Entre o Medo e o Ódio (III) – o Medo

Recordando o que já foi apresentado nos posts anteriores, coloquei como premissa para esta discussão a ideia de que um candidato à Presidência da República deveria ter ao menos três características: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O deputado Jair Bolsonaro tem, pelo menos até o momento, a reputação de homem honesto o que, entre os políticos de nossos dias e tão raro quanto um diamante de 20 quilates. Bolsonaro não é citado em nenhum inquérito da Lava Jato, não consta da relação dos parlamentares comprados pela JBS, não consta que tenha recebido propina de nenhuma empreiteira nem participado do assalto à Petrobrás. Ou seja, um lírio no pântano asqueroso em que se transformou o Congresso Nacional. Como diz o próprio deputado, honestidade não é virtude, é obrigação. Mas nas circunstâncias atuais são raríssimos os que cumprem com esta obrigação.

Por outro lado, quando se fala em experiência política e administrativa, Jair Bolsonaro tem problemas. O deputado está em seu sétimo mandato na Câmara, mas sua atuação como parlamentar é inexpressiva. Além disto, nunca ocupou um cargo executivo: nunca foi ministro, nem secretário estadual e muito menos prefeito ou governador.

De acordo com as informações recentes em seus 27 anos como parlamentar apresentou 171 propostas legislativas, das quais 3 (três) foram aprovadas. Trata-se de dois projetos de lei e de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional); um dos projetos de lei trata da isenção fiscal para bens de informática e o outro autoriza o uso da fosfoetanolamina; a PEC exige a impressão do voto eletrônico.

Como escrevi na primeira parte desta série, um presidente “deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc.” Ao que eu saiba, o deputado Jair Bolsonaro não tem absolutamente nenhum prestígio em qualquer destas entidades ou grupos.

Sua liderança entre os próprios colegas de legislatura pode ser avaliada lembrando que  Bolsonaro foi candidato à presidência da Câmara em fevereiro de 2017 e obteve 4 (quatro votos) dos 513 possíveis.

Tendo em vista a  reduzida expressão do deputado em sua área específica de atuação (o Congresso Nacional) e sua reduzida influência junto a entidades da sociedade civil, fica a questão: porque Bolsonaro se tornou um aspirante à Presidência da República?

Desde o seu primeiro mandato, Jair Bolsonaro manteve-se sob os holofotes da mídia através de constantes declarações polêmicas, ora contra a democracia, ora contra os homossexuais, ora a favor da tortura, e assim por diante. Algumas frases famosas   de sua lavra estão abaixo:

  1. Entrevista para a revista Veja (2/12/98)
    Afirmou que a ditadura chilena de Augusto Pinochet “devia ter matado mais gente”; elogiou o peruano Augusto Fujimori por intervir militarmente contra o judiciário e o legislativo.
  2. Programa Câmera Aberta (1999)
    Declarou ser “favorável à tortura”, chamou a democracia de “porcaria”,  disse que se fosse presidente “fecharia o Congresso” e “daria um golpe no mesmo dia”.
  3. Programa Jô Soares (1999)
    Explicando porque defendeu o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmou que “barbaridade é privatizar a Vale e as telecomunicações, entregar as nossas reservas petrolíferas ao capital externo.”
  4. Entrevista ao jornal Folha de São Paulo (Mai/2002)
    Disse que poderia agredir homossexuais: “se eu ver dois homens se beijando na rua, vou bater.”
  5. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Nov/2003)
    Disse à deputada “Jamais iria estuprar você, porque você não merece.”
  6. Discussão com manifestantes (Dez/2008)
    Disse que “o erro da ditadura foi torturar e não matar.”
  7. Entrevista ao jornal “Folha de São Paulo” (Nov/2010)
    defendeu surras em filhos homossexuais: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele.”
  8. Entrevista ao Jornal de Notícias (Jun/2011)
    Associou a homossexualidade à pedofilia ao afirmar que “muitas das crianças que serão adotadas por casais gays vão ser abusadas por esses casais homossexuais.”
  9. Entrevista à revista Playboy (Jun/2011)
    Afirmou que “seria incapaz de amar um filho homossexual” e que preferia que um filho seu “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”
  10. Documentário “Out There” (2013)
    Declarou que “nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay” e que “nós, brasileiros, não gostamos dos homossexuais.”
  11. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Dez/2014)
    Discursando no plenário, disse “você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece.”
  12. Entrevista ao jornal Zero Hora (Fev/2015)
    Afirmou que não acha justo que mulheres e homens recebam o mesmo salário porque as mulheres engravidam
  13. Discurso na Câmara (Out/2015)
    Afirmou que “violência se combate com violência e não com bandeiras de direitos humanos”, afirmou que a Anistia Internacional é formada por “canalhas e idiotas”, disse que “a Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.”
  14. Discurso ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff (2016)
    Dedicou o voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador
  15. Discurso em Campina Grande (Fev/2017)
    “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. […] as minorias tem que se curvar para as maiorias.”

 

Como se vê pela pequena amostra acima, Bolsonaro conseguiu manter-se em evidência todo este tempo devido às suas declarações polêmicas e, em muitos casos, carregadas de preconceito.

Mas se a criação de factoides é suficiente para a manter o deputado na mídia, ela não vai ajudar em nada a solução dos imensos problemas que o Brasil enfrenta. Por exemplo, implicar com os gays é uma estratégia excelente para não sair do noticiário. O movimento LGBT conta com a simpatia dos meios de comunicação e possui recursos para bancar uma batalha jurídica; isto representa uma primeira página na certa. No entanto, é difícil entender como implicar com a vida sexual de adultos plenamente capazes vai contribuir para, por exemplo, diminuir o desemprego.

