Entre o Medo e o Ódio (III) – o Medo

Recordando o que já foi apresentado nos posts anteriores, coloquei como premissa para esta discussão a ideia de que um candidato à Presidência da República deveria ter ao menos três características: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O deputado Jair Bolsonaro tem, pelo menos até o momento, a reputação de homem honesto o que, entre os políticos de nossos dias e tão raro quanto um diamante de 20 quilates. Bolsonaro não é citado em nenhum inquérito da Lava Jato, não consta da relação dos parlamentares comprados pela JBS, não consta que tenha recebido propina de nenhuma empreiteira nem participado do assalto à Petrobrás. Ou seja, um lírio no pântano asqueroso em que se transformou o Congresso Nacional. Como diz o próprio deputado, honestidade não é virtude, é obrigação. Mas nas circunstâncias atuais são raríssimos os que cumprem com esta obrigação.

Por outro lado, quando se fala em experiência política e administrativa, Jair Bolsonaro tem problemas. O deputado está em seu sétimo mandato na Câmara, mas sua atuação como parlamentar é inexpressiva. Além disto, nunca ocupou um cargo executivo: nunca foi ministro, nem secretário estadual e muito menos prefeito ou governador.

De acordo com as informações recentes em seus 27 anos como parlamentar apresentou 171 propostas legislativas, das quais 3 (três) foram aprovadas. Trata-se de dois projetos de lei e de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional); um dos projetos de lei trata da isenção fiscal para bens de informática e o outro autoriza o uso da fosfoetanolamina; a PEC exige a impressão do voto eletrônico.

Como escrevi na primeira parte desta série, um presidente “deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc.” Ao que eu saiba, o deputado Jair Bolsonaro não tem absolutamente nenhum prestígio em qualquer destas entidades ou grupos.

Sua liderança entre os próprios colegas de legislatura pode ser avaliada lembrando que  Bolsonaro foi candidato à presidência da Câmara em fevereiro de 2017 e obteve 4 (quatro votos) dos 513 possíveis.

Tendo em vista a  reduzida expressão do deputado em sua área específica de atuação (o Congresso Nacional) e sua reduzida influência junto a entidades da sociedade civil, fica a questão: porque Bolsonaro se tornou um aspirante à Presidência da República?

Desde o seu primeiro mandato, Jair Bolsonaro manteve-se sob os holofotes da mídia através de constantes declarações polêmicas, ora contra a democracia, ora contra os homossexuais, ora a favor da tortura, e assim por diante. Algumas frases famosas   de sua lavra estão abaixo:

  1. Entrevista para a revista Veja (2/12/98)
    Afirmou que a ditadura chilena de Augusto Pinochet “devia ter matado mais gente”; elogiou o peruano Augusto Fujimori por intervir militarmente contra o judiciário e o legislativo.
  2. Programa Câmera Aberta (1999)
    Declarou ser “favorável à tortura”, chamou a democracia de “porcaria”,  disse que se fosse presidente “fecharia o Congresso” e “daria um golpe no mesmo dia”.
  3. Programa Jô Soares (1999)
    Explicando porque defendeu o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmou que “barbaridade é privatizar a Vale e as telecomunicações, entregar as nossas reservas petrolíferas ao capital externo.”
  4. Entrevista ao jornal Folha de São Paulo (Mai/2002)
    Disse que poderia agredir homossexuais: “se eu ver dois homens se beijando na rua, vou bater.”
  5. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Nov/2003)
    Disse à deputada “Jamais iria estuprar você, porque você não merece.”
  6. Discussão com manifestantes (Dez/2008)
    Disse que “o erro da ditadura foi torturar e não matar.”
  7. Entrevista ao jornal “Folha de São Paulo” (Nov/2010)
    defendeu surras em filhos homossexuais: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele.”
  8. Entrevista ao Jornal de Notícias (Jun/2011)
    Associou a homossexualidade à pedofilia ao afirmar que “muitas das crianças que serão adotadas por casais gays vão ser abusadas por esses casais homossexuais.”
  9. Entrevista à revista Playboy (Jun/2011)
    Afirmou que “seria incapaz de amar um filho homossexual” e que preferia que um filho seu “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”
  10. Documentário “Out There” (2013)
    Declarou que “nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay” e que “nós, brasileiros, não gostamos dos homossexuais.”
  11. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Dez/2014)
    Discursando no plenário, disse “você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece.”
  12. Entrevista ao jornal Zero Hora (Fev/2015)
    Afirmou que não acha justo que mulheres e homens recebam o mesmo salário porque as mulheres engravidam
  13. Discurso na Câmara (Out/2015)
    Afirmou que “violência se combate com violência e não com bandeiras de direitos humanos”, afirmou que a Anistia Internacional é formada por “canalhas e idiotas”, disse que “a Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.”
  14. Discurso ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff (2016)
    Dedicou o voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador
  15. Discurso em Campina Grande (Fev/2017)
    “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. […] as minorias tem que se curvar para as maiorias.”

