Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (5)

Em 1966 o ensino público era bom, mas nem todos tinham acesso a ele. Quando se terminava o 4º ano do chamado curso primário, a continuação dos estudos em uma escola pública não era garantida. Não havia vagas suficientes, e para iniciar o curso ginasial, que durava quatro anos – corresponde ao que hoje seriam  a 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries – era necessário fazer um exame de admissão.

Era um mini-vestibular e quem era reprovado tinha duas opções: (1) preparar-se melhor, talvez fazendo um curso de admissão,  e tentar novamente no ano seguinte, ou; (2) matricular-se em uma escola particular.

Em 1966 eu cursava o 4º ano primário, portanto já estava na hora de começar a pensar no exame de admissão. No caso, a melhor opção era o Colégio Estadual de Minas Gerais, um dos mais prestigiosos do estado, considerado um referencial de excelência.

Sala de aula: “a régua”

Havia duas unidades da Colégio Estadual próximas de casa. Uma era a Central, projetada por por Oscar Niemeyer; seus prédios tinham formas que lembravam objetos usados em uma escola.

Auditório: “o mata-borrão”

Na unidade Central funcionava somente o curso científico; as classes do curso ginasial se localizavam no Anexo Santo Antônio, que tinha este nome porque ficava no bairro Santo Antônio  e era adjacente à unidade central.  Na realidade, os fundos das duas unidades ficavam em calçadas opostas da mesma rua e ambas compartilhavam as quadras e a piscina semi-olímpica.

A entrada do Anexo Santo Antônio ficava na Rua Felipe dos Santos. Eram três ou quatro quarteirões de onde morávamos – é verdade que uma subida íngreme, mas isto não era então um problema. O problema é que o Colégio Estadual era um dos mais concorridos, de modo que uma boa classificação no exame era essencial para conseguir uma vaga.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre esta escola, e o exame de admissão, recomendo a  leitura da tese de doutorado da Prof. Dra.  Aleluia Heringer Lisboa Teixeira, intitulada “Uma Escola Sem Muros”: Colégio Estadual de Minas Gerais (1956-1964).

Mamãe havia sido professora durante quase trinta anos e se aposentara pouco antes de nossa mudança para Belo Horizonte. Ensinar era sua vocação natural, refinada por décadas de experiência. Assim, em meados de 1966 comecei a me preparar para o exame de admissão, em casa mesmo, tendo mamãe como professora.

 Quando  prestei o exame havia 120 vagas para o Anexo Santo Antônio e pelo menos meia dúzia de candidatos por vaga; fui classificado em 22º lugar. No início de 1967 comecei o curso ginasial.

A disciplina era rigorosa. Os portões se fechavam às 7:30 e ninguém entrava após este horário.  Não se entrava também sem o uniforme completo: calça cinza, camisa impecavelmente branca de mangas compridas, com um friso verde na gola e nos punhos e o distintivo do colégio no bolso; sapatos e meias pretas. No verão admitia-se uma versão do uniforme com camisa de mangas curtas.

Tínhamos uma carteira para registro de notas e de frequência, que era entregue a um bedel na entrada e devolvida ao aluno na saída; não se entrava na escola sem a carteira. As provas eram bimestrais; depois que as notas eram lançadas na carteira, não se permitia a entrada do aluno se não houvesse a assinatura do paí ou responsável indicando que tivera conhecimento das mesmas.

De maneira geral, os professores eram muito bons e vários eram excelentes.  Até hoje recordo a competência com que ministravam   suas aulas, embora me falhe o nome de alguns. Graças a estes mestres, adquiri uma formação  básica que foi muito útil ao longo de minha vida.  Foram professores que realmente sabiam ensinar e, mais importante, estimular os alunos a querer aprender. Cito alguns como D. Cleuza (Inglês, 1ª série – 1967) e sua irmã  D. Giselda (Matemática,   1ª série – 1967), Dr. Janot Pacheco (Ciências, 3ª série – 1969), Prof. Waldir (Inglês, 3ª série – 1969), Prof. Celso (Português, 4ª série – 1970), Prof. Carlos (Geografia, 2ª série – 1968) e D. Vera (História, 4ª série – 1970).

