Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (7)

Em 1968, no dia7 de julho, no final da tarde, vi o mar pela primeira vez. Como bom mineiro, fiz questão de experimentar um gole da água, para comprovar que era salgada.  O “tira-teima” ocorreu na praia de São Francisco, município de São João da Barra,   estado do Rio de Janeiro.

A foz do rio Paraíba situa-se em São João da Barra; o rio  divide o município em duas partes. A sede fica na margem sul e o restante – uma área muito maior, que se tornou mais tarde o município de São Francisco do Itabapoana – fica na margem norte. Neste  território,  entre os  rios Paraíba e Itabapoana, na divisa com o Espírito Santo, é que se localiza a praia de São Francisco. Há muitas outras praias neste trecho, tais como Tropical, Santa Clara, Sonhos, Sossego e Guaxindiba, todas contíguas, formando uma faixa de areia com extensão de pouco menos de 40 km.

Esta praia era tida como a mais próxima de Belo Horizonte em linha reta. O problema era que não havia como ir até lá seguindo em linha reta, visto que ninguém tinha asas. Na realidade, chegar até a Praia de São Francisco era uma pequena odisseia.

Uma das opções era ir de BH até Juiz de Fora, de Juiz de Fora até Itaperuna, de Itaperuna até Campos dos Goytacases e de Campos até a praia de São Francisco. Em cada uma das baldeações (Juiz de Fora, Itaperuna e Campos) era necessário esperar algumas horas pelo próximo ônibus.

O trecho Campos – São Francisco era de terra e viajava-se em uma lotação caindo aos pedaços, com umas 80 pessoas a bordo. Levava-se pouco menos de 24 horas para vencer os 800 km que separam a Cidade Jardim e o mar oceano…

O que tem esta praia a ver com Belo Horizonte? Tem tudo a ver, porque a quase totalidade dos turistas que a visitavam procediam daquela cidade. E a razão disto era o fato de que o pioneiro na promoção do turismo naquela região tinha vindo de Belo Horizonte. Chamava-se Oswaldo Barbosa de Rezende, o “seu” Oswaldo como era conhecido por todos.

“Seu”Oswaldo fora durante muitos anos um pequeno empresário em Belo Horizonte.  Era um empreendedor e visionário; a certa altura de sua vida decidiu mudar-se para a praia e ali construir um hotel, que se chamaria Mar-y-sol. Quando o conhecemos, ele e a esposa, Dona Eny, e três dos quatro filhos do casal moravam na praia. Eram um casal boníssimo e se tornaram muito amigos de meus pais.

Em 1968 a praia de São Francisco e toda a região circunvizinha estava ainda alheia ao progresso. Não havia luz elétrica, as estradas eram de terra, o transporte coletivo era inexistente e o comércio local se resumia a algumas vendas. Não havia então mais que umas 50 casas de alvenaria na  praia.

O hotel, como estava nos sonhos de “seu” Osvaldo, nunca chegou a tornar-se realidade,  e a hospedagem na praia funcionava de forma incomum. “Seu” Oswaldo e sua família residiam no segundo andar de um casarão; o primeiro andar abrigava a sala de estar, o refeitório e a cozinha do hotel. Havia um gerador no casarão, de modo que era possível assistir televisão até as 22 horas, quando o gerador era desligado.

As acomodações dos hóspedes ficavam em uma edificação situada a cerca de 1 km de distância. Isto significa que, logo após acordar o hóspede tinha que andar uns 15 minutos à pé para tomar o café da manhã…

Apesar das condições primitivas de hospedagem, foram ótimas férias.  Meu pai, que já estava se preparando para a aposentadoria, não fez por menos – comprou uma casa em frente ao hotel.  Pouco mais de dois anos depois, no início de 1971, meus pais vieram morar nesta praia e eu fui estudar eletrônica em Santa Rita do Sapucaí – mas isto é outra história.

Quando se tem uma casa na praia, a tendência é sempre ir para este lugar em todas as férias. E, de fato, entre 1968 e 1973 passei todas as férias – eram então quatro meses por ano – na praia São Francisco.

