Entre o Medo e o Ódio (II) – o Ódio

No post anterior argumentei que o próximo Presidente da República terá que ter ao menos três características, que se mostrarão absolutamente imprescindíveis para governar o país com alguma chance de sucesso nesta conjuntura dificílima: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, sem a menor dúvida,  uma experiência  incomparável e superior à de qualquer possível candidato. Afinal, ocupou o cargo de Presidente da República por dois mandatos e dirigiu a nação durante um dos mais longos ciclos de prosperidade que o Brasil atravessou. E Lula soube aproveitar as circunstâncias favoráveis, implementando programas sociais para favorecer os mais pobres, retirando o Brasil do mapa da fome e retirando da situação de pobreza um imenso número de brasileiros (o PT fala em 36 milhões). Independente de qualquer julgamento quanto ao caráter e a honestidade de Lula, questão que abordaremos depois, é forçoso reconhecer que em seus dois mandatos houve uma grande melhoria no padrão de vida dos brasileiros mais pobres, que passaram a consumir com avidez aquilo a que antes não tinham acesso.

No que diz respeito ao profundo conhecimento do Brasil e dos brasileiros também parece claro que Lula satisfaz plenamente este requisitos. Além dos dois mandatos de presidente, suas atividades como candidato por três vezes derrotado permitem supor que, literalmente, trata-se de um brasileiro que conhece “cada palmo deste chão”.

A grande questão que se coloca é a autoridade moral que Lula teria como presidente. Neste ponto há algumas questões muito difíceis de responder.

Iniciemos pelo Mensalão. Para conseguir o apoio da maioria do Congresso alguém do governo Lula estabeleceu uma “mesada” para diversos deputados federais e senadores, iniciando um processo de degradação moral da classe política como nunca se viu antes. A este respeito veja-se o post deste blog “Dançando conforme a música: o baião da roubalheira”, que desenvolve seu argumento a partir da constatação de que  “Muitos petistas costumam dizer que sempre houve corrupção no Brasil, e que eles não a inventaram. É verdade, mas nos governos petistas a corrupção tornou-se uma prática de gestão, utilizada de forma habitual,  generalizada e coordenada para governar o país. E, o que é pior,  a roubalheira sendo comandada pelo primeiro escalão do governo e, como tudo parece indicar, pelo próprio Presidente da República.” Naturalmente Lula afirma desconhecer o assunto, mas é muito complicado aceitar que o chefe da Casa Civil mantivesse um esquema de corrupção de tal envergadura sem o conhecimento do presidente.

Em seguida veio o Petrolão. O loteamento dos cargos entre os diversos partidos da base governista e o projeto de permanecer no poder a qualquer custo (o conhecido “projeto criminoso” vitimou a estatal, que foi sistematicamente assaltada por diversas quadrilhas. De 20ª maior empresa do mundo a Petrobrás tornou-se a 412ª durante o período em que o PT esteve no poder. As estimativas mais conservadoras falam que a empresa foi lesada em 26 bilhões de reais; outras estimativas chegam a 50 bilhões. Como de hábito Lula afirma desconhecer o assunto, apesar de dezenas de depoimentos que não só confirmam que ele sabia de todo o esquema como também afirmam que era dele o comando da operação.

Outro problema sério que aflige Lula são evidentes sinais de enriquecimento ilícito, não só dele com de diversos familiares. Há acusações fundadas de que Lula teria recebido toda sorte de vantagens pessoais para beneficiar interesses privados. Tais vantagens incluiriam apartamentos, sítio, terreno do Instituto Lula, propinas, honorários milionários por palestras, muitas das quais sequer é possível demonstrar de maneira cabal  que foram de fato  realizadas, benefícios para familiares, que acumularam patrimônio milionário com espantosa rapidez.

Com frequência surgem novas revelações e denúncias. Lula alega que tudo faz parte de uma conspiração das “elites”, mas não explica quem são os chefes da conspiração (uma “armação” tão gigantesca tem que ser muitíssimo bem coordenada), nem apresenta razões plausíveis para a mesma. E não explica por que ele desconhecia a grossa corrupção que era praticada dentro do Palácio do Planalto (José Dirceu, depois Antônio Palocci, ambos seus aliados e auxiliares por décadas) e os milagres de multiplicação estupenda de patrimônio que ocorriam em sua família?

Lula está hoje condenado em primeira instância a 13 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. É ainda réu em vários outros processos, nos quais é acusado de obstrução da justiça, tráfico de influência, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Um presidente contra o qual pesam tais acusações já inicia o mandato desmoralizado. Ao tomar posse, os processos contra o presidente são suspensos e voltam a correr somente quando ele  deixar o cargo. Assim, uma sombra de suspeição irá sempre pairar sobre a Presidência. Continuaremos a ver a Presidência da República mais presente no noticiário policial do que no político e repórteres ainda  usarão palavras como “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” para referir-se ao primeiro mandrio. A democracia não aguenta mais quatro anos com esse nível de polarização!

Mas o principal problema de Lula e de sua candidatura é o discurso do qual Lula se apropriou e que só vem trazendo e provavelmente trará malefícios ao Brasil e aos brasileiros.

