Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (1)

Meu pai era bancário, contador da agência do Banco Mineiro da Produção em Pouso Alegre,  naquela época uma sonolenta cidadezinha do sul de Minas. Creio que no final de 1963 ele foi transferido para a matriz do banco, e por isto em fevereiro de 1964 mudamos para Belo Horizonte. 

A população de Belo Horizonte saltou de 700.000 habitantes em 1960 para 1200000 em 1970, de modo que no início de 1964 deveria estar em torno de 850000 pessoas. Uma cidade gigantesca para mim,  um autêntico “caipira” que nunca havia se afastado mais do que 50 km de Pouso Alegre.

E eu achava tudo o que via novo e surpreendente. Que prédios altos,  com tantos andares! E com elevador, que me parecia a maravilha das maravilhas! Encantavam-me as ruas largas e arborizadas,  pelas quais circulavam tantos ônibus e trólebus, o tráfego fluindo conforme o apagar e acender das luzes coloridas dos semáforos. Era uma experiência nova fazer compras na Mercearia Bandeirantes, onde a gente mesmo pegava as mercadorias nas prateleiras e depois pagava no caixa – tão diferente do armazém do “seu” Sílvio em Pouso Alegre.

Adorei a mudança e em poucas semanas estava adaptado à cidade grande e começava a perder o sotaque; depois de alguns meses,  já não provocava mais estranheza nem comentários e piadinhas quando falava a palavra “porta”.

Ficamos em Belo Horizonte por quase sete anos – mais exatamente seis anos, dez meses e vinte e um dias.  Nesses anos, cursei o segunda, terceira e quarta séries  do curso primário e os quatro anos do ginásio, sempre em escolas públicas. Nelas o ensino era EXCELENTE  e totalmente gratuito.

O apartamento onde morávamos era no terceiro e penúltimo andar de um  edifício que ficava na esquina da Rua Santa Catarina com a Rua Felipe dos Santos. Seguindo um quarteirão pela Rua Santa Catarina chegava-se à Avenida do Contorno; subindo um quarteirão pela Rua Felipe dos Santos alcançava-se a Avenida Olegário Maciel.

Além do nosso, havia mais uma meia dúzia de prédios, todos com no máximo quatro andares. As demais  construções eram casas, das quais umas poucas seriam mais apropriadamente chamadas de mansões. Lembro-me especificamente de uma casa, situada na Rua Santa Catarina, que ficava no meio de um bem cuidado jardim; pertencia a um médico famoso e lembrava uma mansão inglesa como as que se vê no cinema.

Eu já havia feito o primeiro ano primário em Pouso Alegre, e fui matriculado no segundo ano do então Grupo Escolar Pandiá Calógeras.

continua…

Esparciatas, periecos e ilotas

Existiu na Grécia Antiga uma cidade-estado chamada Esparta, que se tornou famosa pelo militarismo; era basicamente um acampamento em armas, onde todos os aspectos da vida diária conformavam-se ao imperativo da guerra.

Havia em Esparta três classes sociais: esparciatas, periecos e ilotas. Os esparciatas constituíam a classe dominante e somente eles gozavam da plena cidadania; os periecos eram cidadãos livres, que se dedicavam ao comércio e à manufatura. E na base da pirâmide social estavam os ilotas, que cultivavam a terra dos esparciatas como servos da gleba, um regime de semi-escravidão.

A crer-se nos escritos de Aristóteles, no início de cada ano abria-se um período de “caça aos ilotas”, durante o qual os esparciatas podiam eliminar alguns de seus servos, sem maiores justificativas ou complicações.

Isto foi há muito,  mas muito tempo mesmo. Desde então o ser humano se tornou mais civilizado e, até onde  sei, nenhum estado moderno concede permissão legal a um grupo social para que este promova a matança indiscriminada de membros de algum outro grupo. Mas será que todas as sociedades evoluíram da mesma forma?

Terminou o Carnaval, a mais famosa manifestação cultural brasileira, que tanto engrandece e abrilhanta a imagem do país no Exterior. Fico refletindo sobre alguns eventos ocorridos neste período. A garotinha morta na praia por um jet-ski desgovernado, pilotado por um adolescente; a senhora de 54 anos que morreu ao cair de uma altura de 15 metros quando se rompeu o cabo de aço da tirolesa no interior paulista; a jovem ferida que agonizou por alguns dias e veio a falecer devido ao acidente no camarote onde participava do Carnaval bahiano. Em todos os casos ninguém é responsável, foi tudo uma fatalidade…

Desaba o edifício no centro do Rio de Janeiro, ceifando diversas vidas… e ninguém é responsável. Um motorista bêbado em um carro de luxo mata várias pessoas… uma fatalidade. Queima-se vivo o índio… um acidente. Mata-se a jornalista pelas costas em lugar público e à vista de testemunhas… um compreensível e desculpável momento de fraqueza.

Casos como os que mencionei acima, quase que invariavelmente, envolvem um réu primário que acaba aguardando em liberdade pelo julgamento. Se o réu possui uma gorda conta bancária, um bom advogado, conhecedor de todas as brechas e interstícios da lei, lhe garantirá longuíssimo prazo de espera até que o caso vá a juízo. E, exceto em casos raríssimos, a punição, se houver, será extremamente branda: algumas cestas básicas e horas de “serviço comunitário”.

E aí me vem a analogia com a situação de Esparta. A inoperância, ineficácia e ineficiência de nosso sistema judiciário geram tal certeza de impunidade que nossos “esparciatas” sabem que abater um “ileco” não trará maiores conseqüências. E, naturalmente, agem de acordo…

Excelsior! Um poema de Henry Wadsworth Longfellow

Introdução

Surfando pela internet, encontrei uma versão em latim (!) do poema “Excelsior! ” do escritor americano Henry Wadsworth Longfellow. Excelsior quer dizer “mais alto” e conta a história de um jovem que perece numa escalada pelos Alpes; há todo um simbolismo no poema, que pode ser lido de várias maneiras.

Há uma tradução primorosa deste poema para o português, feita por Alexei Bruno, que pode ser encontrada, juntamente com a biografia de Longfellow, no endereço: (http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html).

Reuni nas prócimas páginas o original inglês, a tradução para o português e a adaptação para o latim.

UM POEMA DE HENRY WADSWORTH LONGFELLOW

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)

The shades of night were falling fast,
As through an Alpine village passed
A youth, who bore, ‘mid snow and ice,
A banner with the strange device,
Excelsior!

His brow was sad; his eye beneath,
Flashed like a falchion from its sheath,
And like a silver clarion rung
The accents of that unknown tongue,
Excelsior!

In happy homes he saw the light
Of household fires gleam warm and bright;
Above, the spectral glaciers shone,
And from his lips escaped a groan,
Excelsior!

“Try not the Pass!” the old man said;
“Dark lowers the tempest overhead,
The roaring torrent is deep and wide!
And loud that clarion voice replied,
Excelsior!

“Oh stay,” the maiden said, “and rest
Thy weary head upon this breast!”
A tear stood in his bright blue eye,
But still he answered, with a sigh,
Excelsior!

“Beware the pine-tree’s withered branch!
Beware the awful avalanche!”
This was the peasant’s last Good-night,
A voice replied, far up the height,
Excelsior!

At break of day, as heavenward
The pious monks of Saint Bernard
Uttered the oft-repeated prayer,
A voice cried through the startled air,
Excelsior!

A traveler, by the faithful hound,
Half-buried in the snow was found,
Still grasping in his hand of ice
That banner with the strange device,
Excelsior!

There in the twilight cold and gray,
Lifeless, but beautiful, he lay,
And from the sky, serene and far,
A voice fell, like a falling star,
Excelsior!


 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems 1842)
Tradução para o português de Alexei Bueno[1]

 

A noite com suas sombras cai depressa;
A aldeia alpina aos poucos atravessa
Um jovem, que ergue, em meio à neve em sanha,
Uma bandeira, com a divisa estranha,
Excelsior!

