DONA ZÉLIA

Se ainda estivesse viva, minha mãe, Otávia Zélia Vieira de Azevedo, teria feito 100 anos em 12/09/2017. Mas há 11 anos ela faleceu, poucos dias antes de completar 89 anos. Sinto muita saudade de D. Zélia, mas tenho plena confiança de que a Fé que sempre orientou seu caminho neste mundo ilumina a jornada de seu espírito no outro.

Quando penso nos acontecimentos que cercam sua vida, tenho a nítida impressão de que entrevejo o que chamaria de “flashbacks” sobre a história do século XX. Percebo como o estar no mundo é uma aventura fugaz, mas ao mesmo tempo única em seu significado para nós e para aqueles que conosco se relacionam.

Se, em um sentido cósmico “life is but a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”, em um sentido humano e restrito  a vida é uma estória que contamos e à qual procuramos atribuir um significado da melhor maneira que nos é possível.

Mamãe nasceu em 12/09/1917, filha de Renê Vieira e Otília Lores Vieira. Renê era natural de Guaranésia, MG e advogado por profissão; Otília era natural de Jacutinga, MG . Era filha de Antonio Marcos, tabelião da pequena cidade, e Manoelita.

Renê e Otília tiveram muitos filhos. Alguns morreram ainda na infância, como era comum naquela época, na qual a mortalidade infantil era próxima de 50%. Valia a lei da sobrevivência dos mais fortes, e mamãe e mais quatro irmãos conseguiram a proeza de chegar à idade adulta.

Renê morreu muito jovem, deixando Otília com cinco filhos para criar, o que mesmo naquela época não era fácil. Uma das irmãs de Otília, de nome Maria Esméria, era casada com um abastado fazendeiro e comprador de café,  e o casal não tinha filhos. Assim, mamãe foi “adotada” informalmente por sua tia e passou a viver na casa dela, com o conforto e as benesses que a riqueza proporciona.

Naquela época Pereira (este era o nome de seu “pai adotivo”), que a considerava como filha, estava no auge de sua riqueza e a família viajava com frequência para São Paulo; quando em Jacutinga, desfilavam em um dos poucos automóveis da cidade, naturalmente um Ford-T. Como era costume para as moças de famílias endinheiradas, mamãe começou a aprender piano ainda criança. Não era uma virtuose, mas tocava razoavelmente. Até o fim da vida se distraía tocando músicas como La Cumparsita, Las Golondrinas, e outros tangos e boleros antigos

A vida confortável acabou em 1929, com a Grande Depressão. Como muitos outros homens cuja fortuna estava ligada ao café, Pereira perdeu absolutamente tudo o que possuía; foram-se as fazendas, a empresa comercial e, por fim, a própria casa. Terminou seus dias morando de favor na casa de sua sogra, Manoelita – a matriarca da família Lores, que todos que a conheceram diziam ter  sido uma mulher sábia e bondosa. Amargurado com o desastre financeiro, Pereira faleceu poucos meses depois, com uma infecção generalizada; provavelmente, a tristeza e a depressão minaram a resistência de seu organismo e um pequeno tumor lancetado pelo farmacêutico foi o suficiente para causar sua morte.

 

Mamãe era estudiosa e responsável e mesmo diante de todas as dificuldades manteve o foco nos estudos, preparando-se para exercer a única profissão aberta às mulheres naquele início do século XX: o magistério. Ela não se considerava inteligente (mas era) e para compensar a suposta limitação, dedicava-se ao estudo de forma quase  obsessiva. Em 1934 diplomou-se professora na Escola Normal de Santa Rita do Sapucaí; enquanto estudava em Santa Rita, morou na casa de sua tia Rita Lores Bruce (Tia Nini), casada com o professor Samuel Bruce, com quem gerações de santa-ritenses tiveram aulas de português, latim ou francês no Instituto Moderno de Educação e Ensino, localizado onde hoje se situa o INATEL. Entre 1935 e 1963 mamãe foi professora; lecionou em Santa Rita, em Pouso Alegre, em Jacutinga, em Campestre, e outras cidades. Depois de casada, sua renda era importante para a manutenção da família, até que papai se firmasse na carreira de gestor e executivo em seu trabalho.

Mamãe adorava ensinar e foi uma ótima professora. Nunca fui seu aluno em um curso regular, mas quando terminei o curso primário ela mesma preparou a mim e a um amigo para o exame de admissão, que era então requerido para ingressar no Ginásio. Tive a oportunidade de ver em primeira mão como ela sabia explicar bem as matérias, como sua didática era perfeita e como era bem preparada para o trabalho que exercera por quase três décadas.

Lecionava em Santa Rita do Sapucaí quando conheceu meu pai, durante uma visita a sua amiga Marisa, filha de Cincinato e Anália. Cincinato era tio materno de papai. Minha avó paterna, Josefa, faleceu em 1913 com apenas 33 anos. Incrivelmente, isto não constituía uma exceção; no início do século XX a expectativa de vida ao nascer era de 29 anos para os homens e 33 anos para as mulheres!

Depois de alguns anos de namoro, casou-se com João Batista de Azevedo em 15/07/1941. A primeira filha, Marilena,  veio em 42; dois anos depois, em 1944  chegou meu saudoso irmão Ubiratan. Eu fui a “rapa do tacho”, nascido em 1956.

Mamãe era uma pessoa sentimental, muito sensível, que se comovia até as lágrimas com livros, filmes e novelas; ela sonhava o casamento como um desdobrar de uma paixão infinita. Papai, ao contrário, era um homem extremamente racional, prático e lógico; para ele o casamento era um contrato com a finalidade de perpetuar a espécie e fornecer certa estabilidade na vida rotineira das partes.