Fomos muitas vezes para a praia com minha irmã e sua família; algumas vezes  meu irmão e família se juntaram a nós e estivemos todos reunidos.  Hoje, quando tantos já partiram, alguns de maneira trágica e inesperada, e a saudade e a dor da perda me enchem os olhos de lágrimas, tenho plena consciência de como foram preciosos aqueles momentos que passamos juntos.

Na praia vi muita coisa nova e vivi muitas experiências interessantes. Há algumas que estão inseparavelmente ligadas àquele local. Alguns pensamentos que me ocorrem e vale a pena mencionar:
– o esplendor do céu estrelado, quando não havia luz elétrica, era infinitamente superior ao que se observa nas cidades;
– a natureza ainda bem preservada, com vários pássaros e plantas e frutas que não conhecia até então;
– os longos passeios de bicicleta, nas ruas de terra quase planas e na estrada à beira mar que levava até o porto de Gargaú, a cerca de 8 km de distância;
– as pescarias na beira da praia, cujo horário dependia do fluxo das marés, e era calculado usando o “Almanaque do Penamento”; as chumbadas, com garras e umas 250g de peso, nós mesmo fazíamos usando formas enterradas na areia;
– os arrastões que os pescadores faziam todas as manhãs, vendendo  peixes e camarões ainda vivos, ali mesmo na praia (nota para os mais jovens: originalmente, arrastão NÃO significa “grupo de marginais assaltando cidadãos desemparados pela absoluta incompetência do Estado brasileiro em garantir a segurança pública”, mas sim “tipo de pescaria realizado no mar, com redes de centenas de metros de comprimento”);
– os passeios de carro com “seu” Oswaldo ou seu filho mais velho, Ricardo; quando víamos que eles iam sair, eu e um ou mais de meus sobrinhos corríamos até o carro e perguntávamos se podíamos ir; geralmente a resposta era “sim” e lá íamos nós no banco de trás, conhecendo as estradas  e vilas da região.

Para encerrar este texto, narro um fato que presenciei e para o qual nunca tive uma explicação convincente. Isto ocorreu no final de janeiro de 1970, não me lembro exatamente o dia. Recordo com clareza que não havia lua e que era um dia de semana, de modo que recorrendo a uma tabela de lunações minha conclusão é que deve ter sido entre os dias 26 e 30 de janeiro.

Tinha 13 para 14 anos, não consumia álcool e muito menos drogas, não tomava qualquer  medicamento e nunca tivera problemas neurológicos, o que me leva a crer que o que vi foi real e não apenas uma ilusão.

Passava um pouco de uma hora da madrugada e todos haviam ido dormir; não havia qualquer movimento de pessoas ou veículos nas ruas e só se ouvia o ruído do vento e do mar. Eu estava no quintal, olhando o céu maravilhosamente estrelado; estava voltado para o oeste, ou seja, o lado da terra. De repente, observei à esquerda um ponto luminoso, semelhante ao planeta Venus em termos de brilho, a meia altura entre a linha do horizonte e o topo da abóboda celeste. De repente, este ponto se moveu a uma velocidade incrível – seria mais adequado dizer que sumiu e reapareceu – e em questão de um ou dois segundos vi o ponto luminoso do lado direito. Mais alguns segundos e novamente um movimento, desta vez para o centro  e para o alto, desaparecendo em seguida. Nenhum ruído, nenhum rastro luminoso.

Isto, tanto quanto consigo recordar, foi o que vi naquela noite. Quem puder que me explique, pois até hoje não sei o que possa ter sido.

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (6)

Já mencionei as escolas onde estudei e muitos dos professores e professoras que tanto contribuíram para que eu pudesse vencer os desafios que viriam no futuro. Mas, é claro, a vida não se resumia ao  estudo;   havia muito tempo para brincar e envolver-se no que hoje eu chamaria de aventuras.