Havia alguns poucos que não estavam no nível de excelência dos demais.  Lembro-me, por exemplo, de um senhor já bastante idoso que ensinava Geografia e era dado a repentinos acessos de fúria, durante os quais esmurrava mesas e jogava cadeiras para o alto. Houve também uma professora de Educação Moral e Cívica – matéria usada pelo regime militar para  tentar doutrinar a juventude – que provavelmente considerava o General Guarrastazu Médici um simpatizante  do comunismo. Mas eram exceções que apenas confirmavam a regra…

Embora a disciplina fosse rígida e o currículo exigente,  houve muitos momentos divertidos, sobre os quais  falarei no próximo post…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (4)

No início de 1966 papai resolveu comprar um carro. Creio que  foi seu primeiro automóvel, e ele já estava com 54 anos. E, é claro, não tinha carteira de motorista. Hoje, quando o Brasil é o terceiro  maior mercado de automóveis do mundo (atrás apenas da China e dos Estados Unidos)  e tirar a carteira de habilitação é quase um rito de  passagem para a vida adulta, isto pode parecer estranho. Mas em 1966 a situação era outra…

Considerando a fabricação local, a indústria automobilística mal completava dez anos, e um carro ainda era o sonho de consumo da classe média, que só viria a tornar-se realidade em grande escala  durante o “milagre brasileiro” do início dos anos setenta. Basta dizer que a maioria das casas sequer possuía garagem!

A variedade de modelos disponíveis era bastante limitada. Basicamente, a Willys Overland fabricava a Rural, o AeroWillys, o Gordini  e o Dauphini (os dois últimos sob licença  da Renault), a Vemag produzia o sedã Belcar e a perua Vemaguete (sob licença da DKW),  a SIMCA disponibilizava o Chambord e o Tufão e, disparada na liderança das vendas, a Volkswagen oferecia o aparentemente imortal Fusquinha.


Num sábado, talvez em fevereiro ou março, papai e  meu irmão saíram em busca do sonhado veículo. Em casa esperávamos ansiosos. Voltariam com um Fusca? ou seria um Gordini? quem sabe, talvez até mesmo um SIMCA? Mas acredito que papai não tivesse a menor ideia sobre qual marca e modelo desejava comprar; estava decidido a motorizar-se,  porém qualquer automóvel que o levasse de um lado para outro e que estivesse ao alcance de seu bolso poderia ser considerado.

O fato é que no início da tarde ele e meu irmão apareceram de volta em um Chevrolet Belair 1958 hidramático, importado dos Estados Unidos havia alguns anos por um político sabe-se lá como (mas a documentação  estava OK).

Era um autêntico “rabo de peixe”, um dinossauro cujos descendentes ainda dominavam as autoestradas norte americanas: motor de 6 cilindros 3900 cm3 15o HP, câmbio hidramático, 5,3 m de comprimento, 1500 kg de peso, 5 km/litro de gasolina.  Em suma: um carrão! A foto  mostra como era o Belair 1958; o de meu pai era exatamente desta cor: azul e branco.

Belair 1958 - Vista lateralA sede insaciável do  potente veículo não causava preocupação. A gasolina era vendida  então a preço de  banana – ou talvez menos. A OPEP já existia, mas ainda não havia demonstrado seu poder; a Primeira Crise do Petróleo só ocorreria  sete anos depois.

