Entre o Medo e o Ódio (III) – o Medo

Recordando o que já foi apresentado nos posts anteriores, coloquei como premissa para esta discussão a ideia de que um candidato à Presidência da República deveria ter ao menos três características: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O deputado Jair Bolsonaro tem, pelo menos até o momento, a reputação de homem honesto o que, entre os políticos de nossos dias e tão raro quanto um diamante de 20 quilates. Bolsonaro não é citado em nenhum inquérito da Lava Jato, não consta da relação dos parlamentares comprados pela JBS, não consta que tenha recebido propina de nenhuma empreiteira nem participado do assalto à Petrobrás. Ou seja, um lírio no pântano asqueroso em que se transformou o Congresso Nacional. Como diz o próprio deputado, honestidade não é virtude, é obrigação. Mas nas circunstâncias atuais são raríssimos os que cumprem com esta obrigação.

Por outro lado, quando se fala em experiência política e administrativa, Jair Bolsonaro tem problemas. O deputado está em seu sétimo mandato na Câmara, mas sua atuação como parlamentar é inexpressiva. Além disto, nunca ocupou um cargo executivo: nunca foi ministro, nem secretário estadual e muito menos prefeito ou governador.

De acordo com as informações recentes em seus 27 anos como parlamentar apresentou 171 propostas legislativas, das quais 3 (três) foram aprovadas. Trata-se de dois projetos de lei e de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional); um dos projetos de lei trata da isenção fiscal para bens de informática e o outro autoriza o uso da fosfoetanolamina; a PEC exige a impressão do voto eletrônico.

Como escrevi na primeira parte desta série, um presidente “deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc.” Ao que eu saiba, o deputado Jair Bolsonaro não tem absolutamente nenhum prestígio em qualquer destas entidades ou grupos.

Sua liderança entre os próprios colegas de legislatura pode ser avaliada lembrando que  Bolsonaro foi candidato à presidência da Câmara em fevereiro de 2017 e obteve 4 (quatro votos) dos 513 possíveis.

Tendo em vista a  reduzida expressão do deputado em sua área específica de atuação (o Congresso Nacional) e sua reduzida influência junto a entidades da sociedade civil, fica a questão: porque Bolsonaro se tornou um aspirante à Presidência da República?

Desde o seu primeiro mandato, Jair Bolsonaro manteve-se sob os holofotes da mídia através de constantes declarações polêmicas, ora contra a democracia, ora contra os homossexuais, ora a favor da tortura, e assim por diante. Algumas frases famosas   de sua lavra estão abaixo:

  1. Entrevista para a revista Veja (2/12/98)
    Afirmou que a ditadura chilena de Augusto Pinochet “devia ter matado mais gente”; elogiou o peruano Augusto Fujimori por intervir militarmente contra o judiciário e o legislativo.
  2. Programa Câmera Aberta (1999)
    Declarou ser “favorável à tortura”, chamou a democracia de “porcaria”,  disse que se fosse presidente “fecharia o Congresso” e “daria um golpe no mesmo dia”.
  3. Programa Jô Soares (1999)
    Explicando porque defendeu o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmou que “barbaridade é privatizar a Vale e as telecomunicações, entregar as nossas reservas petrolíferas ao capital externo.”
  4. Entrevista ao jornal Folha de São Paulo (Mai/2002)
    Disse que poderia agredir homossexuais: “se eu ver dois homens se beijando na rua, vou bater.”
  5. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Nov/2003)
    Disse à deputada “Jamais iria estuprar você, porque você não merece.”
  6. Discussão com manifestantes (Dez/2008)
    Disse que “o erro da ditadura foi torturar e não matar.”
  7. Entrevista ao jornal “Folha de São Paulo” (Nov/2010)
    defendeu surras em filhos homossexuais: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele.”
  8. Entrevista ao Jornal de Notícias (Jun/2011)
    Associou a homossexualidade à pedofilia ao afirmar que “muitas das crianças que serão adotadas por casais gays vão ser abusadas por esses casais homossexuais.”
  9. Entrevista à revista Playboy (Jun/2011)
    Afirmou que “seria incapaz de amar um filho homossexual” e que preferia que um filho seu “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”
  10. Documentário “Out There” (2013)
    Declarou que “nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay” e que “nós, brasileiros, não gostamos dos homossexuais.”
  11. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Dez/2014)
    Discursando no plenário, disse “você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece.”
  12. Entrevista ao jornal Zero Hora (Fev/2015)
    Afirmou que não acha justo que mulheres e homens recebam o mesmo salário porque as mulheres engravidam
  13. Discurso na Câmara (Out/2015)
    Afirmou que “violência se combate com violência e não com bandeiras de direitos humanos”, afirmou que a Anistia Internacional é formada por “canalhas e idiotas”, disse que “a Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.”
  14. Discurso ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff (2016)
    Dedicou o voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador
  15. Discurso em Campina Grande (Fev/2017)
    “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. […] as minorias tem que se curvar para as maiorias.”