Recordo com saudade os amigos daquele tempo, que nunca mais tive a oportunidade de reencontrar. De uns lembro o nome completo (que  vou preservar) , de outros apenas o primeiro nome, de todos a amizade. Nos parágrafos seguintes lembranças sobre alguns deles.

Sérgio, filho do Dr. Sylvestre e da D. Maria Luiza, ambos de tradicionalíssimas famílias de Minas Gerais; era craque no futebol, que  jogávamos no pátio  do prédio, e também no futebol de botão, que jogávamos no hall de entrada. Ainda tenho livros que me foram dados pelo Dr. Luis,  avô materno de Sérgio.

Flávio, filho do Dr. Caio e de D. Lourdes, de quem me tornei amigo após apertar acidentalmente seus dedos ao fechar uma porta no Grupo Escolar Pandiá Calógeras. O Flávio possuía um autorama,   brinquedo caríssimo para a época; quase toda semana eu pegava o troleibus na Avenida do Contorno e ia até a casa do Flávio, onde brincávamos horas e  horas, apostando corridas no circuito em forma de oito.

Vianey,  nome adotado pelo garoto Yuen, cujo pai era dono de um  ótimo restaurante chinês que, acredito, funciona até hoje; talvez pertença à mesma família.

Túlio, criador da série SATÚLIO de veículo lançadores  – ou quase, pois não sei se algum deles chegou a sair do chão – que era a versão curumim dos  poderosos SATURNO da NASA. É bom lembrar que, não estando  disponível o oxigênio sólido usado como combustível pelos norte-americanos, os SATÚLIO eram movidos (?) a pólvora.

Marco Antônio, cujo pai era jornalista e ativista político. O pai de Marco foi perseguido pelo regime militar e  refugiou-se no consulado chileno, onde ficou até obter um salvo-conduto. Foi para o Chile e sua família o seguiu algum tempo depois. Isto foi em 65 ou 66 e não sei o que lhes aconteceu mais tarde, visto que em 1973 instalou-se naquele país uma brutal  ditadura militar, liderada pelo ultra-direitista General Augusto Pinochet.

Alberto, que estava dispensado de frequentar as aulas de sábado, porque era o Sabath, dia consagrado à adoração do Altíssimo, na milenar tradição de seu povo.

E tantos outros, que deixo de mencionar para que este texto não se torne demasiadamente longo. Quem sabe algum dos meus  antigos amigos e colegas leia estes escritos e possa também lembrar-se de como era BH e de como éramos nós.

Cada época havia uma  brincadeira que era mais popular. Algumas tradicionais, como bola de gude, finca ou pebolim, outras que alguém inventava e que não eram tão disseminadas,   porque exigiam instalações ou equipamento especial.

Um exemplo do primeiro caso (instalações especiais) foi um “esporte” que praticamos durante  algum tempo no ginásio. O Anexo Santo  Antônio tinha um terreno enorme, que não era nem cimentado nem gramado, mas de terra batida, e servia de pátio. As quadras de esporte ficavam em um nível bem mais alto que o pátio e entre os dois níveis havia uma rampa íngreme, esparsamente gramada.

A topografia do local deu origem ao que chamávamos de “Guerra no Morro”. As regras eram  simples: uma turma ficava no alto, outra turma ficava em baixo, os de baixo tinham que subir e os de cima não podiam descer; a partida acabava quando um “baixista” chegava ao topo ou um “altista” despencava até o pé da rampa; enquanto isto não acontecia, valia quase tudo – rasteiras, empurrões, dois ou mais contra um só adversário, etc; socos, pontapés, cotoveladas não eram permitidos,  embora ocorressem de vez em quando. Na realidade, uma espécie de rugby sem bola e em plano inclinado.

Um exemplo do segundo caso (equipamentos especiais) foi um outro “esporte” extremamente perigoso e que, felizmente, praticamos poucas vezes, acho que não mais que duas: o tiro com “pistolas” caseiras, sobre cuja fabricação prefiro não dar detalhes, pois esta maluquice pode mutilar ou matar o atirador e/ou outras pessoas.