 

Como se vê pela pequena amostra acima, Bolsonaro conseguiu manter-se em evidência todo este tempo devido às suas declarações polêmicas e, em muitos casos, carregadas de preconceito.

Mas se a criação de factoides é suficiente para a manter o deputado na mídia, ela não vai ajudar em nada a solução dos imensos problemas que o Brasil enfrenta. Por exemplo, implicar com os gays é uma estratégia excelente para não sair do noticiário. O movimento LGBT conta com a simpatia dos meios de comunicação e possui recursos para bancar uma batalha jurídica; isto representa uma primeira página na certa. No entanto, é difícil entender como implicar com a vida sexual de adultos plenamente capazes vai contribuir para, por exemplo, diminuir o desemprego.

Quando se diz que a “Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.” fica a dúvida: mais quem? jovens da classe média cuja demanda sustenta o tráfico? Jovens pobres e negros que traficam pequenas quantidades de drogas? Os soldados do tráfico, guerrilheiros urbanos armados de fuzis de assalto,  que controlam as favelas da cidade do Rio de Janeiro? Os grandes comandantes do tráfico, perfumados e impecáveis em seus ternos Armani, no conforto de seus moderníssimos escritórios…

O que se percebe é que, até este momento a pregação de Bolsonaro é uma gritaria de palavras vazias. São fórmulas quase mágicas para traduzir o medo que boa parcela dos brasileiros sente no dia a dia. É o medo de ser assaltado, de ser atingido por uma bala perdida, de morrer assassinado por um marginal, de perder um filho….

É o medo de que aquilo que era uma certeza absoluta há alguns anos já não seja mais tão certo. É o medo de que aquelas pessoas que são diferentes de mim talvez não estejam erradas. E finalmente o maior dos medos: o de que eu não seja capaz de construir o meu próprio destino numa sociedade livre e plural. Assim, tenho que   entregar meu destino  a um chefe, um líder, um “fuhrer”, que por sua vontade soberana fará o mundo tornar-se o que deveria ser.

Após a desastrosa entrevista com Marina Godoy ficou patente que falta ao candidato um projeto para o país. É verdade que o presidente não precisa ser um especialista em tudo, mas faltando menos de um ano para a eleição seria de se esperar que Bolsonaro fosse capaz de discorrer de forma articulada sobre a questão econômica, pelo menos em termos gerais. Ele é um liberal, ou pretende (re)criar empresas estatais?  E também discorrer sobre suas ideias com relação à segurança, acima do slogan estúpido e vazio “Bandido bom é bandido morto.” No entanto, Bolsonaro demonstrou estar, neste momento, completamente despreparado para discutir seriamente o Brasil.

Um outro ponto questionável é se Jair Bolsonaro seria capaz de negociar com a sociedade um plano de governo. Quando se vê o deputado discutindo algum assunto fica a nítida impressão de que ele é um péssimo negociador, incapaz de discutir racionalmente, entender a posição do oponente e buscar o consenso possível.

As perspectivas não são boas. Uma avaliação sobre o deputado, na época em que este ainda estava no Exército, realizada pelo Coronel Carlos Alfredo Pellegrino

“[Bolsonaro] tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

 

 

Entre o Medo e o Ódio (I)

Faltando pouco menos de um ano para a eleição de 2018 as primeiras pesquisas (não se sabe quão confiáveis) indicam Lula em primeiro lugar, com cerca de 30% dos votos, e Jair Messias Bolsonaro em segundo com aproximadamente 15%.

A primeira conclusão é que a pesquisa de fato reflete a polarização que se observa entre os brasileiros, evidenciada nas redes sociais e nos debates políticos. Poucas vezes esteve a política envolta em  tal clima de raiva e desprezo entre os adversários. As discussões no Parlamento são, via de regra, entremeadas de acusações e ofensas pessoais. Gritos, apupos e turpilóquios já não surpreendem mais, e com certa frequência o debate de ideias,  que se supõe seja o essencial do jogo político, se transforma em confronto físico.

Nas redes sociais nem se fala. Protegidos pelo relativo anonimato , as pessoas extravassam  seu ódio e sua frustração com a política e os políticos nos termos mais francos e diretos. São inúmeras as manifestações exigindo a intervenção militar, com a deposição de Michel Temer, o fechamento do Congresso e a cassação de todos os políticos.

Um  pouco menos frequentes mas também bastante numerosas são as manifestações que, implícita ou explicitamente, sugerem um levante popular e depois a eliminação física dos corruptos. O apresentador Datena manifestou-se sem rodeios a respeito do assunto, para um público de milhões de telespectadores.