Sua cor é triste, mas sua vista alçada
Lembra uma espada desembainhada,
E a sua voz qual clarim de prata erguida
Lança os sons de uma língua nunca ouvida,
Excelsior!

Casas felizes ele vê, brilhando
Ao fogo quente, familiar e brando;
Mais ao alto espectral geleira ao vento,
E de seus lábios se escapa um lamento,
Excelsior!

“Não tentes a Passagem”, diz-lhe um velho,
“Já ergue a tormenta o seu manto vermelho,
Rugem as águas sem olhar que as sonde!”
E a alta voz de clarim só lhe responde,
Excelsior!

“Oh! fica”, diz-lhe a virgem, “e em meu seio
Deita a fronte cansada sem receio!”
Nubla-lhe um pranto o olhar azul erguido,
Mas ele ainda responde, com um gemido,
Excelsior!

“Teme os galhos na treva borrascosa!
Teme a uivante avalanche pavorosa!”
São o último boa-noite de quem fica,
E uma voz, longe no alto, lhes replica,
Excelsior!

Nascido o sol, no divino resguardo
Dos santos ermitões de São Bernardo
Quando o salmo de sempre é repetido,
Uma voz grita no ar estremecido,
Excelsior!

Na neve um viajor, semi-enterrado,
Pela matilha fiel é encontrado,
Tendo em sua mão de gelo branca e lisa
A bandeira, com a estranha divisa,
Excelsior!

Lá, onde a noite fria e cinza pousa,
Sem vida, mas tão belo, ele repousa,
E do céu, sereníssima e clemente,
Desce uma voz, como estrela cadente,
Excelsior!

[ 21-12-1987]


 

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)
Adaptação para o Latim de Ray Cui[2]
Leitura de Ray Cui / Leitura de João Azevedo

Cadēbant noctis umbrae, dum
Ībat per vīcum Alpicum
Gelū nivequ(e) adolēscēns,
Vēxillum cum signō ferēns,
Excelsior!

Frōns trīstis, micat oculus
Velut ē vāgīnā gladius;
Sonantque si’milēs tubae
Accentūs lingu(ae) incognitae,
Excelsior!
In domibus videt clārās
Focōrum luces calidās;
Relūcet glaciēs ācris,
Et rumpit gemitūs labrīs,
Excelsior!

Dīcit senex, “Nē trānseās!
Suprā nigrēscit tempestās;
Lātus et altus est torrēns.”
Clāra vēnit vōx respondēns,
Excelsior!
Iam lucescēbat, et frātrēs
Sānctī Bernardī vigilēs
Ōrabānt precēs solitās,
Cum vōx clāmāvit per aurās,
Excelsior!

Sēmi-sepultus viātor
Can(e) ā fīdō reperītur,
Comprēndēns pugnō gelidō
Illud vēxilum cum signō,
Excelsior!
Iacet corpus exanimum
Sed lūce frīgidā pulchrum;
Et caelō procul exiēns
Cadit vōx, ut stella cadēns,
Excelsior!


[1] Poeta, Editor, ex-Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento; disponível em http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html e acessado em 26/10/2011.

[2] Disponível em PHONETICA LATINÆ(http://la.raycui.com/), acessado em 26/10/2011.

Aprendendo um novo idioma: a questão da inteligibilidade

Sempre tive interesse no aprendizado de idiomas e ao longo dos anos vim a adquirir alguns conhecimentos, em graus amplamente variados, de inglês, espanhol, francês e alemão.

Um modo efetivo de avaliar o nível de conhecimento de uma língua estrangeira é o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (“Commom European Framework of Reference for Languages”). Este quadro de referência é a base comum do aprendizado de  línguas estrangeiras na Europa. Ele abrange as competências linguísticas em diferentes áreas e classifica tais competências em pelo menos seis níveis:

  • Nível A1 | Iniciante: Conhece frases e expressões simples e é capas de descrever situações simples ou o lugar em que vive.
  • Nível A2 | Comunicação básica: Capaz de se fazer entender sobre assuntos simples e descrever suas necessidades, por exemplo, ao fazer compras.
  • Nível B1 | Preparado para o dia a dia: Ao viajar pelo país estrangeiro, é capaz de lidar com as situações mais comuns que deve encontrar; consegue falar sobre experiências e eventos, além de manifestar sua opinião claramente.
  • Nível B2 | Segurança ao conversar: Capaz de comunicar-se de forma espontânea e fluente – mesmo em longas conversas com falantes nativos. É capaz de acompanhar textos e discussões complexas e expressar sua opinião sobre temas abstratos.
  • Nível C1 | Comunicar-se fluentemente: Não precisa procurar por palavras e utiliza a língua estrangeira de forma flexível no trabalho, lazer ou em treinamentos; compreende sem problemas textos longos e complicados.
  • Nível C2 | Lidar facilmente com temas difíceis: Compreende tudo o que lê ou escuta; é capaz de expressar-se de maneira espontânea e fluente e pode comunicar-se de forma ampla.

Ao estudar um idioma estrangeiro, sempre tive preocupação com algumas questões, que foram respondidas pela leitura do artigo que está em anexo.

Vale a pena ler o documento, que ajuda a entender algumas dificuldades que são encontradas no processo de aprendizado de uma nova língua, principalmente quando isto ocorre no dia-a-dia da vida em um país estrangeiro.

As questões a que me referi anteriormente são as seguintes:

1)      Mesmo que eu aprenda a falar muito bem este idioma, vou sempre falar com sotaque? A resposta é  sim. Conforme dizem os autores, Although some work suggests that adult L2 learners may occasionally achieve native-like speech patterns, this phenomenon appears to be restricted to a very small number of highly motivated individuals (Moyer, 2004) and to those with special aptitude (Ioup, Boustagi, El Tigi, & Moselle, 1994). Studies of ultimate attainment in general suggest that native-like pronunciation among those who acquire an L2 after early childhood is actually exceedingly rare (Flege, Munro, & Mackay, 1995; Scovel, 2000).

2)      Devo concentrar meus esforços buscando alcançar um nível razoável de integibilidade, mesmo falando com sotaque? A resposta é sim. Embora seja possível falar um idioma estrangeiro de um modo “which may well exceed the minimum required for basic intelligibility”, o problema de fazer-se entender não está propriamente no sotaque. “Though it is often assumed that greater accentedness automatically entails reduced intelligibility and comprehensibility, the situation is not so straightforward. In fact, one of the most robust ndings in studies examining the relationships among these dimensions is that they are partially independent. Although listeners who nd specic L2 utterances to be both unintelligible and incomprehensible always perceive such samples as heavily accented, the reverse is not necessarily true. Thus, listeners often assign good comprehensibility ratings to speech samples that they have also rated as heavily accented. Moreover, transcription studies indicate that some heavily accented speech samples are completely intelligible, while others are not (Derwing & Munro, 1997; Munro & Derwing, 1995).”            

3)      Como atingir rapidamente a faixa de inteligibilidade?O artigo sugere que conhecer quais são os desvios em relação à pronúncia padrão que mais prejudicam a inteligibilidade seria uma das direções para melhorias no processo de aprendizado. ”With the heightened interest in pronunciation now evident among pedagogical professionals, applied linguists need to undertake programmatic research that will extend knowledge of pronunciation learning. We see several directions in which this work should proceed. First, more research should be conducted on intelligibility to establish the most effective ways of assessing it and to identify the factors that contribute to it.”

Lembro-me de uma situação que possivelmente esteja relacionada à questão da pronúncia da L2 em função da língua nativa do  falante, exatamente como mencionado no artigo. É notório que os falantes nativos do português brasileiro tem muita dificuldade de articular os sons associados ao “th”, /θ/ e /δ/, que não existem em  nosso idioma.

Vivi alguns anos nos Estados Unidos, integrando um time de funcionários brasileiros alocado num dos laboratórios de desenvolvimento da IBM. Nesta mesma época, havia um grupo de funcionários da IBM Espanha trabalhando lá. Não tenho dúvidas de que o sotaque deles era bem mais acentuado que o nosso. Porém, em várias ocasiões, pareceu-me que os americanos entendiam com mais facilidade o que eles falavam.