Viajamos muito com este carro, conhecendo diversos lugares de Belo Horizonte e cidades vizinhas. Meu pai não se animou a tirar a carteira de motorista nesta época – só veio a fazê-lo em 1972, de modo que meu irmão sempre foi o condutor. Ubiratan – este era o nome de  meu  saudoso irmão – a quem chamávamos de Bira, e papai fizeram um acordo informal: Bira dirigiria para a família, mas disporia do carro todas as noites como bem lhe aprouvesse. Para um moço de 22 anos, solteiro, numa  época    em que um carro ainda tinha um certo poder de atração junto ao público feminino, não era um mau acordo. Assim, todos saíram ganhando e ficaram satisfeitos com a aquisição do “dinossauro de aço”.

Mas, como nos ensina a sabedoria  popular, “não há bonito  sem senão” e no caso deste carro o senão estava na manutenção, dificílima e caríssima. No início de 1967,  voltando de uma festa, Bira sofreu um acidente ao atravessar um sinal que ele jurava estar aberto; o motorista e os passageiros do ônibus que colidiu com o Belair diziam que o sinal estava sim aberto, mas para o  ônibus.  Felizmente ninguém se machucou, mas o carro ficou de tal forma danificado que o reparo se tornou inviável.

Este incidente azedou bastante o relacionamento entre Bira e papai, que ficou uma fera com o prejuízo – o carro não tinha seguro, aliás nem sei se alguém fazia este tipo de seguro na época – e só voltou a comprar outro veículo em 1971. Mas isto é outra história…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (3)

O dia 31/03/1964 marcou o início do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e implantou no Brasil um regime autoritário que durou quase 21 anos. A quem estiver interessado em saber mais sobre o que se passou nestes anos, recomendo a leitura da monumental obra de Elio Gaspari, composta (até o  momento) de duas partes: “As Ilusões Armadas” (dois volumes:  “A Ditadura Envergonhada” e “A Ditadura Escancarada”) e “O Sacerdote e o Feiticeiro” (dois volumes: “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”). Mas o que interessa no momento  é dizer que o golpe começou em Minas Gerais, quando o  General Olympio Mourão Filho se declarou rebelado contra o governo federal e partiu com sua tropa de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.

Para mamãe e eu 31/03 foi muito divertido. Recém-chegados à Belo Horizonte, e completamente alheios à política, aproveitamos o dia  para conhecer a cidade. Passeamos pelo centro, explorando o território, conhecendo e admirando as lojas afamadas, admirando a quantidade de cinemas e a variedade de filmes em cartaz.

Naquela época, eu acompanhava mamãe de bom grado em suas compras; hoje tenho verdadeiro horror a entrar em uma loja para olhar as mercadorias. É que, como escreveram João Bosco e Aldir Blanc, “Na idade em que estou / Aparecem tiques, as manias / Transparentes, transparentes / Feito bijuterias / Pelas vitrines, / Da Sloper da alma”. Aliás, a Casa Sloper deve ter sido uma das lojas que visitamos então.

Confesso que não recordo com exatidão onde fomos naquele dia há 48 anos. Mas é possível dizer onde poderíamos ter ido, com base em minhas lembranças sobre os lugares onde costumávamos ir. Poderíamos, por exemplo, ter almoçado no Restaurante Giratório, que ficava no Edifício Helena Passig na Praça Sete. Neste restaurante as mesas ficavam sobre uma esteira, como estas de bagagem que se vê nos aeroportos. A esteira girava lentamente; uma volta levava mais ou menos o tempo de uma refeição e eu, creio que como todas as crianças de Belo Horizonte, achava aquele restaurante sensacional! Ou, invés de almoçar, poderíamos ter feito uma refeição mais leve nas Lojas Americanas, cuja lanchonete era famosa pelos ótimos sanduíches, o bolo com sorvete e um prato que só nos animamos a pedir depois de muitas semanas de ensaio e hesitação. Era o tal de “waffle”, palavra que nem eu nem mamãe sabíamos como pronunciar; hesitávamos entre “uáfle”, “váfle” ou “uáfelê” e não queríamos passar recibo de nossa ignorância interiorana. O assunto só foi esclarecido quando meu irmão, que já tinha estudado inglês, nos explicou que o certo era “uáfol” ou “uófol”.

