DONA ZÉLIA

Se ainda estivesse viva, minha mãe, Otávia Zélia Vieira de Azevedo, teria feito 100 anos em 12/09/2017. Mas há 11 anos ela faleceu, poucos dias antes de completar 89 anos. Sinto muita saudade de D. Zélia, mas tenho plena confiança de que a Fé que sempre orientou seu caminho neste mundo ilumina a jornada de seu espírito no outro.

Quando penso nos acontecimentos que cercam sua vida, tenho a nítida impressão de que entrevejo o que chamaria de “flashbacks” sobre a história do século XX. Percebo como o estar no mundo é uma aventura fugaz, mas ao mesmo tempo única em seu significado para nós e para aqueles que conosco se relacionam.

Se, em um sentido cósmico “life is but a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”, em um sentido humano e restrito  a vida é uma estória que contamos e à qual procuramos atribuir um significado da melhor maneira que nos é possível.

Mamãe nasceu em 12/09/1917, filha de Renê Vieira e Otília Lores Vieira. Renê era natural de Guaranésia, MG e advogado por profissão; Otília era natural de Jacutinga, MG . Era filha de Antonio Marcos, tabelião da pequena cidade, e Manoelita.

Renê e Otília tiveram muitos filhos. Alguns morreram ainda na infância, como era comum naquela época, na qual a mortalidade infantil era próxima de 50%. Valia a lei da sobrevivência dos mais fortes, e mamãe e mais quatro irmãos conseguiram a proeza de chegar à idade adulta.

Renê morreu muito jovem, deixando Otília com cinco filhos para criar, o que mesmo naquela época não era fácil. Uma das irmãs de Otília, de nome Maria Esméria, era casada com um abastado fazendeiro e comprador de café,  e o casal não tinha filhos. Assim, mamãe foi “adotada” informalmente por sua tia e passou a viver na casa dela, com o conforto e as benesses que a riqueza proporciona.

Naquela época Pereira (este era o nome de seu “pai adotivo”), que a considerava como filha, estava no auge de sua riqueza e a família viajava com frequência para São Paulo; quando em Jacutinga, desfilavam em um dos poucos automóveis da cidade, naturalmente um Ford-T. Como era costume para as moças de famílias endinheiradas, mamãe começou a aprender piano ainda criança. Não era uma virtuose, mas tocava razoavelmente. Até o fim da vida se distraía tocando músicas como La Cumparsita, Las Golondrinas, e outros tangos e boleros antigos

A vida confortável acabou em 1929, com a Grande Depressão. Como muitos outros homens cuja fortuna estava ligada ao café, Pereira perdeu absolutamente tudo o que possuía; foram-se as fazendas, a empresa comercial e, por fim, a própria casa. Terminou seus dias morando de favor na casa de sua sogra, Manoelita – a matriarca da família Lores, que todos que a conheceram diziam ter  sido uma mulher sábia e bondosa. Amargurado com o desastre financeiro, Pereira faleceu poucos meses depois, com uma infecção generalizada; provavelmente, a tristeza e a depressão minaram a resistência de seu organismo e um pequeno tumor lancetado pelo farmacêutico foi o suficiente para causar sua morte.

 

Mamãe era estudiosa e responsável e mesmo diante de todas as dificuldades manteve o foco nos estudos, preparando-se para exercer a única profissão aberta às mulheres naquele início do século XX: o magistério. Ela não se considerava inteligente (mas era) e para compensar a suposta limitação, dedicava-se ao estudo de forma quase  obsessiva. Em 1934 diplomou-se professora na Escola Normal de Santa Rita do Sapucaí; enquanto estudava em Santa Rita, morou na casa de sua tia Rita Lores Bruce (Tia Nini), casada com o professor Samuel Bruce, com quem gerações de santa-ritenses tiveram aulas de português, latim ou francês no Instituto Moderno de Educação e Ensino, localizado onde hoje se situa o INATEL. Entre 1935 e 1963 mamãe foi professora; lecionou em Santa Rita, em Pouso Alegre, em Jacutinga, em Campestre, e outras cidades. Depois de casada, sua renda era importante para a manutenção da família, até que papai se firmasse na carreira de gestor e executivo em seu trabalho.

Mamãe adorava ensinar e foi uma ótima professora. Nunca fui seu aluno em um curso regular, mas quando terminei o curso primário ela mesma preparou a mim e a um amigo para o exame de admissão, que era então requerido para ingressar no Ginásio. Tive a oportunidade de ver em primeira mão como ela sabia explicar bem as matérias, como sua didática era perfeita e como era bem preparada para o trabalho que exercera por quase três décadas.