Após ler o “paper”, ocorreu-me a idéia de que talvez um das causas disto é o fato de que existe no espanhol da Espanha um som muito semelhante ao /θ/, que é o da letra “C”.  Ou seja, embora com sotaque mais carregado, provavelmente os colegas espanhóis pronunciavam de maneira mais inteligível, para os americanos, sons que são muito comuns no idioma inglês.

Aprendendo Espanhol

Esta é uma descrição de meu primeiro contato efetivo com o idioma espanhol; originalmente escrevi a narrativa em português e depois tentei uma tradução para o espanhol.  Os dois textos estão abaixo.

APRENDENDO ESPANHOL

Há muitos anos, desejo aprender este idioma, tornando-me capaz de ler, escrever e falar em espanhol – sem usar palavras em português.

Já visitei alguns países da América Central e da América do Sul, e quero visitar outros ou mesmo voltar a alguns lugares onde já estive. Falar espanhol muito bem seria de grande utilidade para mim, pois isto permite conhecer e apreciar melhor os costumes e a cultura dos países visitados.

Tenho grande admiração por diversos escritores hispano-americanos, como o peruano Mario Vargas LLosa, o colombiano Gabriel Garcia Marquez e o argentino Jorge Luiz Borges. Lí obras destes escritores em traduções para o português. Gostaria de lê-los no original, pois sempre se perde algo da beleza e da profundidade de um texto quando o mesmo é traduzido.

Meu primeiro contato com o idioma español ocorreu quase por acaso. No já distante ano de 1981, eu trabalhava para uma empresa de informática chamada Burroughs. Originária dos Estados Unidos, a Burroughs tinha duas fábricas no Brasil e estava construindo uma terceira, destinada à produção de computadores de grande capacidade – a família de máquinas B6900.

Eu e outros funcionários da Burroughs havíamos passado o ano de 1980 nos Estados Unidos, onde fomos treinados para implantar a nova unidade de manufatura.

Porém, quando voltamos ao Brasil, a nova fábrica ainda não estava pronta. Assim, não tínhamos muito o que fazer, exceto esperar que a construção terminasse.

Chegou então a informação de que o primeiro computador B6900 da América Latina seria instalado em Montevidéu, na Faculdade de Engenharia da Universidade da República. Eu e um outro engenheiro fomos encarregados de acompanhar a instalação da máquina e a seguir dar cursos para técnicos de manutenção que viriam de vários países latino-americanos: Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, Venezuela, etc.

Eu não falava uma palavra de espanhol, e quando fui avisado da viagem comprei dois livros de ensino deste idioma e os lí, tentando aprender pelo menos algumas frases básicas.

Fiquei no Uruguai cerca de 5 meses e tenho boas lembranças deste período; todos com quem tive contato foram amáveis e hospitaleiros; estavam sempre dispostos a ajudar e procurar entender o que eu dizia.

E tive contato com muita gente. No primeiro mês fiquei hospedado em um hotel, no bairro de Pocitos; nos outros meses vivi em um apartamento alugado pela Burroughs. O edifício no qual vivi se situava próximo da esquina das ruas Jorge Ellauri e 28 de Setiembre.

Nestes meses vivi como um cidadão uruguaio: eu mesmo tinha que fazer as compras, utilizar o transporte público, etc.

Sempre com o objetivo de melhorar meus conhecimentos do espanhol, comprei dezenas de livros e ouvi centenas de horas de televisão.

Foi assim que aprendi o básico do idioma espanhol: de maneira informal e por força da necessidade.

APRENDIENDO ESPAÑOL

Hay muchos años, deseo aprender este idioma, tornandome capaz de leer, escribir y hablar en español – sin emplear palabras en portugués.

Ya he visitado algunos países de Centroamérica y de Suramérica, y quiero visitar otros o mismo volver a lugares donde ya estuve. Hablar español muy bien sería de gran utilidad para mí, pués esto permite conocer y apreciar mejor las costumbres y la cultura de los países visitados.

Tengo gran admiración por diversos escritores hispano-americanos, como el  peruano Mario Vargas LLosa, el colombiano Gabriel Garcia Marquez y el argentino Jorge Luiz Borges. Leí obras de estos escritores en traducciones para el portugués. Me encantaria leerlos en el original, pués siempre se pierde algo de la belleza y de la profundidad de un texto cuando se lo traduce.

Mi primer contacto con el idioma español ocurrió casi por casualidad. En el ya distante año de 1981, yo trabajava para una empresa de informática llamada Burroughs. Originaria de los Estados Unidos, Burroughs tenía dos plantas en Brasil y estaba construyendo una tercera, destinada a la producción de computadoras de gran capacidad – la familia de máquinas B6900.

Yo y otros empleados de Burroughs habíamos pasado el año de 1980 en los Estados Unidos, donde fuimos entrenados para implantar la nueva unidad de manufactura.

Pero, cuando volvimos a Brasil, la nueva fábrica no estaba todavía lista. Así, no teníamos mucho que hacer, excepto esperar que la construcción terminara.

Llegó entonces la información de que la primera computadora B6900 de Latinoamérica sería instalada en Montevideo, en la Facultad de Ingenieria de la Universidad de la República. Yo y un otro ingeniero fuimos encargados de acompañar la instalación de la máquina y luego dar cursos para técnicos de mantenimiento que vendrían de varios países latinoamericanos: Argentina, Chile, Costa Rica, Ecuador, Venezuela, etc.

Yo no hablaba una palabra de español, y cuando fui avisado del viaje compré dos libros de enseñanza del idioma e os leí, tentando aprender por lo menos algunas frases básicas.

Me quedé en Uruguay por cerca de 5 meses y tengo buenos recuerdos de este período; todos con quienes tuve contacto fueron amables y hospitaleros; estaban siempre dispuestos a ayudar y buscaban entender lo que yo decía.

Y tuve contacto con mucha gente. En el primer mes me quedé en un hotel, en el barrio de Pocitos; en los otros meses vivi en un piso alquilado por Burroughs. El edificio en lo cual vivi se situaba próximo de la esquina de las calles Jorge Ellauri y 28 de Setiembre.

En estos meses vivi como un ciudadano uruguayo: yo mismo tenía que hacer las compras, utilizar el transporte público, etc.

Siempre con el objetivo de mejorar mis conocimientos del español, compré decenas de libros y asistí centenas de horas de televisión.

Fue así que aprendi lo básico del idioma español: de manera informal y por fuerza de la necesidad.

Teoria Sócio-econômica das Empresas e Organizações

1. Conceitos Fundamentais da Teoria Sócio-Econômica

Desenvolvida inicialmente pelo pesquisador francês Henri Savall, praticada e aperfeiçoada desde 1976 no Instituto de Sócio-Economia das Empresas e Organizações[1], na cidade de Lyon, França, a concepção sócio-econômica em administração é, simultaneamente, uma abordagem de política geral, uma metodologia de pesquisa e um método de intervenção nas empresas e organizações (Lima, 1991b).

Considerando a empresa como uma entidade complexa, caracterizada por suas estruturas e pelo comportamento de seus agentes, e por suas funções essenciais de realização de desempenhos econômicos (por exemplo, produção e distribuição de bens e serviços) e de desempenhos sociais (por exemplo, proporcionar condições de trabalho aceitáveis), a Teoria Sócio-Econômica procura demonstrar a compatibilidade entre a melhoria das condições de vida no trabalho e a melhoria do desempenho operacional das organizações (Savall, 1981; Savall, 1989; Savall & Zardet, 1989).

Integrado ao desempenho econômico, encontra-se o desempenho social da organização, que reflete sua capacidade em obter um ajustamento tão perfeito quanto possível entre dois fatores: o conjunto dos objetivos da empresa e das habilidades requeridas para atingí-los e  o conjunto dos objetivos e das habilidades de seus funcionários.