Talvez por isto. o casamento de Zélia e João foi apenas relativamente feliz. Longe de um mar de rosas, mas também muito distante de um inferno. Ambos eram pessoas educadas e nunca presenciei entre os dois uma briga realmente séria , agressões verbais, gritos, palavrões e muitos menos uma agressão física. Isto seria inconcebível para qualquer um deles. Mamãe acreditava sinceramente que a mulher devia ser submissa ao marido; a ideia de uma separação era absoluta, total e completamente inadmissível. Assim, estiveram casados por 54 anos.

Mamãe tinha alguns problemas de saúde. Sofreu durante muitos anos com asma; cheguei a ver alguns ataques, mas depois de nossa mudança para Belo Horizonte as crises foram se tornando mais espaçadas e finalmente desapareceram. Nos últimos anos de sua vida, sofreu bastante com o reumatismo e se locomovia com grande dificuldade, amparada em um andador.

Extremamente religiosa, aceitava com plena convicção a doutrina do catolicismo romano. Foi durante muitos anos participante da Legião de Maria. Quando a idade não lhe permitiu mais sair de casa, costumava rezar durante horas todos os dias e suas leituras eram quase que totalmente circunscritas â literatura religiosa católica.

Permaneceu lúcida até as últimas semanas de sua vida. Com 88 anos já completos, gostava de ler, assistir televisão e conversar sobre os acontecimentos da atualidade. Em seus últimos anos recebeu o cuidado devotado de minha irmã, Marilena. Faleceu em 4/9/2006, após uma semana de hospitalização.

 

Mamãe era uma representante perfeita de uma época que, para o bem ou para o mal, passou. Naquela época havia poucas dúvidas e muitas certezas:

1         sobre o certo / errado e o bem / mal

a. o certo é o que está de acordo com o ensinamento da Igreja (quase sempre a católica); o errado é o que contraria este ensinamento;

b. a religião (quase sempre a católica) é essencial para o ser humano e deve ser ensinada aos filhos; ir a missa aos domingos, fazer a primeira comunhão, rezar antes de dormir e ao levantar-se; confessar e comungar com regularidade é uma obrigação, não uma opção;

c. o pecado conduz ao inferno.
2         sobre os comportamentos socialmente adequados

a. respeitar os mais velhos;

b. dizer “obrigado”, “por Favor”, “com licença”, “desculpe” quando a situação o exige;

c. o seu direito termina onde começa o do outro;

d. não faça ou diga gratuitamente coisas que ofendam, humilhem, entristeçam, aborreçam outras pessoas.

3         sobre a educação dos filhos

a. os filhos devem obedecer e respeitar os pais; desde pequenos deve ter horários, tarefas e responsabilidades;

b. umas palmadas (não espancamentos) quando necessário são um poderoso auxiliar na educação;

c.cada um é responsável por tornar-se “alguém” na vida; para isto você tem que estudar, esforçar-se e lutar para conseguir o que quer; os pais podem ajudar, mas você e responsável por sua vida;

d. se você não aprender o que os pais tentam ensinar-lhe com amor, a vida vai lhe ensinar da pior maneira possível.

4         sobre a família

a. o homem é o chefe da família e como tal deve ser respeitado e ter suas decisões acatadas;

b. o homem é essencialmente o provedor; a educação dos filhos está mais a cargo da mãe;

c. o casamento é indissolúvel.
5         sobre o sexo

a. a mulher deve se casar virgem;

b. ao homem permite-se o sexo casual;

c. o homossexualismo é um pecado; que o pecador ao menos seja discreto.

DELENDUS EST TEMER

A Rede Globo está em campanha aberta para tirar Michel Temer da Presidência da República. Isto fica muito evidente quando se acompanham as edições do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do país.  O alcance e a credibilidade do Jornal Nacional para uma parcela significativa do povo brasileiro, o tornam uma poderosíssima ferramenta para manipular a realidade e influenciar a opinião pública.

É claro que a empresa tem bons jornalistas, que estão sempre buscando a notícia, mas a história (e.g. Campanha pelas Diretas-Já em 1984, debate Lula x Collor em 1989) tem demonstrado que, quando se trata de assunto relevante para a empresa,  o quê vai ao ar e como vai ao ar é definido pela Alta Direção.

Que existem acusações de que Michel Temer é um político corrupto, habituado às piores práticas da política brasileira e cúmplice de Eduardo Cunha em vários negócios escusos, isto até as pedras da Praça dos Três Poderes sabem. Mas corruptos ocupando cargos importantes, e até mesmo a Presidência da República, já houve antes, e nem por isto a Globo demonstrou contra eles este fervor missionário com que se dedica a destroçar o  governo Temer.

O que tem me intrigado é porque a Rede Globo está fazendo isto. Algum motivo deve haver, pois como se sabe, a empresa “não dá ponto sem nó”. Imaginei alguns cenários possíveis se Temer deixasse a presidência, seja por impeachment, seja por renúncia. Para esboçar estes cenários, estou partindo de duas premissas:

1)      Um golpe militar ou parlamentar (e. g. instalação de um parlamentarismo de emergência, como em 1961) enfrentará fortíssima resistência da esquerda, que contará com o “exército de Stedile”, possivelmente apoiado pelos vizinhos bolivarianos e, muito provavelmente, milícias armadas compostas de integrantes do crime organizado, a exemplo do que ocorreu na Colômbia. Assim, desta vez, um golpe contra a esquerda não ocorrerá praticamente sem derramamento de sangue, como em 1964; levará o país a uma guerra civil.

2)      Candidatos declarados ou com ambições presidenciais são, neste momento,  Ciro Gomes, Álvaro Dias, Jair Bolsonaro, João Doria Jr., Geraldo Alckmin e Marina Silva.    Caso Lula não seja candidato em 2018, a maioria da esquerda apoiará Ciro Gomes.

A partir destas premissas, coloco os diversos cenários, divididos em três grupos.

Primeiro grupo: Não há eleições em 2018.