 

Como se vê pela pequena amostra acima, Bolsonaro conseguiu manter-se em evidência todo este tempo devido às suas declarações polêmicas e, em muitos casos, carregadas de preconceito.

Mas se a criação de factoides é suficiente para a manter o deputado na mídia, ela não vai ajudar em nada a solução dos imensos problemas que o Brasil enfrenta. Por exemplo, implicar com os gays é uma estratégia excelente para não sair do noticiário. O movimento LGBT conta com a simpatia dos meios de comunicação e possui recursos para bancar uma batalha jurídica; isto representa uma primeira página na certa. No entanto, é difícil entender como implicar com a vida sexual de adultos plenamente capazes vai contribuir para, por exemplo, diminuir o desemprego.

Quando se diz que a “Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.” fica a dúvida: mais quem? jovens da classe média cuja demanda sustenta o tráfico? Jovens pobres e negros que traficam pequenas quantidades de drogas? Os soldados do tráfico, guerrilheiros urbanos armados de fuzis de assalto,  que controlam as favelas da cidade do Rio de Janeiro? Os grandes comandantes do tráfico, perfumados e impecáveis em seus ternos Armani, no conforto de seus moderníssimos escritórios…

O que se percebe é que, até este momento a pregação de Bolsonaro é uma gritaria de palavras vazias. São fórmulas quase mágicas para traduzir o medo que boa parcela dos brasileiros sente no dia a dia. É o medo de ser assaltado, de ser atingido por uma bala perdida, de morrer assassinado por um marginal, de perder um filho….

É o medo de que aquilo que era uma certeza absoluta há alguns anos já não seja mais tão certo. É o medo de que aquelas pessoas que são diferentes de mim talvez não estejam erradas. E finalmente o maior dos medos: o de que eu não seja capaz de construir o meu próprio destino numa sociedade livre e plural. Assim, tenho que   entregar meu destino  a um chefe, um líder, um “fuhrer”, que por sua vontade soberana fará o mundo tornar-se o que deveria ser.

Após a desastrosa entrevista com Marina Godoy ficou patente que falta ao candidato um projeto para o país. É verdade que o presidente não precisa ser um especialista em tudo, mas faltando menos de um ano para a eleição seria de se esperar que Bolsonaro fosse capaz de discorrer de forma articulada sobre a questão econômica, pelo menos em termos gerais. Ele é um liberal, ou pretende (re)criar empresas estatais?  E também discorrer sobre suas ideias com relação à segurança, acima do slogan estúpido e vazio “Bandido bom é bandido morto.” No entanto, Bolsonaro demonstrou estar, neste momento, completamente despreparado para discutir seriamente o Brasil.

Um outro ponto questionável é se Jair Bolsonaro seria capaz de negociar com a sociedade um plano de governo. Quando se vê o deputado discutindo algum assunto fica a nítida impressão de que ele é um péssimo negociador, incapaz de discutir racionalmente, entender a posição do oponente e buscar o consenso possível.