Seja  como for, só chegamos em casa no final da tarde. Ao passarmos pela Mercearia  Bandeirante notamos algo de estranho: as prateleiras estavam vazias. Não havia mais nada para comprar: nem arroz, nem feijão, nem óleo, nem açúcar, nada mesmo! É que a população, alarmada com o cenário que se desenhava, havia feito um estoque de gêneros de primeira necessidade, que certamente iriam faltar se houvesse uma guerra civil, uma possibilidade real naqueles dias conturbados. Quando entramos no apartamento, papai nos recebeu muito nervoso, pois só conseguira encontrar na mercearia um quilo de farinha de milho e uma lata de óleo; era este nosso estoque de alimentos para enfrentar as agruras da guerra civil…

No dia seguinte fui visitar minha professora, D. Olga – sobre a qual já escrevi no “post” anterior –  e lá estava quando chegou seu irmão. Ele usava uma braçadeira amarela com um triângulo vermelho                     e relatou orgulhoso que havia se alistado como voluntário para lutar na defesa de Minas Gerais. Nunca vi isto mencionado em qualquer livro ou artigo sobre o movimento de 64, e já procurei várias vezes  na internet, sem sucesso, mas afirmo: chegou a haver alistamento de voluntários em Belo Horizonte, prevendo a eventualidade de uma luta prolongada contra o governo federal.

Feliz ou infelizmente (depende do ponto de vista de cada um)  o “dispositivo militar” de Jango mostrou-se tão real quanto a mula sem-cabeça e não houve qualquer guerra, batalha ou escaramuça entre rebelados e legalistas.

Em casa, a farinha de milho e o óleo foram consumidos em clima de paz, e a vida seguiu normalmente em Belo Horizonte. Até que papai comprou um carro…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (2)

Em 1964 entrei no segundo ano do curso primário no Grupo Escolar Pandiá Calógeras, que ficava a uns 500 metros de casa. Minha professora chamava-se D. Olga Bookmayer; era ainda bastante jovem e morava com a família no mesmo prédio onde morávamos. Tinha muita paciência com a criançada e de vez en quando eu batia em sua porta para perguntar sobre alguma coisa que não havia entendido; ela sempre atendia com boa vontade, apesar disto não fazer parte de suas obrigações.

Fiz também o terceiro e o quarto anos do primário no Pandiá Calógeras. No terceiro ano a professora se chamava D. Nelize; era uma senhora já de certa idade, muito respeitada por todos e considerada como uma das melhores professoras da escola, como de fato era.  No quarto ano tive também uma excelente professora, cujo nome completo nunca me saiu da memória justamente por ser tão pouco comum: Denderah Haydée dos Santos. D. Denderah  teria então seus 30 e poucos anos e, ao que me lembre, era solteira – assim como D. Nelize.

Já que estou lembrando de minhas professoras no curso primário, não posso deixar de mencionar a saudosa D. Natal, do primeiro ano, no Grupo Escolar Monsenhor José Paulino, em Pouso Alegre. Já adulto e formado havia tempos como engenheiro, tive a oportunidade de visitá-la. Bastante idosa, porém completamente lúcida, ficou muito alegre com minha visita – tinha notícias minhas através de mamãe, porém não havia me encontrado pessoalmente desde meus tempos de menino – e não tive dúvidas de que D. Natal realmente se sentia feliz quando via um ex-aluno bem e tinha consciência da importância do trabalho que realizara com excelência por tanta décadas.

Voltando ao fio da meada, recordo que sempre tive aulas de manhã. Acordava cedo e quase sempre ia para a escola a pé. Aquele trecho da Olegário Maciel era praticamente desabitado; do lado direito para quem subia havia um ou outro prédio residencial, de três ou quatro andares, e do lado esquerdo, entre a Faculdade de Farmácia e o Grupo Escolar eram só terrenos baldios.