  1. Uma junta militar, no melhor estilo latino-americano, assume o poder e inicia uma perseguição sem tréguas à esquerda.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: As Forças Armadas estão bastante profissionalizadas, e a impressão que se tem é de que não existe um consenso entre os militares para iniciar uma revolta, e muitos menos a figura de um líder para comandá-la. O que há são manifestações esporádicas de saudosistas do governo militar, de oficiais subalternos e de generais de pijama.
    3. Conclusão: Guerra civil.
  2. Partidos de direita (ou de esquerda) convocam uma gigantesca manifestação popular (pelo menos tão grande quanto a Parada Gay em São Paulo ou o carnaval em Salvador); 2.000.000 de brasileiros marcham sobre Brasília e cercam o Congresso Nacional, forçando os deputados e senadores a votar pelas eleições diretas.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: O povo brasileiro, de um modo geral, não está disposto a participar de manifestações de rua e nem a esquerda nem a direita tem hoje lideranças capazes e/ou dispostas a organizar um movimento popular contra o regime.
    3. Conclusão: Confrontos graves entre manifestantes de direita e esquerda; possível escalada do conflito para uma guerra civil.
  3. O Congresso, por acordo político, decide pelas Diretas Já.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: A ideia não prospera no Congresso, onde seria necessário o apoio de 3/5 dos deputados e senadores para sua aprovação, visto que requer alteração do artigo 81 da CF. Além disto, há discussão sobre se o estabelecido no artigo 81 é ou não uma cláusula pétrea, pois é possível argumentar que alterar este artigo fere o disposto no parágrafo 4 do artigo 60. Com certeza, o tempo para resolver a questão judicial é maior que o prazo até as eleições.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.
  4. O Congresso, por acordo político, decide adiar as eleições para 2020, a pretexto de coincidência de todos os mandatos.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: Mesmo do cenário C. Nem o regime militar chegou a usar a “coincidência de mandatos” como argumento para aumentar a duração dos mandatos de deputados e senadores; no Pacote de Abril de 1977 reduziu os mandatos de vereadores e prefeitos.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.

Segundo Grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula é candidato.

  1. Lula vence no primeiro turno.
    1. Probabilidade: Pequena.
    2. Racional: Lula tem alto índice de rejeição. Nas eleições de 2016 o PT foi massacrado nas urnas, e também parece ter alto índice de rejeição. Hoje Lula não tem mais votos para vencer no primeiro turno.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Convocação de uma Assembleia Constituinte; nova constituição estabelece a República Popular do Brasil, que se torna, progressivamente, um regime de partido único; os meios de comunicação passam a ser controlados pelo Estado.
  2. Lula vai para o segundo turno contra qualquer um dos candidatos listados, exceto Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Nenhum dos candidatos tem projeção nacional. Álvaro Dias, Doria e  Alckmin são candidatos regionais; no primeiro debate, Bolsonaro demonstrará seu completo despreparo para governar o Brasil e perderá apoio de parcela significativa da classe média; Alckmin não tem o menor carisma; Doria passa a imagem do “gestor” quando o que o povo quer é um “líder” e a imagem de honesto será muito questionada em função de sua passagem pela Embratur; Marina não consegue explicar a que veio e, além disto, depois do desastre “Dilma” uma mulher não tem a mínima chance na próxima eleição. Álvaro Dias pode ser a surpresa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta.
  3. Lula vai para o segundo turno contra Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Pelo quadro atual, Ciro Gomes é disparado o candidato mais preparado e pelo visto vem se preparando a anos. Não tem um único processo contra ele nos seus 38 anos de política, desistiu de aposentadorias no valor de R$82.000,00 a que teria direito legal e é conhecido nacionalmente, por já ter sido candidato à presidência. Mas numa eventual disputa com Lula, Ciro terá o voto da classe média (pois é mais “coxinha”) e Lula atrairá o voto dos mais pobres (pois é mais “mortadela”). Como há muito mais brasileiros de baixa renda e baixa escolaridade do que brasileiros de alta renda e alta escolaridade, Lula vence a disputa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta do que no cenário acima, pois Ciro Gomes tentará se firmar como a alternativa para evitar que o PT atinja seus objetivos.

Terceiro grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula não é candidato.

 

  1. Ciro Gomes vence as eleições.
    1. Probabilidade: média.
    2. Racional: Ciro Gomes vai se revelar como o mais bem preparado dos candidatos, projetando a imagem de um candidato experiente, honesto e profundo conhecedor dos problemas brasileiros; venderá ainda a ideia de que é o único que tem um projeto para o Brasil alternativo ao de Lula e do PT e sem a mancha da corrupção.
    3. Conclusão: O Brasil terá um governo de esquerda moderada.

Espero que a maioria dos leitores considere que minha descrição acima é uma avaliação relativamente fiel do que poderá acontecer no Brasil nos próximos meses.

Se isto for verdade,  voltando à questão original, qual o interesse da Globo na destruição do governo Temer? Oque ela tem a ganhar em qualquer destes cenários?

SOBRE O LIVRO “JESUS HISTÓRICO E OUTROS ENSAIOS”

Esta é uma apresentação sobre o livro “Jesus Histórico e Outros Ensaios”, na qual menciono as versões disponíveis e comento cada um dos cinco ensaios apresentados no livro.

https://1drv.ms/p/s!AkSwEbk18YAdgpIMFLGn_1V_Zpd50A

 

 

 

 


 

Todos Contra Todos

Esta semana terminei a leitura de “Todos Contra Todos: o ódio nosso de cada dia”, livro recentemente lançado pelo historiador e professor da Universidade de Campinas, Leandro Karnal. A seguir os pontos que me pareceram mais relevantes.

Ao longo de nove capítulos o autor procura desmontar o mito do “homem  cordial”, passado de geração a geração como parte da história oficial do Brasil, analisar a questão do ódio que sempre permeou a relação entre os homens, e questionar os efeitos e os perigos da intensa polarização que se pode observar na política brasileira atualmente.