As perspectivas não são boas. Uma avaliação sobre o deputado, na época em que este ainda estava no Exército, realizada pelo Coronel Carlos Alfredo Pellegrino

“[Bolsonaro] tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

 

 

Entre o Medo e o Ódio (II) – o Ódio

No post anterior argumentei que o próximo Presidente da República terá que ter ao menos três características, que se mostrarão absolutamente imprescindíveis para governar o país com alguma chance de sucesso nesta conjuntura dificílima: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, sem a menor dúvida,  uma experiência  incomparável e superior à de qualquer possível candidato. Afinal, ocupou o cargo de Presidente da República por dois mandatos e dirigiu a nação durante um dos mais longos ciclos de prosperidade que o Brasil atravessou. E Lula soube aproveitar as circunstâncias favoráveis, implementando programas sociais para favorecer os mais pobres, retirando o Brasil do mapa da fome e retirando da situação de pobreza um imenso número de brasileiros (o PT fala em 36 milhões). Independente de qualquer julgamento quanto ao caráter e a honestidade de Lula, questão que abordaremos depois, é forçoso reconhecer que em seus dois mandatos houve uma grande melhoria no padrão de vida dos brasileiros mais pobres, que passaram a consumir com avidez aquilo a que antes não tinham acesso.

No que diz respeito ao profundo conhecimento do Brasil e dos brasileiros também parece claro que Lula satisfaz plenamente este requisitos. Além dos dois mandatos de presidente, suas atividades como candidato por três vezes derrotado permitem supor que, literalmente, trata-se de um brasileiro que conhece “cada palmo deste chão”.

A grande questão que se coloca é a autoridade moral que Lula teria como presidente. Neste ponto há algumas questões muito difíceis de responder.

Iniciemos pelo Mensalão. Para conseguir o apoio da maioria do Congresso alguém do governo Lula estabeleceu uma “mesada” para diversos deputados federais e senadores, iniciando um processo de degradação moral da classe política como nunca se viu antes. A este respeito veja-se o post deste blog “Dançando conforme a música: o baião da roubalheira”, que desenvolve seu argumento a partir da constatação de que  “Muitos petistas costumam dizer que sempre houve corrupção no Brasil, e que eles não a inventaram. É verdade, mas nos governos petistas a corrupção tornou-se uma prática de gestão, utilizada de forma habitual,  generalizada e coordenada para governar o país. E, o que é pior,  a roubalheira sendo comandada pelo primeiro escalão do governo e, como tudo parece indicar, pelo próprio Presidente da República.” Naturalmente Lula afirma desconhecer o assunto, mas é muito complicado aceitar que o chefe da Casa Civil mantivesse um esquema de corrupção de tal envergadura sem o conhecimento do presidente.

Em seguida veio o Petrolão. O loteamento dos cargos entre os diversos partidos da base governista e o projeto de permanecer no poder a qualquer custo (o conhecido “projeto criminoso” vitimou a estatal, que foi sistematicamente assaltada por diversas quadrilhas. De 20ª maior empresa do mundo a Petrobrás tornou-se a 412ª durante o período em que o PT esteve no poder. As estimativas mais conservadoras falam que a empresa foi lesada em 26 bilhões de reais; outras estimativas chegam a 50 bilhões. Como de hábito Lula afirma desconhecer o assunto, apesar de dezenas de depoimentos que não só confirmam que ele sabia de todo o esquema como também afirmam que era dele o comando da operação.

Outro problema sério que aflige Lula são evidentes sinais de enriquecimento ilícito, não só dele com de diversos familiares. Há acusações fundadas de que Lula teria recebido toda sorte de vantagens pessoais para beneficiar interesses privados. Tais vantagens incluiriam apartamentos, sítio, terreno do Instituto Lula, propinas, honorários milionários por palestras, muitas das quais sequer é possível demonstrar de maneira cabal  que foram de fato  realizadas, benefícios para familiares, que acumularam patrimônio milionário com espantosa rapidez.