De fato, sob o ponto de vista emocional, é difícil não desejar que os muitos canalhas, comprovadamente corruptos,  que se alojam na máquina do Estado, nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)  e nos três níveis do governo (federal, estadual e municipal) sejam fuzilados, como punição pelo crime hediondo da corrupção.

Como já comentei neste blog (em “A Inominável Vileza dos Corruptos”), ao subtrair verbas que seriam  aplicadas na saúde, na segurança pública, nos transportes, na pesquisa científica, a corrupção provoca a morte de um número indeterminado de cidadãos pois: ” o corrupto age como um terrorista sanguinário, que detona uma bomba em uma praça movimentada, matando indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e velhos, crianças e adultos. Não lhe importa quem morra, desde que atinja seus objetivos. No caso dos corruptos, estes objetivos são, creio eu, a acumulação ilimitada de bens materiais e a satisfação de um orgulho desmedido. Nos níveis em que ocorre no Brasil, a corrupção ultrapassou a dimensão puramente material para tornar-se um vício.”

Mas a preservação da democracia e do estado de direito que, ao menos formalmente, estão vigorando no país,  não permite que os corruptos sejam julgados sumariamente e executados em seguida.

Portanto, é necessário garantir o amplo direito de defesa, o contraditório e o uso de todas as chicanas e artimanhas legais que nosso direito possibilita ao acusado. Assim somos forçados a ter nossa inteligência agredida sem descanso, ouvindo idiotices como “… foi a D. Marisa” ou “… era um empréstimo para pagar os advogados.” Mas a democracia vale o sacrifício.

Nesta situação de divisão entre os brasileiros, ódios que parecem aumentar sempre, e ameaças de quebra da democracia e do Estado de Direito, o perfil do próximo presidente da República deveria, a meu ver, enquadrar-se de maneira bem próxima na descrição  abaixo:

  1. Autoridade moral:  deve ser um homem (ou mulher) sobre o qual não haja processos judiciais por corrupção ativa ou passiva, enriquecimento ilícito ou lavagem de dinheiro. Além de honesto, nosso próximo presidente deve ser reconhecido como tal pela classe política e pelo eleitorado. Esta é a forma de legitimar a Presidência da República, cujos ocupantes nos últimos treze anos tornaram o outrora honroso cargo de presidente  da república equivalente ao de chefe de uma quadrilha. Somente um líder capaz de mostrar-se como exemplo de que é possível fazer política com honestidade e decência, será capaz de negociar o apoio do Congresso, tendo como capital o respeito e a confiança do povo e não malas de dinheiro…É fundamental para a democracia que a população tenha razoável confiança nos ocupantes dos cargos eletivos. Não é possível manter uma democracia na qual as notícias sobre as autoridades do governo aparecem com mais frequência no noticiário policial do que  na seção de política.

    Enquanto escrevo este post ouço uma reportagem sobre as delações premiadas da JBS.  O jornalista acaba de mencionar o presidente Michel Temer  usando os qualificativos “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” e “filho da p…”. Ainda ontem os  jornais publicavam uma pesquisa onde se mostrava que Temer é o presidente mais impopular do planeta, com 3% de aprovação. Nenhuma democracia sobrevive com este tipo de liderança…

  2. O presidente deve ser um político experiente, que já tenha ocupado diversos cargos no Executivo e no Legislativo,  de modo que esteja familiarizado com o funcionamento e a gestão da máquina pública (que é muito diferente do funcionamento e da gestão de uma empresa privada). Deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc. O cargo de presidente é o coroamento de uma carreira política e exige muita experiência, conhecimento e capacidade de negociação.  A eleição de um presidente que não atenda os requisitos do cargo, por assim dizer, é a receita quase certa  para o desastre.

    Um exemplo é Fernando Collor Mello, o mais jovem presidente da República, cuja experiência executiva limitava-se à prefeitura de Maceió e dois anos como governador do pequeno estado de Alagoas (27º PIB/capita entre 27 estados); seja por falta de capacidade ou de vontade, mostrou-se incapaz de controlar a ganância de seu ex-tesoureiro de campanha; sequestrou a poupança dos brasileiros, não conseguiu controlar a inflação e acabou sofrendo o impeachment.

    Dilma “O Poste” Roussef, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, nem mesmo o de síndica de condomínio,  foi colocada por Lula no Planalto; incompetente,  irresponsável e, sabe-se hoje, possivelmente também corrupta, levou o Brasil à pior crise econômica da história republicana e terminou sofrendo também o impeachment..