O ensino no Pandiá era muito bom e quem não tirasse a nota mínima requerida levava bomba. Não sei se ainda se usa esta expressão, portanto esclareço: isto não quer dizer que o aluno fosse explodido; ele simplesmente tinha que repetir o ano. Não havia ainda a obrigação de preservar a auto-estima da criança e do adolescente,  de modo que desde pequeno aprendia-se que sem esforço não se chega a nenhum resultado. Em compensação, não se saía da escola semi-analfabeto…

O ano de 1964 foi marcante para a história do Brasil. E tudo começou em Belo Horizonte…

continua…

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (1)

Meu pai era bancário, contador da agência do Banco Mineiro da Produção em Pouso Alegre,  naquela época uma sonolenta cidadezinha do sul de Minas. Creio que no final de 1963 ele foi transferido para a matriz do banco, e por isto em fevereiro de 1964 mudamos para Belo Horizonte. 

A população de Belo Horizonte saltou de 700.000 habitantes em 1960 para 1200000 em 1970, de modo que no início de 1964 deveria estar em torno de 850000 pessoas. Uma cidade gigantesca para mim,  um autêntico “caipira” que nunca havia se afastado mais do que 50 km de Pouso Alegre.

E eu achava tudo o que via novo e surpreendente. Que prédios altos,  com tantos andares! E com elevador, que me parecia a maravilha das maravilhas! Encantavam-me as ruas largas e arborizadas,  pelas quais circulavam tantos ônibus e trólebus, o tráfego fluindo conforme o apagar e acender das luzes coloridas dos semáforos. Era uma experiência nova fazer compras na Mercearia Bandeirantes, onde a gente mesmo pegava as mercadorias nas prateleiras e depois pagava no caixa – tão diferente do armazém do “seu” Sílvio em Pouso Alegre.

Adorei a mudança e em poucas semanas estava adaptado à cidade grande e começava a perder o sotaque; depois de alguns meses,  já não provocava mais estranheza nem comentários e piadinhas quando falava a palavra “porta”.

Ficamos em Belo Horizonte por quase sete anos – mais exatamente seis anos, dez meses e vinte e um dias.  Nesses anos, cursei o segunda, terceira e quarta séries  do curso primário e os quatro anos do ginásio, sempre em escolas públicas. Nelas o ensino era EXCELENTE  e totalmente gratuito.

O apartamento onde morávamos era no terceiro e penúltimo andar de um  edifício que ficava na esquina da Rua Santa Catarina com a Rua Felipe dos Santos. Seguindo um quarteirão pela Rua Santa Catarina chegava-se à Avenida do Contorno; subindo um quarteirão pela Rua Felipe dos Santos alcançava-se a Avenida Olegário Maciel.

Além do nosso, havia mais uma meia dúzia de prédios, todos com no máximo quatro andares. As demais  construções eram casas, das quais umas poucas seriam mais apropriadamente chamadas de mansões. Lembro-me especificamente de uma casa, situada na Rua Santa Catarina, que ficava no meio de um bem cuidado jardim; pertencia a um médico famoso e lembrava uma mansão inglesa como as que se vê no cinema.

Eu já havia feito o primeiro ano primário em Pouso Alegre, e fui matriculado no segundo ano do então Grupo Escolar Pandiá Calógeras.

continua…

Esparciatas, periecos e ilotas

Existiu na Grécia Antiga uma cidade-estado chamada Esparta, que se tornou famosa pelo militarismo; era basicamente um acampamento em armas, onde todos os aspectos da vida diária conformavam-se ao imperativo da guerra.

Havia em Esparta três classes sociais: esparciatas, periecos e ilotas. Os esparciatas constituíam a classe dominante e somente eles gozavam da plena cidadania; os periecos eram cidadãos livres, que se dedicavam ao comércio e à manufatura. E na base da pirâmide social estavam os ilotas, que cultivavam a terra dos esparciatas como servos da gleba, um regime de semi-escravidão.