Com frequência surgem novas revelações e denúncias. Lula alega que tudo faz parte de uma conspiração das “elites”, mas não explica quem são os chefes da conspiração (uma “armação” tão gigantesca tem que ser muitíssimo bem coordenada), nem apresenta razões plausíveis para a mesma. E não explica por que ele desconhecia a grossa corrupção que era praticada dentro do Palácio do Planalto (José Dirceu, depois Antônio Palocci, ambos seus aliados e auxiliares por décadas) e os milagres de multiplicação estupenda de patrimônio que ocorriam em sua família?

Lula está hoje condenado em primeira instância a 13 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. É ainda réu em vários outros processos, nos quais é acusado de obstrução da justiça, tráfico de influência, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Um presidente contra o qual pesam tais acusações já inicia o mandato desmoralizado. Ao tomar posse, os processos contra o presidente são suspensos e voltam a correr somente quando ele  deixar o cargo. Assim, uma sombra de suspeição irá sempre pairar sobre a Presidência. Continuaremos a ver a Presidência da República mais presente no noticiário policial do que no político e repórteres ainda  usarão palavras como “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” para referir-se ao primeiro mandrio. A democracia não aguenta mais quatro anos com esse nível de polarização!

Mas o principal problema de Lula e de sua candidatura é o discurso do qual Lula se apropriou e que só vem trazendo e provavelmente trará malefícios ao Brasil e aos brasileiros.

Entre o Medo e o Ódio (I)

Faltando pouco menos de um ano para a eleição de 2018 as primeiras pesquisas (não se sabe quão confiáveis) indicam Lula em primeiro lugar, com cerca de 30% dos votos, e Jair Messias Bolsonaro em segundo com aproximadamente 15%.

A primeira conclusão é que a pesquisa de fato reflete a polarização que se observa entre os brasileiros, evidenciada nas redes sociais e nos debates políticos. Poucas vezes esteve a política envolta em  tal clima de raiva e desprezo entre os adversários. As discussões no Parlamento são, via de regra, entremeadas de acusações e ofensas pessoais. Gritos, apupos e turpilóquios já não surpreendem mais, e com certa frequência o debate de ideias,  que se supõe seja o essencial do jogo político, se transforma em confronto físico.

Nas redes sociais nem se fala. Protegidos pelo relativo anonimato , as pessoas extravassam  seu ódio e sua frustração com a política e os políticos nos termos mais francos e diretos. São inúmeras as manifestações exigindo a intervenção militar, com a deposição de Michel Temer, o fechamento do Congresso e a cassação de todos os políticos.

Um  pouco menos frequentes mas também bastante numerosas são as manifestações que, implícita ou explicitamente, sugerem um levante popular e depois a eliminação física dos corruptos. O apresentador Datena manifestou-se sem rodeios a respeito do assunto, para um público de milhões de telespectadores.

De fato, sob o ponto de vista emocional, é difícil não desejar que os muitos canalhas, comprovadamente corruptos,  que se alojam na máquina do Estado, nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)  e nos três níveis do governo (federal, estadual e municipal) sejam fuzilados, como punição pelo crime hediondo da corrupção.

Como já comentei neste blog (em “A Inominável Vileza dos Corruptos”), ao subtrair verbas que seriam  aplicadas na saúde, na segurança pública, nos transportes, na pesquisa científica, a corrupção provoca a morte de um número indeterminado de cidadãos pois: ” o corrupto age como um terrorista sanguinário, que detona uma bomba em uma praça movimentada, matando indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e velhos, crianças e adultos. Não lhe importa quem morra, desde que atinja seus objetivos. No caso dos corruptos, estes objetivos são, creio eu, a acumulação ilimitada de bens materiais e a satisfação de um orgulho desmedido. Nos níveis em que ocorre no Brasil, a corrupção ultrapassou a dimensão puramente material para tornar-se um vício.”

Mas a preservação da democracia e do estado de direito que, ao menos formalmente, estão vigorando no país,  não permite que os corruptos sejam julgados sumariamente e executados em seguida.