Quando se diz que a “Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.” fica a dúvida: mais quem? jovens da classe média cuja demanda sustenta o tráfico? Jovens pobres e negros que traficam pequenas quantidades de drogas? Os soldados do tráfico, guerrilheiros urbanos armados de fuzis de assalto,  que controlam as favelas da cidade do Rio de Janeiro? Os grandes comandantes do tráfico, perfumados e impecáveis em seus ternos Armani, no conforto de seus moderníssimos escritórios…

O que se percebe é que, até este momento a pregação de Bolsonaro é uma gritaria de palavras vazias. São fórmulas quase mágicas para traduzir o medo que boa parcela dos brasileiros sente no dia a dia. É o medo de ser assaltado, de ser atingido por uma bala perdida, de morrer assassinado por um marginal, de perder um filho….

É o medo de que aquilo que era uma certeza absoluta há alguns anos já não seja mais tão certo. É o medo de que aquelas pessoas que são diferentes de mim talvez não estejam erradas. E finalmente o maior dos medos: o de que eu não seja capaz de construir o meu próprio destino numa sociedade livre e plural. Assim, tenho que   entregar meu destino  a um chefe, um líder, um “fuhrer”, que por sua vontade soberana fará o mundo tornar-se o que deveria ser.

Após a desastrosa entrevista com Marina Godoy ficou patente que falta ao candidato um projeto para o país. É verdade que o presidente não precisa ser um especialista em tudo, mas faltando menos de um ano para a eleição seria de se esperar que Bolsonaro fosse capaz de discorrer de forma articulada sobre a questão econômica, pelo menos em termos gerais. Ele é um liberal, ou pretende (re)criar empresas estatais?  E também discorrer sobre suas ideias com relação à segurança, acima do slogan estúpido e vazio “Bandido bom é bandido morto.” No entanto, Bolsonaro demonstrou estar, neste momento, completamente despreparado para discutir seriamente o Brasil.

Um outro ponto questionável é se Jair Bolsonaro seria capaz de negociar com a sociedade um plano de governo. Quando se vê o deputado discutindo algum assunto fica a nítida impressão de que ele é um péssimo negociador, incapaz de discutir racionalmente, entender a posição do oponente e buscar o consenso possível.

As perspectivas não são boas. Uma avaliação sobre o deputado, na época em que este ainda estava no Exército, realizada pelo Coronel Carlos Alfredo Pellegrino

“[Bolsonaro] tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

 

 

Entre o Medo e o Ódio (II) – o Ódio

No post anterior argumentei que o próximo Presidente da República terá que ter ao menos três características, que se mostrarão absolutamente imprescindíveis para governar o país com alguma chance de sucesso nesta conjuntura dificílima: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, sem a menor dúvida,  uma experiência  incomparável e superior à de qualquer possível candidato. Afinal, ocupou o cargo de Presidente da República por dois mandatos e dirigiu a nação durante um dos mais longos ciclos de prosperidade que o Brasil atravessou. E Lula soube aproveitar as circunstâncias favoráveis, implementando programas sociais para favorecer os mais pobres, retirando o Brasil do mapa da fome e retirando da situação de pobreza um imenso número de brasileiros (o PT fala em 36 milhões). Independente de qualquer julgamento quanto ao caráter e a honestidade de Lula, questão que abordaremos depois, é forçoso reconhecer que em seus dois mandatos houve uma grande melhoria no padrão de vida dos brasileiros mais pobres, que passaram a consumir com avidez aquilo a que antes não tinham acesso.

No que diz respeito ao profundo conhecimento do Brasil e dos brasileiros também parece claro que Lula satisfaz plenamente este requisitos. Além dos dois mandatos de presidente, suas atividades como candidato por três vezes derrotado permitem supor que, literalmente, trata-se de um brasileiro que conhece “cada palmo deste chão”.

A grande questão que se coloca é a autoridade moral que Lula teria como presidente. Neste ponto há algumas questões muito difíceis de responder.

Iniciemos pelo Mensalão. Para conseguir o apoio da maioria do Congresso alguém do governo Lula estabeleceu uma “mesada” para diversos deputados federais e senadores, iniciando um processo de degradação moral da classe política como nunca se viu antes. A este respeito veja-se o post deste blog “Dançando conforme a música: o baião da roubalheira”, que desenvolve seu argumento a partir da constatação de que  “Muitos petistas costumam dizer que sempre houve corrupção no Brasil, e que eles não a inventaram. É verdade, mas nos governos petistas a corrupção tornou-se uma prática de gestão, utilizada de forma habitual,  generalizada e coordenada para governar o país. E, o que é pior,  a roubalheira sendo comandada pelo primeiro escalão do governo e, como tudo parece indicar, pelo próprio Presidente da República.” Naturalmente Lula afirma desconhecer o assunto, mas é muito complicado aceitar que o chefe da Casa Civil mantivesse um esquema de corrupção de tal envergadura sem o conhecimento do presidente.

Em seguida veio o Petrolão. O loteamento dos cargos entre os diversos partidos da base governista e o projeto de permanecer no poder a qualquer custo (o conhecido “projeto criminoso” vitimou a estatal, que foi sistematicamente assaltada por diversas quadrilhas. De 20ª maior empresa do mundo a Petrobrás tornou-se a 412ª durante o período em que o PT esteve no poder. As estimativas mais conservadoras falam que a empresa foi lesada em 26 bilhões de reais; outras estimativas chegam a 50 bilhões. Como de hábito Lula afirma desconhecer o assunto, apesar de dezenas de depoimentos que não só confirmam que ele sabia de todo o esquema como também afirmam que era dele o comando da operação.

Outro problema sério que aflige Lula são evidentes sinais de enriquecimento ilícito, não só dele com de diversos familiares. Há acusações fundadas de que Lula teria recebido toda sorte de vantagens pessoais para beneficiar interesses privados. Tais vantagens incluiriam apartamentos, sítio, terreno do Instituto Lula, propinas, honorários milionários por palestras, muitas das quais sequer é possível demonstrar de maneira cabal  que foram de fato  realizadas, benefícios para familiares, que acumularam patrimônio milionário com espantosa rapidez.

