral, ninguém se preocupa com os filhos de ex-presidentes (FHC tem filhos? Quem são?), normalmente ninguém se preocupa com medidas provisórias ou acervos. É que somente no caso do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva há fundadas suspeitas de que (a) pessoas muito próximas a ele “venderam” medidas provisórias e; (b) houve também uma confusão entre o acervo do presidente e o acervo da Presidência por ocasião de sua mudança de Brasília para São Bernardo.

Finalmente, mais uma vez a estória é contada de maneira inversa. Não é perigoso ser amigo do ex-presidente, pois ao que consta ninguém foi preso por privar de sua amizade. O que os fatos mostram é que Lula parece escolher muito mal suas amizades, uma vez que muitos de seus amigos estão na cadeia por crimes tais como peculato, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, etc.

 

L3: declarar-se como o campeão da luta pela democracia, bem como o melhor governante da história brasileira, quiçá universal:

Antes dele [Moro], nós já fazíamos as coisas corretas nesse país. Porque enquanto eles não faziam nada, a gente estava lutando para que esse país conquistasse o direito de liberdade de expressão, o direito de uma imprensa livre, de candidatura de partido político, o direito à greve.

Eu sinceramente achei que ao eleger a Dilma eu tinha consagrado a minha vida. Porque eu tinha duas teses: presidente bom é aquele que se reelege e “bibom” é que aquele que faz sucessor.

Eu deixei a presidência como o melhor governante, o mais bem avaliado…

Qual milagre vocês fizeram para aprovar as cotas, colocando negro na universidade? Qual milagre vocês fizeram para criar o Prouni, que milagre vocês fizeram para aprovar o FIES? Que milagre vocês fizeram para levar energia a 15 milhões de pobres nesse país? Que milagre que vocês fizeram para que aumentassem o salário mínimo todos esses anos?

Eu fui melhor que todo cientista político, todo fazendeiro, que todos os advogados. Eu provei que o povo humilde desse país pode andar de cabeça erguida. Que o povo humilde desse país pode comer carne de primeira. 

COMENTÁRIO: É inegável que Lula desempenhou um papel importantíssimo na redemocratização do país, e que seu governo trouxe grandes melhorias para os mais pobres. O Brasil atravessou um período de grande crescimento econômico, milhões de brasileiros foram resgatados da miséria absoluta, a distribuição de renda tornou-se mais justa e o IDH aumentou muito. Pode-se argumentar que boa parte do sucesso dos governos de Lula deveu-se ao saneamento das finanças públicas promovido por FHC, e às circunstâncias externas muito favoráveis, e resta ver quanto do que foi feito de bom restará após a recessão que atravessamos agora. Mas Lula garantiu seu lugar na história como um dos presidentes mais notáveis que o país já teve e seu nome será lembrado nos livros escolares e em teses acadêmicas. É uma pena que sua biografia seja manchada pelo escândalo da corrupção.

 

L4: considerar normais suas relações com empresários criminosos.        

Se preocupando porque eu estou utilizando a chácara de um amigo. Eu uso a do amigo porque os inimigos não oferecem.

Esse companheiro comprou uma chácara na perspectiva de permitir que eu usasse. Eu não posso usar, porque é crime eu estar usando a chácara?

Quem tem casa em Nova York, em Paris, nunca me ofereceu, se oferecesse eu ia.

Eu quero saber quem vai me dar um apartamento quando esse processo terminar. Eu quero saber se vai ser a Globo que vai me dar, se vai ser o Ministério Público que vai me dar. Porque não é meu, porque eu não paguei, não comprei.

Essas empresas não trabalham só pra Petrobras. Essas empresas não estão apenas comprometidas com a Lava Jato. Essas empresas chegaram a ter 180 mil trabalhadores, 80 mil trabalhadores e 90 mil trabalhadores.

Ou seja, todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico. 