Através da criação de estruturas organizacionais e condições de trabalho adequadas, a empresa realiza seu desempenho social, que reflete o grau em que ela é capaz de absorver as aptidões  humanas e  a capacidade de criação de potencial que estas possuem.

A concepção sócio-econômica enfatiza também a importância da abordagem experimental no desenvolvimento dos conceitos teóricos em Administração e de ferramentas de gerenciamento aplicáveis ao contexto social no qual  se inserem as empresas.

O método de intervenção-pesquisa de intenção científica[2] proposto pela abordagem sócio-econômica implica em um trabalho no interior da empresa. Para ter acesso a informações significativas, o pesquisador deve intervir na organização estudada, atuando como agente de transformação e auxiliando os atores no processo de mudança.

A abordagem  sócio-econômica considera que o modo de produção dos conceitos teóricos corresponde a desenvolvê-los e fazê-los evoluir a partir do terreno experimental e não, ao contrário, utilizar este terreno “ex-post” para validar conceitos e modelos largamente pré-estabelecidos. Esta opção pela abordagem experimental pode ser claramente apreciada nas palavras de Savall (1981:53), quando este afirma:

            “Recordemo-nos, para que não haja equívocos, de que este ensaio téorico a partir de certos conceitos de F. Perroux foi realizado após numerosas pequisas experimentais aprofundadas nas empresas e que ele não resulta de reflexão em uma redoma ou torre de marfim qualquer. Efetuamos seis anos de pesquisas experimentais e 13000 horas de trabalho[3] com nossa equipe do ISEOR.”

2. Modelo de Funcionamento das Organizações

O modelo proposto para explicar o funcionamento das organizações (Savall, 1981:191-220; Savall, 1989:201-240; Savall & Zardet, 1989:151-168) busca superar as limitações das abordagens tradicionais, que se associam genericamente a duas vertentes:

(a)       aquelas que afirmam a predominância das estruturas sobre os comportamentos dos agentes e explicam os resultados obtidos pelas organizações através de uma relação determinística, segundo a qual somente modificações nas estruturas são capazes de influenciar  os resultados da empresa;

(b)       aquelas que consideram os comportamentos humanos como o fator principal que explica os resultados obtidos pelas empresas; as práticas de gestão resultantes desta concepção costumam utilizar técnicas manipulativas, frequentemente associadas a um sistema de valores ou princípios morais.

As pesquisas conduzidas desde 1973 pelo ISEOR evidenciaram que nenhuma destas abordagens era suficiente para explicar de forma satisfatória a realidade das empresas.

Observações conduzidas em uma mesma unidade empresarial, portanto com idênticas estruturas, mostram que os agentes adotam comportamentos produtivos diferenciados, que conduzem a desempenhos individuais diferentes, quer se trate de absenteísmo, produtividade direta ou qualidade, indicando assim a importância do fator comportamental.

Analogamente, os mesmos indivíduos confrontados com estruturas de trabalho distintas passam a comportar-se no plano profissional de maneira diferente, mostrando a importância das estruturas.

A partir desta crítica, propõe-se a hipótese fundamental da Teoria Sócio-Econômica, segundo a qual qualquer empresa ou organização é considerada como um conjunto de estruturas em interação com os comportamentos humanos.

As estruturas são definidas como os elementos relativamente permanentes da organização, que se caracterizam pela:

(a)       capacidade de duração no tempo de seus principais atributos;

(b)       capacidade de evolução autônoma, lenta e progressiva;

(c)       alto nível de dispêndio de energia social (individual ou coletiva, mais ou menos consciente), material e financeira, necessária para realizar uma evolução mais rápida;

As estruturas de uma organização apresentam, portanto, um certo grau de inércia. Possuem também a propriedade de impressionar os comportamentos humanos[4], à qual se pode atribuir certos elementos relativamente constantes observados no comportamento dos agentes.

O modelo proposto identifica uma relativa assimetria na relação interativa entre as estruturas e comportamentos na medida em que aquelas exercem um certo condicionamento sobre estes (efeito estruturante).

As estruturas são agrupadas em cinco categorias: físicas, tecnológicas, organizacionais, demográficas e mentais. Nos parágrafos seguintes apresentam-se os principais elementos que compõe cada uma delas[5].

As estruturas físicas compreendem a configuração dos locais de trabalho e os fatores ambientais ali presentes, tais como o nível de ruído, calor, iluminação, etc.

As estruturas tecnológicas se referem aos equipamentos e ferramentas utilizadas, seu grau de sofisticação, complexidade e automação, sua adequação e adaptabilidade às necessidades do trabalho, etc.

As estruturas organizacionais resultam da divisão do trabalho na empresa e das relações funcionais entre as diferentes unidades e indivíduos. Incluem o organograma, os métodos e procedimentos operacionais, os horários e ritmos de trabalho, os sistemas de comunicaçao-coordenação-concertação[6] e o sistema de informações operacionais e funcionais.

As estruturas demográficas são definidas pelas características do corpo de funcionários da empresa, em termos de categorias profissionais, de distribuição de idades, de formação inicial e qualificação profissional; compreende também as políticas de recrutamento, promoção e ajuste de efetivos.

As estruturas mentais se referem aos elementos que caracterizam de forma relativamente durável a mentalidade da empresa, tais como o estilo gerencial, as concepções dominantes que afetam as decisões gerenciais, ou ainda o estado de espírito e o ambiente de trabalho predominante entre os funcionários.

Embora reconhecendo a profunda interrelação entre as diferentes estruturas, Savall & Zardet (1989:157) consideram que é útil adotar a classificação apresentada com o intuito de facilitar a análise do funcionamento da organização, hierarquizar os problemas estruturais e permitir uma definição melhor das prioridades de ação.

Os comportamentos são definidos como as manifestações humanas efetivamente observadas e que possuem efeitos sobre o ambiente físico e social, caracterizando-se por sua natureza conjuntural e relativamente instável.

Os comportamentos obedecem a cinco lógicas distintas, segundo as situações nas quais os indivíduos se encontram e segundo a natureza dos problemas com os quais se defrontam: individual, de grupo de atividade, de categoria profissional, de grupo de afinidade e coletiva.

A lógica individual está relacionada à personalidade e às características do indivíduo (profissionais, familiares, afetivas, etc.) que o distinguem enquanto unidade relativamente autônoma.

A lógica de grupo de atividade orienta o comportamento do indivíduo enquanto parte de um departamento, função ou agência da organização, como por exemplo, a Manufatura, o Controle de Produção, a Assistência Técnica, etc.

A lógica de categoria profissional relaciona-se ao fato de pertencer a um determinado nível hierárquico (gerentes, supervisores, profissionais, etc.) ou a uma categoria profissional (engenheiros, técnicos, etc.).

A lógica de grupo de afinidade liga-se ao comportamento do indivíduo enquanto  membro de um grupo que possui origens ou convicções morais, religiosas, políticas ou sindicais comuns.

Finalmente, a lógica coletiva orienta o comportamento de todos os indivíduos enquanto membros da organização e manifesta-se principalmente em situações de crise, quando a própria sobrevivência da empresa parece estar ameaçada.

Da mesma forma que as estruturas, as diferentes lógicas de comportamento estão intimamente relacionadas e sua classificação é útil para facilitar a análise das causas das disfunções e orientar a busca de soluções para os problemas da empresa.

Alguns padrões de comportamento mostram uma característica de relativa permanência e parecem influenciar os outros comportamentos, acabando por constituir-se em verdadeiras estruturas mentais.

Considera-se que somente a parte instável e conjuntural dos comportamentos humanos, susceptível de ser influenciada de maneira relativamente rápida e significativa pelas variáveis ambientais, deve ser conceituada como comportamento no senso estrito atribuído pelo modelo proposto.

A conversão de comportamentos em estruturas mentais cria um referencial coletivo oriundo de noções como os precedentes, a maneira como alguns problemas foram resolvidos anteriormente, os costumes e práticas usuais na empresa, etc[7].