Com frequência surgem novas revelações e denúncias. Lula alega que tudo faz parte de uma conspiração das “elites”, mas não explica quem são os chefes da conspiração (uma “armação” tão gigantesca tem que ser muitíssimo bem coordenada), nem apresenta razões plausíveis para a mesma. E não explica por que ele desconhecia a grossa corrupção que era praticada dentro do Palácio do Planalto (José Dirceu, depois Antônio Palocci, ambos seus aliados e auxiliares por décadas) e os milagres de multiplicação estupenda de patrimônio que ocorriam em sua família?

Lula está hoje condenado em primeira instância a 13 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. É ainda réu em vários outros processos, nos quais é acusado de obstrução da justiça, tráfico de influência, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Um presidente contra o qual pesam tais acusações já inicia o mandato desmoralizado. Ao tomar posse, os processos contra o presidente são suspensos e voltam a correr somente quando ele  deixar o cargo. Assim, uma sombra de suspeição irá sempre pairar sobre a Presidência. Continuaremos a ver a Presidência da República mais presente no noticiário policial do que no político e repórteres ainda  usarão palavras como “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” para referir-se ao primeiro mandrio. A democracia não aguenta mais quatro anos com esse nível de polarização!

Mas o principal problema de Lula e de sua candidatura é o discurso do qual Lula se apropriou e que só vem trazendo e provavelmente trará malefícios ao Brasil e aos brasileiros.

Entre o Medo e o Ódio (I)

Faltando pouco menos de um ano para a eleição de 2018 as primeiras pesquisas (não se sabe quão confiáveis) indicam Lula em primeiro lugar, com cerca de 30% dos votos, e Jair Messias Bolsonaro em segundo com aproximadamente 15%.

A primeira conclusão é que a pesquisa de fato reflete a polarização que se observa entre os brasileiros, evidenciada nas redes sociais e nos debates políticos. Poucas vezes esteve a política envolta em  tal clima de raiva e desprezo entre os adversários. As discussões no Parlamento são, via de regra, entremeadas de acusações e ofensas pessoais. Gritos, apupos e turpilóquios já não surpreendem mais, e com certa frequência o debate de ideias,  que se supõe seja o essencial do jogo político, se transforma em confronto físico.

Nas redes sociais nem se fala. Protegidos pelo relativo anonimato , as pessoas extravassam  seu ódio e sua frustração com a política e os políticos nos termos mais francos e diretos. São inúmeras as manifestações exigindo a intervenção militar, com a deposição de Michel Temer, o fechamento do Congresso e a cassação de todos os políticos.

Um  pouco menos frequentes mas também bastante numerosas são as manifestações que, implícita ou explicitamente, sugerem um levante popular e depois a eliminação física dos corruptos. O apresentador Datena manifestou-se sem rodeios a respeito do assunto, para um público de milhões de telespectadores.

De fato, sob o ponto de vista emocional, é difícil não desejar que os muitos canalhas, comprovadamente corruptos,  que se alojam na máquina do Estado, nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)  e nos três níveis do governo (federal, estadual e municipal) sejam fuzilados, como punição pelo crime hediondo da corrupção.

Como já comentei neste blog (em “A Inominável Vileza dos Corruptos”), ao subtrair verbas que seriam  aplicadas na saúde, na segurança pública, nos transportes, na pesquisa científica, a corrupção provoca a morte de um número indeterminado de cidadãos pois: ” o corrupto age como um terrorista sanguinário, que detona uma bomba em uma praça movimentada, matando indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e velhos, crianças e adultos. Não lhe importa quem morra, desde que atinja seus objetivos. No caso dos corruptos, estes objetivos são, creio eu, a acumulação ilimitada de bens materiais e a satisfação de um orgulho desmedido. Nos níveis em que ocorre no Brasil, a corrupção ultrapassou a dimensão puramente material para tornar-se um vício.”

Mas a preservação da democracia e do estado de direito que, ao menos formalmente, estão vigorando no país,  não permite que os corruptos sejam julgados sumariamente e executados em seguida.

Portanto, é necessário garantir o amplo direito de defesa, o contraditório e o uso de todas as chicanas e artimanhas legais que nosso direito possibilita ao acusado. Assim somos forçados a ter nossa inteligência agredida sem descanso, ouvindo idiotices como “… foi a D. Marisa” ou “… era um empréstimo para pagar os advogados.” Mas a democracia vale o sacrifício.

Nesta situação de divisão entre os brasileiros, ódios que parecem aumentar sempre, e ameaças de quebra da democracia e do Estado de Direito, o perfil do próximo presidente da República deveria, a meu ver, enquadrar-se de maneira bem próxima na descrição  abaixo:

  1. Autoridade moral:  deve ser um homem (ou mulher) sobre o qual não haja processos judiciais por corrupção ativa ou passiva, enriquecimento ilícito ou lavagem de dinheiro. Além de honesto, nosso próximo presidente deve ser reconhecido como tal pela classe política e pelo eleitorado. Esta é a forma de legitimar a Presidência da República, cujos ocupantes nos últimos treze anos tornaram o outrora honroso cargo de presidente  da república equivalente ao de chefe de uma quadrilha. Somente um líder capaz de mostrar-se como exemplo de que é possível fazer política com honestidade e decência, será capaz de negociar o apoio do Congresso, tendo como capital o respeito e a confiança do povo e não malas de dinheiro…É fundamental para a democracia que a população tenha razoável confiança nos ocupantes dos cargos eletivos. Não é possível manter uma democracia na qual as notícias sobre as autoridades do governo aparecem com mais frequência no noticiário policial do que  na seção de política.

    Enquanto escrevo este post ouço uma reportagem sobre as delações premiadas da JBS.  O jornalista acaba de mencionar o presidente Michel Temer  usando os qualificativos “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” e “filho da p…”. Ainda ontem os  jornais publicavam uma pesquisa onde se mostrava que Temer é o presidente mais impopular do planeta, com 3% de aprovação. Nenhuma democracia sobrevive com este tipo de liderança…

  2. O presidente deve ser um político experiente, que já tenha ocupado diversos cargos no Executivo e no Legislativo,  de modo que esteja familiarizado com o funcionamento e a gestão da máquina pública (que é muito diferente do funcionamento e da gestão de uma empresa privada). Deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc. O cargo de presidente é o coroamento de uma carreira política e exige muita experiência, conhecimento e capacidade de negociação.  A eleição de um presidente que não atenda os requisitos do cargo, por assim dizer, é a receita quase certa  para o desastre.