Portanto, é necessário garantir o amplo direito de defesa, o contraditório e o uso de todas as chicanas e artimanhas legais que nosso direito possibilita ao acusado. Assim somos forçados a ter nossa inteligência agredida sem descanso, ouvindo idiotices como “… foi a D. Marisa” ou “… era um empréstimo para pagar os advogados.” Mas a democracia vale o sacrifício.

Nesta situação de divisão entre os brasileiros, ódios que parecem aumentar sempre, e ameaças de quebra da democracia e do Estado de Direito, o perfil do próximo presidente da República deveria, a meu ver, enquadrar-se de maneira bem próxima na descrição  abaixo:

  1. Autoridade moral:  deve ser um homem (ou mulher) sobre o qual não haja processos judiciais por corrupção ativa ou passiva, enriquecimento ilícito ou lavagem de dinheiro. Além de honesto, nosso próximo presidente deve ser reconhecido como tal pela classe política e pelo eleitorado. Esta é a forma de legitimar a Presidência da República, cujos ocupantes nos últimos treze anos tornaram o outrora honroso cargo de presidente  da república equivalente ao de chefe de uma quadrilha. Somente um líder capaz de mostrar-se como exemplo de que é possível fazer política com honestidade e decência, será capaz de negociar o apoio do Congresso, tendo como capital o respeito e a confiança do povo e não malas de dinheiro…É fundamental para a democracia que a população tenha razoável confiança nos ocupantes dos cargos eletivos. Não é possível manter uma democracia na qual as notícias sobre as autoridades do governo aparecem com mais frequência no noticiário policial do que  na seção de política.

    Enquanto escrevo este post ouço uma reportagem sobre as delações premiadas da JBS.  O jornalista acaba de mencionar o presidente Michel Temer  usando os qualificativos “sem vergonha”, “ladrão”, “canalha”, “pilantra” e “filho da p…”. Ainda ontem os  jornais publicavam uma pesquisa onde se mostrava que Temer é o presidente mais impopular do planeta, com 3% de aprovação. Nenhuma democracia sobrevive com este tipo de liderança…

  2. O presidente deve ser um político experiente, que já tenha ocupado diversos cargos no Executivo e no Legislativo,  de modo que esteja familiarizado com o funcionamento e a gestão da máquina pública (que é muito diferente do funcionamento e da gestão de uma empresa privada). Deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc. O cargo de presidente é o coroamento de uma carreira política e exige muita experiência, conhecimento e capacidade de negociação.  A eleição de um presidente que não atenda os requisitos do cargo, por assim dizer, é a receita quase certa  para o desastre.

    Um exemplo é Fernando Collor Mello, o mais jovem presidente da República, cuja experiência executiva limitava-se à prefeitura de Maceió e dois anos como governador do pequeno estado de Alagoas (27º PIB/capita entre 27 estados); seja por falta de capacidade ou de vontade, mostrou-se incapaz de controlar a ganância de seu ex-tesoureiro de campanha; sequestrou a poupança dos brasileiros, não conseguiu controlar a inflação e acabou sofrendo o impeachment.

    Dilma “O Poste” Roussef, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, nem mesmo o de síndica de condomínio,  foi colocada por Lula no Planalto; incompetente,  irresponsável e, sabe-se hoje, possivelmente também corrupta, levou o Brasil à pior crise econômica da história republicana e terminou sofrendo também o impeachment..

  3. Uma terceira condição é que o presidente seja um profundo conhecedor do Brasil e dos problemas brasileiros. É evidente que o presidente não pode e nem deve ser especialista em tudo, mas ele pessoalmente tem que ter uma visão clara dos problemas que considera mais importantes e de suas prioridades relativas; deve ter ao menos um esboço das soluções que irá propor e a capacidade de negociar a implementação das soluções com os diferentes grupos sociais. Isto é um plano de governo, que é elaborado por especialistas. Mas é responsabilidade intransferível do presidente arbitrar as propostas dos técnicos e “vender” o plano à sociedade. Exige-se de um presidente a capacidade de apresentar de forma articulada um plano de governo e negociá-lo com a sociedade.