Lecionava em Santa Rita do Sapucaí quando conheceu meu pai, durante uma visita a sua amiga Marisa, filha de Cincinato e Anália. Cincinato era tio materno de papai. Minha avó paterna, Josefa, faleceu em 1913 com apenas 33 anos. Incrivelmente, isto não constituía uma exceção; no início do século XX a expectativa de vida ao nascer era de 29 anos para os homens e 33 anos para as mulheres!

Depois de alguns anos de namoro, casou-se com João Batista de Azevedo em 15/07/1941. A primeira filha, Marilena,  veio em 42; dois anos depois, em 1944  chegou meu saudoso irmão Ubiratan. Eu fui a “rapa do tacho”, nascido em 1956.

Mamãe era uma pessoa sentimental, muito sensível, que se comovia até as lágrimas com livros, filmes e novelas; ela sonhava o casamento como um desdobrar de uma paixão infinita. Papai, ao contrário, era um homem extremamente racional, prático e lógico; para ele o casamento era um contrato com a finalidade de perpetuar a espécie e fornecer certa estabilidade na vida rotineira das partes.

Talvez por isto. o casamento de Zélia e João foi apenas relativamente feliz. Longe de um mar de rosas, mas também muito distante de um inferno. Ambos eram pessoas educadas e nunca presenciei entre os dois uma briga realmente séria , agressões verbais, gritos, palavrões e muitos menos uma agressão física. Isto seria inconcebível para qualquer um deles. Mamãe acreditava sinceramente que a mulher devia ser submissa ao marido; a ideia de uma separação era absoluta, total e completamente inadmissível. Assim, estiveram casados por 54 anos.

Mamãe tinha alguns problemas de saúde. Sofreu durante muitos anos com asma; cheguei a ver alguns ataques, mas depois de nossa mudança para Belo Horizonte as crises foram se tornando mais espaçadas e finalmente desapareceram. Nos últimos anos de sua vida, sofreu bastante com o reumatismo e se locomovia com grande dificuldade, amparada em um andador.

Extremamente religiosa, aceitava com plena convicção a doutrina do catolicismo romano. Foi durante muitos anos participante da Legião de Maria. Quando a idade não lhe permitiu mais sair de casa, costumava rezar durante horas todos os dias e suas leituras eram quase que totalmente circunscritas â literatura religiosa católica.

Permaneceu lúcida até as últimas semanas de sua vida. Com 88 anos já completos, gostava de ler, assistir televisão e conversar sobre os acontecimentos da atualidade. Em seus últimos anos recebeu o cuidado devotado de minha irmã, Marilena. Faleceu em 4/9/2006, após uma semana de hospitalização.

 

Mamãe era uma representante perfeita de uma época que, para o bem ou para o mal, passou. Naquela época havia poucas dúvidas e muitas certezas:

1         sobre o certo / errado e o bem / mal

a. o certo é o que está de acordo com o ensinamento da Igreja (quase sempre a católica); o errado é o que contraria este ensinamento;

b. a religião (quase sempre a católica) é essencial para o ser humano e deve ser ensinada aos filhos; ir a missa aos domingos, fazer a primeira comunhão, rezar antes de dormir e ao levantar-se; confessar e comungar com regularidade é uma obrigação, não uma opção;

c. o pecado conduz ao inferno.
2         sobre os comportamentos socialmente adequados

a. respeitar os mais velhos;

b. dizer “obrigado”, “por Favor”, “com licença”, “desculpe” quando a situação o exige;

c. o seu direito termina onde começa o do outro;

d. não faça ou diga gratuitamente coisas que ofendam, humilhem, entristeçam, aborreçam outras pessoas.

3         sobre a educação dos filhos

a. os filhos devem obedecer e respeitar os pais; desde pequenos deve ter horários, tarefas e responsabilidades;

b. umas palmadas (não espancamentos) quando necessário são um poderoso auxiliar na educação;

c.cada um é responsável por tornar-se “alguém” na vida; para isto você tem que estudar, esforçar-se e lutar para conseguir o que quer; os pais podem ajudar, mas você e responsável por sua vida;

d. se você não aprender o que os pais tentam ensinar-lhe com amor, a vida vai lhe ensinar da pior maneira possível.

4         sobre a família

a. o homem é o chefe da família e como tal deve ser respeitado e ter suas decisões acatadas;

b. o homem é essencialmente o provedor; a educação dos filhos está mais a cargo da mãe;

c. o casamento é indissolúvel.
5         sobre o sexo

a. a mulher deve se casar virgem;

b. ao homem permite-se o sexo casual;

c. o homossexualismo é um pecado; que o pecador ao menos seja discreto.