Até trabalhos escolares eram fonte de aventuras e descobertas. No segundo ginasial, se não me falha a memória, o trabalho de Ciências era montar uma coleção de insetos, usando caixas de papelão forradas com uma placa de isopor e organizando os exemplares de acordo com a ordem. Besouros espetados em alfinetes na seção dos coleópteros, mosquitos e pernilongos colados em pedacinhos de cartolina na seção dos dípteros, tudo de acordo com o livro “Entomologia para Você”, de Messias Carrera, adquirido espeecialmente para o trabalho, e que ainda está em minha biblioteca.

Na busca de insetos mais exóticos do que aqueles normalmente encontrados em uma residência, andei bastante pelo bairro de Lourdes e adjacências, tentando capturar novos exemplares nos muitos terrenos baldios que existiam na região. Não havia ainda esta violência desenfreada que desgraça nosso país, e um garoto de 12 anos podia andar sozinho por Belo Horizonte sem maiores preocupações.

Nas férias escolares viajávamos eu e minha mãe para o sul de Minas ou, a partir de 1968, para uma praia que estava muito ligada a Belo Horizonte. No próximo post falarei sobre estas viagens.

[continua]

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (5)

Em 1966 o ensino público era bom, mas nem todos tinham acesso a ele. Quando se terminava o 4º ano do chamado curso primário, a continuação dos estudos em uma escola pública não era garantida. Não havia vagas suficientes, e para iniciar o curso ginasial, que durava quatro anos – corresponde ao que hoje seriam  a 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries – era necessário fazer um exame de admissão.

Era um mini-vestibular e quem era reprovado tinha duas opções: (1) preparar-se melhor, talvez fazendo um curso de admissão,  e tentar novamente no ano seguinte, ou; (2) matricular-se em uma escola particular.

Em 1966 eu cursava o 4º ano primário, portanto já estava na hora de começar a pensar no exame de admissão. No caso, a melhor opção era o Colégio Estadual de Minas Gerais, um dos mais prestigiosos do estado, considerado um referencial de excelência.

Sala de aula: “a régua”

Havia duas unidades da Colégio Estadual próximas de casa. Uma era a Central, projetada por por Oscar Niemeyer; seus prédios tinham formas que lembravam objetos usados em uma escola.

Auditório: “o mata-borrão”

Na unidade Central funcionava somente o curso científico; as classes do curso ginasial se localizavam no Anexo Santo Antônio, que tinha este nome porque ficava no bairro Santo Antônio  e era adjacente à unidade central.  Na realidade, os fundos das duas unidades ficavam em calçadas opostas da mesma rua e ambas compartilhavam as quadras e a piscina semi-olímpica.

A entrada do Anexo Santo Antônio ficava na Rua Felipe dos Santos. Eram três ou quatro quarteirões de onde morávamos – é verdade que uma subida íngreme, mas isto não era então um problema. O problema é que o Colégio Estadual era um dos mais concorridos, de modo que uma boa classificação no exame era essencial para conseguir uma vaga.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre esta escola, e o exame de admissão, recomendo a  leitura da tese de doutorado da Prof. Dra.  Aleluia Heringer Lisboa Teixeira, intitulada “Uma Escola Sem Muros”: Colégio Estadual de Minas Gerais (1956-1964).

Mamãe havia sido professora durante quase trinta anos e se aposentara pouco antes de nossa mudança para Belo Horizonte. Ensinar era sua vocação natural, refinada por décadas de experiência. Assim, em meados de 1966 comecei a me preparar para o exame de admissão, em casa mesmo, tendo mamãe como professora.

 Quando  prestei o exame havia 120 vagas para o Anexo Santo Antônio e pelo menos meia dúzia de candidatos por vaga; fui classificado em 22º lugar. No início de 1967 comecei o curso ginasial.

A disciplina era rigorosa. Os portões se fechavam às 7:30 e ninguém entrava após este horário.  Não se entrava também sem o uniforme completo: calça cinza, camisa impecavelmente branca de mangas compridas, com um friso verde na gola e nos punhos e o distintivo do colégio no bolso; sapatos e meias pretas. No verão admitia-se uma versão do uniforme com camisa de mangas curtas.