Já no primeiro paragrafo do livro, Karnal coloca em xeque a visão da história que nos é ensinada desde os bancos escolares.  Escreve ele: ”O quadro pintado é idílico. Somos uma terra sem terremotos e furacões. Sem guerras civis nem fundamentalismos extremados que levam a genocídios. Somos pacíficos. Não violentos. Não somos agressivos. Não odiamos. Não somos preconceituosos. Não somos racistas. Esse quadro não resiste ao teste da história.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 160-162). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Enquanto a libertação dos escravos nos Estados Unidos provocou uma guerra civil que, de acordo com as melhores estimativas, custou a vida de 1.030.000 pessoas (3% da população daquele país na época), por aqui bastou a assinatura de uma lei pela princesa Izabel. Segundo a história oficial nunca houve guerra civil nestas terras, ignorando as inúmeras revoltas e convulsões internas que ocorreram durante o Império e a República. Para lembrar algumas destas lutas internas: Cabanada (1835-1840, Pará), Sabinada (1837-1838, Bahia), Balaiada (1838-1841, Maranhão), Revolução Farroupilha (1835-1845, Rio Grande do Sul), a revolta de Canudos(1896-1897, Bahia), a revolta do Contestado (1912-1916, Paraná / Santa Catarina), a Revolução de 32, etc. Ou seja, temos uma história pontuada por lutas internas.

A ideia do brasileiro como “homem cordial” foi difundida   e incorporou-se ao imaginário popular com um sentido bem diferente daquele que Sergio Buarque de Hollanda lhe emprestava em “Raízes do Brasil”. Aquele autor queria dizer que o homem cordial age guiado pelas emoções, que tanto podem ser positivas como negativas.

Após discutir  o mito da não violência, Karnal propõe uma interessante discussão sobre a tendência de diminuirmos e piorarmos os fatos históricos, tomando como exemplo a ideia recorrente de que fomos colonizados por degredados e gente da pior espécie, que Portugal enviava para o Brasil. Na realidade, vieram para o Brasil pessoas de todas a classes sociais,  inclusive bacharéis, professores e intelectuais.

De forma semelhante, Karnal questiona o mito de  que não somos racistas, mostrando que o racismo no Brasil existe e  assume a forma insidiosa de uma prática social que faz com que suas vítimas se sintam elas mesmas inferiores e, portanto, aceitem as praticas racistas como naturais, ou seja, “conheçam o seu lugar”.

Concluindo que somos, ao contrário da imagem que fazemos de nós mesmos, um povo  violento, racista, preconceituoso e que sente ódio. Karnal faz uma longa análise sobre a questão do sentimento de ódio, suas bases psicológicas e seu uso político. A questão do preconceito contra mulheres, negros, homossexuais é apresentada. Diz o autor:” Mas não posso dizer que negros são inferiores, porque, além de obviamente ser falso e de ser uma idiotice, essa é uma maneira de incitar o ódio. [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 612-613). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

E continua adiante: “Não tenho direito ao preconceito. Isso não só tem que ser reprimido como criminalizado para que as pessoas entendam que racismo, misoginia, homofobia ou demofobia (desconfiança do povo), todos constituem gestos de ódio. Esse gesto de ódio institui a violência real.”[Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 619-621). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Neste ponto tem-se a impressão de que Karnal gostaria que qualquer manifestação de preconceito fosse proibida, ou criminalizada. A questão que se coloca é como definir exatamente o que é preconceito, quando ele se transforma em discurso de ódio e até que ponto deve a liberdade de expressão ser restringida para combater o preconceito e seus derivados. Um destes subprodutos do preconceito é o  chamado  discurso do ódio (em inglês, “hate speech”). O discurso do ódio, é aquele que visa a disseminar e promover o ódio em  função  da  raça,  religião,  etnia, nacionalidade, gênero, orientação  sexual,  etc.

A Constituição de 1988 não menciona os crimes de ódio e requer apenas a criminalização da prática do racismo. Não há qualquer restrição à expressão do discurso do ódio que possa ser imposta com base na Constituição; casos concretos devem ser levados à justiça. E de certa forma é bom que assim seja, pois quando se inicia um processo de restringir a  liberdade de expressão não se sabe onde ele vai parar.

Darei três exemplos para que o leitor analise o que deveria ser feito em cada caso.

1)      O livro “The Bell Curve”, de autoria de Richard Herrnstein e Charles Murray, dois professores da renomada Universidade de Harvard, publicado em 1994, traz os resultados de um amplo estudo que, segundo os autores, comprova que os negros tem o quociente de inteligência menor  que o dos brancos. (Para verificar porque todas as conclusões apresentadas neste livro são falsas, veja este documento e as referências nele citadas. Para uma discussão mais ampla sobre o mau uso da ciência a favor do racismo e do preconceito,  leia “The Mismeasure of Man” de Stephen Jay Gould.)

2)      A assembleia anual de uma denominação cristã fundamentalista divulga a seus 2.000.000 de membros um documento que condena severamente o homossexualismo, afirmando com base em Ro 1:25-32  que: (a) a prática de atos homossexuais representa uma condenação certa ao inferno; (b)  o que se pode esperar dos que praticam tais atos é “injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade”, e; (c) essas pessoas são “murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia.”

3)      Uma comunidade de índios do grupo étnico conhecido como hopi deixa o Arizona e adquire uma área no Pará. Constatando que os habitantes recém chegados vivem sob um regime matriarcal, um jornal de Belém decide fazer uma campanha incitando os homens deste grupo a “tomarem uma atitude de macho” e acabarem com o domínio das  mulheres.

 

Há uma ampla discussão sobre amor, ódio,  inveja, cristianismo, xenofobia, etc. É de notar-se a afirmação de Karnal  a respeito das utopias: “Sejam quais forem os projetos utópicos de melhoria da sociedade, essa sociedade provoca uma impressionante quantidade de mortes.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1007). Leya Brasil. Edição do Kindle.] De fato, quando um líder começa a falar sobre “a construção do homem novo”, “nova sociedade”, “revolução cultural” e que tais, o que vem a seguir é com certeza o totalitarismo e derramamento de sangue em quantidades espantosas. Foi assim na Russia de Stalin, na Alemanha de Hitler e na China de Mao; será assim em qualquer país que tente mudar a natureza humana pela força.

