REVELAÇÃO DE TOMÉ (300-400 d.C.)

Traduzido[1] por João Azevedo Jr.

Versão I: Fragmento de Verona (século V) e texto de Wilhelm (Munich Clm. 4585, século IX)

Aqui começa a carta do Senhor para Tomé.

Ouve pois Tomé, as coisas que deverão ocorrer no final dos tempos: haverá fomes, e guerras e terremotos em diversos locais, haverá neve e gelo e grandes secas e muitos conflitos entre povos; a blasfêmia, a iniquidade, a inveja, a vilania, a preguiça, o orgulho e a intemperança prevalecerão, de modo que todo homem falará aquilo que lhe agradar. E não haverá paz entre Meus sacerdotes, e farão sacrifícios a Mim com intenção enganosa; e não lhes darei Minha proteção. Naqueles dias, os sacerdotes ficarão admirados com o grande número de pessoas que deixarão a casa do Senhor e se voltarão para atividades mundanas, estabelecendo novos ou violando antigos limites para a Igreja do Senhor.  E reclamarão para si muitas coisas e locais que estavam perdidos, e estarão sujeitos a  César, assim como eles estavam até aquele tempo: pagando Impostos para as cidades, até mesmo ouro e prata e os principais cidadão serão condenados[2] e seus bens trazidos para o tesouro dos reis, que ficarão repletos.

E haverá grande perturbação para todos os povos, e morte. A casa do Senhor ficará desolada, e seus altares serão desprezados, e neles aranhas tecerão suas teias. Os lugares sagrados serão corrompidos, o clero se tornará impuro, o sofrimento aumentará, a virtude será derrotada, a alegria sucumbirá, e a boa vontade não existirá mais. Naqueles dias a maldade se tornará abundante; haverá acepção de pessoas[3], hinos deixarão de ser ouvidos na casa do Senhor, a verdade deixará de existir, a mentira prosperará entre os sacerdotes;  entre eles não se encontrará sequer um homem virtuoso.

De repente, pouco antes dos últimos dias, se levantará um rei[4], amante das leis, que não reinará por muito tempo; ele deixará dois filhos. O nome do primeiro começa com a  primeira letra[5];  o do segundo com a oitava[6]. O primeiro morrerá antes do segundo.

Depois disto, se levantarão dois príncipe para oprimir as nações. Quando o reino estiver sob o domínio deles, haverá grande escassez de alimentos na porção direita do Oriente e nação se levantará contra nação e transporão suas próprias fronteiras.

 

E de novo outro rei surgirá; homem astuto, ordenará que uma imagem de César, feita de puro ouro, seja colocada na casa de Deus para ser adorada; por causa disto  muitos sofrerão o martírio[7]. Então a fé dos servos do Senhor será renovada, a santidade multiplicada e os sofrimentos se tornarão maiores ainda. As montanhas serão confortadas, e deitarão lava candente pelos flancos, de modo que o número dos santos seja alcançado.

Pouco tempo depois, ascenderá ao poder um rei vindo do Oriente, seguidor da lei, que tornará abundantes na casa do Senhor todas as coisas boas e necessárias; ele se apiedará das viúvas e dos necessitados, e ordenará seja concedida ao clero uma dádiva real; seu reinado será de fartura e abundância em todas as coisas.

E depois disto mais um rei se levantará, no sul, e reinará brevemente; durante seu reinado o tesouro  será exaurido para pagamento dos soldados Romanos; e o rei ordenará que os bens dos mais idosos sejam tomados e dados a ele para serem distribuídos.

Depois haverá fartura de milho e vinho e óleo, mas faltará dinheiro, de modo que ouro e prata serão trocados por milho, e muitos serão atingidos pela fome.

Naqueles dias o nível do mar se elevará muito, e os homens não poderão enviar notícias um ao outro. Os reis da terra, e os príncipes e os capitães serão confundidos, e a nenhum homem será permitido falar livremente. Cabelos grisalhos serão vistos na cabeça de jovens, e os mais novos não cederão seus lugares aos mais idosos.