Tínhamos uma carteira para registro de notas e de frequência, que era entregue a um bedel na entrada e devolvida ao aluno na saída; não se entrava na escola sem a carteira. As provas eram bimestrais; depois que as notas eram lançadas na carteira, não se permitia a entrada do aluno se não houvesse a assinatura do paí ou responsável indicando que tivera conhecimento das mesmas.

De maneira geral, os professores eram muito bons e vários eram excelentes.  Até hoje recordo a competência com que ministravam   suas aulas, embora me falhe o nome de alguns. Graças a estes mestres, adquiri uma formação  básica que foi muito útil ao longo de minha vida.  Foram professores que realmente sabiam ensinar e, mais importante, estimular os alunos a querer aprender. Cito alguns como D. Cleuza (Inglês, 1ª série – 1967) e sua irmã  D. Giselda (Matemática,   1ª série – 1967), Dr. Janot Pacheco (Ciências, 3ª série – 1969), Prof. Waldir (Inglês, 3ª série – 1969), Prof. Celso (Português, 4ª série – 1970), Prof. Carlos (Geografia, 2ª série – 1968) e D. Vera (História, 4ª série – 1970).

Havia alguns poucos que não estavam no nível de excelência dos demais.  Lembro-me, por exemplo, de um senhor já bastante idoso que ensinava Geografia e era dado a repentinos acessos de fúria, durante os quais esmurrava mesas e jogava cadeiras para o alto. Houve também uma professora de Educação Moral e Cívica – matéria usada pelo regime militar para  tentar doutrinar a juventude – que provavelmente considerava o General Guarrastazu Médici um simpatizante  do comunismo. Mas eram exceções que apenas confirmavam a regra…

Embora a disciplina fosse rígida e o currículo exigente,  houve muitos momentos divertidos, sobre os quais  falarei no próximo post…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (4)

No início de 1966 papai resolveu comprar um carro. Creio que  foi seu primeiro automóvel, e ele já estava com 54 anos. E, é claro, não tinha carteira de motorista. Hoje, quando o Brasil é o terceiro  maior mercado de automóveis do mundo (atrás apenas da China e dos Estados Unidos)  e tirar a carteira de habilitação é quase um rito de  passagem para a vida adulta, isto pode parecer estranho. Mas em 1966 a situação era outra…

Considerando a fabricação local, a indústria automobilística mal completava dez anos, e um carro ainda era o sonho de consumo da classe média, que só viria a tornar-se realidade em grande escala  durante o “milagre brasileiro” do início dos anos setenta. Basta dizer que a maioria das casas sequer possuía garagem!

A variedade de modelos disponíveis era bastante limitada. Basicamente, a Willys Overland fabricava a Rural, o AeroWillys, o Gordini  e o Dauphini (os dois últimos sob licença  da Renault), a Vemag produzia o sedã Belcar e a perua Vemaguete (sob licença da DKW),  a SIMCA disponibilizava o Chambord e o Tufão e, disparada na liderança das vendas, a Volkswagen oferecia o aparentemente imortal Fusquinha.


Num sábado, talvez em fevereiro ou março, papai e  meu irmão saíram em busca do sonhado veículo. Em casa esperávamos ansiosos. Voltariam com um Fusca? ou seria um Gordini? quem sabe, talvez até mesmo um SIMCA? Mas acredito que papai não tivesse a menor ideia sobre qual marca e modelo desejava comprar; estava decidido a motorizar-se,  porém qualquer automóvel que o levasse de um lado para outro e que estivesse ao alcance de seu bolso poderia ser considerado.

O fato é que no início da tarde ele e meu irmão apareceram de volta em um Chevrolet Belair 1958 hidramático, importado dos Estados Unidos havia alguns anos por um político sabe-se lá como (mas a documentação  estava OK).