Chegamos assim à conclusão do livro, onde Karnal analisa a influência das redes sociais, a atual polarização da discussão política e explica os fenômenos que diferenciam  a consciência política e a vontade de participação manifestada pelos eleitores atualmente em relação ao passado.

Algumas citações do autor: “Desde a última eleição presidencial, em 2014, passando pelo processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff até as crises do governo Michel Temer, somos invadidos, via internet, por textos duros, ataques de lado a lado, análises corrosivas, escárnio e agressão verbal. O Brasil descobriu-se raivoso na política, exibindo uma inquietante carga de ódio que fluiu pela rede.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1244-1247). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Qualquer pessoa que acompanha os posts sobre política percebe isso. O ódio escorre pelas telas do Facebook; não há mais adversários políticos, apenas inimigos em um confronto cósmico entre o Bem e o Mal. Cada um dos lados se considera a encarnação de tudo o que é bom, limpo, decente, democrático, enquanto o outro lado é demonizado. Os comentários não raro se desviam para a grosseria pura e simples. Como exemplo, dois comentários colhidos ao acaso sobre pronunciamentos da senadora Gleise Hoffmann:

“Essa mulher precisa um pau no rabo acho bonito ela fala classe rica ela é uma pobre coitada rouba os aposentados é vem querer senta no rabo pra falar dos outros vai a merda piranha”

“Cala a boca sua vaca quem quebrou o brasil ,aposentados,escolas,hospitais foram voces os politicos e o partido do PT.NOJENTA EGUA CALA A BOCA VA LAVAR ESSA BOCA IMUNDA”

Conforme bem assinala Karnal, retornamos ao clima que antecedeu a intervenção militar de 1964: ”A partir daquele momento, houve uma regra ressuscitada na Era Dilma: “Não apenas me oponho a você, mas você é o obstáculo para o progresso brasileiro.” Ou: “O Brasil seria um bom lugar se você não existisse.” Daí cresce o ódio diante das mazelas políticas, porque interpreto que tudo de ruim que ocorre no Brasil nasce do outro.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1266-1269). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Um momento delicado, mas o que se vê no debate político, tanto no Congresso como nos partidos, tanto nas organizações patronais como nos sindicatos, nas universidades e na sociedade como um todo é uma troca de acusações mútuas e ofensas. O debate tornou-se completamente polarizado. E Karnal aponta com muita propriedade: “O problema da polarização é que ela não pensa. A polarização adjetiva. No momento que eu digo que você é petralha ou coxinha, deixo de pensá-lo como um ser humano dialético, contraditório, orgânico, em evolução, e paro de discutir as suas ideias e apenas o rotulo.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1288-1290). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Por outro lado, os acontecimentos dos últimos anos demonstraram de forma cabal a verdadeira natureza da política. Aqui, como em qualquer outro lugar do mundo, o exercício da política não tem como determinante exclusivo ou mesmo principal a busca do bem comum. Passado o discurso eleitoral, política é o controle do estado para o benefício de determinados grupos. Mas no Brasil este processo atingiu um grau de exacerbação e imeddiatismo que leva o autor a afirmar: “Mas a corrupção é institucional e endêmica. Portanto, não seria a solução a queda de uma pessoa para resolver o problema da corrupção.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1275-1276). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Então há hoje uma percepção clara por parte da sociedade de que é preciso tornar o estado mais eficiente e mais voltado para o bem comum. Segundo Karnal: “Então, em parte, todo esse debate é sobre uma tentativa de criar o que não existe: que é a política coletiva, do bem comum, administradora da maioria, um projeto de Estado, e não um projeto de governo. Esse é um desejo coletivo neste momento.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1318-1320). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Concordo totalmente com esta colocação e espero que tenhamos como iniciar o processo em 2018. Não fazer isto é caminhar para o desastre…

O ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) E A IDEOLOGIA

Recentemente mencionei em um post do Facebook que ainda  tinha  a esperança de  que algum dia o Brasil se tornasse um país de Primeiro Mundo, especificando entre parênteses que isto seria atingir um IDH similar ao dos Estados Unidos da América.

Esta minha colocação foi criticada por  um amigo esquerdista, que afirmou:

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Com o devido respeito, estes referenciais de “primeiro mundo” não servem para mim. O Brasil não deve ser melhor nem pior do que o país A, B ou C. O Brasil deve ser Brasil. E é justamente por isso que não haverá eleições ano que vem – pois a corrente ideológica, a qual coaduno, que quer o Brasil como Brasil corre o sério “risco” de ganhar as eleições. Golpistas deram o golpe por que querem o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada. Aliás, sempre foi assim, antes de 2002.

Chega a ser impressionante como pessoas com elevado grau de escolaridade  e extremamente cultas tem a capacidade de raciocinar de maneira lógica seriamente prejudicada quando a ideologia se infiltra na discussão

Reconheço que os referenciais Primeiro / Segundo / Terceiro Mundos estão obsoletos, pois o Segundo Mundo, formado pelos países socialistas, desapareceu após a falência da URSS. Parece-me que hoje restam no mundo dois paraísos socialistas: a Coréia do Norte com seu patético culto a uma dinastia de tiranetes ridículos e o esclerosado regime cubano, que sobrevive graça às remessas dos milhares de exilados nos Estados Unidos e às atitudes habituais das ditaduras: partido único, censura à imprensa e prisão de dissidentes, A China é um caso especial: uma ditadura nominalmente comunista, com uma economia de mercado em amplas áreas do país.