Depois surgirá mais um rei, homem astuto, cujo reinado será curto. Naqueles dias, ocorrerá todo tipo de catástrofe, até mesmo a extinção da raça de homens que habita o Oriente, até a Babilônia. E depois morte e fome e guerra desde a terra de Canaã até Roma. Então todas as nascente e poços ferverão e se transformarão em sangue. O firmamento será movido, as estrelas cairão sobre a terra, o sol se dividirá ao meio como a lua, e esta não mais brilhará na noite. Haverá grandes sinais e  maravilhas naqueles dias, quando se aproxima a vinda do Anticristo[8]. Ai daqueles que constroem, pois não habitarão. Ai daqueles que semeiam nos campos em descanso, pois trabalharão sem motivo. Ai dos que se casam, pois na fome e na miséria irão gerar seus filhos. Ai daqueles que juntam casa a outra casa, e campo a outro campo, pois todas as coisas serão consumidas pelo fogo. Ai daqueles que não cuidam de si mesmos enquanto o tempo ainda o permite, pois daqui em diante serão condenados para sempre. Ai daqueles que voltam suas costas ao pobre quando ele pede.

Porque[9] sou o Alto e Poderoso: sou o Pai de todas as coisas[10],[11] Todo-Poderoso.

Há sete sinais do final deste mundo. Haverá fome em toda a terra e grande pestilência e muita aflição; então todos os homens serão escravizados entre todas as nações, e cairão pelo fio da espada.

No primeiro dia do Juízo ocorrerá grande prodígio. Na terceira hora do dia uma voz forte e poderosa soará no firmamento do céu, e uma imensa nuvem de sangue virá do norte, seguida de fortíssimos trovões e poderosos relâmpagos, e haverá uma chuva de sangue por sobre toda a extensão da Terra. Estes são os sinais do primeiro dia.

No segundo dia soará poderosa voz no firmamento do céu e a terra será deslocada de seu lugar; os portões celestiais se abrirão no Oriente e uma força gigantesca será expelida pelos portões e cobrirá todo o firmamento até a noitinha. Estes são os sinais do segundo dia.

No terceiro dia, por volta da segunda hora, soara novamente a voz no firmamento, e os abismos da terra far-se-ão ouvir-se nos quatro cantos do mundo. O primeiro céu será enrolado sobre si mesmo e desaparecerá. Devido à fumaça e ao mau cheiro do enxofre vindos do abismo os dias permanecerão escuros até a hora décima. E todos os homens dirão “Penso que o fim está próximo, e que todos morreremos.” Estes são os sinais do terceiro dia.

No quarto dia na primeira hora, a terra do oriente se fará ouvir, e o abismo rugirá; então a terra se moverá, atingida pela força de um terremoto. Naquele dia serão derrubados todos os ídolos dos pagãos e desabarão todas as construções humanas. Estes são os sinais do quarto dia.

E no quinto dia, na sexta hora, de repente serão ouvidos fortes trovões; a esfera do sol e todos os seus poderes de luz lhe serão tirados, e as trevas reinarão sobre o mundo até o anoitecer, e então as estrelas não mais terão brilho. Naquele dia, todas as nações detestarão o mundo e desprezarão a vida neste mundo. Estes são os sinais do quinto dia.

E no sexto dia haverá novos sinais no céu. Na quarta hora o firmamento do céu se abrirá de leste a oeste. E os anjos do Paraíso contemplarão. a terra. E todos os homens verão no céu as hostes angelicais contemplando-os do Paraíso e todos fugirão.