Era um autêntico “rabo de peixe”, um dinossauro cujos descendentes ainda dominavam as autoestradas norte americanas: motor de 6 cilindros 3900 cm3 15o HP, câmbio hidramático, 5,3 m de comprimento, 1500 kg de peso, 5 km/litro de gasolina.  Em suma: um carrão! A foto  mostra como era o Belair 1958; o de meu pai era exatamente desta cor: azul e branco.

Belair 1958 - Vista lateralA sede insaciável do  potente veículo não causava preocupação. A gasolina era vendida  então a preço de  banana – ou talvez menos. A OPEP já existia, mas ainda não havia demonstrado seu poder; a Primeira Crise do Petróleo só ocorreria  sete anos depois.

Viajamos muito com este carro, conhecendo diversos lugares de Belo Horizonte e cidades vizinhas. Meu pai não se animou a tirar a carteira de motorista nesta época – só veio a fazê-lo em 1972, de modo que meu irmão sempre foi o condutor. Ubiratan – este era o nome de  meu  saudoso irmão – a quem chamávamos de Bira, e papai fizeram um acordo informal: Bira dirigiria para a família, mas disporia do carro todas as noites como bem lhe aprouvesse. Para um moço de 22 anos, solteiro, numa  época    em que um carro ainda tinha um certo poder de atração junto ao público feminino, não era um mau acordo. Assim, todos saíram ganhando e ficaram satisfeitos com a aquisição do “dinossauro de aço”.

Mas, como nos ensina a sabedoria  popular, “não há bonito  sem senão” e no caso deste carro o senão estava na manutenção, dificílima e caríssima. No início de 1967,  voltando de uma festa, Bira sofreu um acidente ao atravessar um sinal que ele jurava estar aberto; o motorista e os passageiros do ônibus que colidiu com o Belair diziam que o sinal estava sim aberto, mas para o  ônibus.  Felizmente ninguém se machucou, mas o carro ficou de tal forma danificado que o reparo se tornou inviável.

Este incidente azedou bastante o relacionamento entre Bira e papai, que ficou uma fera com o prejuízo – o carro não tinha seguro, aliás nem sei se alguém fazia este tipo de seguro na época – e só voltou a comprar outro veículo em 1971. Mas isto é outra história…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (3)

O dia 31/03/1964 marcou o início do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e implantou no Brasil um regime autoritário que durou quase 21 anos. A quem estiver interessado em saber mais sobre o que se passou nestes anos, recomendo a leitura da monumental obra de Elio Gaspari, composta (até o  momento) de duas partes: “As Ilusões Armadas” (dois volumes:  “A Ditadura Envergonhada” e “A Ditadura Escancarada”) e “O Sacerdote e o Feiticeiro” (dois volumes: “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”). Mas o que interessa no momento  é dizer que o golpe começou em Minas Gerais, quando o  General Olympio Mourão Filho se declarou rebelado contra o governo federal e partiu com sua tropa de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.

Para mamãe e eu 31/03 foi muito divertido. Recém-chegados à Belo Horizonte, e completamente alheios à política, aproveitamos o dia  para conhecer a cidade. Passeamos pelo centro, explorando o território, conhecendo e admirando as lojas afamadas, admirando a quantidade de cinemas e a variedade de filmes em cartaz.

Naquela época, eu acompanhava mamãe de bom grado em suas compras; hoje tenho verdadeiro horror a entrar em uma loja para olhar as mercadorias. É que, como escreveram João Bosco e Aldir Blanc, “Na idade em que estou / Aparecem tiques, as manias / Transparentes, transparentes / Feito bijuterias / Pelas vitrines, / Da Sloper da alma”. Aliás, a Casa Sloper deve ter sido uma das lojas que visitamos então.