    Um exemplo é Fernando Collor Mello, o mais jovem presidente da República, cuja experiência executiva limitava-se à prefeitura de Maceió e dois anos como governador do pequeno estado de Alagoas (27º PIB/capita entre 27 estados); seja por falta de capacidade ou de vontade, mostrou-se incapaz de controlar a ganância de seu ex-tesoureiro de campanha; sequestrou a poupança dos brasileiros, não conseguiu controlar a inflação e acabou sofrendo o impeachment.

    Dilma “O Poste” Roussef, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, nem mesmo o de síndica de condomínio,  foi colocada por Lula no Planalto; incompetente,  irresponsável e, sabe-se hoje, possivelmente também corrupta, levou o Brasil à pior crise econômica da história republicana e terminou sofrendo também o impeachment..

  3. Uma terceira condição é que o presidente seja um profundo conhecedor do Brasil e dos problemas brasileiros. É evidente que o presidente não pode e nem deve ser especialista em tudo, mas ele pessoalmente tem que ter uma visão clara dos problemas que considera mais importantes e de suas prioridades relativas; deve ter ao menos um esboço das soluções que irá propor e a capacidade de negociar a implementação das soluções com os diferentes grupos sociais. Isto é um plano de governo, que é elaborado por especialistas. Mas é responsabilidade intransferível do presidente arbitrar as propostas dos técnicos e “vender” o plano à sociedade. Exige-se de um presidente a capacidade de apresentar de forma articulada um plano de governo e negociá-lo com a sociedade.

No entanto, como veremos na segunda e terceira  partes deste post, os  dois candidatos mais cotados hoje não preenchem estes requisitos e, penso eu, a eleição de qualquer um deles será um desastre para o Brasil. O que temos hoje é o candidato do ódio (Lula) contra o candidato do medo (Bolsonaro).

 

 

Adeus às Ilusões: o Fim da Operação Lava a Jato

Está em curso em Mordor [1], a Terra da Escuridão, que atende oficialmente pelo nome de Brasília, mais uma tentativa de aniquilar completamente qualquer esperança de que o Brasil possa vir a ser, um dia, a pátria dos brasileiros.

A elite retrógrada, predatória e desumana que desde sempre governa este triste país é extremamente inteligente e capaz de tudo para manter  o sistema de coisas que serve aos seus interesses econômicos. Um exemplo recente do poder quase diabólico dessa elite está tristemente visível nos dias de hoje: conseguiram transformar a mais autêntica liderança popular que surgida no Brasil em toda a sua história – Luiz Inácio Lula da Silva – em um marginal, um reles larápio, acossado pela justiça e reduzido a motivo de desprezo e chacota para todos os homens de bem.

Tal como Satã, a elite brasileira sabe encontrar os pontos fracos de todo ser humano que com ela interage e aproveitar-se disto para atar o indivíduo e trazê-lo para as trevas, onde este permanece escravizado até o fim de seus dias.

A maioria, como foi o caso de Lula, perde-se pela ganância. Mas há também os que sucumbem a outras tentações: alguns à vaidade, outros ao orgulho, e ainda outros  à ira, ou à preguiça ou à luxúria.

Seja como for, as hostes infernais dominam hoje de maneira quase completa toda a estrutura do estado brasileiro, notadamente o primeiro escalão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Nos últimos anos, contra todas as expectativas, um punhado de jovens  idealistas, protegidos pelo escudo da fé em um Brasil livre do jugo maldito que o infelicita, esboçou uma reação contra o Senhor das Trevas. São jovens advogados, juízes, promotores, delegados e  policiais federais, ainda não cooptados pelo Inimigo.

Este pequeno grupo de justos vem empreendendo uma verdadeira guerra sem tréguas contra o Mal, que se instalou no cerne do Estado, e que pauta as ações do governo e o comportamento dos governantes. A batalha principal desta guerra se chama Operação Lava a Jato.

A reação dos malditos, cujo coração transborda de ódio contra a justiça, contra o Brasil e contra o povo, não se fez esperar. Tentaram diversas vezes barrar a Lava a Jato no Congresso, mas por fim os principados maléficos optaram por fazê-lo de forma mais técnica e menos política.

Instruíram pois o Consistório da Besta, ou Conselho Nefando, para que destruísse de vez os poucos que ainda resistem ao Mal. Recebida a ordem, imagino o que os onze conselheiros infernais comentavam entre si, enquanto sorviam o sangue da nação e devoravam pedaços dos corpos dos brasileiros sacrificados pela corrupção desenfreada que eles acobertam e avalizam: “Que desfaçatez desta gentinha, que ousa contestar nosso Mestre e Senhor! Este povinho idiota e covarde tem que entender de vez quem é que manda no Brasil.”

Em seguida, o Conselho Nefando aprovou uma decisão estabelecendo que a prisão de um réu só ocorrerá após a condenação em última instância, de modo a garantir na prática a impunidade eterna dos corruptos.

Nas semanas seguintes, os juízes de Satanás liberaram todos os acusados presos pela Lava a Jato. O Príncipe das Trevas em pessoa desceu em (subiu a?) Brasília para cumprimentar seus Oficiais e estabelecer a estratégia para atingir o próximo objetivo: a destruição do Brasil como nação.

[1] Esta é uma visão apocalíptica da política brasileira, com referências a “O Senhor dos Anéis” e à Divina Comédia. Trata-se de um texto irônico; não acredito que o Maligno venha de fato cumprimentar pessoalmente alguns personagens de nossa política. Mas de que ele inspira a muitos não tenho dúvidas.