  3. Uma terceira condição é que o presidente seja um profundo conhecedor do Brasil e dos problemas brasileiros. É evidente que o presidente não pode e nem deve ser especialista em tudo, mas ele pessoalmente tem que ter uma visão clara dos problemas que considera mais importantes e de suas prioridades relativas; deve ter ao menos um esboço das soluções que irá propor e a capacidade de negociar a implementação das soluções com os diferentes grupos sociais. Isto é um plano de governo, que é elaborado por especialistas. Mas é responsabilidade intransferível do presidente arbitrar as propostas dos técnicos e “vender” o plano à sociedade. Exige-se de um presidente a capacidade de apresentar de forma articulada um plano de governo e negociá-lo com a sociedade.

No entanto, como veremos na segunda e terceira  partes deste post, os  dois candidatos mais cotados hoje não preenchem estes requisitos e, penso eu, a eleição de qualquer um deles será um desastre para o Brasil. O que temos hoje é o candidato do ódio (Lula) contra o candidato do medo (Bolsonaro).

 

 

DELENDUS EST TEMER

A Rede Globo está em campanha aberta para tirar Michel Temer da Presidência da República. Isto fica muito evidente quando se acompanham as edições do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do país.  O alcance e a credibilidade do Jornal Nacional para uma parcela significativa do povo brasileiro, o tornam uma poderosíssima ferramenta para manipular a realidade e influenciar a opinião pública.

É claro que a empresa tem bons jornalistas, que estão sempre buscando a notícia, mas a história (e.g. Campanha pelas Diretas-Já em 1984, debate Lula x Collor em 1989) tem demonstrado que, quando se trata de assunto relevante para a empresa,  o quê vai ao ar e como vai ao ar é definido pela Alta Direção.

Que existem acusações de que Michel Temer é um político corrupto, habituado às piores práticas da política brasileira e cúmplice de Eduardo Cunha em vários negócios escusos, isto até as pedras da Praça dos Três Poderes sabem. Mas corruptos ocupando cargos importantes, e até mesmo a Presidência da República, já houve antes, e nem por isto a Globo demonstrou contra eles este fervor missionário com que se dedica a destroçar o  governo Temer.

O que tem me intrigado é porque a Rede Globo está fazendo isto. Algum motivo deve haver, pois como se sabe, a empresa “não dá ponto sem nó”. Imaginei alguns cenários possíveis se Temer deixasse a presidência, seja por impeachment, seja por renúncia. Para esboçar estes cenários, estou partindo de duas premissas:

1)      Um golpe militar ou parlamentar (e. g. instalação de um parlamentarismo de emergência, como em 1961) enfrentará fortíssima resistência da esquerda, que contará com o “exército de Stedile”, possivelmente apoiado pelos vizinhos bolivarianos e, muito provavelmente, milícias armadas compostas de integrantes do crime organizado, a exemplo do que ocorreu na Colômbia. Assim, desta vez, um golpe contra a esquerda não ocorrerá praticamente sem derramamento de sangue, como em 1964; levará o país a uma guerra civil.

2)      Candidatos declarados ou com ambições presidenciais são, neste momento,  Ciro Gomes, Álvaro Dias, Jair Bolsonaro, João Doria Jr., Geraldo Alckmin e Marina Silva.    Caso Lula não seja candidato em 2018, a maioria da esquerda apoiará Ciro Gomes.

A partir destas premissas, coloco os diversos cenários, divididos em três grupos.

Primeiro grupo: Não há eleições em 2018.

  1. Uma junta militar, no melhor estilo latino-americano, assume o poder e inicia uma perseguição sem tréguas à esquerda.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: As Forças Armadas estão bastante profissionalizadas, e a impressão que se tem é de que não existe um consenso entre os militares para iniciar uma revolta, e muitos menos a figura de um líder para comandá-la. O que há são manifestações esporádicas de saudosistas do governo militar, de oficiais subalternos e de generais de pijama.
    3. Conclusão: Guerra civil.
  2. Partidos de direita (ou de esquerda) convocam uma gigantesca manifestação popular (pelo menos tão grande quanto a Parada Gay em São Paulo ou o carnaval em Salvador); 2.000.000 de brasileiros marcham sobre Brasília e cercam o Congresso Nacional, forçando os deputados e senadores a votar pelas eleições diretas.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: O povo brasileiro, de um modo geral, não está disposto a participar de manifestações de rua e nem a esquerda nem a direita tem hoje lideranças capazes e/ou dispostas a organizar um movimento popular contra o regime.
    3. Conclusão: Confrontos graves entre manifestantes de direita e esquerda; possível escalada do conflito para uma guerra civil.
  3. O Congresso, por acordo político, decide pelas Diretas Já.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: A ideia não prospera no Congresso, onde seria necessário o apoio de 3/5 dos deputados e senadores para sua aprovação, visto que requer alteração do artigo 81 da CF. Além disto, há discussão sobre se o estabelecido no artigo 81 é ou não uma cláusula pétrea, pois é possível argumentar que alterar este artigo fere o disposto no parágrafo 4 do artigo 60. Com certeza, o tempo para resolver a questão judicial é maior que o prazo até as eleições.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.
  4. O Congresso, por acordo político, decide adiar as eleições para 2020, a pretexto de coincidência de todos os mandatos.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: Mesmo do cenário C. Nem o regime militar chegou a usar a “coincidência de mandatos” como argumento para aumentar a duração dos mandatos de deputados e senadores; no Pacote de Abril de 1977 reduziu os mandatos de vereadores e prefeitos.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.