O ciclo de transformação de comportamentos em estruturas pode ser considerado como o surgimento de uma estrutura nova que passa a influenciar a maneira de agir dos indivíduos e que resulta de uma alternância das relações assimétricas entre as estruturas e os comportamentos.

3. Disfunções e Custos Ocultos

Da interação contínua entre estruturas e comportamentos resulta o funcionamento observado da organização, que pode ser dividido em duas partes:

(a)       o ortofuncionamento, que consiste no funcionamento buscado, esperado ou desejado pelos agentes;

(b)       as disfunções, que se constituem na diferença entre o funcionamento observado e o desejado;

As disfunções, que surgem como resultado da interação permanente entre as estruturas organizacionais e os comportamentos humanos, dão origem a custos, geralmente ocultos, que consistem na tradução monetária das atividades de regulação engendradas pelas disfunções.

Rigorosamente, os custos ocultos correspondem na realidade a custos-desempenhos ocultos, no sentido em que a redução de um custo implica em um desempenho e a redução de um desempenho representa um custo.

A maioria dos custos de regulação das disfunções são ditos ocultos porque não assinalados de maneira explícita nos sistemas de informações contábeis usuais, tais como o orçamento e a contabilidade geral. Por contraste, os custos visíveis tem uma denominação conhecida (por exemplo, despesas de pessoal), uma medida (por exemplo, folha de pagamentos) e um sistema de acompanhamento.

As disfunções são agrupadas em seis categorias, que constituem ao mesmo tempo a explicação e o domínio de solução das mesmas:

(a)       condições de trabalho, que envolvem as condições físicas e as relações de trabalho;

(b)       organização do trabalho, que engloba a repartição das grandes funções da empresa, a divisão de tarefas em cada unidade, o conteúdo dos postos de trabalho;

(c)       comunicação-coordenação-concertação, que inclui a articulação operacional e funcional entre os indivíduos para realização de suas atividades e a troca de informações;

(d)       gestão do tempo, que diz respeito aos métodos de organização do tempo de trabalho individual e coletivo, à alocação pelo indivíduo de seu tempo entre as diversas atividades (preparação-execução-controle, prevenção-regulação, gestão corrente, desenvolvimento, etc.);

(e)       formação integrada, que se refere às práticas de formação profissional e à adequação formação-emprego;

(f)        operacionalização estratégica, que versa sobre as técnicas, métodos e práticas de transformação, disseminação e tradução dos objetivos estratégicos da empresa em ações concretas visando atingí-los.

Os custos ocultos são calculados de acordo com sua incidência em cinco indicadores, que representam perturbações concretas no funcionamento da empresa:

(a)       absenteísmo

(b)       acidentes de trabalho

(c)       rotação de pessoal

(d)       não-qualidade

(e)       perda de produtividade direta

Há cinco componentes principais para os custos ocultos:

(a)       sobre-salário, que são os gastos com pagamento de pessoal sem que haja uma contrapartida em trabalho, ou que decorrem de uma atividade ser realizada pelo titular de uma função melhor remunerada do que aquele que deveria fazê-la;

(b)       sobre-tempo, que são as despesas com pagamento de horas de trabalho dedicadas a correção de disfunções ao invés da produção de bens ou serviços;

(c)       sobre-consumo, que representa os gastos adicionais de energia, materiais, ou suprimentos em relação ao que seria efetivamente necessário;

(d)       não-produção, que são os custos decorrentes das perdas de oportunidade de realizar e vender um produto;

(e)       não-criação de potencial, que representa os custos em tempos humanos das ações de investimento imaterial que a empresa não pôde realizar durante um dado período porque seus agentes estavam envolvidos na regulação de disfunções.

O modelo de avaliação dos custos ocultos consiste em associar a cada um dos cinco indicadores de disfunção (absenteísmo, acidentes de trabalho, rotação de pessoal, não-qualidade, perda de produtividade direta) os componentes dos custos ocultos correspondentes às atividades de regulação efetivamente empreendidas pela empresa, conforme ilustra a Tabela 1.

Parte dos custos ocultos está incorporada nos custos visíveis, representando custos efetivos, ou históricos, correspondentes a desembolsos reais da empresa e que se inscrevem em sua conta de resultados; tais custos são ditos ocultos porque os sistemas de contabilidade usais não os associam de maneira específica às disfunções que lhes deram origem.

Uma outra parte dos custos ocultos não está compreendida nos custos visíveis e representa a ausência de produção ou de criação de potencial devida às disfunções; são custos virtuais, ou custos de oportunidade.

Componente==========

Indicador

Sobre-salários Sobre-tempos Sobre-consumos Não-produção Não-criação de potencial Total dos custos ocultos
Absenteísmo Custos. do absent.
Acidentes de trabalho Custo de acidentes do trabalho
Rotação de pessoal Custos de rotação de pessoal
Qualidade dos produtos Custos de qualidade.
Perdas de Produtividade Direta Custos de perdas de produtivid.
Total Custos de Sobre-salários Custos de de Sobre-tempos Custos de Sobre-consumos Custos de Não-produção Custos de Não-criação de potencial Total de Custos Ocultos
Conceito Econômico Custos históricos Custos de Oportunidade
Conceito Contábil Sobrecargas Não-produtos

Tabela 1 – Modelo de Avaliação dos Custos Ocultos

As disfunções e os custos ocultos que elas ocasionam revelam a importância dos contra-poderes formais e informais de que dispõe os agentes da empresa e trazem à luz a capacidade de resposta individual e coletiva destes à imposição de estruturas e condições de trabalho inadequadas.

Ao evidenciar e mensurar rigorosamente os impactos econômicos das disfunções, a análise sócio-econômica requer que as disfunções observadas em uma empresa sejam analisadas não somente de um ponto de vista estritamente organizacional ou psico-sociológico, mas também de um ponto de vista estritamente econômico.

Trata-se em última análise de assegurar a coerência entre os modelos econômicos de gestão necessários ao desenvolvimento da empresa, e até mesmo à sua sobrevivência, e a necessidade intuitivamente percebida de levar em conta a dimensão humana e social das condições de trabalho.

A simples justaposição das abordagens econômica e social é, segundo Savall (1981:21), insuficiente:

“Pela justaposição de diferentes abordagens obtém-se na melhor das hipóteses um resultado segundo o qual se compreende que ‘é necessário levar em conta os problemas humanos e sociais’, mas se ignora a maneira de tornar compatíveis a tomada em conta de tais fatores nos modelos de decisão e controle exclusivamente econômicos ou com forte componente econômica.”

Através dos conceitos de disfunção e custos ocultos, a análise sócio-econômica propõe uma forma de conseguir a integração destas abordagens e afirma a necessidade de uma revisão dos modelos econômicos de decisão e controle de gestão das empresas.

A apresentação da metodologia de cálculo dos custos ocultos proposta pela análise sócio-econômica (Savall & Zardet,1989:99-150) foge do escopo desta dissertação. Entretanto,  vale mencionar que  a média de custos ocultos encontrados nas intervenções sócio-econômicas é de US$12.000,00 (doze mil dólares) por pessoa por ano, sendo que deste total 30 a 50 por cento podem ser eliminados, enquanto o restante é inerente à vida da empresa (Lima, 1991b).

4. Diagnóstico Sócio-Econômico

O pressuposto de que a probabilidade de sucesso na implementação de um programa de melhoria de qualidade é aumentada quando se procede inicialmente a um diagnóstico dos problemas mais importantes que afetam a empresa, implica em que o conhecimento de tais problemas requer um trabalho de extração de dados, realizado através da utilização de metodologia rigorosa, que garanta a confiabilidade das informações obtidas.

O processo de intervenção-pesquisa sócio-econômica se desenvolve em quatro etapas (diagnóstico, projeto, operacionalização do projeto e avaliação de resultados) com o objetivo de implantar na empresa novas formas de gerenciamento e obter uma modificação durável no modo de funcionamento da organização.