No entanto, como veremos na segunda e terceira  partes deste post, os  dois candidatos mais cotados hoje não preenchem estes requisitos e, penso eu, a eleição de qualquer um deles será um desastre para o Brasil. O que temos hoje é o candidato do ódio (Lula) contra o candidato do medo (Bolsonaro).

 

 

REVELAÇÃO DE TOMÉ (300-400 d.C.)

Traduzido[1] por João Azevedo Jr.

Versão I: Fragmento de Verona (século V) e texto de Wilhelm (Munich Clm. 4585, século IX)

Aqui começa a carta do Senhor para Tomé.

Ouve pois Tomé, as coisas que deverão ocorrer no final dos tempos: haverá fomes, e guerras e terremotos em diversos locais, haverá neve e gelo e grandes secas e muitos conflitos entre povos; a blasfêmia, a iniquidade, a inveja, a vilania, a preguiça, o orgulho e a intemperança prevalecerão, de modo que todo homem falará aquilo que lhe agradar. E não haverá paz entre Meus sacerdotes, e farão sacrifícios a Mim com intenção enganosa; e não lhes darei Minha proteção. Naqueles dias, os sacerdotes ficarão admirados com o grande número de pessoas que deixarão a casa do Senhor e se voltarão para atividades mundanas, estabelecendo novos ou violando antigos limites para a Igreja do Senhor.  E reclamarão para si muitas coisas e locais que estavam perdidos, e estarão sujeitos a  César, assim como eles estavam até aquele tempo: pagando Impostos para as cidades, até mesmo ouro e prata e os principais cidadão serão condenados[2] e seus bens trazidos para o tesouro dos reis, que ficarão repletos.

E haverá grande perturbação para todos os povos, e morte. A casa do Senhor ficará desolada, e seus altares serão desprezados, e neles aranhas tecerão suas teias. Os lugares sagrados serão corrompidos, o clero se tornará impuro, o sofrimento aumentará, a virtude será derrotada, a alegria sucumbirá, e a boa vontade não existirá mais. Naqueles dias a maldade se tornará abundante; haverá acepção de pessoas[3], hinos deixarão de ser ouvidos na casa do Senhor, a verdade deixará de existir, a mentira prosperará entre os sacerdotes;  entre eles não se encontrará sequer um homem virtuoso.

De repente, pouco antes dos últimos dias, se levantará um rei[4], amante das leis, que não reinará por muito tempo; ele deixará dois filhos. O nome do primeiro começa com a  primeira letra[5];  o do segundo com a oitava[6]. O primeiro morrerá antes do segundo.

Depois disto, se levantarão dois príncipe para oprimir as nações. Quando o reino estiver sob o domínio deles, haverá grande escassez de alimentos na porção direita do Oriente e nação se levantará contra nação e transporão suas próprias fronteiras.

 

E de novo outro rei surgirá; homem astuto, ordenará que uma imagem de César, feita de puro ouro, seja colocada na casa de Deus para ser adorada; por causa disto  muitos sofrerão o martírio[7]. Então a fé dos servos do Senhor será renovada, a santidade multiplicada e os sofrimentos se tornarão maiores ainda. As montanhas serão confortadas, e deitarão lava candente pelos flancos, de modo que o número dos santos seja alcançado.

Pouco tempo depois, ascenderá ao poder um rei vindo do Oriente, seguidor da lei, que tornará abundantes na casa do Senhor todas as coisas boas e necessárias; ele se apiedará das viúvas e dos necessitados, e ordenará seja concedida ao clero uma dádiva real; seu reinado será de fartura e abundância em todas as coisas.

E depois disto mais um rei se levantará, no sul, e reinará brevemente; durante seu reinado o tesouro  será exaurido para pagamento dos soldados Romanos; e o rei ordenará que os bens dos mais idosos sejam tomados e dados a ele para serem distribuídos.

Depois haverá fartura de milho e vinho e óleo, mas faltará dinheiro, de modo que ouro e prata serão trocados por milho, e muitos serão atingidos pela fome.