Assim, nos dias atuais parece mais adequado agrupar os países de acordo com o Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), um índice que a ONU calcula para 188 países. Utilizando a descrição da própria ONU (veja o site), numa tradução quase literal:

O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado para enfatizar que pessoas e suas capacidades devem ser o critério último para avaliar o desenvolvimento de um país, não apenas o crescimento econômico. O IDH pode ser também usado para questionar a escolha de políticas nacionais, ao mostrar como dois países com o mesmo nível de renda per capita podem ter níveis de desenvolvimento humano diferentes. Estes contrastes podem estimular o debate sobre as prioridades das políticas governamentais,

O IDH é um indicador resumido do nível atingido em dimensões chave do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. A dimensão de saúde é avaliada pela expectativa de vida ao nascer; a dimensão relativa à educação é medida usando a média de anos de escolaridade para adultos com 25 anos ou mais e o número de anos de escolaridade esperados para crianças que estão entrando na escola.  A dimensão relativa ao padrão de vida é medida pela renda nacional bruta per capita; o IDH usa o logaritmo da renda, para refletir a diminuição da importância deste fator à medida que a renda nacional aumenta. Os escores destes três índices são agregados em um índice composto usando a média geométrica.

 A tabela abaixo mostra a evolução do IDH para alguns países: USA, Chile. Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai desde 1990, quando o índice começou a ser apurado (entre colchetes a posição no ranking em 2015).

USA [10] CHI [38] ARG [45] URU [54] BRA[79] PAR [110]
1990 0,860 0,700 0,705 0,692 0,611 0,580
2000 0,884 0,761 0,771 0,742 0,685 0,624
2010 0,910 0,820 0,816 0,780 0,724 0,675
2011 0,913 0,826 0,822 0,784 0,730 0,679
2012 0,915 0,831 0,823 0,788 0,737 0,679
2013 0,916 0,841 0,825 0,791 0,747 0,688
2014 0,918 0,845 0,826 0,794 0,754 0,692
2015 0,920 0,847 0,827 0,795 0,754 0,693

Uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente! Acredito que a quase totalidade dos brasileiros (e dos seres humanos em geral) gostaria que estas condições fizessem parte de sua história de vida.  Neste sentido acho que o Brasil deveria ser governado com o objetivo de ser cada vez melhor, o que se traduz por um IDH crescente, tendendo a aproximar-se do americano.

Há alguns anos a ONU passou a calcular  o IDH ponderado pela desigualdade (hoje há dados para 155 países) e neste ponto é interessante verificar o que ocorre. Vejamos os índices de 2015 para USA. Venezuela e Brasil.

IDH RANK IDH-AD RANK EVAN EE EA RPC
USA 0,920 10 0,796 20 79,2 16,5 13,2 53245
VEN 0,767 71 0,618 82 74,4 14,3 9,4 15129
BRA 0,754 79 0,561 98 74,7 15,2 7,8 14145

Começando pelo Brasil, temos um IDH de 0,754 e ocupamos a 79ª posição no ranking; quando se faz o ajuste pela desigualdade, o IDH-AD é 0,561 e caímos 19 posições, para o 98º lugar. Isto é um reflexo de nossa má distribuição de renda.

Os Estados  Unidos tem um IDH de 0,920 e ocupam o 10º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é 0,796 e o país cai 10 posições, para o 20º lugar no ranking.

A Venezuela tem o IDH de 0,767 e ocupa o 71º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é de 0,618, caindo 11 posições no ranking, para o 82º  lugar.

Portanto, numa primeira aproximação os Estados Unidos e a Venezuela tem aproximadamente o mesmo índice de desigualdade Mas o que é melhor: ser desigual com uma renda per capita de 53000 dólares ou igualmente desigual com uma renda per capita de 15000 dólares?

A mórbida fascinação da esquerda brasileira com o camarada Maduro e a sinistra ditadura que ele tenta implantar na Venezuela mostram claramente quem deseja “o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada” Aliás, sempre foi assim, depois de 2002.

UM MOTIVO PARA ALEGRIA: HÁ UMA AGENDA MÍNIMA

Em 24/06/2017 postei no Facebook um texto com um “emoticom” sorridente, afirmando que estava me sentindo muito feliz e fornecendo logo abaixo uma estranha explicação do motivo de minha alegria:

“Porque hoje no programa “Conversa com Bial” aquele historiador conhecido, Leandro Karnal, meio que confirmou duas ideias que eu já havia articulado nos meus posts e que destaco abaixo em maiúsculas. Escrevi: Então, onde está o verdadeiro problema? Por que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos parece um objetivo inalcançável para o Brasil? A resposta que me parece mais verdadeira é que no Brasil o ESTADO NUNCA REPRESENTOU DE FATO OS INTERESSES DO POVO BRASILEIRO. A representação desses interesses foi sempre parcial e incompleta, seja nos períodos de ditadura, seja nos períodos de maior liberdade democrática.
AO INVÉS DE ESTAR A SERVIÇO DO POVO, empenhado na busca do bem comum, O ESTADO NO BRASIL É, em medida variável ao longo do tempo, UM ENTE QUE SE SERVE DO POVO para perpetuar privilégios, propiciar o enriquecimento ilícito de pessoas desonestas e utilizar o dinheiro público em benefício de interesses particulares.”

Primeiro com o “mensalão”, depois com o escândalo da Petrobrás, agora com o “affair” Temer / JBS, somos bombardeados diariamente com notícias sobre a corrupção desenfreada que se instalou no governo. Sem dúvida isto é motivo de justa indignação para a maioria dos cidadãos brasileiros, gente honesta e trabalhadora, que vê boa parte dos impostos que paga roubados ou simplesmente desperdiçados por um Estado incompetente e corrupto. Mas a corrupção vem sendo tratada de acordo com a lei, desde que se iniciou a histórica operação Lava Jato. Podemos discutir se as punições são muito brandas, se criminosos confessos estão hoje cumprindo prisão domiciliar em mansões hollywoodianas construídas com dinheiro roubado dos cofres públicos, etc. Não sabemos se a Lava Jato sinaliza, de fato, uma nova maneira de fazer política no Brasil, ou se será apenas um caso singular, sem maior impacto sobre o comportamento criminoso de grande parte dos ocupantes de cargos eletivos em nosso país. Mas seja como for, o fato é que NUNCA ANTES na história desta república vimos indivíduos realmente poderosos, tais como deputados, senadores e governadores, atrás das grades, condenados por crimes de corrupção. Até pouco tempo atrás, os donos do poder sentiam-se absolutamente inatingíveis, acima das leis e certos da mais completa impunidade. Hoje um ex-Presidente da República está prestes a ser condenado a 22 anos de prisão! Penso que atualmente os corruptos tem algum receio de, se descobertos, serem punidos – uma absoluta novidade no país.