A crer-se nos escritos de Aristóteles, no início de cada ano abria-se um período de “caça aos ilotas”, durante o qual os esparciatas podiam eliminar alguns de seus servos, sem maiores justificativas ou complicações.

Isto foi há muito,  mas muito tempo mesmo. Desde então o ser humano se tornou mais civilizado e, até onde  sei, nenhum estado moderno concede permissão legal a um grupo social para que este promova a matança indiscriminada de membros de algum outro grupo. Mas será que todas as sociedades evoluíram da mesma forma?

Terminou o Carnaval, a mais famosa manifestação cultural brasileira, que tanto engrandece e abrilhanta a imagem do país no Exterior. Fico refletindo sobre alguns eventos ocorridos neste período. A garotinha morta na praia por um jet-ski desgovernado, pilotado por um adolescente; a senhora de 54 anos que morreu ao cair de uma altura de 15 metros quando se rompeu o cabo de aço da tirolesa no interior paulista; a jovem ferida que agonizou por alguns dias e veio a falecer devido ao acidente no camarote onde participava do Carnaval bahiano. Em todos os casos ninguém é responsável, foi tudo uma fatalidade…

Desaba o edifício no centro do Rio de Janeiro, ceifando diversas vidas… e ninguém é responsável. Um motorista bêbado em um carro de luxo mata várias pessoas… uma fatalidade. Queima-se vivo o índio… um acidente. Mata-se a jornalista pelas costas em lugar público e à vista de testemunhas… um compreensível e desculpável momento de fraqueza.

Casos como os que mencionei acima, quase que invariavelmente, envolvem um réu primário que acaba aguardando em liberdade pelo julgamento. Se o réu possui uma gorda conta bancária, um bom advogado, conhecedor de todas as brechas e interstícios da lei, lhe garantirá longuíssimo prazo de espera até que o caso vá a juízo. E, exceto em casos raríssimos, a punição, se houver, será extremamente branda: algumas cestas básicas e horas de “serviço comunitário”.

E aí me vem a analogia com a situação de Esparta. A inoperância, ineficácia e ineficiência de nosso sistema judiciário geram tal certeza de impunidade que nossos “esparciatas” sabem que abater um “ileco” não trará maiores conseqüências. E, naturalmente, agem de acordo…

Excelsior! Um poema de Henry Wadsworth Longfellow

Introdução

Surfando pela internet, encontrei uma versão em latim (!) do poema “Excelsior! ” do escritor americano Henry Wadsworth Longfellow. Excelsior quer dizer “mais alto” e conta a história de um jovem que perece numa escalada pelos Alpes; há todo um simbolismo no poema, que pode ser lido de várias maneiras.

Há uma tradução primorosa deste poema para o português, feita por Alexei Bruno, que pode ser encontrada, juntamente com a biografia de Longfellow, no endereço: (http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html).

Reuni nas prócimas páginas o original inglês, a tradução para o português e a adaptação para o latim.

UM POEMA DE HENRY WADSWORTH LONGFELLOW

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)

The shades of night were falling fast,
As through an Alpine village passed
A youth, who bore, ‘mid snow and ice,
A banner with the strange device,
Excelsior!

His brow was sad; his eye beneath,
Flashed like a falchion from its sheath,
And like a silver clarion rung
The accents of that unknown tongue,
Excelsior!

In happy homes he saw the light
Of household fires gleam warm and bright;
Above, the spectral glaciers shone,
And from his lips escaped a groan,
Excelsior!

“Try not the Pass!” the old man said;
“Dark lowers the tempest overhead,
The roaring torrent is deep and wide!
And loud that clarion voice replied,
Excelsior!

“Oh stay,” the maiden said, “and rest
Thy weary head upon this breast!”
A tear stood in his bright blue eye,
But still he answered, with a sigh,
Excelsior!

“Beware the pine-tree’s withered branch!
Beware the awful avalanche!”
This was the peasant’s last Good-night,
A voice replied, far up the height,
Excelsior!