Naqueles dias o nível do mar se elevará muito, e os homens não poderão enviar notícias um ao outro. Os reis da terra, e os príncipes e os capitães serão confundidos, e a nenhum homem será permitido falar livremente. Cabelos grisalhos serão vistos na cabeça de jovens, e os mais novos não cederão seus lugares aos mais idosos.

Depois surgirá mais um rei, homem astuto, cujo reinado será curto. Naqueles dias, ocorrerá todo tipo de catástrofe, até mesmo a extinção da raça de homens que habita o Oriente, até a Babilônia. E depois morte e fome e guerra desde a terra de Canaã até Roma. Então todas as nascente e poços ferverão e se transformarão em sangue. O firmamento será movido, as estrelas cairão sobre a terra, o sol se dividirá ao meio como a lua, e esta não mais brilhará na noite. Haverá grandes sinais e  maravilhas naqueles dias, quando se aproxima a vinda do Anticristo[8]. Ai daqueles que constroem, pois não habitarão. Ai daqueles que semeiam nos campos em descanso, pois trabalharão sem motivo. Ai dos que se casam, pois na fome e na miséria irão gerar seus filhos. Ai daqueles que juntam casa a outra casa, e campo a outro campo, pois todas as coisas serão consumidas pelo fogo. Ai daqueles que não cuidam de si mesmos enquanto o tempo ainda o permite, pois daqui em diante serão condenados para sempre. Ai daqueles que voltam suas costas ao pobre quando ele pede.

Porque[9] sou o Alto e Poderoso: sou o Pai de todas as coisas[10],[11] Todo-Poderoso.

Há sete sinais do final deste mundo. Haverá fome em toda a terra e grande pestilência e muita aflição; então todos os homens serão escravizados entre todas as nações, e cairão pelo fio da espada.

No primeiro dia do Juízo ocorrerá grande prodígio. Na terceira hora do dia uma voz forte e poderosa soará no firmamento do céu, e uma imensa nuvem de sangue virá do norte, seguida de fortíssimos trovões e poderosos relâmpagos, e haverá uma chuva de sangue por sobre toda a extensão da Terra. Estes são os sinais do primeiro dia.

No segundo dia soará poderosa voz no firmamento do céu e a terra será deslocada de seu lugar; os portões celestiais se abrirão no Oriente e uma força gigantesca será expelida pelos portões e cobrirá todo o firmamento até a noitinha. Estes são os sinais do segundo dia.

No terceiro dia, por volta da segunda hora, soara novamente a voz no firmamento, e os abismos da terra far-se-ão ouvir-se nos quatro cantos do mundo. O primeiro céu será enrolado sobre si mesmo e desaparecerá. Devido à fumaça e ao mau cheiro do enxofre vindos do abismo os dias permanecerão escuros até a hora décima. E todos os homens dirão “Penso que o fim está próximo, e que todos morreremos.” Estes são os sinais do terceiro dia.

No quarto dia na primeira hora, a terra do oriente se fará ouvir, e o abismo rugirá; então a terra se moverá, atingida pela força de um terremoto. Naquele dia serão derrubados todos os ídolos dos pagãos e desabarão todas as construções humanas. Estes são os sinais do quarto dia.

E no quinto dia, na sexta hora, de repente serão ouvidos fortes trovões; a esfera do sol e todos os seus poderes de luz lhe serão tirados, e as trevas reinarão sobre o mundo até o anoitecer, e então as estrelas não mais terão brilho. Naquele dia, todas as nações detestarão o mundo e desprezarão a vida neste mundo. Estes são os sinais do quinto dia.

E no sexto dia haverá novos sinais no céu. Na quarta hora o firmamento do céu se abrirá de leste a oeste. E os anjos do Paraíso contemplarão. a terra. E todos os homens verão no céu as hostes angelicais contemplando-os do Paraíso e todos fugirão.