NAS LIVRARIAS, “FUNDAMENTOS DA QUALIDADE”

Em 2016, após um intervalo de 31 anos, foi publicado meu segundo livro (ou terceiro, porque o anterior estava dividido em dois volumes), que se chama  “Fundamentos da Qualidade”  e foi publicado pela SENAI-SP Editora em agosto.
É praxe que o autor receba alguns exemplares da obra e eu já havia visto como ficou. O pessoal da Editora fez um ótimo trabalho. A parte gráfica (figuras, tabelas,  formatação do texto, etc.) ficou muito bem feita. E hoje, pela primeira vez, vi o livro disponível em uma livraria, no caso a Amazon.com.br, acessando este  link. Com a certeza de que a forma ficou muito boa, vamos ver o que os leitores acham do conteúdo…
Escrever um livro não é uma empreitada muito simples, seja ele técnico ou de ficção. Quem escreve ficção, deve ter um talento especial para contar uma história que mantenha o interesse do leitor até o final. Já me aventurei neste campo, mas não fiquei satisfeito com o resultado. Talvez em minha personalidade o lado racional seja tão predominante, que me falta imaginação para tratar com coisas que não estejam baseadas em dados e fatos.
No  caso de uma obra técnica, talvez o mais importante seja transmitir a informação de forma clara, sem matar o leitor de tédio, uma vez que ele será quase que obrigado a chegar ao final, até por dever de ofício. Escrever sobre assuntos técnicos está mais de acordo comigo.
No já distante ano de 1985 escrevi um livro sobre eletrônica digital. Chamava-se “Circuitos Integrados TTL / CMOS – Teoria e Aplicação em Circuitos Digitais”. Foi publicado pela Editora Érica, em dois volumes, e aparentemente usado em muitas escolas técnicas pelo Brasil afora, pois houve três edições. De vez em quando me deparo com um exemplar em algum “sebo”, ou no catálogo de alguma biblioteca.
Ao ver este meu novo livro publicado, sinto vontade de não esperar mais 31 anos para escrever o próximo…

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (7)

Em 1968, no dia7 de julho, no final da tarde, vi o mar pela primeira vez. Como bom mineiro, fiz questão de experimentar um gole da água, para comprovar que era salgada.  O “tira-teima” ocorreu na praia de São Francisco, município de São João da Barra,   estado do Rio de Janeiro.

A foz do rio Paraíba situa-se em São João da Barra; o rio  divide o município em duas partes. A sede fica na margem sul e o restante – uma área muito maior, que se tornou mais tarde o município de São Francisco do Itabapoana – fica na margem norte. Neste  território,  entre os  rios Paraíba e Itabapoana, na divisa com o Espírito Santo, é que se localiza a praia de São Francisco. Há muitas outras praias neste trecho, tais como Tropical, Santa Clara, Sonhos, Sossego e Guaxindiba, todas contíguas, formando uma faixa de areia com extensão de pouco menos de 40 km.

Esta praia era tida como a mais próxima de Belo Horizonte em linha reta. O problema era que não havia como ir até lá seguindo em linha reta, visto que ninguém tinha asas. Na realidade, chegar até a Praia de São Francisco era uma pequena odisseia.

Uma das opções era ir de BH até Juiz de Fora, de Juiz de Fora até Itaperuna, de Itaperuna até Campos dos Goytacases e de Campos até a praia de São Francisco. Em cada uma das baldeações (Juiz de Fora, Itaperuna e Campos) era necessário esperar algumas horas pelo próximo ônibus.

O trecho Campos – São Francisco era de terra e viajava-se em uma lotação caindo aos pedaços, com umas 80 pessoas a bordo. Levava-se pouco menos de 24 horas para vencer os 800 km que separam a Cidade Jardim e o mar oceano…

O que tem esta praia a ver com Belo Horizonte? Tem tudo a ver, porque a quase totalidade dos turistas que a visitavam procediam daquela cidade. E a razão disto era o fato de que o pioneiro na promoção do turismo naquela região tinha vindo de Belo Horizonte. Chamava-se Oswaldo Barbosa de Rezende, o “seu” Oswaldo como era conhecido por todos.

“Seu”Oswaldo fora durante muitos anos um pequeno empresário em Belo Horizonte.  Era um empreendedor e visionário; a certa altura de sua vida decidiu mudar-se para a praia e ali construir um hotel, que se chamaria Mar-y-sol. Quando o conhecemos, ele e a esposa, Dona Eny, e três dos quatro filhos do casal moravam na praia. Eram um casal boníssimo e se tornaram muito amigos de meus pais.

Em 1968 a praia de São Francisco e toda a região circunvizinha estava ainda alheia ao progresso. Não havia luz elétrica, as estradas eram de terra, o transporte coletivo era inexistente e o comércio local se resumia a algumas vendas. Não havia então mais que umas 50 casas de alvenaria na  praia.