[2] Quanto ao ponto principal do texto: O FIM DA PRISÃO PARA OS CONDENADOS EM SEGUNDA INSTÂNCIA, que significa na prática o triunfo dos corruptos, há muita gente poderosíssima articulando isto.

DELENDUS EST TEMER

A Rede Globo está em campanha aberta para tirar Michel Temer da Presidência da República. Isto fica muito evidente quando se acompanham as edições do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do país.  O alcance e a credibilidade do Jornal Nacional para uma parcela significativa do povo brasileiro, o tornam uma poderosíssima ferramenta para manipular a realidade e influenciar a opinião pública.

É claro que a empresa tem bons jornalistas, que estão sempre buscando a notícia, mas a história (e.g. Campanha pelas Diretas-Já em 1984, debate Lula x Collor em 1989) tem demonstrado que, quando se trata de assunto relevante para a empresa,  o quê vai ao ar e como vai ao ar é definido pela Alta Direção.

Que existem acusações de que Michel Temer é um político corrupto, habituado às piores práticas da política brasileira e cúmplice de Eduardo Cunha em vários negócios escusos, isto até as pedras da Praça dos Três Poderes sabem. Mas corruptos ocupando cargos importantes, e até mesmo a Presidência da República, já houve antes, e nem por isto a Globo demonstrou contra eles este fervor missionário com que se dedica a destroçar o  governo Temer.

O que tem me intrigado é porque a Rede Globo está fazendo isto. Algum motivo deve haver, pois como se sabe, a empresa “não dá ponto sem nó”. Imaginei alguns cenários possíveis se Temer deixasse a presidência, seja por impeachment, seja por renúncia. Para esboçar estes cenários, estou partindo de duas premissas:

1)      Um golpe militar ou parlamentar (e. g. instalação de um parlamentarismo de emergência, como em 1961) enfrentará fortíssima resistência da esquerda, que contará com o “exército de Stedile”, possivelmente apoiado pelos vizinhos bolivarianos e, muito provavelmente, milícias armadas compostas de integrantes do crime organizado, a exemplo do que ocorreu na Colômbia. Assim, desta vez, um golpe contra a esquerda não ocorrerá praticamente sem derramamento de sangue, como em 1964; levará o país a uma guerra civil.

2)      Candidatos declarados ou com ambições presidenciais são, neste momento,  Ciro Gomes, Álvaro Dias, Jair Bolsonaro, João Doria Jr., Geraldo Alckmin e Marina Silva.    Caso Lula não seja candidato em 2018, a maioria da esquerda apoiará Ciro Gomes.

A partir destas premissas, coloco os diversos cenários, divididos em três grupos.

Primeiro grupo: Não há eleições em 2018.

  1. Uma junta militar, no melhor estilo latino-americano, assume o poder e inicia uma perseguição sem tréguas à esquerda.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: As Forças Armadas estão bastante profissionalizadas, e a impressão que se tem é de que não existe um consenso entre os militares para iniciar uma revolta, e muitos menos a figura de um líder para comandá-la. O que há são manifestações esporádicas de saudosistas do governo militar, de oficiais subalternos e de generais de pijama.
    3. Conclusão: Guerra civil.
  2. Partidos de direita (ou de esquerda) convocam uma gigantesca manifestação popular (pelo menos tão grande quanto a Parada Gay em São Paulo ou o carnaval em Salvador); 2.000.000 de brasileiros marcham sobre Brasília e cercam o Congresso Nacional, forçando os deputados e senadores a votar pelas eleições diretas.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: O povo brasileiro, de um modo geral, não está disposto a participar de manifestações de rua e nem a esquerda nem a direita tem hoje lideranças capazes e/ou dispostas a organizar um movimento popular contra o regime.
    3. Conclusão: Confrontos graves entre manifestantes de direita e esquerda; possível escalada do conflito para uma guerra civil.
  3. O Congresso, por acordo político, decide pelas Diretas Já.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: A ideia não prospera no Congresso, onde seria necessário o apoio de 3/5 dos deputados e senadores para sua aprovação, visto que requer alteração do artigo 81 da CF. Além disto, há discussão sobre se o estabelecido no artigo 81 é ou não uma cláusula pétrea, pois é possível argumentar que alterar este artigo fere o disposto no parágrafo 4 do artigo 60. Com certeza, o tempo para resolver a questão judicial é maior que o prazo até as eleições.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.
  4. O Congresso, por acordo político, decide adiar as eleições para 2020, a pretexto de coincidência de todos os mandatos.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: Mesmo do cenário C. Nem o regime militar chegou a usar a “coincidência de mandatos” como argumento para aumentar a duração dos mandatos de deputados e senadores; no Pacote de Abril de 1977 reduziu os mandatos de vereadores e prefeitos.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.

Segundo Grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula é candidato.

  1. Lula vence no primeiro turno.
    1. Probabilidade: Pequena.
    2. Racional: Lula tem alto índice de rejeição. Nas eleições de 2016 o PT foi massacrado nas urnas, e também parece ter alto índice de rejeição. Hoje Lula não tem mais votos para vencer no primeiro turno.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Convocação de uma Assembleia Constituinte; nova constituição estabelece a República Popular do Brasil, que se torna, progressivamente, um regime de partido único; os meios de comunicação passam a ser controlados pelo Estado.
  2. Lula vai para o segundo turno contra qualquer um dos candidatos listados, exceto Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Nenhum dos candidatos tem projeção nacional. Álvaro Dias, Doria e  Alckmin são candidatos regionais; no primeiro debate, Bolsonaro demonstrará seu completo despreparo para governar o Brasil e perderá apoio de parcela significativa da classe média; Alckmin não tem o menor carisma; Doria passa a imagem do “gestor” quando o que o povo quer é um “líder” e a imagem de honesto será muito questionada em função de sua passagem pela Embratur; Marina não consegue explicar a que veio e, além disto, depois do desastre “Dilma” uma mulher não tem a mínima chance na próxima eleição. Álvaro Dias pode ser a surpresa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta.
  3. Lula vai para o segundo turno contra Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Pelo quadro atual, Ciro Gomes é disparado o candidato mais preparado e pelo visto vem se preparando a anos. Não tem um único processo contra ele nos seus 38 anos de política, desistiu de aposentadorias no valor de R$82.000,00 a que teria direito legal e é conhecido nacionalmente, por já ter sido candidato à presidência. Mas numa eventual disputa com Lula, Ciro terá o voto da classe média (pois é mais “coxinha”) e Lula atrairá o voto dos mais pobres (pois é mais “mortadela”). Como há muito mais brasileiros de baixa renda e baixa escolaridade do que brasileiros de alta renda e alta escolaridade, Lula vence a disputa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta do que no cenário acima, pois Ciro Gomes tentará se firmar como a alternativa para evitar que o PT atinja seus objetivos.