Segundo Grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula é candidato.

  1. Lula vence no primeiro turno.
    1. Probabilidade: Pequena.
    2. Racional: Lula tem alto índice de rejeição. Nas eleições de 2016 o PT foi massacrado nas urnas, e também parece ter alto índice de rejeição. Hoje Lula não tem mais votos para vencer no primeiro turno.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Convocação de uma Assembleia Constituinte; nova constituição estabelece a República Popular do Brasil, que se torna, progressivamente, um regime de partido único; os meios de comunicação passam a ser controlados pelo Estado.
  2. Lula vai para o segundo turno contra qualquer um dos candidatos listados, exceto Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Nenhum dos candidatos tem projeção nacional. Álvaro Dias, Doria e  Alckmin são candidatos regionais; no primeiro debate, Bolsonaro demonstrará seu completo despreparo para governar o Brasil e perderá apoio de parcela significativa da classe média; Alckmin não tem o menor carisma; Doria passa a imagem do “gestor” quando o que o povo quer é um “líder” e a imagem de honesto será muito questionada em função de sua passagem pela Embratur; Marina não consegue explicar a que veio e, além disto, depois do desastre “Dilma” uma mulher não tem a mínima chance na próxima eleição. Álvaro Dias pode ser a surpresa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta.
  3. Lula vai para o segundo turno contra Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Pelo quadro atual, Ciro Gomes é disparado o candidato mais preparado e pelo visto vem se preparando a anos. Não tem um único processo contra ele nos seus 38 anos de política, desistiu de aposentadorias no valor de R$82.000,00 a que teria direito legal e é conhecido nacionalmente, por já ter sido candidato à presidência. Mas numa eventual disputa com Lula, Ciro terá o voto da classe média (pois é mais “coxinha”) e Lula atrairá o voto dos mais pobres (pois é mais “mortadela”). Como há muito mais brasileiros de baixa renda e baixa escolaridade do que brasileiros de alta renda e alta escolaridade, Lula vence a disputa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta do que no cenário acima, pois Ciro Gomes tentará se firmar como a alternativa para evitar que o PT atinja seus objetivos.

Terceiro grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula não é candidato.

 

  1. Ciro Gomes vence as eleições.
    1. Probabilidade: média.
    2. Racional: Ciro Gomes vai se revelar como o mais bem preparado dos candidatos, projetando a imagem de um candidato experiente, honesto e profundo conhecedor dos problemas brasileiros; venderá ainda a ideia de que é o único que tem um projeto para o Brasil alternativo ao de Lula e do PT e sem a mancha da corrupção.
    3. Conclusão: O Brasil terá um governo de esquerda moderada.

Espero que a maioria dos leitores considere que minha descrição acima é uma avaliação relativamente fiel do que poderá acontecer no Brasil nos próximos meses.

Se isto for verdade,  voltando à questão original, qual o interesse da Globo na destruição do governo Temer? Oque ela tem a ganhar em qualquer destes cenários?

O BRASIL E A CRISE 2017 (II) – O DOMÍNIO DO IMPONDERÁVEL

Quando publiquei o primeiro post desta série, minha ideia era escrever mais dois ou três,  talvez um abordando os sinais de recuperação da economia, outro sobre a questão da moralidade no trato da coisa pública, e por aí vai. Desisti da ideia. Ficarei só neste post pois vivemos um período no qual a velocidade e o caráter inusitado dos acontecimentos torna HOJE obsoleta a análise de ONTEM.

Vivemos sob o domínio do imponderável!

Estava iniciando o post sobre a recuperação da economia quando surgiu do nada o devastador escândalo envolvendo o presidente Temer. Esperar que, no Brasil, um político profissional há 40 anos tenha se mantido honesto é como esperar encontrar uma virgem em um prostíbulo. De fato, a política brasileira é desde sempre viciada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela corrupção.