O hotel, como estava nos sonhos de “seu” Osvaldo, nunca chegou a tornar-se realidade,  e a hospedagem na praia funcionava de forma incomum. “Seu” Oswaldo e sua família residiam no segundo andar de um casarão; o primeiro andar abrigava a sala de estar, o refeitório e a cozinha do hotel. Havia um gerador no casarão, de modo que era possível assistir televisão até as 22 horas, quando o gerador era desligado.

As acomodações dos hóspedes ficavam em uma edificação situada a cerca de 1 km de distância. Isto significa que, logo após acordar o hóspede tinha que andar uns 15 minutos à pé para tomar o café da manhã…

Apesar das condições primitivas de hospedagem, foram ótimas férias.  Meu pai, que já estava se preparando para a aposentadoria, não fez por menos – comprou uma casa em frente ao hotel.  Pouco mais de dois anos depois, no início de 1971, meus pais vieram morar nesta praia e eu fui estudar eletrônica em Santa Rita do Sapucaí – mas isto é outra história.

Quando se tem uma casa na praia, a tendência é sempre ir para este lugar em todas as férias. E, de fato, entre 1968 e 1973 passei todas as férias – eram então quatro meses por ano – na praia São Francisco.

Fomos muitas vezes para a praia com minha irmã e sua família; algumas vezes  meu irmão e família se juntaram a nós e estivemos todos reunidos.  Hoje, quando tantos já partiram, alguns de maneira trágica e inesperada, e a saudade e a dor da perda me enchem os olhos de lágrimas, tenho plena consciência de como foram preciosos aqueles momentos que passamos juntos.

Na praia vi muita coisa nova e vivi muitas experiências interessantes. Há algumas que estão inseparavelmente ligadas àquele local. Alguns pensamentos que me ocorrem e vale a pena mencionar:
– o esplendor do céu estrelado, quando não havia luz elétrica, era infinitamente superior ao que se observa nas cidades;
– a natureza ainda bem preservada, com vários pássaros e plantas e frutas que não conhecia até então;
– os longos passeios de bicicleta, nas ruas de terra quase planas e na estrada à beira mar que levava até o porto de Gargaú, a cerca de 8 km de distância;
– as pescarias na beira da praia, cujo horário dependia do fluxo das marés, e era calculado usando o “Almanaque do Penamento”; as chumbadas, com garras e umas 250g de peso, nós mesmo fazíamos usando formas enterradas na areia;
– os arrastões que os pescadores faziam todas as manhãs, vendendo  peixes e camarões ainda vivos, ali mesmo na praia (nota para os mais jovens: originalmente, arrastão NÃO significa “grupo de marginais assaltando cidadãos desemparados pela absoluta incompetência do Estado brasileiro em garantir a segurança pública”, mas sim “tipo de pescaria realizado no mar, com redes de centenas de metros de comprimento”);
– os passeios de carro com “seu” Oswaldo ou seu filho mais velho, Ricardo; quando víamos que eles iam sair, eu e um ou mais de meus sobrinhos corríamos até o carro e perguntávamos se podíamos ir; geralmente a resposta era “sim” e lá íamos nós no banco de trás, conhecendo as estradas  e vilas da região.

Para encerrar este texto, narro um fato que presenciei e para o qual nunca tive uma explicação convincente. Isto ocorreu no final de janeiro de 1970, não me lembro exatamente o dia. Recordo com clareza que não havia lua e que era um dia de semana, de modo que recorrendo a uma tabela de lunações minha conclusão é que deve ter sido entre os dias 26 e 30 de janeiro.

Tinha 13 para 14 anos, não consumia álcool e muito menos drogas, não tomava qualquer  medicamento e nunca tivera problemas neurológicos, o que me leva a crer que o que vi foi real e não apenas uma ilusão.

Passava um pouco de uma hora da madrugada e todos haviam ido dormir; não havia qualquer movimento de pessoas ou veículos nas ruas e só se ouvia o ruído do vento e do mar. Eu estava no quintal, olhando o céu maravilhosamente estrelado; estava voltado para o oeste, ou seja, o lado da terra. De repente, observei à esquerda um ponto luminoso, semelhante ao planeta Venus em termos de brilho, a meia altura entre a linha do horizonte e o topo da abóboda celeste. De repente, este ponto se moveu a uma velocidade incrível – seria mais adequado dizer que sumiu e reapareceu – e em questão de um ou dois segundos vi o ponto luminoso do lado direito. Mais alguns segundos e novamente um movimento, desta vez para o centro  e para o alto, desaparecendo em seguida. Nenhum ruído, nenhum rastro luminoso.

Isto, tanto quanto consigo recordar, foi o que vi naquela noite. Quem puder que me explique, pois até hoje não sei o que possa ter sido.