At break of day, as heavenward
The pious monks of Saint Bernard
Uttered the oft-repeated prayer,
A voice cried through the startled air,
Excelsior!

A traveler, by the faithful hound,
Half-buried in the snow was found,
Still grasping in his hand of ice
That banner with the strange device,
Excelsior!

There in the twilight cold and gray,
Lifeless, but beautiful, he lay,
And from the sky, serene and far,
A voice fell, like a falling star,
Excelsior!


 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems 1842)
Tradução para o português de Alexei Bueno[1]

 

A noite com suas sombras cai depressa;
A aldeia alpina aos poucos atravessa
Um jovem, que ergue, em meio à neve em sanha,
Uma bandeira, com a divisa estranha,
Excelsior!

Sua cor é triste, mas sua vista alçada
Lembra uma espada desembainhada,
E a sua voz qual clarim de prata erguida
Lança os sons de uma língua nunca ouvida,
Excelsior!

Casas felizes ele vê, brilhando
Ao fogo quente, familiar e brando;
Mais ao alto espectral geleira ao vento,
E de seus lábios se escapa um lamento,
Excelsior!

“Não tentes a Passagem”, diz-lhe um velho,
“Já ergue a tormenta o seu manto vermelho,
Rugem as águas sem olhar que as sonde!”
E a alta voz de clarim só lhe responde,
Excelsior!

“Oh! fica”, diz-lhe a virgem, “e em meu seio
Deita a fronte cansada sem receio!”
Nubla-lhe um pranto o olhar azul erguido,
Mas ele ainda responde, com um gemido,
Excelsior!

“Teme os galhos na treva borrascosa!
Teme a uivante avalanche pavorosa!”
São o último boa-noite de quem fica,
E uma voz, longe no alto, lhes replica,
Excelsior!

Nascido o sol, no divino resguardo
Dos santos ermitões de São Bernardo
Quando o salmo de sempre é repetido,
Uma voz grita no ar estremecido,
Excelsior!

Na neve um viajor, semi-enterrado,
Pela matilha fiel é encontrado,
Tendo em sua mão de gelo branca e lisa
A bandeira, com a estranha divisa,
Excelsior!

Lá, onde a noite fria e cinza pousa,
Sem vida, mas tão belo, ele repousa,
E do céu, sereníssima e clemente,
Desce uma voz, como estrela cadente,
Excelsior!

[ 21-12-1987]


 

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)
Adaptação para o Latim de Ray Cui[2]
Leitura de Ray Cui / Leitura de João Azevedo

Cadēbant noctis umbrae, dum
Ībat per vīcum Alpicum
Gelū nivequ(e) adolēscēns,
Vēxillum cum signō ferēns,
Excelsior!

Frōns trīstis, micat oculus
Velut ē vāgīnā gladius;
Sonantque si’milēs tubae
Accentūs lingu(ae) incognitae,
Excelsior!
In domibus videt clārās
Focōrum luces calidās;
Relūcet glaciēs ācris,
Et rumpit gemitūs labrīs,
Excelsior!

Dīcit senex, “Nē trānseās!
Suprā nigrēscit tempestās;
Lātus et altus est torrēns.”
Clāra vēnit vōx respondēns,
Excelsior!
Iam lucescēbat, et frātrēs
Sānctī Bernardī vigilēs
Ōrabānt precēs solitās,
Cum vōx clāmāvit per aurās,
Excelsior!

Sēmi-sepultus viātor
Can(e) ā fīdō reperītur,
Comprēndēns pugnō gelidō
Illud vēxilum cum signō,
Excelsior!
Iacet corpus exanimum
Sed lūce frīgidā pulchrum;
Et caelō procul exiēns
Cadit vōx, ut stella cadēns,
Excelsior!


[1] Poeta, Editor, ex-Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento; disponível em http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html e acessado em 26/10/2011.

[2] Disponível em PHONETICA LATINÆ(http://la.raycui.com/), acessado em 26/10/2011.