Entre o Medo e o Ódio (I)

Faltando pouco menos de um ano para a eleição de 2018 as primeiras pesquisas (não se sabe quão confiáveis) indicam Lula em primeiro lugar, com cerca de 30% dos votos, e Jair Messias Bolsonaro em segundo com aproximadamente 15%.

A primeira conclusão é que a pesquisa de fato reflete a polarização que se observa entre os brasileiros, evidenciada nas redes sociais e nos debates políticos. Poucas vezes esteve a política envolta em  tal clima de raiva e desprezo entre os adversários. As discussões no Parlamento são, via de regra, entremeadas de acusações e ofensas pessoais. Gritos, apupos e turpilóquios já não surpreendem mais, e com certa frequência o debate de ideias,  que se supõe seja o essencial do jogo político, se transforma em confronto físico.

Nas redes sociais nem se fala. Protegidos pelo relativo anonimato , as pessoas extravassam  seu ódio e sua frustração com a política e os políticos nos termos mais francos e diretos. São inúmeras as manifestações exigindo a intervenção militar, com a deposição de Michel Temer, o fechamento do Congresso e a cassação de todos os políticos.

Um  pouco menos frequentes mas também bastante numerosas são as manifestações que, implícita ou explicitamente, sugerem um levante popular e depois a eliminação física dos corruptos. O apresentador Datena manifestou-se sem rodeios a respeito do assunto, para um público de milhões de telespectadores.

De fato, sob o ponto de vista emocional, é difícil não desejar que os muitos canalhas, comprovadamente corruptos,  que se alojam na máquina do Estado, nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)  e nos três níveis do governo (federal, estadual e municipal) sejam fuzilados, como punição pelo crime hediondo da corrupção.

Como já comentei neste blog (em “A Inominável Vileza dos Corruptos”), ao subtrair verbas que seriam  aplicadas na saúde, na segurança pública, nos transportes, na pesquisa científica, a corrupção provoca a morte de um número indeterminado de cidadãos pois: ” o corrupto age como um terrorista sanguinário, que detona uma bomba em uma praça movimentada, matando indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e velhos, crianças e adultos. Não lhe importa quem morra, desde que atinja seus objetivos. No caso dos corruptos, estes objetivos são, creio eu, a acumulação ilimitada de bens materiais e a satisfação de um orgulho desmedido. Nos níveis em que ocorre no Brasil, a corrupção ultrapassou a dimensão puramente material para tornar-se um vício.”

Mas a preservação da democracia e do estado de direito que, ao menos formalmente, estão vigorando no país,  não permite que os corruptos sejam julgados sumariamente e executados em seguida.

Portanto, é necessário garantir o amplo direito de defesa, o contraditório e o uso de todas as chicanas e artimanhas legais que nosso direito possibilita ao acusado. Assim somos forçados a ter nossa inteligência agredida sem descanso, ouvindo idiotices como “… foi a D. Marisa” ou “… era um empréstimo para pagar os advogados.” Mas a democracia vale o sacrifício.

Nesta situação de divisão entre os brasileiros, ódios que parecem aumentar sempre, e ameaças de quebra da democracia e do Estado de Direito, o perfil do próximo presidente da República deveria, a meu ver, enquadrar-se de maneira bem próxima na descrição  abaixo:

  1. Autoridade moral:  deve ser um homem (ou mulher) sobre o qual não haja processos judiciais por corrupção ativa ou passiva, enriquecimento ilícito ou lavagem de dinheiro. Além de honesto, nosso próximo presidente deve ser reconhecido como tal pela classe política e pelo eleitorado. Esta é a forma de legitimar a Presidência da República, cujos ocupantes nos últimos treze anos tornaram o outrora honroso cargo de presidente  da república equivalente ao de chefe de uma quadrilha. Somente um líder capaz de mostrar-se como exemplo de que é possível fazer política com honestidade e decência, será capaz de negociar o apoio do Congresso, tendo como capital o respeito e a confiança do povo e não malas de dinheiro…É fundamental para a democracia que a população tenha razoável confiança nos ocupantes dos cargos eletivos. Não é possível manter uma democracia na qual as notícias sobre as autoridades do governo aparecem com mais frequência no noticiário policial do que  na seção de política.

    Enquanto escrevo este post ouço uma reportagem sobre as delações premiadas da JBS.  O jornalista acaba de mencionar o presidente Michel Temer  usando os qualificativos “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” e “filho da p…”. Ainda ontem os  jornais publicavam uma pesquisa onde se mostrava que Temer é o presidente mais impopular do planeta, com 3% de aprovação. Nenhuma democracia sobrevive com este tipo de liderança…

  2. O presidente deve ser um político experiente, que já tenha ocupado diversos cargos no Executivo e no Legislativo,  de modo que esteja familiarizado com o funcionamento e a gestão da máquina pública (que é muito diferente do funcionamento e da gestão de uma empresa privada). Deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc. O cargo de presidente é o coroamento de uma carreira política e exige muita experiência, conhecimento e capacidade de negociação.  A eleição de um presidente que não atenda os requisitos do cargo, por assim dizer, é a receita quase certa  para o desastre.

    Um exemplo é Fernando Collor Mello, o mais jovem presidente da República, cuja experiência executiva limitava-se à prefeitura de Maceió e dois anos como governador do pequeno estado de Alagoas (27º PIB/capita entre 27 estados); seja por falta de capacidade ou de vontade, mostrou-se incapaz de controlar a ganância de seu ex-tesoureiro de campanha; sequestrou a poupança dos brasileiros, não conseguiu controlar a inflação e acabou sofrendo o impeachment.