Gosto de citar três frases que, a meu ver, representam muito bem estas características da política que se pratica no Brasil. A primeira, de autoria incerta, mas atribuída genericamente a um político mineiro, afirma que “Manda quem nomeia, transfere e demite, prende e manda soltar.”, ou seja, o Estado é como uma fazenda, onde o dono estabelece quem vai ou não trabalhar ali, quem vai ser ou deixar de ser punido. A segunda frase, atribuída a Getúlio Vargas (1882-1954), demonstra como a igualdade formal entre os cidadãos foi sempre uma farsa em nosso país: “Para os amigos, tudo; para os indiferentes nada; para os inimigos, a Lei.” E, finalmente, a conhecida frase, já mais que cinquentenária, “Ou restaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos.” do jornalista Sérgio Porto (1923-1968), mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, cujo humor cáustico nos deixou um retrato engraçado e um tanto constrangedor de uma sociedade que se modernizava aceleradamente nas décadas de 50 e 60 do século XX.

Se, como ensinava Aristóteles, “O homem é um animal político.”, pode-se dizer metaforicamente que a esmagadora maioria dos políticos, e particularmente os parlamentares, pertence ao gênero “latro” (do latim, ladrão),  animal político que se alimenta de propina. O gênero “latro” compreende algumas espécies distintas, conforme descrito a seguir.

A mais comum é o “latro vulgaris”, abundante no Planalto Central. Após séculos de sobrevivência na mata atlântica, foi introduzida e adaptou-se ao clima do cerrado. Vive em simbiose com o poder. Como se sabe, numa relação simbiótica os dois organismos obtêm benefícios, ainda que em proporções desiguais. No caso, o “latro vulgaris” fornece uma certa legitimidade ao poder e dele extrai uma quantidade moderada de propina.

Outra espécie conhecida é o “latro majoris”, animal político de alta periculosidade. A população de “latro majoris” aumentou exponencialmente desde 2003. A espécie sobrevive em uma relação parasitária com o poder. Na relação parasitária, somente um dos organismos (o parasita) recebe benefícios; o outro organismo (o hospedeiro) é exaurido pelo parasita, eventualmente até a morte, que representa geralmente também o fim do parasita. O apetite do “latro majoris” é insaciável, e ele abocanha propinas astronômicas,  como por exemplo, R$500.000 por semana durante 25 anos, o que totaliza a inimaginável quantia de CR$650.000.000,00 (seiscentos e cinquenta milhões de reais).

O Planalto Central abriga ainda a espécie “latro lulensis”. Trata-se de uma espécie de ferocidade incomparável. Os hábitos parasitários e a voracidade pela propina podem levar um observador desatento a confundi-lo com o “latros majoris”, porém análise mais detalhada dos espécimes capturados pela Polícia Federal mostra que o “latros lulensis” é, por natureza, um predador, que tem como objetivo final a aniquilação do hospedeiro e sua substituição por outro, com uma estrutura bem diferente.

Entre o “latro majoris” e o “latro lulensis” a diferença básica é essa: o “majoris” tem a propina como fim e mata seu hospedeiro ocasionalmente, como efeito colateral de sua voracidade; já o “lulensis” tem a propina como meio para liquidar seu hospedeiro.

Resumindo a história: Michel Temer, animal político que todos imaginavam ser um “latro vulgaris”, revelou-se um “latro majoris”!

Deixando de lado o humor que tento imprimir na descrição de um evento triste e humilhante para o Brasil e os brasileiros, acho que a situação é mais ou menos esta mesmo. Pois, vamos e venhamos, independente de quaisquer explicações, justificativas ou versões alegadas pelos advogados de Michel Temer, o FATO de um Presidente da República receber altas horas da noite um empresário suspeitíssimo já levanta o sinal de alerta; o FATO de um Presidente da República ouvir a confissão de que membros do judiciário foram subornados e ficar quieto é um escândalo de proporções gigantescas.

Temer deveria ter tomado imediatamente uma atitude firme; não sei se poderia ter dado voz de prisão ao sujeito, mas no mínimo deveria ter chamado alguém como testemunha, narrado o ocorrido e acordado o Ministro da Justiça e quem mais fosse preciso para definir o que fazer. Ora, Temer não fez isso e evidentemente cometeu um crime de responsabilidade ao acobertar ou simplesmente ignorar  a confissão de um crime gravíssimo.

Só esse FATO já seria motivo para um processo de impeachment. Do ponto de vista ético e moral, Michel Temer acabou; por consequência, seu governo também acabou. O melhor que o presidente será capaz de fazer é vender a ideia de que: (a) é apenas um “latro vulgaris” e; (b) já que ninguém presta mesmo, tanto faz Temer, como Emer, como Remer, pois são todos farinha do mesmo saco, logo fica-se com Temer. Assim, o atual ex-presidente Temer deve ocupar a cadeira e usar a faixa presidencial até o fim de 2018. Até nisto somos inovadores: temos o primeiro presidente zumbi de que se tem notícia na história.