 

Versão II: Texto de Bihlmeyer, do Clm. 4563 de Munich (século XI – XII) e Fragmento de Viena

Ouve, ó Tomé, pois Eu sou o Filho de Deus Pai e sou o pai de todos os espíritos. Ouve de Mim os sinais que deverão ocorrer quando chegar o fim deste mundo, quando o fim do mundo cumprir-se, antes que Meus eleitos deixem este mundo. Eu te contarei abertamente estas coisas que deverão acontecer com os homens: mas sobre quando tais coisas ocorrerão, nem  os príncipes dos anjos o sabem, vendo que isto ainda está escondido como estava antes.

Então haverá uma divisão do mundo em partes entre rei e rei, e em toda terra haverá grandes fomes e grandes pestilências, e muitas aflições, e os filhos dos homens serão levados como cativos entre todas as nações e morrerão pelo fio da espada e haverá grande comoção no mundo. E depois disto, quando se aproximar a hora do fim, ocorrerão grandes sinais nos céus durante sete dias, e os poderes celestiais se manifestarão.

Então isto ocorrerá no primeiro dia, o início: na terceira hora daquele dia se ouvirá uma voz forte e poderosa, vinda do firmamento, e do norte virá uma nuvem cheia de sangue; trovões ensurdecedores e relâmpagos fortíssimos a seguirão, e a nuvem cobrirá todo o céu e uma chuva de sangue se despejará sobre a terra. Estes são os sinais do primeiro dia.

E no segundo dia ouvir-se-á novamente voz forte e poderosa, vinda do céu, e a terra será retirada de seu lugar, e os portões do firmamento se abrirão no leste, e a fumaça de imensa fogueira será expelida pelos portões abertos e cobrirá todo o firmamento até a tardinha. Naquele dia haverá terror e pânico no mundo. Estes são os sinais do segundo dia.

Mas no terceiro dia, por volta da terceira hora, soará novamente no céu, e os abismos da terra se abrirão nos quatro cantos do mundo; os pináculos do firmamento serão abertos, e colunas de fumaça se formarão unindo  os abismos e os pináculos, e o ar se enchera de fumaça. Haverá um horrível cheiro de enxofre no ar até a hora décima, e os homens dirão: “Parece que se aproxima o tempo em que morreremos.” Estes são os sinais do terceiro dia.

E na primeira hora do quarto dia, na terra do oriente, o abismo se derreterá e rugirá. Então toda a terra será abalada por um poderoso terremoto. Naquele dia tombarão todos os ídolos dos pagãos e todas as construções da terra, devido à força do terremoto. Estes são os sinais do quarto dia.

Porém na sexta hora do quinto dia, subitamente ouvir-se-á forte trovoada e o sol será tirado de sua esfera e desprovido de sua luz, e haverá grande escuridão no mundo até a tardinha, e o ar será desolador, sem o sol e sem a lua, e também sem as estrelas, que deixarão de brilhar.  Naquele dia todos os povos se verão como em um espelho e desprezarão a vida deste mundo. Estes são os sinais do quinto dia.

No sexto dia, à quarta hora, virá do firmamento a voz forte e poderosa. O firmamento se abrirá do oriente ao ocidente, e os anjos dos céus observarão a terra através da abertura no firmamento. e todos que estiverem na terra ficarão admirados ao ver o exército de anjos fitando-os desde os céus. Então todos os homens fugirão para as montanhas e se esconderão da face dos anjos virtuosos, e dirão: “Abrir-se-á o solo e nos engolirá?” E tais coisas jamais haviam ocorrido desde a criação do mundo.

Estupefatos, observarão Minha volta, vindo dos céus, sob a luz de Meu Pai, com o poder e a honra dos santos anjos. No momento de Minha vinda. a cerca de fogo do Paraíso apagar-se-á – pois o Paraíso é rodeado por uma cerca de fogo. E então um fogo perpétuo consumirá a terra e todos os elementos do mundo.