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (6)

Já mencionei as escolas onde estudei e muitos dos professores e professoras que tanto contribuíram para que eu pudesse vencer os desafios que viriam no futuro. Mas, é claro, a vida não se resumia ao  estudo;   havia muito tempo para brincar e envolver-se no que hoje eu chamaria de aventuras.

Recordo com saudade os amigos daquele tempo, que nunca mais tive a oportunidade de reencontrar. De uns lembro o nome completo (que  vou preservar) , de outros apenas o primeiro nome, de todos a amizade. Nos parágrafos seguintes lembranças sobre alguns deles.

Sérgio, filho do Dr. Sylvestre e da D. Maria Luiza, ambos de tradicionalíssimas famílias de Minas Gerais; era craque no futebol, que  jogávamos no pátio  do prédio, e também no futebol de botão, que jogávamos no hall de entrada. Ainda tenho livros que me foram dados pelo Dr. Luis,  avô materno de Sérgio.

Flávio, filho do Dr. Caio e de D. Lourdes, de quem me tornei amigo após apertar acidentalmente seus dedos ao fechar uma porta no Grupo Escolar Pandiá Calógeras. O Flávio possuía um autorama,   brinquedo caríssimo para a época; quase toda semana eu pegava o troleibus na Avenida do Contorno e ia até a casa do Flávio, onde brincávamos horas e  horas, apostando corridas no circuito em forma de oito.

Vianey,  nome adotado pelo garoto Yuen, cujo pai era dono de um  ótimo restaurante chinês que, acredito, funciona até hoje; talvez pertença à mesma família.

Túlio, criador da série SATÚLIO de veículo lançadores  – ou quase, pois não sei se algum deles chegou a sair do chão – que era a versão curumim dos  poderosos SATURNO da NASA. É bom lembrar que, não estando  disponível o oxigênio sólido usado como combustível pelos norte-americanos, os SATÚLIO eram movidos (?) a pólvora.

Marco Antônio, cujo pai era jornalista e ativista político. O pai de Marco foi perseguido pelo regime militar e  refugiou-se no consulado chileno, onde ficou até obter um salvo-conduto. Foi para o Chile e sua família o seguiu algum tempo depois. Isto foi em 65 ou 66 e não sei o que lhes aconteceu mais tarde, visto que em 1973 instalou-se naquele país uma brutal  ditadura militar, liderada pelo ultra-direitista General Augusto Pinochet.

Alberto, que estava dispensado de frequentar as aulas de sábado, porque era o Sabath, dia consagrado à adoração do Altíssimo, na milenar tradição de seu povo.

E tantos outros, que deixo de mencionar para que este texto não se torne demasiadamente longo. Quem sabe algum dos meus  antigos amigos e colegas leia estes escritos e possa também lembrar-se de como era BH e de como éramos nós.

Cada época havia uma  brincadeira que era mais popular. Algumas tradicionais, como bola de gude, finca ou pebolim, outras que alguém inventava e que não eram tão disseminadas,   porque exigiam instalações ou equipamento especial.

Um exemplo do primeiro caso (instalações especiais) foi um “esporte” que praticamos durante  algum tempo no ginásio. O Anexo Santo  Antônio tinha um terreno enorme, que não era nem cimentado nem gramado, mas de terra batida, e servia de pátio. As quadras de esporte ficavam em um nível bem mais alto que o pátio e entre os dois níveis havia uma rampa íngreme, esparsamente gramada.

A topografia do local deu origem ao que chamávamos de “Guerra no Morro”. As regras eram  simples: uma turma ficava no alto, outra turma ficava em baixo, os de baixo tinham que subir e os de cima não podiam descer; a partida acabava quando um “baixista” chegava ao topo ou um “altista” despencava até o pé da rampa; enquanto isto não acontecia, valia quase tudo – rasteiras, empurrões, dois ou mais contra um só adversário, etc; socos, pontapés, cotoveladas não eram permitidos,  embora ocorressem de vez em quando. Na realidade, uma espécie de rugby sem bola e em plano inclinado.

Um exemplo do segundo caso (equipamentos especiais) foi um outro “esporte” extremamente perigoso e que, felizmente, praticamos poucas vezes, acho que não mais que duas: o tiro com “pistolas” caseiras, sobre cuja fabricação prefiro não dar detalhes, pois esta maluquice pode mutilar ou matar o atirador e/ou outras pessoas.

Até trabalhos escolares eram fonte de aventuras e descobertas. No segundo ginasial, se não me falha a memória, o trabalho de Ciências era montar uma coleção de insetos, usando caixas de papelão forradas com uma placa de isopor e organizando os exemplares de acordo com a ordem. Besouros espetados em alfinetes na seção dos coleópteros, mosquitos e pernilongos colados em pedacinhos de cartolina na seção dos dípteros, tudo de acordo com o livro “Entomologia para Você”, de Messias Carrera, adquirido espeecialmente para o trabalho, e que ainda está em minha biblioteca.