DANÇANDO CONFORME A MÚSICA: O BAIÃO DA ROUBALHEIRA

Muitos petistas costumam dizer que sempre houve corrupção no Brasil, e que eles não a inventaram. É verdade, mas nos governos petistas a corrupção tornou-se uma prática de gestão, utilizada de forma habitual,  generalizada e coordenada para governar o país. E, o que é pior,  a roubalheira sendo comandada pelo primeiro escalão do governo e, como tudo parece indicar, pelo próprio Presidente da República.

A corrupção foi adotada como forma de governo quando um político popular,  porém claramente desprovido de qualquer resquício de grandeza moral, foi eleito para a presidência da República. Sem maioria no Congresso, decidiu obter o apoio para a implantação de seu projeto ideológico pela maneira mais fácil: comprando-o.

Há muitos anos ouvi uma entrevista de Ciro Gomes, político de grande experiência, que em síntese dizia o seguinte: no Congresso, 10% dos parlamentares são extremamente honestos,  10% são irremediavelmente canalhas e 80% dançam conforme a música. Sem dúvida, Lula e muitos companheiros de sua confiança certamente sabiam disto, e o novo governo principiou a tocar animadamente o “Baião da Roubalheira” transformando o Estado brasileiro em uma organização criminosa.

O CPI (Corruption Perception Index – Índice de Percepção de Corrupção) é o indicador utilizado pela organização Transparência Internacional para avaliar quão corrupto é o setor público de um país. Esta avaliação se baseia na quantidade e dimensão dos casos de corrupção descobertos, na avaliação de especialistas em governança, etc. [1]. O índice varia de zero (extremamente corrupto) a 100 (extremamente íntegro); para o Brasil o CPI de 2015 foi de 38, o que colocava nosso país na 76ª posição entre os 168 avaliados.

Para colocar este valor  em contexto, seguem abaixo algumas comparações, mostrando outros países e, entre parênteses, o CPI de 2015.

  1. Mais íntegros:  Dinamarca (91), Finlândia (90), Suécia ((89), Nova Zelândia (88), Holanda (87) e Noruega (87), Suíça (86), Singapura(85), Canada (83), Alemanha (81), Luxemburgo (81), Reino Unido (81).
  2. Mais corruptos: Venezuela (17), Guiné-Bissau (17) e Haiti (17), Líbia (16) e Iraque (16), Sudão do Sul(15) e Angola (15), Sudão (12), Afeganistão (11), Somália (8) e Coréia do Norte (8).
  3. América do Sul: Uruguai (74), Chile (70), Brasil (38), Colômbia (37), Peru(36) e Suriname (36), Bolívia(34), Argentina(32) e Equador (32), Paraguai (27), Venezuela (17).

Em um post intitulado “O BRASIL E A CRISE (I) – AS RAÍZES DO MAL” publicado em 29/12/2015 eu concluía o texto com a seguinte frase:

“Esperemos a avaliação da Transparência Internacional para 2015, mas é possível que  o governo petista tenha transformado o Brasil em um dos países mais corruptos do  mundo, senão o mais corrupto de todos.”

Uma vez que os índices de 2015 levam em conta informações de 2014 e apenas parte de 2015, o Brasil ainda se manteve no pelotão intermediário dos corruptos. Porém os gigantescos escândalos descobertos desde a publicação do último relatório poderão nos colocar no desonroso grupo dos países reconhecidos como os mais corruptos de todo o mundo.

Além de vergonhosa, a avaliação “oficial” de que o Brasil é, de fato, um dos países onde o Estado é mais corrupto  se traduz em péssima propaganda, que desestimula investimentos externos.

E parece que tudo se encaminha para este resultado. Uma avaliação do jornal Financial Times revela que o Brasil é considerado o quarto pais mais corrupto do mundo, suplantado apenas pela Venezuela, Bolívia e Chade.

Não é de admirar que Venezuela e  Bolívia, os dois primeiros colocados no ranking da corrupção publicado pelo Financial Times, fossem até pouco tempo os preferidos da hierarquia petista. O BNDES enterrou bilhões de dólares de nossos impostos nestes pais, dinheiro que dificilmente voltará aos cofres públicos. Lula teve a desfaçatez de confirmar há algum tempo que encorajou o governo boliviano a desapropriar a refinaria da Petrobrás, uma atitude que só pode ser encarada como traição à Pátria.

A indignação de brasileiros honrados  fez com que  o Poder Judiciário se manifestasse.  Graças à  firmeza e espírito público de uma nova geração de magistrados e promotores, o esquema criminoso começou a ser desmontado. Corruptos e corruptores tem sido presos e condenados, algo até então inédito no país.

E espera-se que em breve o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva esteja atrás das grades, marcando o fim melancólico da era petista, que se iniciou em um clima de otimismo e esperança para a maioria dos brasileiros que nele votaram e termina em um desastre econômico de proporções inusitadas.
NOTAS
[1] Detalhes sobre o cálculo do CPI podem ser encontrados no site da Transparência Internacional.