Confesso que não recordo com exatidão onde fomos naquele dia há 48 anos. Mas é possível dizer onde poderíamos ter ido, com base em minhas lembranças sobre os lugares onde costumávamos ir. Poderíamos, por exemplo, ter almoçado no Restaurante Giratório, que ficava no Edifício Helena Passig na Praça Sete. Neste restaurante as mesas ficavam sobre uma esteira, como estas de bagagem que se vê nos aeroportos. A esteira girava lentamente; uma volta levava mais ou menos o tempo de uma refeição e eu, creio que como todas as crianças de Belo Horizonte, achava aquele restaurante sensacional! Ou, invés de almoçar, poderíamos ter feito uma refeição mais leve nas Lojas Americanas, cuja lanchonete era famosa pelos ótimos sanduíches, o bolo com sorvete e um prato que só nos animamos a pedir depois de muitas semanas de ensaio e hesitação. Era o tal de “waffle”, palavra que nem eu nem mamãe sabíamos como pronunciar; hesitávamos entre “uáfle”, “váfle” ou “uáfelê” e não queríamos passar recibo de nossa ignorância interiorana. O assunto só foi esclarecido quando meu irmão, que já tinha estudado inglês, nos explicou que o certo era “uáfol” ou “uófol”.

Seja  como for, só chegamos em casa no final da tarde. Ao passarmos pela Mercearia  Bandeirante notamos algo de estranho: as prateleiras estavam vazias. Não havia mais nada para comprar: nem arroz, nem feijão, nem óleo, nem açúcar, nada mesmo! É que a população, alarmada com o cenário que se desenhava, havia feito um estoque de gêneros de primeira necessidade, que certamente iriam faltar se houvesse uma guerra civil, uma possibilidade real naqueles dias conturbados. Quando entramos no apartamento, papai nos recebeu muito nervoso, pois só conseguira encontrar na mercearia um quilo de farinha de milho e uma lata de óleo; era este nosso estoque de alimentos para enfrentar as agruras da guerra civil…

No dia seguinte fui visitar minha professora, D. Olga – sobre a qual já escrevi no “post” anterior –  e lá estava quando chegou seu irmão. Ele usava uma braçadeira amarela com um triângulo vermelho                     e relatou orgulhoso que havia se alistado como voluntário para lutar na defesa de Minas Gerais. Nunca vi isto mencionado em qualquer livro ou artigo sobre o movimento de 64, e já procurei várias vezes  na internet, sem sucesso, mas afirmo: chegou a haver alistamento de voluntários em Belo Horizonte, prevendo a eventualidade de uma luta prolongada contra o governo federal.

Feliz ou infelizmente (depende do ponto de vista de cada um)  o “dispositivo militar” de Jango mostrou-se tão real quanto a mula sem-cabeça e não houve qualquer guerra, batalha ou escaramuça entre rebelados e legalistas.

Em casa, a farinha de milho e o óleo foram consumidos em clima de paz, e a vida seguiu normalmente em Belo Horizonte. Até que papai comprou um carro…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (2)

Em 1964 entrei no segundo ano do curso primário no Grupo Escolar Pandiá Calógeras, que ficava a uns 500 metros de casa. Minha professora chamava-se D. Olga Bookmayer; era ainda bastante jovem e morava com a família no mesmo prédio onde morávamos. Tinha muita paciência com a criançada e de vez en quando eu batia em sua porta para perguntar sobre alguma coisa que não havia entendido; ela sempre atendia com boa vontade, apesar disto não fazer parte de suas obrigações.

Fiz também o terceiro e o quarto anos do primário no Pandiá Calógeras. No terceiro ano a professora se chamava D. Nelize; era uma senhora já de certa idade, muito respeitada por todos e considerada como uma das melhores professoras da escola, como de fato era.  No quarto ano tive também uma excelente professora, cujo nome completo nunca me saiu da memória justamente por ser tão pouco comum: Denderah Haydée dos Santos. D. Denderah  teria então seus 30 e poucos anos e, ao que me lembre, era solteira – assim como D. Nelize.

Já que estou lembrando de minhas professoras no curso primário, não posso deixar de mencionar a saudosa D. Natal, do primeiro ano, no Grupo Escolar Monsenhor José Paulino, em Pouso Alegre. Já adulto e formado havia tempos como engenheiro, tive a oportunidade de visitá-la. Bastante idosa, porém completamente lúcida, ficou muito alegre com minha visita – tinha notícias minhas através de mamãe, porém não havia me encontrado pessoalmente desde meus tempos de menino – e não tive dúvidas de que D. Natal realmente se sentia feliz quando via um ex-aluno bem e tinha consciência da importância do trabalho que realizara com excelência por tanta décadas.