Os espíritos e almas de todos os homens sairão do Paraíso e virão para a terra; e cada um deles irá até seu corpo, onde este foi sepultado, e dirá: “Aqui jazia meu corpo.” E quando a poderosa voz destes espíritos for ouvida, um terremoto de força espantosa sacudirá o mundo inteiro, e seu poder será tal que as montanhas irão se esboroar e as rochas se partir. Então cada espírito retornará a seu próprio corpo e os corpos dos santos que adormeceram serão levantados.

Depois, seus corpos serão transformados à imagem e semelhança e para a honra dos santos anjos, e no poder da imagem de Meu Pai Santíssimo. Eles serão revestidos com o dom da vida eterna, transmitido pela nuvem de luz que nunca antes foi vista neste mundo; pois esta nuvem desceu do mais alto reino celeste, pelo poder de Meu Pai. E esta nuvem revestirá com sua beleza todos os espíritos que creram em Mim.

Estando todos vestidos, serão levados pelas mãos dos santos anjos, como Eu te havia dito. Serão levantados nos ares e colocados sobre uma nuvem de luz, e Comigo ascenderão jubilosos aos céus. Lá permanecerão na luz de Meu Pai, louvando-O. E lhes será concedida indizível felicidade com Meu Pai e diante dos santos anjos. Estes são os sinais do sexto dia.

E no sétimo dia, na oitava hora, soarão vozes nos quatro cantos do firmamento. E o ar tremerá e se encherá de anjos, que travarão uma guerra entre si durante todo o dia. E naquele dia Meus eleitos serão buscados pelos anjos e salvos da destruição. E todos os homens entenderão que seu fim está próximo. Estes são os sinais do sétimo dia.

Quando os sete dias tiverem se passado, na sexta hora do oitavo dia uma voz doce e suave virá do céu, vinda do oriente. Então será revelado o anjo que tem poder sobre todos os demais; e todos os anjos seguirão adiante com ele, sentados nas carruagens de nuvens de meu Santo Pai, alegrando-se e cruzando os ares abaixo do firmamento para recolher os eleitos que creram em Mim. E todos se alegrarão porque este mundo foi destruído.

Terminaram as palavras do Salvador para Tomé, relativas ao fim do mundo.

[1] A Revelação de Tomé pode ser encontrada on-line (em inglês) em diversos sites. Minha tradução tem como base a versão para o inglês encontrada em James, M. R. ”The Apocryphal New Testament”. Oxford: Clarendon Press, 1924

[2] Aqui termina o manuscrito de Verona; o de Munich continua.

[3] A frase em inglês é there shall be respecters of persons”. O significado de respecter” é “someone or something that is influenced by the social standing, importance, power, or any deterrent put forth by persons or things (used chiefly in negative constructions). Ora, tal coisa não pode ocorrer na Igreja, pois Deus não faz acepção de pessoas (At 10:34, Ro 2:11, Ef. 6:9, Cl 3:25, Tg 2:1, 9, 1Pd 1:17).

[4] Acredita-se que este seja Teodósio, imperador romano nascido na Espanha, Teodósio, cognominado o Grande, governou o Império Romano do Oriente entre 378 e 395 d. C.; eliminou os últimos vestígios de paganismo, pôs fim à heresia ariana no Império, pacificou os godos, tendo reinado no século IV como um soberano justo e poderoso

[5] Arcadius, filho de Teodósio I, morreu em 408.

[6] Honorius, filho de Teodósio I, morreu em 423.

[7] Repete-se a história básica narrada em Dn 3.

[8] ou, alternativamente,

[9] Há aqui uma quebra da narrativa.

[10] ou, alternativamente, “E sabei vós: Sou o Pai Altíssimo: sou o Pai de todos os espíritos.”

[11] O texto da nota anterior é, na verdade, o início de um texto mais antigo e mais curto, e do fragmento de Viena. Neste último, algumas palavras ininteligíveis precedem a frase. Não são todavia as que aparecem no texto de Wilhelm, que é o que está sendo mostrado.