Uma descrição de todo o processo foge ao objetivo deste documento, mas vale assinalar que a intervenção-pesquisa supõe uma interação relativamente prolongada com a empresa, num quadro de pesquisa contratual ou consultoria.

Lima (1991a) propõe a metodologia de intervenção-experimentação, na qual não existe a idéia de consultoria e que focaliza sua atenção primordialmente no diagnóstico das disfunções. Esta foi a metodologia utilizada na elaboração do estudo de caso relatado nesta disssertação.

O diagnóstico sócio-econômico (Savall & Zardet, 1989:227-256) tem como objetivo evidenciar as disfunções e seus efeitos na empresa. A opção de focalizar o diagnóstico primariamente no levantamento das disfunções, ao invés de uma análise sobre os pontos fortes e pontos fracos, tem como objetivo criar uma espécie de “choque cultural” ou tomada de consciência pela empresa sobre seus problemas, estimulando a busca de soluções para estes.

O processo de realização de um diagnóstico sócio-econômico pode ser dividido em duas fases:

(a)       uma levantamento de dados com o objetivo principal de inventariar as disfunções e determinar o impacto qualitativo, quantitativo e financeiro destas sobre a empresa, fornecendo um conjunto de resultados preliminares, que é apresentado aos responsáveis para obter seu parecer e suas observações, num processo denominado “efeito espelho”;

(b)       um “Laudo de Especialista”, emitido pelos pesquisadores a partir das observações realizadas na primeira fase.

O levantamento de dados para a elaboração do diagnóstico é realizado na empresa, através de entrevistas, observação direta das situações de trabalho e análise de documentos.

Nesta fase a preocupação maior é garantir a qualidade da informação recolhida. As entrevistas constituem uma técnica especialmente importante para obter uma descrição das disfunções; a observação direta é indispensável para verificar como se processa a regulação das mesmas e, finalmente, a análise de documentos é fundamental para o cálculo dos custos ocultos.

As entrevistas, realizadas com diferentes categorias de pessoal na organização, ou sub-divisão desta (“micro-espaço”), tais como  pessoal direto e indireto, gerentes e supervisores, visam obter principalmente uma descrição das disfunções e, subsidiariamente, as opiniões dos entrevistados sobre os efeitos e as causas das disfunções.

As entrevistas tem caráter semi-diretivo e são realizadas com o auxílio de um guia de entrevista pré-estabelecido em função do tema em estudo e do modelo conceitual da análise sócio-econômica.

Este guia consiste em uma lista de temas e sub-temas que são abordados no decorrer da entrevista numa ordem qualquer, e é utilizado durante a entrevista para evitar que algum ponto relevante deixe de ser abordado.

Na elaboração do estudo de caso apresentado nesta dissertação foi utilizado o guia de entrevistas desenvolvido por Lima para a realização de um diagnóstico disfuncional em uma situação genérica de emergência tecnológica (Lima, 1991a); este documento é apresentado no Apêndice 1.

Durante a entrevista é feito um registro exaustivo e tão literal quanto possível de todas as observações do entrevistado, ao qual se solicita que discorra livremente sobre os diversos temas e sub-temas constantes do guia de entrevistas.

O entrevistado é interrogado diretamente pelo pesquisador somente quando se trata de precisar ou quantificar os efeitos de alguma disfunção ou quando se verifica que a entrevista não produz espontaneamente a descrição das disfunções.

A análise das entrevistas é feita de acordo com um método rigoroso e preciso. Cada uma das entrevistas é lida cuidadosamente e são sublinhadas as frases que expressam alguma disfunção; a idéia-chave expressa pelo entrevistado é então traduzida pelo pesquisador.

Após a análise de todas as entrevistas, as idéias-chave são agrupadas e classificadas de acordo com um dos temas ou sub-temas constantes do guia de entrevistas, verificando-se ainda a frequência com que cada idéia foi expressa.

Seleciona-se também, dentre todas as frases que expressaram a mesma idéia-chave, aquela que melhor identifica a disfunção percebida; esta “frase testemunha” é registrada junto à idéia-chave correspondente.

A avaliação dos custos ocultos fornece uma medida objetiva do impacto das disfunções sobre a empresa, numa linguagem facilmente inteligível pela gerência e que permite visualizar o potencial de melhoria.

O inventário das disfunções e uma avaliação de seu impacto econômico é apresentado à empresa, com o intuito de obter o chamado “efeito espelho”. Isto completa a primeira fase do diagnóstico sócio-econômico.

Na segunda fase, elabora-se o laudo de especialista, que resulta de uma análise aprofundada das informações obtidas na primeira fase e consiste de um diagnóstico sintético das disfunções e de recomendações para o desenvolvimento de fases posteriores da intervenção sócio-econômica.

No laudo de especialista são selecionadas e hierarquizadas as idéias-chave formuladas a partir da análise das entrevistas, evidenciando-se aquelas que parecem ser as mais importantes e que devem ser priorizadas durante o processo de intervenção.

Dado que o pesquisador dispõe de outras fontes de informação além das entrevistas (observação direta, entrevistas informais, conhecimento sobre a empresa, etc.), é possível que no laudo de especialista sejam também evidenciadas idéias-chave que não foram expressas pelos atores e representam disfunções que não são claramente percebidas por eles.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIMA, M. A., 1991a. Qualité d’Utilisation des Ressources dan l’Emergence Technologique: Recherche-expérimentation, Diagnostic et Propositions de Solutions, Tese de Doutoramento em Ciências de Gestão apresentada à Universidade Lumière Lyon 2, sob a direção de H. Savall, Fev/91.

 

LIMA, M. A., 1991b. “A Estrutura e as Ferramentas da Intervenção-Pesquisa Sócio-Econômica nas Empresas e Demais Organizações”. in Revista de Administração de Empresas, Jan-Mar, 21-30.

 

LIMA, M. A., 1991c. “Metodologia de Diagnóstico e de Aperfeiçoamento da Qualidade Organizacional da Empresa: Resultados de Pesquisa”. in Toledo, J. C. (Org.) -Gestão da Qualidade – Coletânea de Textos, Grupo Regional de Desenvolvimento da Qualidade e Produtividade, São Carlos.

 

SAVALL, H., 1981.  Reconstruire l’Enterprise – Analyse Socio-économique des Conditions de Travail, 2ª edição, Dunod, Paris; 1ª edição 1979, Dunod, Paris.

SAVALL, H., 1989.  Enrichir le Travail Humain: l’Évaluation Économique, 3ª edição, Ed. Economica, Paris; 1ª edição 1975, Dunod, Paris.

SAVALL, H. & ZARDET, V., 1989.  Maitriser les Coûts et les Performances Cachés – Le Contrat d’Activité Périodiquement Négociable, Economica, Paris.

SCHEIN, E., 1985.  Organizational Culture and Leadership, Jossey-Bass, San Francisco.


[1] Institut de Socio-Économie des Entrerprises et des Organizations, conhecido pela sigla ISEOR.

[2]Uma discussão sobre as exigências metodológicas para que a pesquisa em Administração possa ser considerada científica,  as dificuldades que se apresentam para o atendimento de tais exigências e os diferentes métodos de pesquisa utilizados nas Ciências de Gestão pode ser encontrada em Lima (1991a:77-99). As pesquisas de intenção científica procuram apresentar no maior grau possível três características:

(a)            reprodutibilidade, que corresponde à possibilidade de reproduzir as condições da pesquisa realizada, de modo que seus resultados possam ser confirmados através de outras experiências;

(b)           fidelidade, que corresponde à possibilidade de repetir duas vezes o mesmo fenômeno e obter os mesmos resultados;

(c)            separabilidade, que corresponde à possibilidade de separação entre o observador e o objeto de estudo.

[3]Grifado no original.

[4]Esta capacidade é denominada “prégnance”, que se poderia traduzir por impregnação.