Voltando ao fio da meada, recordo que sempre tive aulas de manhã. Acordava cedo e quase sempre ia para a escola a pé. Aquele trecho da Olegário Maciel era praticamente desabitado; do lado direito para quem subia havia um ou outro prédio residencial, de três ou quatro andares, e do lado esquerdo, entre a Faculdade de Farmácia e o Grupo Escolar eram só terrenos baldios.

O ensino no Pandiá era muito bom e quem não tirasse a nota mínima requerida levava bomba. Não sei se ainda se usa esta expressão, portanto esclareço: isto não quer dizer que o aluno fosse explodido; ele simplesmente tinha que repetir o ano. Não havia ainda a obrigação de preservar a auto-estima da criança e do adolescente,  de modo que desde pequeno aprendia-se que sem esforço não se chega a nenhum resultado. Em compensação, não se saía da escola semi-analfabeto…

O ano de 1964 foi marcante para a história do Brasil. E tudo começou em Belo Horizonte…

continua…

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (1)

Meu pai era bancário, contador da agência do Banco Mineiro da Produção em Pouso Alegre,  naquela época uma sonolenta cidadezinha do sul de Minas. Creio que no final de 1963 ele foi transferido para a matriz do banco, e por isto em fevereiro de 1964 mudamos para Belo Horizonte. 

A população de Belo Horizonte saltou de 700.000 habitantes em 1960 para 1200000 em 1970, de modo que no início de 1964 deveria estar em torno de 850000 pessoas. Uma cidade gigantesca para mim,  um autêntico “caipira” que nunca havia se afastado mais do que 50 km de Pouso Alegre.

E eu achava tudo o que via novo e surpreendente. Que prédios altos,  com tantos andares! E com elevador, que me parecia a maravilha das maravilhas! Encantavam-me as ruas largas e arborizadas,  pelas quais circulavam tantos ônibus e trólebus, o tráfego fluindo conforme o apagar e acender das luzes coloridas dos semáforos. Era uma experiência nova fazer compras na Mercearia Bandeirantes, onde a gente mesmo pegava as mercadorias nas prateleiras e depois pagava no caixa – tão diferente do armazém do “seu” Sílvio em Pouso Alegre.

Adorei a mudança e em poucas semanas estava adaptado à cidade grande e começava a perder o sotaque; depois de alguns meses,  já não provocava mais estranheza nem comentários e piadinhas quando falava a palavra “porta”.

Ficamos em Belo Horizonte por quase sete anos – mais exatamente seis anos, dez meses e vinte e um dias.  Nesses anos, cursei o segunda, terceira e quarta séries  do curso primário e os quatro anos do ginásio, sempre em escolas públicas. Nelas o ensino era EXCELENTE  e totalmente gratuito.

O apartamento onde morávamos era no terceiro e penúltimo andar de um  edifício que ficava na esquina da Rua Santa Catarina com a Rua Felipe dos Santos. Seguindo um quarteirão pela Rua Santa Catarina chegava-se à Avenida do Contorno; subindo um quarteirão pela Rua Felipe dos Santos alcançava-se a Avenida Olegário Maciel.

Além do nosso, havia mais uma meia dúzia de prédios, todos com no máximo quatro andares. As demais  construções eram casas, das quais umas poucas seriam mais apropriadamente chamadas de mansões. Lembro-me especificamente de uma casa, situada na Rua Santa Catarina, que ficava no meio de um bem cuidado jardim; pertencia a um médico famoso e lembrava uma mansão inglesa como as que se vê no cinema.

Eu já havia feito o primeiro ano primário em Pouso Alegre, e fui matriculado no segundo ano do então Grupo Escolar Pandiá Calógeras.

continua…