Terceiro grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula não é candidato.

 

  1. Ciro Gomes vence as eleições.
    1. Probabilidade: média.
    2. Racional: Ciro Gomes vai se revelar como o mais bem preparado dos candidatos, projetando a imagem de um candidato experiente, honesto e profundo conhecedor dos problemas brasileiros; venderá ainda a ideia de que é o único que tem um projeto para o Brasil alternativo ao de Lula e do PT e sem a mancha da corrupção.
    3. Conclusão: O Brasil terá um governo de esquerda moderada.

Espero que a maioria dos leitores considere que minha descrição acima é uma avaliação relativamente fiel do que poderá acontecer no Brasil nos próximos meses.

Se isto for verdade,  voltando à questão original, qual o interesse da Globo na destruição do governo Temer? Oque ela tem a ganhar em qualquer destes cenários?

Todos Contra Todos

Esta semana terminei a leitura de “Todos Contra Todos: o ódio nosso de cada dia”, livro recentemente lançado pelo historiador e professor da Universidade de Campinas, Leandro Karnal. A seguir os pontos que me pareceram mais relevantes.

Ao longo de nove capítulos o autor procura desmontar o mito do “homem  cordial”, passado de geração a geração como parte da história oficial do Brasil, analisar a questão do ódio que sempre permeou a relação entre os homens, e questionar os efeitos e os perigos da intensa polarização que se pode observar na política brasileira atualmente.

Já no primeiro paragrafo do livro, Karnal coloca em xeque a visão da história que nos é ensinada desde os bancos escolares.  Escreve ele: ”O quadro pintado é idílico. Somos uma terra sem terremotos e furacões. Sem guerras civis nem fundamentalismos extremados que levam a genocídios. Somos pacíficos. Não violentos. Não somos agressivos. Não odiamos. Não somos preconceituosos. Não somos racistas. Esse quadro não resiste ao teste da história.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 160-162). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Enquanto a libertação dos escravos nos Estados Unidos provocou uma guerra civil que, de acordo com as melhores estimativas, custou a vida de 1.030.000 pessoas (3% da população daquele país na época), por aqui bastou a assinatura de uma lei pela princesa Izabel. Segundo a história oficial nunca houve guerra civil nestas terras, ignorando as inúmeras revoltas e convulsões internas que ocorreram durante o Império e a República. Para lembrar algumas destas lutas internas: Cabanada (1835-1840, Pará), Sabinada (1837-1838, Bahia), Balaiada (1838-1841, Maranhão), Revolução Farroupilha (1835-1845, Rio Grande do Sul), a revolta de Canudos(1896-1897, Bahia), a revolta do Contestado (1912-1916, Paraná / Santa Catarina), a Revolução de 32, etc. Ou seja, temos uma história pontuada por lutas internas.

A ideia do brasileiro como “homem cordial” foi difundida   e incorporou-se ao imaginário popular com um sentido bem diferente daquele que Sergio Buarque de Hollanda lhe emprestava em “Raízes do Brasil”. Aquele autor queria dizer que o homem cordial age guiado pelas emoções, que tanto podem ser positivas como negativas.

Após discutir  o mito da não violência, Karnal propõe uma interessante discussão sobre a tendência de diminuirmos e piorarmos os fatos históricos, tomando como exemplo a ideia recorrente de que fomos colonizados por degredados e gente da pior espécie, que Portugal enviava para o Brasil. Na realidade, vieram para o Brasil pessoas de todas a classes sociais,  inclusive bacharéis, professores e intelectuais.

De forma semelhante, Karnal questiona o mito de  que não somos racistas, mostrando que o racismo no Brasil existe e  assume a forma insidiosa de uma prática social que faz com que suas vítimas se sintam elas mesmas inferiores e, portanto, aceitem as praticas racistas como naturais, ou seja, “conheçam o seu lugar”.

Concluindo que somos, ao contrário da imagem que fazemos de nós mesmos, um povo  violento, racista, preconceituoso e que sente ódio. Karnal faz uma longa análise sobre a questão do sentimento de ódio, suas bases psicológicas e seu uso político. A questão do preconceito contra mulheres, negros, homossexuais é apresentada. Diz o autor:” Mas não posso dizer que negros são inferiores, porque, além de obviamente ser falso e de ser uma idiotice, essa é uma maneira de incitar o ódio. [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 612-613). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

E continua adiante: “Não tenho direito ao preconceito. Isso não só tem que ser reprimido como criminalizado para que as pessoas entendam que racismo, misoginia, homofobia ou demofobia (desconfiança do povo), todos constituem gestos de ódio. Esse gesto de ódio institui a violência real.”[Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 619-621). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Neste ponto tem-se a impressão de que Karnal gostaria que qualquer manifestação de preconceito fosse proibida, ou criminalizada. A questão que se coloca é como definir exatamente o que é preconceito, quando ele se transforma em discurso de ódio e até que ponto deve a liberdade de expressão ser restringida para combater o preconceito e seus derivados. Um destes subprodutos do preconceito é o  chamado  discurso do ódio (em inglês, “hate speech”). O discurso do ódio, é aquele que visa a disseminar e promover o ódio em  função  da  raça,  religião,  etnia, nacionalidade, gênero, orientação  sexual,  etc.