Na busca de insetos mais exóticos do que aqueles normalmente encontrados em uma residência, andei bastante pelo bairro de Lourdes e adjacências, tentando capturar novos exemplares nos muitos terrenos baldios que existiam na região. Não havia ainda esta violência desenfreada que desgraça nosso país, e um garoto de 12 anos podia andar sozinho por Belo Horizonte sem maiores preocupações.

Nas férias escolares viajávamos eu e minha mãe para o sul de Minas ou, a partir de 1968, para uma praia que estava muito ligada a Belo Horizonte. No próximo post falarei sobre estas viagens.

[continua]

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (5)

Em 1966 o ensino público era bom, mas nem todos tinham acesso a ele. Quando se terminava o 4º ano do chamado curso primário, a continuação dos estudos em uma escola pública não era garantida. Não havia vagas suficientes, e para iniciar o curso ginasial, que durava quatro anos – corresponde ao que hoje seriam  a 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries – era necessário fazer um exame de admissão.

Era um mini-vestibular e quem era reprovado tinha duas opções: (1) preparar-se melhor, talvez fazendo um curso de admissão,  e tentar novamente no ano seguinte, ou; (2) matricular-se em uma escola particular.

Em 1966 eu cursava o 4º ano primário, portanto já estava na hora de começar a pensar no exame de admissão. No caso, a melhor opção era o Colégio Estadual de Minas Gerais, um dos mais prestigiosos do estado, considerado um referencial de excelência.

Sala de aula: “a régua”

Havia duas unidades da Colégio Estadual próximas de casa. Uma era a Central, projetada por por Oscar Niemeyer; seus prédios tinham formas que lembravam objetos usados em uma escola.

Auditório: “o mata-borrão”

Na unidade Central funcionava somente o curso científico; as classes do curso ginasial se localizavam no Anexo Santo Antônio, que tinha este nome porque ficava no bairro Santo Antônio  e era adjacente à unidade central.  Na realidade, os fundos das duas unidades ficavam em calçadas opostas da mesma rua e ambas compartilhavam as quadras e a piscina semi-olímpica.

A entrada do Anexo Santo Antônio ficava na Rua Felipe dos Santos. Eram três ou quatro quarteirões de onde morávamos – é verdade que uma subida íngreme, mas isto não era então um problema. O problema é que o Colégio Estadual era um dos mais concorridos, de modo que uma boa classificação no exame era essencial para conseguir uma vaga.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre esta escola, e o exame de admissão, recomendo a  leitura da tese de doutorado da Prof. Dra.  Aleluia Heringer Lisboa Teixeira, intitulada “Uma Escola Sem Muros”: Colégio Estadual de Minas Gerais (1956-1964).

Mamãe havia sido professora durante quase trinta anos e se aposentara pouco antes de nossa mudança para Belo Horizonte. Ensinar era sua vocação natural, refinada por décadas de experiência. Assim, em meados de 1966 comecei a me preparar para o exame de admissão, em casa mesmo, tendo mamãe como professora.

 Quando  prestei o exame havia 120 vagas para o Anexo Santo Antônio e pelo menos meia dúzia de candidatos por vaga; fui classificado em 22º lugar. No início de 1967 comecei o curso ginasial.

A disciplina era rigorosa. Os portões se fechavam às 7:30 e ninguém entrava após este horário.  Não se entrava também sem o uniforme completo: calça cinza, camisa impecavelmente branca de mangas compridas, com um friso verde na gola e nos punhos e o distintivo do colégio no bolso; sapatos e meias pretas. No verão admitia-se uma versão do uniforme com camisa de mangas curtas.

Tínhamos uma carteira para registro de notas e de frequência, que era entregue a um bedel na entrada e devolvida ao aluno na saída; não se entrava na escola sem a carteira. As provas eram bimestrais; depois que as notas eram lançadas na carteira, não se permitia a entrada do aluno se não houvesse a assinatura do paí ou responsável indicando que tivera conhecimento das mesmas.

De maneira geral, os professores eram muito bons e vários eram excelentes.  Até hoje recordo a competência com que ministravam   suas aulas, embora me falhe o nome de alguns. Graças a estes mestres, adquiri uma formação  básica que foi muito útil ao longo de minha vida.  Foram professores que realmente sabiam ensinar e, mais importante, estimular os alunos a querer aprender. Cito alguns como D. Cleuza (Inglês, 1ª série – 1967) e sua irmã  D. Giselda (Matemática,   1ª série – 1967), Dr. Janot Pacheco (Ciências, 3ª série – 1969), Prof. Waldir (Inglês, 3ª série – 1969), Prof. Celso (Português, 4ª série – 1970), Prof. Carlos (Geografia, 2ª série – 1968) e D. Vera (História, 4ª série – 1970).