A eleição de 2018 é uma grande incógnita e mais uma prova de que, neste momento, o Brasil é um país sem futuro!

Lula, o preferido nas pesquisas, poderá estar preso, inelegível ou morto em 2018. Afinal, é réu ou está indiciado em mais de 10 processos criminais; aos 71 anos, Lula enfrenta também sérios problemas de saúde. Se, contrariando todas as expectativas racionais (novamente, o imponderável), Lula for eleito presidente, caímos todos no abismo. O clima de ódio entre adversários políticos, a divisão do Brasil entre “nós” e eles”, o discurso envenenado pelo desejo de provocar a luta fratricida no país (veja o post “REDENÇÃO”, neste blog), tudo isto nos conduz para um desfecho trágico.

Com exceção de Lula, o PT não possui candidato viável. Ou alguém imagina Gleisi Hoffmann, ré em processo no STF e cujo consorte é acusado de roubar a nada módica quantia de R$100.000.000,00 (isto mesmo, cem milhões de reais) dos aposentados, concorrendo à presidência do Brasil?

Jair Bolsonaro é aclamado como o Salvador da Pátria. Mas dificilmente ganhará uma eleição presidencial falando sobre livros didáticos LGBT. Onde as grandes questões econômicas, políticas e sociais? onde o projeto para a Nação? Bolsonaro só terá chance de alcançar a presidência se arrumar uma excelente equipe de marqueteiros que o prepare bem para os debates e entrevistas.

Se Jair Bolsonaro for eleito, só terá chance de fazer um bom governo caso disponha de ampla maioria no Congresso e, além disto, consiga formar um ministério de qualidade excepcional, que lhe permita governar apesar se suas evidentes limitações. Mas será que num país com 35 partidos é possível construir maiorias sólidas no Congresso sem loteamento de cargos? A experiência dos últimos 30 anos mostra que não.

Outro problema que Jair Bolsonaro enfrentará é a decepção dos eleitores. O que atrai grande parte de seu eleitorado é o discurso do deputado sinalizando maior rigor no combate à criminalidade. Mesmo que vença as eleições, Bolsonaro terá extrema dificuldade para implementar eventuais propostas nesse sentido. A Constituição brasileira tem as chamadas “clausulas pétreas”, que não podem ser mudadas nem que 100% da população, 100% dos deputados e 100% dos senadores estejam de acordo. Assim, quaisquer medidas no sentido de endurecimento no combate ao crime e maior rigor na punição dos criminosos serão imediatamente alvejadas por uma saraivada de Ações Diretas de Inconstitucionalidade que os defensores dos direitos humanos impetrarão junto ao Supremo. E é mais do que certo que o egrégio tribunal irá considerar essas ADIN’s procedentes.

No PSDB também há problemas. Politicamente, Aécio está mais morto do que Tancredo. José Serra encontra-se em lugar incerto e não sabido, no que diz respeito à política, desde sua misteriosa renúncia ao cargo de Ministro das Relações Exteriores. Alckmin sonha com a candidatura, mas sua fama de incorruptível (a virgem no bordel?) foi um pouco dilacerada quando se soube que o codinome “Santo” usado nas planilhas de controle de propina da Odebrecht se referia a ele. Ademais, como eleger alguém cujo charme e simpatia lhe valeram o apelido de “picolé de xuxu”? Dória tenta se cacifar para uma eventual disputa, mas será que 2018 não é muito cedo? E os eleitores paulistanos, será que lhe perdoarão abandonar a prefeitura apenas dois anos após ter sido eleito com expressiva votação?

Menciona-se ainda a possível candidatura de Ciro Gomes, que encarna de forma perfeita um “coronel nordestino”, arrogante e prepotente, de uma grossura tão enraizada no caráter que nem a temporada em Harvard conseguiu torna-lo civilizado. Para este personagem folclórico, sobrarão os votos de seu curral eleitoral cearense.

Isto resume a situação política do Brasil em 2017: o Executivo e o  Legislativo completamente desmoralizados; o Judiciário ainda digno de algum crédito graças a Sérgio Moro e outros juízes de primeira instância de mesmo naipe. Entretanto as forças do Mal encasteladas no STF trabalham ativamente para destruir também este último sustentáculo da esperança de um Brasil melhor.

O final da história? Só Deus sabe…

O DIA SEGUINTE

Assistimos ontem, ao vivo e a cores, a votação histórica da Câmara Federal e a aprovação do envio ao Senado do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Acompanhei  boa parte das sessões da Câmara dos Deputados, que começaram na sexta-feira de manhã e prosseguiram quase sem interrupções até o final da votação, na primeira hora da segunda-feira. Ouvi centenas de discursos, e é alarmante ver o clima de ódio que se instalou no Brasil. A ideologia lulo-petista, que tem várias teses em comum com a extrema esquerda, parte do princípio de que o mundo se divide entre os bons (eles) e os maus (nós).