A Constituição de 1988 não menciona os crimes de ódio e requer apenas a criminalização da prática do racismo. Não há qualquer restrição à expressão do discurso do ódio que possa ser imposta com base na Constituição; casos concretos devem ser levados à justiça. E de certa forma é bom que assim seja, pois quando se inicia um processo de restringir a  liberdade de expressão não se sabe onde ele vai parar.

Darei três exemplos para que o leitor analise o que deveria ser feito em cada caso.

1)      O livro “The Bell Curve”, de autoria de Richard Herrnstein e Charles Murray, dois professores da renomada Universidade de Harvard, publicado em 1994, traz os resultados de um amplo estudo que, segundo os autores, comprova que os negros tem o quociente de inteligência menor  que o dos brancos. (Para verificar porque todas as conclusões apresentadas neste livro são falsas, veja este documento e as referências nele citadas. Para uma discussão mais ampla sobre o mau uso da ciência a favor do racismo e do preconceito,  leia “The Mismeasure of Man” de Stephen Jay Gould.)

2)      A assembleia anual de uma denominação cristã fundamentalista divulga a seus 2.000.000 de membros um documento que condena severamente o homossexualismo, afirmando com base em Ro 1:25-32  que: (a) a prática de atos homossexuais representa uma condenação certa ao inferno; (b)  o que se pode esperar dos que praticam tais atos é “injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade”, e; (c) essas pessoas são “murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia.”

3)      Uma comunidade de índios do grupo étnico conhecido como hopi deixa o Arizona e adquire uma área no Pará. Constatando que os habitantes recém chegados vivem sob um regime matriarcal, um jornal de Belém decide fazer uma campanha incitando os homens deste grupo a “tomarem uma atitude de macho” e acabarem com o domínio das  mulheres.

 

Há uma ampla discussão sobre amor, ódio,  inveja, cristianismo, xenofobia, etc. É de notar-se a afirmação de Karnal  a respeito das utopias: “Sejam quais forem os projetos utópicos de melhoria da sociedade, essa sociedade provoca uma impressionante quantidade de mortes.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1007). Leya Brasil. Edição do Kindle.] De fato, quando um líder começa a falar sobre “a construção do homem novo”, “nova sociedade”, “revolução cultural” e que tais, o que vem a seguir é com certeza o totalitarismo e derramamento de sangue em quantidades espantosas. Foi assim na Russia de Stalin, na Alemanha de Hitler e na China de Mao; será assim em qualquer país que tente mudar a natureza humana pela força.

Chegamos assim à conclusão do livro, onde Karnal analisa a influência das redes sociais, a atual polarização da discussão política e explica os fenômenos que diferenciam  a consciência política e a vontade de participação manifestada pelos eleitores atualmente em relação ao passado.

Algumas citações do autor: “Desde a última eleição presidencial, em 2014, passando pelo processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff até as crises do governo Michel Temer, somos invadidos, via internet, por textos duros, ataques de lado a lado, análises corrosivas, escárnio e agressão verbal. O Brasil descobriu-se raivoso na política, exibindo uma inquietante carga de ódio que fluiu pela rede.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1244-1247). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Qualquer pessoa que acompanha os posts sobre política percebe isso. O ódio escorre pelas telas do Facebook; não há mais adversários políticos, apenas inimigos em um confronto cósmico entre o Bem e o Mal. Cada um dos lados se considera a encarnação de tudo o que é bom, limpo, decente, democrático, enquanto o outro lado é demonizado. Os comentários não raro se desviam para a grosseria pura e simples. Como exemplo, dois comentários colhidos ao acaso sobre pronunciamentos da senadora Gleise Hoffmann:

“Essa mulher precisa um pau no rabo acho bonito ela fala classe rica ela é uma pobre coitada rouba os aposentados é vem querer senta no rabo pra falar dos outros vai a merda piranha”

“Cala a boca sua vaca quem quebrou o brasil ,aposentados,escolas,hospitais foram voces os politicos e o partido do PT.NOJENTA EGUA CALA A BOCA VA LAVAR ESSA BOCA IMUNDA”

Conforme bem assinala Karnal, retornamos ao clima que antecedeu a intervenção militar de 1964: ”A partir daquele momento, houve uma regra ressuscitada na Era Dilma: “Não apenas me oponho a você, mas você é o obstáculo para o progresso brasileiro.” Ou: “O Brasil seria um bom lugar se você não existisse.” Daí cresce o ódio diante das mazelas políticas, porque interpreto que tudo de ruim que ocorre no Brasil nasce do outro.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1266-1269). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Um momento delicado, mas o que se vê no debate político, tanto no Congresso como nos partidos, tanto nas organizações patronais como nos sindicatos, nas universidades e na sociedade como um todo é uma troca de acusações mútuas e ofensas. O debate tornou-se completamente polarizado. E Karnal aponta com muita propriedade: “O problema da polarização é que ela não pensa. A polarização adjetiva. No momento que eu digo que você é petralha ou coxinha, deixo de pensá-lo como um ser humano dialético, contraditório, orgânico, em evolução, e paro de discutir as suas ideias e apenas o rotulo.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1288-1290). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Por outro lado, os acontecimentos dos últimos anos demonstraram de forma cabal a verdadeira natureza da política. Aqui, como em qualquer outro lugar do mundo, o exercício da política não tem como determinante exclusivo ou mesmo principal a busca do bem comum. Passado o discurso eleitoral, política é o controle do estado para o benefício de determinados grupos. Mas no Brasil este processo atingiu um grau de exacerbação e imeddiatismo que leva o autor a afirmar: “Mas a corrupção é institucional e endêmica. Portanto, não seria a solução a queda de uma pessoa para resolver o problema da corrupção.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1275-1276). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Então há hoje uma percepção clara por parte da sociedade de que é preciso tornar o estado mais eficiente e mais voltado para o bem comum. Segundo Karnal: “Então, em parte, todo esse debate é sobre uma tentativa de criar o que não existe: que é a política coletiva, do bem comum, administradora da maioria, um projeto de Estado, e não um projeto de governo. Esse é um desejo coletivo neste momento.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1318-1320). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Concordo totalmente com esta colocação e espero que tenhamos como iniciar o processo em 2018. Não fazer isto é caminhar para o desastre…

O ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) E A IDEOLOGIA

Recentemente mencionei em um post do Facebook que ainda  tinha  a esperança de  que algum dia o Brasil se tornasse um país de Primeiro Mundo, especificando entre parênteses que isto seria atingir um IDH similar ao dos Estados Unidos da América.