[5]Estas descrições são abrangentes, mas não exaustivas. Savall e Zardet (1989:155) assinalam que se faz necessário adaptá-las segundo a organização estudada, refletindo assim a importância que a análise sócio-econômica atribui à observação empírica dos problemas organizacionais.

[6]A comunicação-coordenação-concertação é definida em Savall (1989:202) como uma articulação operacional e funcional entre indivíduos para realizarem suas atividades. A comunicação compreende todos os tipos de trocas de informação entre as pessoas, ligadas ou não às atividades profissionais; a coordenação refere-se aos dispositivos de troca de informação tendo em vista a realização de objetivos funcionais ou operacionais da atividade; a concertação caracteriza as trocas de informação que permitem definir os objetivos.

[7]Compare-se com a definição de cultura organizacional como “um padrão de pressupostos básicos – inventados, descobertos ou desenvolvidos por um dado grupo a medida que aprende a resolver seus problemas de adaptação externa ou integração interna – que tem funcionado suficientemente bem a ponto de ser considerado válido e, portanto, ser ensinado aos novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir em relação àqueles problemas”, proposta por Schein (1985:9).

Refletindo sobre Ética: Objetivismo e Relativismo

1.0  Introdução

Os objetivos deste trabalho são identificar as principais linhas de pensamento nas quais os ensinamentos da Ética podem ser classificados e mostrar porque temos que  nos opor à teoria filosófica que tende a tornar-se dominante na atualidade.

2.0  Definições de Ética

Tradicionalmente, uma das grandes divisões da Filosofia é a Ética, também conhecida como Filosofia Moral, ou simplesmente Moral. Esta área da Filosofia pode ser definida como:

“A moral é a ciência das leis ideais que dirigem as ações humanas, e a arte de as aplicar corretamente às diversas situações da vida.” (Lahr, 1952)

Esta definição é muito apropriada, pois em uma única frase engloba as três áreas gerais em que, modernamente,  se divide o estudo da Ética:

a)    a metaética, dedicada a investigar a origem e o significado dos princípios éticos que orientam o comportamento humano e buscar respostas para questões tais como: Existem princípios absolutos do Bem e do Mal? Ou são estes conceitos mera convenção dos grupos sociais? Podem tais princípios serem deduzidos pela razão?;

b)    a ética normativa, que procura definir os padrões de conduta considerados certos e errados, e envolve questões tais como: Quais são nossos deveres para com nossos semelhantes?, Que virtudes devemos cultivar?, e;

c)    a ética aplicada, que se ocupa da análise de assuntos controversos tais como a pena de morte, a eutanásia, o aborto, e outros, e utiliza os conceitos da metaética e da ética normativa para definir a posição a ser adotada acerca de tais assuntos.

Neste trabalho concentramos o foco na metaética e na ética normativa. No entanto é freqüente que as três áreas estejam envolvidas na análise de situações específicas. Uma discussão sobre, por exemplo, a eutanásia – um problema de ética aplicada – sem dúvida envolverá considerações sobre a ética normativa (por exemplo, o direito do paciente à escolha; o dever dos médicos de empregar recursos extraordinários, etc) e sobre a metaética (por exemplo, a origem dos direitos; os direitos e deveres inerentes ao ser humano, etc).

A Filosofia Moral difere marcadamente das demais ciências quanto ao método. Enquanto estas buscam descrever o que é, aquela procura determinar o que deveria ser. Assim, a Ética não se limita a descrever como os homens agem; vai além, prescrevendo como deveriam agir.

3.0  Natureza das leis morais

Provavelmente, a mais importante preocupação da Metaética é prover uma resposta satisfatória à pergunta: “A moralidade existe independentemente dos seres humanos?”.

Uma resposta afirmativa equivale, via de regra, a dizer que alguns atos são intrinsecamente  bons, ao passo que outros são intrinsecamente maus, e que o padrão que define o que é bom e o que é mau é eterno e imutável, aplicável a todos os seres humanos, em qualquer época, qualquer que seja sua cultura.

Esta abordagem se denomina objetivismo, pois afirma que as leis morais podem ser deduzidas da relação necessária entre a natureza humana e seu objetivo. Em essência, as leis morais estariam, como as leis da física, entremeadas ao tecido do Cosmos.

Assim como a matemática, que permaneceria válida mesmo que não existissem seres racionais que apreendessem seus conceitos, da mesma forma as leis morais existiriam como verdades absolutas, independentes da experiência humana.

No entanto, de acordo com o objetivismo, existe uma diferença fundamental entre as leis da física e as leis morais. Enquanto aquelas são necessariamente obedecidas, mas é concebível que fossem diferentes (são ditas objetivamente contingentes, subjetivamente necessárias), estas não são necessariamente obedecidas, mas não é concebível que fossem diferentes (são ditas objetivamente necessárias, subjetivamente contingentes).

Exemplificando, é concebível, ao menos como exercício intelectual, que a aceleração da gravidade em nosso planeta fosse diferente de 9,86 m/s2, o que faria com que os objetos caíssem com velocidade diferente da que caem, mas é inconcebível que o  Bem se transformasse no Mal.

O objetivismo requer que a existência humana possua  um propósito definido, um objetivo para o qual deva tender, de modo que se possa considerar como bom aquilo que conduz a este objetivo e como mau o que faz o ser humano afastar-se do objetivo.

A segunda abordagem, denominada relativismo,  nega a existência de valores morais absolutos e afirma que os conceitos de Bem e Mal são invenções estritamente humanas. O relativismo se apresenta essencialmente sob duas formas.

O relativismo cultural, que baseia seus argumentos principalmente na imensa diversidade de costumes encontrada nas diferentes sociedades. Aspectos relativos, por exemplo, às obrigações dos filhos para com os pais, ao infanticídio, à homossexualidade, às obrigações para com os que não pertencem ao grupo,  etc., variam substancialmente quando são comparadas diferentes sociedades,  ou até a mesma sociedade em diferentes épocas. Assim, “certo” significaria apenas “aprovado pela grupo social naquele momento”.

Algumas tentativas de refutação ao relativismo cultural apoiam-se no fato de que há certos princípios éticos comuns a essencialmente todas as culturas, em todas as épocas. Por exemplo, todas as sociedades conhecidas, em todas as épocas,  condenam o ataque irrestrito a membros do próprio grupo e aprovam o auxílio mútuo entre parentes. Isto indicaria a existência de um núcleo de valores absolutos, como propõe o objetivismo.

No entanto, este argumento contrário ao relativismo é refutado com facilidade, porque o fato de haver tais princípios comuns pode ser explicado satisfatoriamente pela biologia. É evidente que restrições à matança indiscriminada entre indivíduos do mesmo grupo e uma certa cooperação entre eles são práticas vantajosas sob o ponto de vista evolucionário, pois significam maior probabilidade de que tais indivíduos transmitam seus genes às gerações vindouras, através de um processo conhecido como seleção a nível do clã (“kin selection”).

Sendo a evolução um processo não direcionado, fundamentalmente baseado no acaso das mutações genéticas, não é possível utilizá-la como avalista do comportamento humano, nem para o bem nem para o mal.

A verdadeira refutação consiste em lembrar que a simples descrição de como os seres humanos agem não é, em si, uma indicação do valor moral de suas ações, nem para o bem nem para o mal. Na Antiguidade a escravidão era aprovada pela grande maioria das sociedades, mas isto não a tornava moralmente correta. De maneira análoga, o fato de que tais ou quais comportamentos são disseminados não lhes confere qualquer característica moral.

O relativismo individual sustenta que os princípios morais são em grande medida criados pelo próprio indivíduo.

O mais conhecido defensor desta idéia foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que condenava a ética do Cristianismo, considerando-a como a ética dos fracos, que detestam e temem a força, o orgulho e a auto-afirmação.  Considerava que as religiões tradicionais estavam acabadas (“Deus está morto.”) e propunha uma “reavaliação de todos os valores.” Estes novos valores levariam também a um ideal: o “Übermensch”, ou super-homem, que criaria sua própria ética. Estes conceitos foram amplamente usados como justificativa filosófica do Nazismo.