Eles são bons porque se consideram como os únicos defensores dos pobres, os melhores governantes que o Brasil (e qualquer outro país do mundo) jamais teve, os redentores dos excluídos. Ora, deixam implícito, tanto bem fizeram que se devia permitir que assaltassem os cofres públicos com desenfreada ganância, que destruíssem a economia do país, que lançassem milhões de brasileiros no desemprego, que transformassem a alta direção da Petrobrás num quadrilha de meliantes, que roubassem a esperança de um futuro melhor, que esta brava gente brasileira mantém, contra todas as evidências.

Quem somos nós para questioná-los? Como ousamos duvidar da integridade de Dilma Rousseff apenas porque ela permitiu que mais de US$ 1.000.000.00 (isso mesmo, um bilhão de dólares americanos) fosse jogada fora na compra de um monte de sucata em Pasadena? Quem trabalhou na iniciativa privada não consegue imaginar que a alta direção de uma empresa permitia a concretização de um negócio deste porte sem sequer olhar o que estava comprando.

Como presidente do conselho da Petrobrás e ex-ministra das Minas e Energia, será possível que Dilma não percebesse o escândalo, a roubalheira e a destruição gradativa da Petrobrás, tudo acontecendo de maneira tão ostensiva? Se não percebia, sua incompetência é de tal magnitude que merece entrar no Livro dos Recordes; se percebia e não fazia nada, é culpada de conivência com o crime; se percebia e participava do esquema…

A pregação do ódio é bastante clara no discurso de alguns deputados petistas e seus companheiros de ideologia. Quando deputados como, por exemplo, Ivan Valente (PSOL-SP), Jandira Feghali (PC do B-RJ) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) discursam, lembro-me de um trecho da Primeira Catilinária, onde Cícero se dirige ao conspirador Catilina dizendo “Immo vero etiam in senatum venit, fit publici consili particeps, notat et designat oculis ad caedem unum quemque nostrum.” que se pode traduzir como: “Mais ainda: até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos com o olhar, um a um, para a chacina.”

Uma parte dos parlamentares eleitos pelo povo parece entender que nós, os 70 ou 80% dos brasileiros que consideram o governo de Dilma ruim ou péssimo, e concordam com seu impedimento, somos um bando de canalhas que deveria ser executado na primeira oportunidade. Tem-se a impressão de que eles lamentam o fato de que aqui não vivemos a democracia cubana! E de que gostariam de erguer paredões nas praças das principais cidades do país e justiçar a burguesia reacionária!

O discurso desta esquerda radical tem alguns pontos que se repetem indefinidamente. Em primeiro lugar, a votação de ontem é acusada de ser um “golpe parlamentar orquestrado pela grande imprensa, em conluio com as “elites” (fica no ar quem são as “elites”; o discurso indica que eles consideram como “elite” os brasileiros que não vivem do Bolsa Família”…).

Depois, o povo organizado (isto é, os manifestantes trazidos pelo PT com o nosso dinheiro) ouve a exortação para reagir. Há várias maneiras de reagir, mas os radicais não dizem como, de modo que ficam pendentes várias possibilidades. Reagirão fazendo democraticamente uma campanha contra a eleição de seus adversários? Organizando uma greve geral que pare o país por alguns dias? Invadindo o Congresso Nacional? Queimando ônibus? Trucidando os manifestantes a favor do impedimento com os facões e foices do MST? Não se sabe que reação os parlamentares recomendarão a seus partidários, pois esta exortação incendiária e irresponsável não é acompanhada de um esclarecimento.

Um terceiro ponto é a ideia de que se continuarem no poder os esquerdistas passarão a orientar suas ações segundo projetos apresentados pelas forças populares, esvaziando as atribuições do Congresso Burguês. É o caminho certo para a ditadura e não pode de maneira alguma acontecer no Brasil, sob pena de nos tornarmos uma versão um pouco melhorada da Venezuela.

Houve também alguns excessos da direita, como o do deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto ao cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador. É uma homenagem infeliz, pois o sr. Ustra não representa de maneira alguma a formação moral e a nobreza de caráter que o treinamento do Exército de Caxias infunde e que se pode esperar de seus oficiais.

Apesar das grandes manifestações a favor e contra o impedimento de Dilma Roussef, não se registraram confrontos sérios entre os manifestantes. Isto é um sinal encorajador de que a maioria do povo brasileiro está cada vez mais acostumado ao regime democrático, onde ser adversário não significa ser inimigo e que a vitória de um lado não significa o aniquilamento do outro. Resta ver como decorrerão as próximas semanas.