REVELAÇÃO DE TOMÉ (300-400 d. C.) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Por muitos séculos, a Revelação de Tomé era conhecida apenas por uma referência no chamado Decreto Gelasianum[1], que considera o texto como apócrifo e coloca seu nome na lista dos escritos que devem ser rejeitados.

  1. R. James (1910) descreve como este apócrifo tornou-se conhecido no início do século XX. Em 1908 C. Frick publicou um artigo no “Zeitschrift fur Neutestament Wissenschaft” no qual chamava a atenção para um comentário contido no manuscrito da Crônica de Jerônimo, do Codex Philippsianus em Berlin. Esta anotação diz que no décimo-oitavo ano de Tibério: “in libro quodam apocrypho qui dicitur Thomae apostoli scriptum est dominum Iesum ad eum dixisse ab ascensu suo ad celum usque in secundum adventum eius novem iubeleus contineri.”[2]

Há atualmente duas versões da Revelação de Tomé. A mais longa é representada por:

  1. Cod. Clm. 4585 fol. 66-67 (século IX) dos Beneditinos. Este texto foi editado por Wilhelm em seu livro Deutsche Legenden und Legendare, 1907;
  2. Manuscrito da Biblioteca do Capítulo de Verona (século VIII) que foi publicado por M. R. James no Journal of Theological Studies. Veja James (1910)
  3. Cod. Vatic. Palat. nº 220, descoberto por E. von Dobschutz e usado por Bihlmeyer em sua edição do Cod. Clm 4563.

Existe uma antiquíssima adaptação  para o inglês medieval deste texto; ela se encontra na décima-quinta  homilia  do manuscrito anglo-saxão de Vercelli (século IX). Vestígios claros desta versão da Revelação de Tomé são encontrados em outros textos religiosos, conforme, por exemplo, Seymour (1921), Gatch (1964) e Duncan (1999).

A versão mais longa da Revelação de Tomé divide-se em duas partes. A primeira trata dos eventos que precederão o Juízo Final; é muito semelhante às descrições contidas em outros textos apócrifos, tais como a Ascensão de Moisés, a Ascensão de Isaías e os Oráculos Sibilinos. Esta parte pode ser considerada uma interpolação; data provavelmente do século V, devido a certas referências históricas que aparecem no texto.

A segunda parte corresponde em conteúdo e extensão à versão curta da Revelação de Tomé.  Esta versão é representada por:

  1. Codex Vindob. Palatinus 16, fol. 60r-60v (século V)
  2. Codex Clm 4563 fol. 40r-40v (séculos XI ou XII)

Tanto a versão curta como a versão mais longa da Revelação de Tomé sugerem que o texto possa ter se originado antes do século V. Ele parece depender do livro canônico da Revelação e é o único dos apócrifos que determina sete dias para o fim dos tempos. É provável que isto seja uma referência aos sete selos, sete trombetas e sete tigelas mencionadas no livro canônico.

As numerosas versões em latim podem indicar diferentes versões de um original grego.

Referências:

  1. Duncan, E. (1999). Fears of the Apocalypse: The Anglo-Saxons and the Coming of the First Millennium. Religion & Literature, 31(1), 15-23. Disponível em http://www.jstor.org/stable/40059757
  2. Gatch, M. (1964). Two Uses of Apocrypha in Old English Homilies. Church History, 33(4), 379-391. Disponível em http://www.jstor.org/stable/3162832
  3. James, M. R. (1910). Notes on Apocrypha, The Journal of Theological Studies, 11, 188-192. Disponível em https://biblicalstudies.org.uk/pdf/jts/011_288.pdf
  4. James, M. R. (1924).The Apocryphal New Testament. Oxford: Clarendon Press.
  5. Seymour, J. (1921). The Signs of Doomsday in the Saltair Na Rann. Proceedings of the Royal Irish Academy. Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, 36, 154-163. Disponível em http://www.jstor.org/stable/25504228

 

[1] Trata-se de um decreto papal que era atribuído ao Papa Gelasius I, bispo de Roma entre 492-496. Atualmente acredita-se que o decreto está baseado em um texto escrito por um estudioso anônimo, entre 519 e 553. A segunda parte do decreto contém uma lista dos livros considerados canônicos; esta lista é apresentada como tendo sido elaborada em um concílio em Roma, que teria sido convocado pelo Pap Damasio I, bispo de Roma 366-383.