Havia alguns poucos que não estavam no nível de excelência dos demais.  Lembro-me, por exemplo, de um senhor já bastante idoso que ensinava Geografia e era dado a repentinos acessos de fúria, durante os quais esmurrava mesas e jogava cadeiras para o alto. Houve também uma professora de Educação Moral e Cívica – matéria usada pelo regime militar para  tentar doutrinar a juventude – que provavelmente considerava o General Guarrastazu Médici um simpatizante  do comunismo. Mas eram exceções que apenas confirmavam a regra…

Embora a disciplina fosse rígida e o currículo exigente,  houve muitos momentos divertidos, sobre os quais  falarei no próximo post…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (4)

No início de 1966 papai resolveu comprar um carro. Creio que  foi seu primeiro automóvel, e ele já estava com 54 anos. E, é claro, não tinha carteira de motorista. Hoje, quando o Brasil é o terceiro  maior mercado de automóveis do mundo (atrás apenas da China e dos Estados Unidos)  e tirar a carteira de habilitação é quase um rito de  passagem para a vida adulta, isto pode parecer estranho. Mas em 1966 a situação era outra…

Considerando a fabricação local, a indústria automobilística mal completava dez anos, e um carro ainda era o sonho de consumo da classe média, que só viria a tornar-se realidade em grande escala  durante o “milagre brasileiro” do início dos anos setenta. Basta dizer que a maioria das casas sequer possuía garagem!

A variedade de modelos disponíveis era bastante limitada. Basicamente, a Willys Overland fabricava a Rural, o AeroWillys, o Gordini  e o Dauphini (os dois últimos sob licença  da Renault), a Vemag produzia o sedã Belcar e a perua Vemaguete (sob licença da DKW),  a SIMCA disponibilizava o Chambord e o Tufão e, disparada na liderança das vendas, a Volkswagen oferecia o aparentemente imortal Fusquinha.


Num sábado, talvez em fevereiro ou março, papai e  meu irmão saíram em busca do sonhado veículo. Em casa esperávamos ansiosos. Voltariam com um Fusca? ou seria um Gordini? quem sabe, talvez até mesmo um SIMCA? Mas acredito que papai não tivesse a menor ideia sobre qual marca e modelo desejava comprar; estava decidido a motorizar-se,  porém qualquer automóvel que o levasse de um lado para outro e que estivesse ao alcance de seu bolso poderia ser considerado.

O fato é que no início da tarde ele e meu irmão apareceram de volta em um Chevrolet Belair 1958 hidramático, importado dos Estados Unidos havia alguns anos por um político sabe-se lá como (mas a documentação  estava OK).

Era um autêntico “rabo de peixe”, um dinossauro cujos descendentes ainda dominavam as autoestradas norte americanas: motor de 6 cilindros 3900 cm3 15o HP, câmbio hidramático, 5,3 m de comprimento, 1500 kg de peso, 5 km/litro de gasolina.  Em suma: um carrão! A foto  mostra como era o Belair 1958; o de meu pai era exatamente desta cor: azul e branco.

Belair 1958 - Vista lateralA sede insaciável do  potente veículo não causava preocupação. A gasolina era vendida  então a preço de  banana – ou talvez menos. A OPEP já existia, mas ainda não havia demonstrado seu poder; a Primeira Crise do Petróleo só ocorreria  sete anos depois.

Viajamos muito com este carro, conhecendo diversos lugares de Belo Horizonte e cidades vizinhas. Meu pai não se animou a tirar a carteira de motorista nesta época – só veio a fazê-lo em 1972, de modo que meu irmão sempre foi o condutor. Ubiratan – este era o nome de  meu  saudoso irmão – a quem chamávamos de Bira, e papai fizeram um acordo informal: Bira dirigiria para a família, mas disporia do carro todas as noites como bem lhe aprouvesse. Para um moço de 22 anos, solteiro, numa  época    em que um carro ainda tinha um certo poder de atração junto ao público feminino, não era um mau acordo. Assim, todos saíram ganhando e ficaram satisfeitos com a aquisição do “dinossauro de aço”.

Mas, como nos ensina a sabedoria  popular, “não há bonito  sem senão” e no caso deste carro o senão estava na manutenção, dificílima e caríssima. No início de 1967,  voltando de uma festa, Bira sofreu um acidente ao atravessar um sinal que ele jurava estar aberto; o motorista e os passageiros do ônibus que colidiu com o Belair diziam que o sinal estava sim aberto, mas para o  ônibus.  Felizmente ninguém se machucou, mas o carro ficou de tal forma danificado que o reparo se tornou inviável.

