REVELAÇÃO DE TOMÉ (300-400 d. C.) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Por muitos séculos, a Revelação de Tomé era conhecida apenas por uma referência no chamado Decreto Gelasianum[1], que considera o texto como apócrifo e coloca seu nome na lista dos escritos que devem ser rejeitados.

  1. R. James (1910) descreve como este apócrifo tornou-se conhecido no início do século XX. Em 1908 C. Frick publicou um artigo no “Zeitschrift fur Neutestament Wissenschaft” no qual chamava a atenção para um comentário contido no manuscrito da Crônica de Jerônimo, do Codex Philippsianus em Berlin. Esta anotação diz que no décimo-oitavo ano de Tibério: “in libro quodam apocrypho qui dicitur Thomae apostoli scriptum est dominum Iesum ad eum dixisse ab ascensu suo ad celum usque in secundum adventum eius novem iubeleus contineri.”[2]

Há atualmente duas versões da Revelação de Tomé. A mais longa é representada por:

  1. Cod. Clm. 4585 fol. 66-67 (século IX) dos Beneditinos. Este texto foi editado por Wilhelm em seu livro Deutsche Legenden und Legendare, 1907;
  2. Manuscrito da Biblioteca do Capítulo de Verona (século VIII) que foi publicado por M. R. James no Journal of Theological Studies. Veja James (1910)
  3. Cod. Vatic. Palat. nº 220, descoberto por E. von Dobschutz e usado por Bihlmeyer em sua edição do Cod. Clm 4563.

Existe uma antiquíssima adaptação  para o inglês medieval deste texto; ela se encontra na décima-quinta  homilia  do manuscrito anglo-saxão de Vercelli (século IX). Vestígios claros desta versão da Revelação de Tomé são encontrados em outros textos religiosos, conforme, por exemplo, Seymour (1921), Gatch (1964) e Duncan (1999).

A versão mais longa da Revelação de Tomé divide-se em duas partes. A primeira trata dos eventos que precederão o Juízo Final; é muito semelhante às descrições contidas em outros textos apócrifos, tais como a Ascensão de Moisés, a Ascensão de Isaías e os Oráculos Sibilinos. Esta parte pode ser considerada uma interpolação; data provavelmente do século V, devido a certas referências históricas que aparecem no texto.

A segunda parte corresponde em conteúdo e extensão à versão curta da Revelação de Tomé.  Esta versão é representada por:

  1. Codex Vindob. Palatinus 16, fol. 60r-60v (século V)
  2. Codex Clm 4563 fol. 40r-40v (séculos XI ou XII)

Tanto a versão curta como a versão mais longa da Revelação de Tomé sugerem que o texto possa ter se originado antes do século V. Ele parece depender do livro canônico da Revelação e é o único dos apócrifos que determina sete dias para o fim dos tempos. É provável que isto seja uma referência aos sete selos, sete trombetas e sete tigelas mencionadas no livro canônico.

As numerosas versões em latim podem indicar diferentes versões de um original grego.

Referências:

  1. Duncan, E. (1999). Fears of the Apocalypse: The Anglo-Saxons and the Coming of the First Millennium. Religion & Literature, 31(1), 15-23. Disponível em http://www.jstor.org/stable/40059757
  2. Gatch, M. (1964). Two Uses of Apocrypha in Old English Homilies. Church History, 33(4), 379-391. Disponível em http://www.jstor.org/stable/3162832
  3. James, M. R. (1910). Notes on Apocrypha, The Journal of Theological Studies, 11, 188-192. Disponível em https://biblicalstudies.org.uk/pdf/jts/011_288.pdf
  4. James, M. R. (1924).The Apocryphal New Testament. Oxford: Clarendon Press.
  5. Seymour, J. (1921). The Signs of Doomsday in the Saltair Na Rann. Proceedings of the Royal Irish Academy. Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, 36, 154-163. Disponível em http://www.jstor.org/stable/25504228

 

[1] Trata-se de um decreto papal que era atribuído ao Papa Gelasius I, bispo de Roma entre 492-496. Atualmente acredita-se que o decreto está baseado em um texto escrito por um estudioso anônimo, entre 519 e 553. A segunda parte do decreto contém uma lista dos livros considerados canônicos; esta lista é apresentada como tendo sido elaborada em um concílio em Roma, que teria sido convocado pelo Pap Damasio I, bispo de Roma 366-383.

[2] Em latim, no original. Significa, em tradução livre:  “no livro apócrifo o qual se dizia ter sido escrito pelo apostolo Tomé; quando ascendeu ao céu, o Senhor Jesus lhe teria dito que daquele dia até a Sua volta se passariam nove jubileus.”