Esta minha colocação foi criticada por  um amigo esquerdista, que afirmou:

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Com o devido respeito, estes referenciais de “primeiro mundo” não servem para mim. O Brasil não deve ser melhor nem pior do que o país A, B ou C. O Brasil deve ser Brasil. E é justamente por isso que não haverá eleições ano que vem – pois a corrente ideológica, a qual coaduno, que quer o Brasil como Brasil corre o sério “risco” de ganhar as eleições. Golpistas deram o golpe por que querem o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada. Aliás, sempre foi assim, antes de 2002.

Chega a ser impressionante como pessoas com elevado grau de escolaridade  e extremamente cultas tem a capacidade de raciocinar de maneira lógica seriamente prejudicada quando a ideologia se infiltra na discussão

Reconheço que os referenciais Primeiro / Segundo / Terceiro Mundos estão obsoletos, pois o Segundo Mundo, formado pelos países socialistas, desapareceu após a falência da URSS. Parece-me que hoje restam no mundo dois paraísos socialistas: a Coréia do Norte com seu patético culto a uma dinastia de tiranetes ridículos e o esclerosado regime cubano, que sobrevive graça às remessas dos milhares de exilados nos Estados Unidos e às atitudes habituais das ditaduras: partido único, censura à imprensa e prisão de dissidentes, A China é um caso especial: uma ditadura nominalmente comunista, com uma economia de mercado em amplas áreas do país.

Assim, nos dias atuais parece mais adequado agrupar os países de acordo com o Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), um índice que a ONU calcula para 188 países. Utilizando a descrição da própria ONU (veja o site), numa tradução quase literal:

O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado para enfatizar que pessoas e suas capacidades devem ser o critério último para avaliar o desenvolvimento de um país, não apenas o crescimento econômico. O IDH pode ser também usado para questionar a escolha de políticas nacionais, ao mostrar como dois países com o mesmo nível de renda per capita podem ter níveis de desenvolvimento humano diferentes. Estes contrastes podem estimular o debate sobre as prioridades das políticas governamentais,

O IDH é um indicador resumido do nível atingido em dimensões chave do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. A dimensão de saúde é avaliada pela expectativa de vida ao nascer; a dimensão relativa à educação é medida usando a média de anos de escolaridade para adultos com 25 anos ou mais e o número de anos de escolaridade esperados para crianças que estão entrando na escola.  A dimensão relativa ao padrão de vida é medida pela renda nacional bruta per capita; o IDH usa o logaritmo da renda, para refletir a diminuição da importância deste fator à medida que a renda nacional aumenta. Os escores destes três índices são agregados em um índice composto usando a média geométrica.

 A tabela abaixo mostra a evolução do IDH para alguns países: USA, Chile. Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai desde 1990, quando o índice começou a ser apurado (entre colchetes a posição no ranking em 2015).

USA [10] CHI [38] ARG [45] URU [54] BRA[79] PAR [110]
1990 0,860 0,700 0,705 0,692 0,611 0,580
2000 0,884 0,761 0,771 0,742 0,685 0,624
2010 0,910 0,820 0,816 0,780 0,724 0,675
2011 0,913 0,826 0,822 0,784 0,730 0,679
2012 0,915 0,831 0,823 0,788 0,737 0,679
2013 0,916 0,841 0,825 0,791 0,747 0,688
2014 0,918 0,845 0,826 0,794 0,754 0,692
2015 0,920 0,847 0,827 0,795 0,754 0,693

Uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente! Acredito que a quase totalidade dos brasileiros (e dos seres humanos em geral) gostaria que estas condições fizessem parte de sua história de vida.  Neste sentido acho que o Brasil deveria ser governado com o objetivo de ser cada vez melhor, o que se traduz por um IDH crescente, tendendo a aproximar-se do americano.

Há alguns anos a ONU passou a calcular  o IDH ponderado pela desigualdade (hoje há dados para 155 países) e neste ponto é interessante verificar o que ocorre. Vejamos os índices de 2015 para USA. Venezuela e Brasil.

IDH RANK IDH-AD RANK EVAN EE EA RPC
USA 0,920 10 0,796 20 79,2 16,5 13,2 53245
VEN 0,767 71 0,618 82 74,4 14,3 9,4 15129
BRA 0,754 79 0,561 98 74,7 15,2 7,8 14145

Começando pelo Brasil, temos um IDH de 0,754 e ocupamos a 79ª posição no ranking; quando se faz o ajuste pela desigualdade, o IDH-AD é 0,561 e caímos 19 posições, para o 98º lugar. Isto é um reflexo de nossa má distribuição de renda.

Os Estados  Unidos tem um IDH de 0,920 e ocupam o 10º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é 0,796 e o país cai 10 posições, para o 20º lugar no ranking.

A Venezuela tem o IDH de 0,767 e ocupa o 71º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é de 0,618, caindo 11 posições no ranking, para o 82º  lugar.

Portanto, numa primeira aproximação os Estados Unidos e a Venezuela tem aproximadamente o mesmo índice de desigualdade Mas o que é melhor: ser desigual com uma renda per capita de 53000 dólares ou igualmente desigual com uma renda per capita de 15000 dólares?

A mórbida fascinação da esquerda brasileira com o camarada Maduro e a sinistra ditadura que ele tenta implantar na Venezuela mostram claramente quem deseja “o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada” Aliás, sempre foi assim, depois de 2002.