Este incidente azedou bastante o relacionamento entre Bira e papai, que ficou uma fera com o prejuízo – o carro não tinha seguro, aliás nem sei se alguém fazia este tipo de seguro na época – e só voltou a comprar outro veículo em 1971. Mas isto é outra história…

(continua)

Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (3)

O dia 31/03/1964 marcou o início do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e implantou no Brasil um regime autoritário que durou quase 21 anos. A quem estiver interessado em saber mais sobre o que se passou nestes anos, recomendo a leitura da monumental obra de Elio Gaspari, composta (até o  momento) de duas partes: “As Ilusões Armadas” (dois volumes:  “A Ditadura Envergonhada” e “A Ditadura Escancarada”) e “O Sacerdote e o Feiticeiro” (dois volumes: “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”). Mas o que interessa no momento  é dizer que o golpe começou em Minas Gerais, quando o  General Olympio Mourão Filho se declarou rebelado contra o governo federal e partiu com sua tropa de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.

Para mamãe e eu 31/03 foi muito divertido. Recém-chegados à Belo Horizonte, e completamente alheios à política, aproveitamos o dia  para conhecer a cidade. Passeamos pelo centro, explorando o território, conhecendo e admirando as lojas afamadas, admirando a quantidade de cinemas e a variedade de filmes em cartaz.

Naquela época, eu acompanhava mamãe de bom grado em suas compras; hoje tenho verdadeiro horror a entrar em uma loja para olhar as mercadorias. É que, como escreveram João Bosco e Aldir Blanc, “Na idade em que estou / Aparecem tiques, as manias / Transparentes, transparentes / Feito bijuterias / Pelas vitrines, / Da Sloper da alma”. Aliás, a Casa Sloper deve ter sido uma das lojas que visitamos então.

Confesso que não recordo com exatidão onde fomos naquele dia há 48 anos. Mas é possível dizer onde poderíamos ter ido, com base em minhas lembranças sobre os lugares onde costumávamos ir. Poderíamos, por exemplo, ter almoçado no Restaurante Giratório, que ficava no Edifício Helena Passig na Praça Sete. Neste restaurante as mesas ficavam sobre uma esteira, como estas de bagagem que se vê nos aeroportos. A esteira girava lentamente; uma volta levava mais ou menos o tempo de uma refeição e eu, creio que como todas as crianças de Belo Horizonte, achava aquele restaurante sensacional! Ou, invés de almoçar, poderíamos ter feito uma refeição mais leve nas Lojas Americanas, cuja lanchonete era famosa pelos ótimos sanduíches, o bolo com sorvete e um prato que só nos animamos a pedir depois de muitas semanas de ensaio e hesitação. Era o tal de “waffle”, palavra que nem eu nem mamãe sabíamos como pronunciar; hesitávamos entre “uáfle”, “váfle” ou “uáfelê” e não queríamos passar recibo de nossa ignorância interiorana. O assunto só foi esclarecido quando meu irmão, que já tinha estudado inglês, nos explicou que o certo era “uáfol” ou “uófol”.

Seja  como for, só chegamos em casa no final da tarde. Ao passarmos pela Mercearia  Bandeirante notamos algo de estranho: as prateleiras estavam vazias. Não havia mais nada para comprar: nem arroz, nem feijão, nem óleo, nem açúcar, nada mesmo! É que a população, alarmada com o cenário que se desenhava, havia feito um estoque de gêneros de primeira necessidade, que certamente iriam faltar se houvesse uma guerra civil, uma possibilidade real naqueles dias conturbados. Quando entramos no apartamento, papai nos recebeu muito nervoso, pois só conseguira encontrar na mercearia um quilo de farinha de milho e uma lata de óleo; era este nosso estoque de alimentos para enfrentar as agruras da guerra civil…

No dia seguinte fui visitar minha professora, D. Olga – sobre a qual já escrevi no “post” anterior –  e lá estava quando chegou seu irmão. Ele usava uma braçadeira amarela com um triângulo vermelho                     e relatou orgulhoso que havia se alistado como voluntário para lutar na defesa de Minas Gerais. Nunca vi isto mencionado em qualquer livro ou artigo sobre o movimento de 64, e já procurei várias vezes  na internet, sem sucesso, mas afirmo: chegou a haver alistamento de voluntários em Belo Horizonte, prevendo a eventualidade de uma luta prolongada contra o governo federal.

Feliz ou infelizmente (depende do ponto de vista de cada um)  o “dispositivo militar” de Jango mostrou-se tão real quanto a mula sem-cabeça e não houve qualquer guerra, batalha ou escaramuça entre rebelados e legalistas.

Em casa, a farinha de milho e o óleo foram consumidos em clima de paz, e a vida seguiu normalmente em Belo Horizonte. Até que papai comprou um carro…

(continua)