[2] Em latim, no original. Significa, em tradução livre:  “no livro apócrifo o qual se dizia ter sido escrito pelo apostolo Tomé; quando ascendeu ao céu, o Senhor Jesus lhe teria dito que daquele dia até a Sua volta se passariam nove jubileus.”

APOCALIPSE GREGO DE ESDRAS (c. 150) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Existem apenas duas cópias do Apocalipse Grego de Esdras, contidas nos manuscritos: (a) Paris. gr. 929, ff. 510-32, and; (b) Paris. gr. 390, ff. 50-59. O manuscrito nomeado em (a) foi traduzido e editado por K. von Tischendorf[i] e traduzido para o inglês por A. Walker (ANF 8. Pp. 571-74).

A maioria dos estudiosos acredita que se trata de um texto elaborado por cristãos, embora alguns afirmem ser provável que um texto-base originado por religiosos judeus tenha sido retrabalhado por cristãos.

O texto não está dividido em capítulos, mas nota-se muito claramente uma divisão interna em quatro partes:

  1. Esdras ascende ao céu e suplica a Deus em favor dos pecadores;
  2. Conduzido pelos arcanjos Miguel e Gabriel, desce ao inferno, onde testemunha os tormentos a que estão submetidos Herodes e outros pecadores, um dos quais é descrito como o Anticristo.
  3. Esdras retorna aos domínios celestiais e observa mais castigos aos pecadores, mesmo no Paraíso, onde encontra Enoque, Elias, Moisés, Pedro, Paulo, Lucas e Mateus.
  4. O profeta é conduzido novamente pelos anjos, desta vez às regiões mais profundas do inferno, onde observa os tormentos de outros pecadores. Nos parágrafos finais, Esdras consegue de Deus a promessa de bençãos para aqueles que acreditarem em suas visões e maldições para os incrédulos. Esdras, após alguma relutância, entrega sua alma a Deus e morre.

Acredita-se que o texto tenha sido escrito entre 150 e 850 d.C.; esta datação toma como base possíveis referências cruzadas entre este e outros  documentos da mesma época.

O principal aspecto teológico do texto é o questionamento de Esdras quanto a justiça de Deus, que pune os seres humanos por pecarem, mas os criou inclinados ao pecado. Neste trecho o profeta indaga ao Senhor quem fez o primeiro homem, pergunta que o Altíssimo responde dando a entender que Adão o desobedeceu utilizando seu livre arbítrio: E o profeta disse: Quem fez Adão, o primeiro formado? E Deus disse: Minhas mãos imaculadas. E eu o coloquei no paraíso para guardar o fruto da árvore da vida, e depois tornou-se ele   desobediente e cometeu sua transgressão.”

Ora, sendo Deus todo poderoso, é evidente que poderia ter criado o homem inclinado ao bem. A ideia de que o homem pecou por sua livre escolha parece não convencer Esdras. A conclusão do profeta é de que, do ponto de vista humano, a justiça divina é puramente arbitrária: Mas se não tivésseis lhe dado Eva, a serpente não o teria enganado; mas àqueles que Vós desejais, salvais, e àqueles que Vós desejais, destruís.”

O profeta expõe diversas vezes a ideia de que melhor seria ao homem não ter nascido, porquanto estamos todos sujeitos ao pecado e à condenação eterna.  Angustiado diante da visão dos almas atormentadas dos pecadores, Esdras pergunta: Ó Senhor Deus, e que homem que tenha nascido não pecou?”