COMENTÁRIO: O teor dos comentários demonstra que Lula parece desconhecer o significado da palavra ética e a questão do decoro do cargo, que deve ser mantido pelo resto de sua vida. De um ex-presidente exige-se uma conduta inatacável. Lula parece não entender que aceitar favores de empreiteiros não é uma atitude decente e que, ainda que ele nada desse em troca, o simples fato de envolver-se com grandes empresas fornecedoras do governo causa uma profunda suspeição em qualquer pessoa. Agindo como age, o excelentíssimo ex-presidente da República enlameia sua biografia e se transforma num joguete dos que lhe concedem benesses. E não tem absolutamente nada a ver com “todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico”. Qualquer pessoa que assim procedesse, até o Papa, estaria sujeita a suspeitas, processos, etc. Também soa estranho o fato de que Lula parece achar que outras pessoas tem a obrigação de dar-lhe coisas, que ele aceitaria de bom grado… Será que o salário de ex-presidente e os duzentos mil dólares que ele afirma cobrar por palestra não bastam?

 

L5: acentuar a divisão do país entre “nós” e “eles”

…porque não há outra coisa para incomodá-los a não ser a gente ter trabalhado durante todos esses anos para fazer com que as pessoas do andar debaixo subissem um degrau na perspectiva de chegar no andar de cima.

Na hora que nós fizemos os pobres terem acesso à universidade, ter acesso ao mínimo elementar para comer, acesso ao emprego, programa Bolsa Familia, Luz para Todos, Pronatec…isso incomodou muita gente.

Eles partem do pressuposto que pobre nasceu para comer em cocho. 

COMENTÁRIO: O discurso de Lula e de boa parte do Partido dos Trabalhadores tem como base a divisão dos brasileiros em duas categorias: “nós” (suspeita-se que sejam os petistas, os trabalhadores que apoiam o PT, o MST, os “movimentos sociais”, os “excluídos”) e “eles” (suspeita-se que sejam os tais “coxinhas”, a classe média tão odiada por Marilena Chauí, sacerdotisa-môr do culto lulo-petista, a “elite” que sempre desprezou os pobres). À esta divisão acrescenta-se a pregação do ódio entre as duas categorias. A política é vista como um jogo de soma zero, onde a vitória de um lado só  é alcançada com a liquidação do outro. É esta lógica sinistra que explica porque o governo petista acabou por gerar uma organização criminosa destinada a perpetuar o partido no poder a qualquer custo.

 

L6: ameaçar veladamente convocar a militância lulo-petista para a confrontação.

O que eles fizeram com esse ato de hoje foi fazer com que a partir da semana que vem… eu quero dizer aqui à CUT, ao PT, aos sem terra, ao PCdoB, que a partir da semana que vem me convidem que eu estarei disposto a andar esse país.

...só tem um jeito de a gente levantar a cabeça. É a gente não ter medo. É a gente levantar a cabeça e fazer com que eles sejam tratados igual todos nós somos tratados.

A partir da semana que vem quem quiser um discursinho do Lula é só acertar. Passagem de avião – não vai de ônibus que demora muito.

…se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo e a jararaca está viva como sempre esteve. 

COMENTÁRIO: Como todo cidadão brasileiro, Lula tem o direito constitucional de viajar pelo país e discursar para quem estiver disposto a ouvi-lo. É um líder carismático e seu partido conta com milhares de militantes fanáticos; por outro lado, grande parte da população está irritada com o governo e com o PT. Assim, discursos inflamatórios podem ocasionar conflitos violentos. Todos esperam que aos problemas que o Brasil já tem não se some mais este…

O BRASIL E A CRISE (I) – AS RAÍZES DO MAL

As notícias na área econômica dificilmente poderiam ser piores. Confesso que nos meus 60 anos de vida nunca presenciei uma crise de tamanhas proporções e um clima de tanto pessimismo. A recessão profunda, com um encolhimento de 4.5% do Produto Interno Bruto em 2015, o desemprego recorde, a inflação saindo do controle, tudo isto é péssimo. Mas talvez o mais perigoso e potencialmente explosivo desta crise é a constatação de que o país está sem governo. É como um Titanic à deriva indo de encontro ao iceberg que provocará o naufrágio.