Creio que a indignação não conduz necessariamente ao ódio. Leva sim ao desejo de justiça, à expectativa de que os culpados sejam processados e punidos de acordo com a lei; eventualmente podemos pleitear leis mais rigorosas, fiscalização mais eficiente da destinação dos recursos públicos e outras medidas que se façam necessárias para combater a corrupção e o desperdício. Tudo isto faz parte do jogo democrático.

Entretanto, nos últimos meses o clima de ódio entre os brasileiros tem aumentado de forma preocupante. Isto fica claramente evidenciado quando se observa a virulência dos comentários postados nas redes sociais, sejam de pessoas comuns, sejam de jornalistas profissionais. A esquerda insufla o ódio ao pregar a divisão do povo brasileiro entre “nós” e “eles”, ao promover manifestações dos “movimentos sociais” que terminam em baderna e vandalismo, ao afirmar que conta com o “exército de Stedile”. Também aumenta a possibilidade do desastre quando uma das sacerdotisas do lulopetismo afirma seu ódio pela classe média, ou quando a deputada petista e evangélica Benedita da Silva derrapa em Hb 9:22 e atropela a um só tempo a lei de Deus e a lei dos homens, conclamando seus partidários à “redenção” através do derramamento de sangue.

A direita não está de forma alguma isenta de culpa. Ela insufla o ódio quando clama abertamente por uma intervenção militar para resolver os problemas na área política, quando promove a execração pública de acusados de algum ilícito antes que os mesmos sejam indiciados, processados, julgados e condenados pela Justiça, quando não condena casos nos quais houve claramente uso excessivo e desnecessário da força por agentes de segurança do Estado.

Tanto a intervenção militar pelo qual clamam alguns direitistas como a “redenção” através do derramamento de sangue, que passa pela cabeça de alguns esquerdistas, terão consequências gravíssimas, que podem incluir vários dos eventos a seguir: fechamento do Congresso, supressão das liberdades e garantias democráticas, manifestações populares terminando em confronto e violência, censura à imprensa, prisão em massa de opositores, tribunais de exceção, execução sumária de opositores, surgimento de milícias armadas e grupos guerrilheiros, imensos prejuízos para a economia, repudio internacional ao Brasil, etc. Enfim, uma lista das desgraças que se abateriam sobre o país numa situação de confronto armado entre a direita e a esquerda é quase interminável.

Pois bem, se admitirmos que o confronto violento não é uma opção, só nos resta o diálogo e o entendimento entre adversários. E quando se tem um adversário e não um inimigo, acaba o jogo de soma zero e é possível o acordo. E o que me deixou alegre e mais otimista com o futuro do Brasil foi constatar que HÁ uma base mínima que pode servir como começo para o entendimento.

Karnal é um historiador de reconhecida competência, um intelectual famoso e um homem de esquerda; eu sou apenas um cidadão comum (para não dizer um “joão-ninguém”) que politicamente se coloca como de direita. No entanto parece que há uma grande similaridade na ideia de que é necessário repensar o Estado para que este represente a nação e sirva ao povo. Quero acreditar que muitas pessoas dignas e honestas, tanto de esquerda como de direita, estejam pensando desta forma e que uma grande renovação do Congresso em 2018 permita que se comece a necessária reconstrução do Estado brasileiro, preservando a democracia e o estado de direito.

O PENSAMENTO DA ESQUERDA

Li recentemente mais uma das obras do eminente teólogo Dr. Augustus Nicodemus Lopes, intitulada “O QUE ESTÃO FAZENDO COM A IGREJA: Ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro” (Editora Mundo Cristão, São Paulo.2008; edição eletrônica: 2013, disponível em www.amazon.com.br). Neste livro o Dr. Augustus Nicodemus, como é mais conhecido, faz uma crítica poderosa ao liberalismo teológico, que tenta conciliar o racionalismo moderno com a teologia ortodoxa das igrejas reformadas.

Em determinado ponto do livro, o autor cita a escritora americana Ann Coulter e seu livro “Godless: The Church of Liberalism” [“Sem Deus: A igreja do liberalismo”].

Ann Coulter é uma republicana conservadora, “advogada, jornalista, colunista de vários periódicos americanos e escritora de sucesso” e “uma crítica mordaz, ferrenha e destemida dos democratas liberais-esquerdistas americanos”.

Estes democratas liberais-esquerdistas dos Estados Unidos constituem o que no Brasil podemos denominar genericamente de esquerda. Ao ler o que Ann Coulter fala sobre o pensamento dos democratas liberais-esquerdistas americanos, vemos que nossa esquerda tem as mesmas ideias e ficamos impressionados com a extensão e profundidade com que a ideologia esquerdista se entranhou no Estado brasileiro.

Vivemos em um país no qual a estrutura do Estado foi completamente dominada pela ideologia da esquerda.

Os itens numerados de 1 a 4 representam as características identificadas por Ann Coulter como típicas da esquerda americana e que estou certo o leitor identificará como presentes na esquerda brasileira também. Em cada um dos itens coloquei comentários que são pertinentes à realidade de nosso pais.

  1. Os esquerdistas são contra a punição de malfeitores, estupradores, assassinos, assaltantes a mão armada e terroristas. Defendem a possibilidade de reabilitação dos piores criminosos mediante a melhoria de sua autoestima, em programas de reabilitação administrados pelo estado e sessões com psicólogos profissionais. Opõem-se à prisão perpétua, à pena de morte e à construção de mais prisões e detenções. São a favor de indultos, de diminuição de pena, para que bandidos perigosos sejam devolvidos à sociedade, pretensamente se reintegrando e se tornando bons cidadãos. Esse poderia ser um dos mandamentos da religião do esquerdismo; “Não punirás o malfeitor.”