A questão da existência do mal em um Universo criado por um Deus de infinita bondade é um dos Mistérios (com M maiúsculo) da Teologia. Vale dizer, é algo que simplesmente não está ao alcance de nosso intelecto e que aceitamos somente pela Fé.

Neste sentido, vale a pena mencionar os ensinamentos do calvinismo, que colocam o crente ainda mais à mercê da Fé. Essencialmente, os calvinistas afirmam que Deus escolheu, desde antes do início dos tempos, por Sua exclusiva e soberana decisão, as pessoas que serão salvas. Mas aqueles que são condenados, o são por sua própria culpa, uma vez que Deus não pratica o mal. Assim, as igrejas reformadas afirmam como verdadeiros dois pontos reconhecidamente incompatíveis: a soberania de Deus e a responsabilidade do ser humano.

[i] Lobegott Friedrich Constantin (von) Tischendorf (1815 – 1874) foi um teólogo e professor alemão, considerado um dos mais importantes especialistas em estudos bíblicos do século 19. Entre suas realizações destacam-se: (a) a descoberta do mais antigo exemplar completo da Bíblia incluindo a Septuginta e o Novo Testamento; esta bíbliat65 se denomina Codex Sinaiticus, e; (b) uma edição crítica do Novo Testamento, intitulada  “Novum Testamentum Graece. Ad antiquos testes recensuit. Apparatum criticum multis modis.” (Novo Testamento Grego. Revisado de acordo com testemunhas antigos. Aparato crítico de várias maneiras.), publicado em 1849 e contendo as regras básicas da crítica textual, com exemplos de aplicação utilizados até hoje no ensino desta especialidade.

AS REVELAÇÕES OCULTAS

Sem dúvida, um dos livros mais intrigantes da Bíblia é o livro do Apocalipse de João, também denominado Revelação . De fato, esse é o único livro apocalíptico que faz parte do cânon das Escrituras Cristãs, e mesmo assim sua inclusão na lista de livros considerados inspirados foi  tardia e controversa. Até os dias de hoje, a Igreja Católica Ortodoxa não inclui qualquer trecho deste livro na Liturgia da Palavra de suas missas, embora o reconheça como canônico.

O apocalipse de João é um texto escatológico. Escatologia é um sistema de crenças e doutrinas sobre o final dos tempos. Quando se analisa a história das religiões, verifica-se que a escatologia envolve temas como, por exemplo, a imortalidade da alma e seu destino (reencarnação, ressurreição, migração, etc.), a justiça divina afinal explicada e o triunfo definitivo do Bem sobre o Mal. As expectativas escatológicas podem assumir forma individual ou coletiva, abrangendo indivíduos, grupos, nações, a humanidade como um todo e até mesmo o Universo inteiro.

O conceito de escatologia se aplica mais propriamente às religiões judaica, cristã e islâmica, que vêem a história como um desenrolar de eventos com início e fim definidos; trata-se da chamada escatologia histórica.

Em contraste, muitas religiões não-bíblicas concebem a história como uma sucessão de ciclos, sem um começo ou fim claramente estabelecidos; à criação da ordem a partir do caos, sucede eventualmente a dissolução da ordem no caos e o ciclo se repete infinitamente. Nessas religiões a escatologia  é classificada como mítica e o sentido da história é captado através da celebração da eternidade do cosmos e da repetitividade dos eventos de criação, destruição e renovação.

A escatologia histórica apropria-se da história como uma sequência temporal de eventos que conduzem a um fim definido. Os rituais e celebrações tem como objetivo recordar eventos importantes que demonstram a fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas e evidenciam como o cumprimento de tais promessas no futuro pode ser discernido a partir dos eventos do passado. E o futuro necessariamente significa o fim dos tempos e o fim da história, pois esta não se repete.

A escatologia judaica é histórica, e se fundamenta na escolha de Israel como o povo eleito; o foco é a revelação da glória de Javé como o Deus de todas as nações. Também é histórica a escatologia cristã, que se baseia na morte e ressurreição de Jesus e tem como foco a  Sua volta gloriosa e o estabelecimento do Reino de Deus.