Outra  forma de relativismo individual é o existencialismo, cujo mais conhecido representante foi o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). Em sua principal obra, “O Ser e o Nada”, publicada em 1943, Sartre sustenta a não-existência de Deus e afirma que cada ser humano possui, ao menos em princípio, a liberdade de decidir como viver. Na medida em que suas escolhas sejam “autênticas”, no sentido de que provieram de seu livre arbítrio, não há nenhuma justificativa moral para que sua conduta seja criticada.

4.0  Critérios de moralidade

Provavelmente, a mais importante preocupação da Ética normativa pode ser resumida na pergunta: “Como levar uma vida moralmente correta?”.

Diversos filósofos enfatizam que uma vida moralmente correta depende do desenvolvimento de certos hábitos, que se denominam virtudes. As teorias da virtude são das mais antigas tradições filosóficas do Ocidente. Platão (428 – 347 A.C.), por exemplo, enfatizava quatro virtudes, mais tarde denominadas cardinais: Temperança, Justiça, Coragem e Prudência.

Já se disse que toda a filosofia ocidental é uma nota de rodapé para os ensinamentos de Platão.  Este filósofo admitia a espiritualidade da alma e sua existência totalmente distinta do corpo. Para ele, a alma seria um princípio de vida e de movimento, e não apenas imortal como também eterna. Seria dotada de três faculdades, ou composta de três partes, cada qual orientada por uma tendência distinta:

a)    a alma inferior, que possui os desejos ou apetites físicos, e cuja virtude é a temperança;

b)    a alma média, que impele à ação e é o princípio das paixões nobres e generosas; sua virtude é a força, e;

c)    a alma superior, que possui a inteligência e a razão, é a única parte imortal e deve conduzir  cada indivíduo, prevalecendo sobre as outras duas partes; sua virtude é a sabedoria.

Ainda segundo Platão, a virtude consistiria em manter a correta hierarquia de subordinação entre os três componentes da alma, sob a direção da sabedoria, que se torna o fundamento de toda virtude. A subordinação do desejo à paixão nobre gera a temperança; a subordinação da paixão à razão resulta na fortaleza; a harmonia e o equilíbrio resultantes da temperança, da fortaleza e da sabedoria gera a justiça, entendida como a saúde e a perfeição da alma.

Os filósofos cristãos da Idade Média acrescentaram mais três virtudes que deveriam ser cultivadas, e que foram denominadas virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

Além de adquirir bons hábitos, as pessoas deveriam evitar os maus (vícios), tais como preguiça, avareza e vaidade. Isto seria conseguido através da educação moral, adquirida na juventude; instilar tais virtudes nos jovens seria responsabilidade dos mais velhos.

As chamadas teorias do dever acentuam que a moralidade consiste em cumprir certos deveres  e que a obrigação de  cumpri-los independe das conseqüências. Assim, tais teorias são também denominadas deontológicas, ou não-conseqüênciais.

O filósofo alemão Samuel Pufendorf (1632 – 1694)  classificava os deveres em três categorias: deveres para com Deus, deveres para consigo mesmo, deveres para com os outros. Os deveres para com Deus seriam:

a)    conhecer Sua existência e natureza, e;

b)    b) prestar-Lhe culto interno e externo.

Os deveres para consigo mesmo seriam:

a)    deveres da alma, relacionados ao desenvolvimento das habilidades e talentos de cada indivíduo, e;

b)    deveres do corpo, relacionados à manutenção da vida e da saúde.

Finalmente, os deveres para com os outros seriam:

a)    deveres absolutos, tais como não prejudicar o próximo, tratar a todos como iguais e promover o bem de outros, e;

b)    deveres condicionais, relacionados a acordos e promesas.

O também alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) teorizava a existência de um nível mais fundamental do dever, que abrangeria todos os deveres particulares, e seria um princípio único, evidente por si mesmo, denominado “imperativo categórico”.

Segundo Kant, muitas ações são realizadas em virtude de imperativos hipotéticos, que estão ligados à consecução de um objetivo qualquer.  Por exemplo, na frase “Se você quer ser aprovado no exame, então deve estudar” tem-se um imperativo hipotético, pois cabe ao sujeito decidir se irá ou não obedecer, tendo em vista o objetivo a que se propõe.

Já um imperativo categórico simplesmente impõe um dever, que deve ser cumprido independente de qualquer objetivo ou desejo do sujeito. Kant enumera pelo menos quatro imperativos categóricos, mas um deles é particularmente direto: “Trate as pessoas como um fim, e nunca como um meio para alcançar um fim.”

5.0  Objeções ao relativismo moral

As abordagens objetivista e relativista são na verdade a expressão de diferentes formas de ver o mundo. O conceito das verdades absolutas e a premissa de que a vida humana tem um sentido que transcende sua dimensão puramente material supõe que, de algum modo, existe um mundo invisível, isto é, um mundo espiritual.

Por outro lado, o relativismo dispensa, quando não exclui expressamente, a existência de uma dimensão espiritual, uma vez que o Bem e o Mal são apenas invenções humanas. O relativismo cultural e sua conclusão (“certo” significa apenas “aprovado pela sociedade em determinada época”) parece negar o progresso moral da Humanidade e nos leva a concluir que, por exemplo, o “apartheid” na África do Sul foi uma prática “correta” para a minoria branca, que o aprovava.

Minhas convicções pessoais me fazem rejeitar, já de início, qualquer corrente filosófica que negue a existência de Deus. Mesmo deixando de lado este obstáculo fundamental, considero que nenhuma das duas teorias de relativismo individual apresentadas anteriormente é aceitável.

A filosofia de Nietzsche e sua idéia do super-homem, que define a  própria ética, se opõe frontalmente a minhas crenças. Estou plenamente convencido que é dever de cada um de nos tratar a todos os homens, sem distinção de classe e de raça, como seus iguais e irmãos. Quando o povo alemão acreditou ser a encarnação do super-homem, representado pela raça ariana, a Humanidade sofreu conseqüências devastadoras. Assim, é improvável que tais idéias voltem a ser consideradas seriamente.

Por outro lado, embora possivelmente apenas um número muito reduzido de pessoas haja lido Sartre, mais e mais tornam-se, na prática, existencialistas. Para muitos, Deus é apenas um resquício de antigas superstições, que o progresso da Ciência erradicará definitivamente nas próximas décadas.

O Homem é visto simplesmente como resultado de um acaso; nega-se qualquer sentido ou finalidade à vida, exceto a satisfação dos sentidos e a busca do status. Despido de sua transcendência, visto apenas como um animal dotado de raciocínio, o Outro torna-se um instrumento a ser usado em benefício próprio.

Devemos tomar uma posição clara contra o relativismo moral que permeia os dias de hoje. O pensamento e a prática que regem o comportamento de apreciável parcela da sociedade atual se resumem na frase “Se me agrada ou se me convém está correto.”

Como homens de bem, devemos ter a coragem moral de ir contra esta corrente. declarando com firmeza que nem o prazer nem a conveniência são justificativas morais para as ações do ser humano, e que não transformam em bem aquilo que é intrinsecamente desordenado e mau.

REFERÊNCIAS:

ETHICS (2009). In Encyclopædia Britannica. Disponível em Encyclopædia Britannica Online: http://www.britannica.com/EBchecked/topic/194023/ethics. Acesso em 31.jan.2009

FIESER, James (Ed.); DOWDEN, Bradley (Ed.). The Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em  http://www.iep.utm.edu/. Acesso em: 31.jan.2009.

LAHR, C. Manual de Filosofia.  Tradução e adaptação de Antonio Alves da Cruz. 6 ª ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1952. 847 p. Título original: Cours de Philosophie

RUNES, Dagobert D. (Ed.). Dictionary of Philosophy. s/ local, 1942. Disponível em http://www.ditext.com/runes/index.html. Acesso em: 31.jan.2009.