    Isto explica, entre outras coisas:
    a) porque a Constituição Federal tem entre suas cláusulas pétreas a proibição da pena de morte e da prisão perpétua;
    b) porque 60000 brasileiros são assassinados todos os anos;
    c) porque uma parricida e matricida fica apenas 12 anos na cadeia;
    d) porque bandidos assassinam policiais sem receio de qualquer represália;
    e) porque o crime organizado controla amplas áreas da cidade do Rio de Janeiro;
    f) porque criminosos comandam suas quadrilhas de dentro de presídios de “segurança máxima”;
    g) porque menores de 18 anos podem atear fogo em suas vítimas,  e debochar da polícia, da justiça e da cidadania;
    h) porque as manifestações promovidas pelas “organizações populares” quase sempre terminam em baderna e quebra-quebra.

  2. Criminosos costumam virar mártires dos esquerdistas.
    Para a esquerda brasileira  os criminosos, não importando a natureza contumaz e a crueldade de seus crimes, são sempre transformados em vítimas “de uma sociedade injusta e desigual”; a “exclusão social” é invocada como justificativa para os crimes mais  bárbaros.

    Esta esquerda cruel e insensível não tem a mínima compaixão pelos pais e mães que choram a perda de um filho, sem dúvida uma das maiores tragédias que podem se abater sobre um ser humano, e não dá a mínima para as esposa e filhos que se tornam de um dia para o outro viúvas e órfãos  desamparados. Não, seu interesse e preocupação se concentra nos assassinos, cuja punição tentam a todo custo minimizar e procrastinar.

    A polícia é invariavelmente acusada de brutalidade e violação de direitos humanos, MESMO QUANDO CLARAMENTE ESTÁ USANDO A F0RÇA NA MEDIDA NECESSÁRIA. Policiais são executados a sangue frio por bandidos, no momento em que estes descobrem a identidade daquele. Nestes casos  nem uma única palavra.

    Os esquerdistas chegam ao paroxismo da estupidez e da insensibilidade ao culpar a vítima: quando um médico carioca foi assassinado a facadas por adolescentes que roubaram sua bicicleta, um esquerdista atribuiu a culpa ao médico por “ostentar uma bicicleta cara em um país de excluídos.”

  3. Os templos da esquerda são as escolas públicas e os sacerdotes são os professores.
    Os esquerdistas conseguiram transformar as escolas da rede pública de ensino em locais de doutrinação política e de inculcação de conceitos éticos e morais de sua preferência. Ensina-se a crianças e adolescentes que:
    a) a religião em geral e o cristianismo em particular são invenções puramente humanas;
    b) a sexualidade precoce é natural;
    c) o Bem e o Mal não são conceitos absolutos, mas apenas relativos; se algo faz você feliz, está OK;
    c) ser homossexual ou bissexual é normal;
    d) o capitalismo é um regime baseado na injustiça e na exploração;
    e) o socialismo trará a igualdade e a fraternidade entre todos os seres humanos, que viverão felizes para sempre;
    f) Cuba e Venezuela são modelos de sociedades democráticas, justas e igualitárias, que o Brasil deve imitar;
    g) Fidel Castro e Che Guevara foram os maiores heróis do continente americano, e todos os povos devem  reverenciá-los;
  4. Os esquerdistas são inimigos da Ciência que considera as realidades de Deus.
    Os esquerdistas só apreciam a Ciência quando esta parece confirmar suas ideias; caso contrário, estão prontos a reagir, protestar, desautorizar e renegar o valor das pesquisas e conclusões.  É mais ou menos o que no Brasil conhecemos por patrulhamento ideológico.
     

O item seguinte é uma característica que percebo na esquerda brasileira mas que não me parece tão extremada no liberalismo-esquerdista dos americanos. A razão me parece ser o fato de que nos Estados Unidos já existe um consenso, pelo menos em  linhas gerais, sobre o projeto nacional. Quase 100% dos americanos concordam que seu país será, pelo menos no futuro previsível, uma democracia capitalista.

No Brasil não existe sequer um consenso básico sobre o que queremos ser como nação: uma democracia capitalista? uma ditadura socialista? uma república bolivariana (seja lá o que for isto)? Gostaríamos de ser um país como os Estados Unidos? Ou seria melhor uma Cuba de dimensões continentais? Ou, quem sabe, talvez como a Coréia do Norte, com uma sequência infinda de “Grandes Companheiros” (Lula I, Rex Magno; Lula II,  Amicus Animalis; Lula III, Dux Terrae Brasilis, etc)? Podemos estar certos de que há defensores de todas estas alternativas.

Assim, parte da esquerda brasileira tem uma característica adicional.

5 – A divisão dos brasileiros entre “nós” e “eles”
Parte da esquerda procura difundir a divisão do povo brasileiro em duas categorias: “nós”, que em algumas versões inclui desde os miseráveis até os trabalhadores metalúrgicos da indústria automobilística; versões mais radicais excluem do “nós” todos os brasileiros que fazem regulamente três ou mais refeições ao dia. Em qualquer caso, “nós” representa tudo que há de elevado, altruísta e virtuoso no país; em contraste, “eles” é um símbolo do que é sórdido, egoísta e pecaminoso. No final das contas, a política é vista como um jogo de soma zero em que “eles” tem que perder para que “nós” ganhe. Alguns esquerdistas já insinuam que a liquidação de um número indeterminado de “eles” será necessária (veja o post REDENÇÂO), outros declaram seu ódio a “eles” (veja o post OS EXTREMOS SE ENCONTRAM). Mas a maioria parece aceitar o jogo democrático.

E assim vamos caminhando para o decisivo ano de 2018…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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