A escatologia histórica se apresenta em três formas distintas, conforme o aspecto que é enfatizado: messianismo, milenarismo e apocalipticismo.

Na escatologia messiânica, a ênfase reside na figura redentora de um messias (palavra de origem hebraica que significa “ungido”) que iria liderar o povo de Deus, então oprimido e sofredor, na concretização de um futuro melhor. O messianismo frequentemente evoca visões de vingança contra determinados grupos, locais e / ou estrangeiros, considerados como opressores; neste sentido, a visão messiânica não implica necessariamente no final dos tempos.

A escatologia apocalíptica, por sua vez, promete uma intervenção súbita e cataclísmica de Deus na história para salvar um grupo específico – santos ou eleitos são denominações comuns. O mundo tal como o conhecemos, é destruído e completa-se em sua plenitude o estabelecimento dos Reino de Deus  Em Rev 21:4, lê-se: 4Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” A teodiceia recorre à ressurreição dos mortos e ao Juízo Final; os justos são recompensados com uma eternidade gloriosa; os ímpios recebem a condenação eterna.

Finalmente, a escatologia milenarista acentua o período de 1000 anos durante o qual os justos governarão o mundo novo, junto com Jesus Cristo. O milênio é seguido pela batalha final entre o Bem e o Mal, e o fim definitivo da história.

O Apocalipse é, apropriadamente, o último dos 27 livros do Novo Testamento. Grande parte dos cristãos conhece este livro como o Apocalipse, imaginando talvez que se trata do único livro desta natureza que jamais foi escrito. Na realidade, nas décadas imediatamente anteriores e posteriores ao início da era cristã, ideias apocalípticas foram comuns tanto  entre os judeus como entre os cristãos.

Povo dominado havia séculos por potências estrangeiras, Israel aguardava com ansiedade a vinda de um Messias, poderoso neste mundo, como o Filho do Homem descrito em Da 7:13-14, onde se lê: 13Em imagens noturnas tive esta visão. Entre as nuvens do céu vinha alguém semelhante a um filho do homem. Chegou até perto do ancião ; foi levado à sua presença. 14Foi-lhe dada a soberania, a glória e a realeza. Todos os povos, nações e línguas hão de servir-lhe. Seu poder é um poder eterno que nunca lhe será tirado e sua realeza é tal que jamais será destruída!”

Para os cristãos, consolidava-se o entendimento de que Jesus era o tão esperado Messias, que havia vencido um inimigo mais poderoso que qualquer nação ou império terreno: a Morte. A expectativa do apocalipse era fortíssima no Cristianismo nascente. Em Mc 13:29-30 lê-se que Jesus afirmou: 29Assim também vós, quando virdes sucederem essas coisas, sabei que ele [o Filho do Homem] está próximo, mesmo às portas. 30Em verdade vos digo que não passará esta geração, até que todas essas coisas aconteçam.”

A expectativa do fim da história, tanto no Judaísmo do Segundo Templo como no Cristianismo, deu origem a inúmeros textos apocalípticos, dos quais  alguns chegaram até nós. Mas por serem apócrifos  (literalmente, “ocultos”) são pouco conhecidos. Há alguns meses iniciei um estudo sobre os textos apocalípticos apócrifos e decidi traduzir alguns deles para o português.

Nas próximas semanas farei a postagem de algumas destas traduções de textos apocalípticos, textos esses que são absolutamente desconhecidos pela maioria das pessoas. Lembrando que apocalipse quer dizer “revelação”, posso dizer que publicarei uma série de “Revelações Ocultas”.

A leitura dos textos apocalípticos apócrifos é interessante em si mesma, pois eles estão eivados de um conteúdo mitológico, que até hoje faz parte do imaginário popular. Através deles é também possível entrever a cosmovisão de judeus e cristãos em um período crítico da história: o início da Era Cristã.