    Dilma “O Poste” Roussef, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, nem mesmo o de síndica de condomínio,  foi colocada por Lula no Planalto; incompetente,  irresponsável e, sabe-se hoje, possivelmente também corrupta, levou o Brasil à pior crise econômica da história republicana e terminou sofrendo também o impeachment..

  3. Uma terceira condição é que o presidente seja um profundo conhecedor do Brasil e dos problemas brasileiros. É evidente que o presidente não pode e nem deve ser especialista em tudo, mas ele pessoalmente tem que ter uma visão clara dos problemas que considera mais importantes e de suas prioridades relativas; deve ter ao menos um esboço das soluções que irá propor e a capacidade de negociar a implementação das soluções com os diferentes grupos sociais. Isto é um plano de governo, que é elaborado por especialistas. Mas é responsabilidade intransferível do presidente arbitrar as propostas dos técnicos e “vender” o plano à sociedade. Exige-se de um presidente a capacidade de apresentar de forma articulada um plano de governo e negociá-lo com a sociedade.

No entanto, como veremos na segunda e terceira  partes deste post, os  dois candidatos mais cotados hoje não preenchem estes requisitos e, penso eu, a eleição de qualquer um deles será um desastre para o Brasil. O que temos hoje é o candidato do ódio (Lula) contra o candidato do medo (Bolsonaro).

 

 

CANDIDATOS E ELEITORES

Dentro de um mês elegeremos o presidente ou a presidente, governadores, senadores e deputados federais  e estaduais. Pouco menos de 143.000.000 de eleitores devem comparecer às urnas para escolher  seus representantes.

A propaganda eleitoral demonstra de forma cabal a inadequação de nosso sistema político. Para começo de conversa, são 32 partidos! É possível imaginar que existam 32 linhas de pensamento na política, tão distintas que exijam um partido exclusivo? É claro que não! O bom senso e a história parecem indicar que dois a cinco partidos são suficientes para abrigar todas as tendências. A consequência da proliferação descontrolada de partidos políticos é que a grande maioria consiste em legendas inexpressivas e de caráter personalista, sem uma proposta séria para governar o país

Estes 32 partidos, aliados nas mais esdrúxulas combinações, apresentam 12 candidatos a presidente, dos quais apenas dois ou três possuem chances reais de disputar o cargo. Os outros apenas marcam posição ou, o que é pior, se cacifam para negociar cargos e privilégios em troca do apoio a um dos concorrentes em eventual segundo. Bem ou mal, as ideias dos presidenciáveis são discutidas ao longo da campanha. Há debates entre os candidatos e se conhece em linhas gerais a proposta de cada um. O mesmo pode ser dito quanto aos candidatos ao Senado, no mais das vezes políticos muito conhecidos.

O grande enigma que o eleitor enfrenta é com relação aqueles que pleiteiam os cargos proporcionais:   7140 candidatos a deputado federal e 16994 candidatos a deputado estadual. O que pensam estas pessoas? Porque estão se candidatando? Qual a proposta partidária da  legenda pela qual se apresentam?

Nem mesmo o mais consciente dos eleitores teria tempo e paciência para ler os programas dos 32 partidos e basear sua decisão de voto em tal ou qual candidato nesta informação. E se o fizer, não há qualquer garantia de que as ideias que o partido diz defender sejam apoiadas pelo candidato em quem votou. Este poderá trocar de partido no dia seguinte ao da posse, bandeando-se para outra agremiação cujo programa é completamente diferente do programa do partido pela qual foi eleito!

Se os programas partidários pouco adiantam para que o eleitor saiba o que os futuros legisladores pensam, a propaganda gratuita também nada esclarece. O que se vê é uma ridícula sucessão de imagens onde desconhecidos pronunciam frases desconexas ou banalidades como: “Sou a favor da educação e da saúde!” (alguém é contra?) Assim, os votos para deputados federais e estaduais é muito mais baseado em fatores pessoais do que em ideias e propostas. Pessoas conhecidas (por exemplo: Tiririca,  Clodovil, Romário, etc.) ou pertencentes a uma “dinastia” política (por exemplo: os Andrada em Mina Gerais, os Sarney no Maranhão, etc.) costumam eleger-se sem grande dificuldade; em outros casos o voto representa um interesse difuso, em geral  religioso, profissional  ou de classe social ( empresários, ruralistas, etc.).

O sistema eleitoral cria uma classe política distante do eleitorado, a quem não dá maiores satisfações por seu desempenho e por seu comportamento ético. Os eleitores, por sua vez, consideram que sua participação se limita ao momento do voto. Quem se lembra do deputado federal em quem votou na última eleição? E no estadual? Se eleitos, o que eles fizeram nestes últimos quatro anos? Que projetos apresentaram? Honraram o mandato recebido, ou tiveram seu nome ligado a algum dos inúmeros escândalos e negociatas que a imprensa noticiou amplamente? Antes de votar em algum candidato à reeleição, vale a  pena consultar a Transparência Brasil.

Dizem que cada povo tem o governo que merece e fico  pensando se isto não é mesmo verdade. Em  alguns estados, uma parcela significativa dos eleitores vota em candidatos comprovadamente desonestos, julgados e condenados em juízo. Estes eleitores pecam por ação. Mas a imensa maioria, na verdade quase todos nós, pecamos por omissão.