Acuada pela ameaça do impeachment, a presidente Dilma Rousseff revela sua absoluta incompetência para comandar o país em um momento de crise. Dilma é uma figura patética, uma presidente fantasma que vaga pelo país fazendo discursos ridículos sobre a mandioca ou a mulher sapiens, enquanto a economia se desfaz. Transformou a presidência em uma piada, um cargo inútil que poderia estar vago sem que ninguém notasse sua falta.

Quem de fato governa o país? Neste momento me parece que a burocracia profissional toca o dia a dia e os ministros gerenciam suas respectivas áreas conforme lhes parece melhor. A definição das grandes linhas a serem seguidas para tirar o país da crise, a criação de um projeto novo para o Brasil, que seriam responsabilidade do líder, nada disso existe.

Que Dilma era um zero à esquerda, sabia-se desde o início. Designada por Lula justamente por sua insignificância em termos políticos, a ex-guerrilheira tornou-se presidente da então 5ª economia do planeta sem nunca ter sido eleita para algum cargo, nem sequer o de síndica de um condomínio. É de se perguntar como uma figura tão inexpressiva chegou ao Palácio do Planalto.

De fato, não era bem isto o que previa o plano original, a grande estratégia  de destruição da democracia e da liberdade, que orienta o projeto criminoso de uma corrente política para perpetuar-se no poder a qualquer custo.

O plano original da cleptocracia lulo-petista era eleger como sucessor de Lula o corrupto José Dirceu, atualmente cumprindo pena pelos crimes de peculato e corrupção ativa. A bandidagem petista entende a política como o exercício de seu avassalador poder de corromper a tudo e a todos.

Foi apanhada de surpresa quando percebeu que ainda há brasileiros honrados, como o ex-juiz do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Graças, em grande parte, à atuação do insigne magistrado, a cleptocracia não conseguiu abafar o escândalo do mensalão, que acabou por inviabilizar as ambições presidenciais de José Dirceu.

 Impossibilitada a candidatura do herdeiro presuntivo, Lula. detentor de imensa popularidade na época, decidiu escolher um candidato sem qualquer expressão política.   Estava ciente de que, assim como Calígula fez de Incitatus senador do império, ele, o imperador Lula, faria de Dilma presidente da República. o que de fato ocorreu.

Durante o primeiro mandato de Dilma veio à tona o gigantesco escândalo do Petrolão,  evidenciando a podridão moral que contamina o Executivo e o Legislativo no Brasil. Sempre fomos um país marcado pela praga da corrupção, mas doze anos de governo petista transformaram o assalto aos cofres públicos em política de Estado. O exercício do poder transformou-se em essência na distribuição de propinas para garantir os apoios necessários.

Esperemos a avaliação da Transparência Internacional para 2015, mas é possível que  o governo petista tenha transformado o Brasil em um dos países mais corruptos do  mundo, senão o mais corrupto de todos.

continua…

OS EXTREMOS SE ENCONTRAM

Faz tempo que vi na internet este vídeo, no qual uma “filósofa” da USP  despeja um amontoado de besteiras sobre a plateia (clique aqui para ver o espetáculo deprimente).
Esta é a prova cabal e definitiva de que o sectarismo político emburrece até mesmo o que se supõe seja a elite intelectual do país.

Esta senhora pode entender tudo sobre Espinoza, mas este discurso é de uma imbecilidade extraordinária. É matematicamente impossível melhorar a distribuição de renda e, por consequência caminhar na direção de uma sociedade mais justa e igualitária, sem que a maioria das pessoas tenha rendimentos com menores desvios em relação à média, ou seja,criando uma classe média que concentre uma parcela mais significativa da renda.

Em sua estúpida demonstração de irracionalidade e ignorãncia, só faltou à odienta professora da USP (classe média alta) parafrasear uma conhecida frase atribuída a Goebbels, ministro da propaganda do governo nazista, dizendo: “Quando ouço falar em classe média engatilho logo o meu revólver!”.

O auditório, igualmente imbecilizado pela confusa ideologia do PT, aplaude os disparates da oradora. Em vista do que se sabe hoje, é bastante provável que muitos dos presentes tenham demonstrado na prática seu ódio à classe média assaltando escandalosamente os cofres públicos, cujos recursos provem em grande parte dos impostos escorchantes pagos por esta classe.