 

Versão II: Texto de Bihlmeyer, do Clm. 4563 de Munich (século XI – XII) e Fragmento de Viena

Ouve, ó Tomé, pois Eu sou o Filho de Deus Pai e sou o pai de todos os espíritos. Ouve de Mim os sinais que deverão ocorrer quando chegar o fim deste mundo, quando o fim do mundo cumprir-se, antes que Meus eleitos deixem este mundo. Eu te contarei abertamente estas coisas que deverão acontecer com os homens: mas sobre quando tais coisas ocorrerão, nem  os príncipes dos anjos o sabem, vendo que isto ainda está escondido como estava antes.

Então haverá uma divisão do mundo em partes entre rei e rei, e em toda terra haverá grandes fomes e grandes pestilências, e muitas aflições, e os filhos dos homens serão levados como cativos entre todas as nações e morrerão pelo fio da espada e haverá grande comoção no mundo. E depois disto, quando se aproximar a hora do fim, ocorrerão grandes sinais nos céus durante sete dias, e os poderes celestiais se manifestarão.

Então isto ocorrerá no primeiro dia, o início: na terceira hora daquele dia se ouvirá uma voz forte e poderosa, vinda do firmamento, e do norte virá uma nuvem cheia de sangue; trovões ensurdecedores e relâmpagos fortíssimos a seguirão, e a nuvem cobrirá todo o céu e uma chuva de sangue se despejará sobre a terra. Estes são os sinais do primeiro dia.

E no segundo dia ouvir-se-á novamente voz forte e poderosa, vinda do céu, e a terra será retirada de seu lugar, e os portões do firmamento se abrirão no leste, e a fumaça de imensa fogueira será expelida pelos portões abertos e cobrirá todo o firmamento até a tardinha. Naquele dia haverá terror e pânico no mundo. Estes são os sinais do segundo dia.

Mas no terceiro dia, por volta da terceira hora, soará novamente no céu, e os abismos da terra se abrirão nos quatro cantos do mundo; os pináculos do firmamento serão abertos, e colunas de fumaça se formarão unindo  os abismos e os pináculos, e o ar se enchera de fumaça. Haverá um horrível cheiro de enxofre no ar até a hora décima, e os homens dirão: “Parece que se aproxima o tempo em que morreremos.” Estes são os sinais do terceiro dia.

E na primeira hora do quarto dia, na terra do oriente, o abismo se derreterá e rugirá. Então toda a terra será abalada por um poderoso terremoto. Naquele dia tombarão todos os ídolos dos pagãos e todas as construções da terra, devido à força do terremoto. Estes são os sinais do quarto dia.

Porém na sexta hora do quinto dia, subitamente ouvir-se-á forte trovoada e o sol será tirado de sua esfera e desprovido de sua luz, e haverá grande escuridão no mundo até a tardinha, e o ar será desolador, sem o sol e sem a lua, e também sem as estrelas, que deixarão de brilhar.  Naquele dia todos os povos se verão como em um espelho e desprezarão a vida deste mundo. Estes são os sinais do quinto dia.

No sexto dia, à quarta hora, virá do firmamento a voz forte e poderosa. O firmamento se abrirá do oriente ao ocidente, e os anjos dos céus observarão a terra através da abertura no firmamento. e todos que estiverem na terra ficarão admirados ao ver o exército de anjos fitando-os desde os céus. Então todos os homens fugirão para as montanhas e se esconderão da face dos anjos virtuosos, e dirão: “Abrir-se-á o solo e nos engolirá?” E tais coisas jamais haviam ocorrido desde a criação do mundo.

Estupefatos, observarão Minha volta, vindo dos céus, sob a luz de Meu Pai, com o poder e a honra dos santos anjos. No momento de Minha vinda. a cerca de fogo do Paraíso apagar-se-á – pois o Paraíso é rodeado por uma cerca de fogo. E então um fogo perpétuo consumirá a terra e todos os elementos do mundo.

Os espíritos e almas de todos os homens sairão do Paraíso e virão para a terra; e cada um deles irá até seu corpo, onde este foi sepultado, e dirá: “Aqui jazia meu corpo.” E quando a poderosa voz destes espíritos for ouvida, um terremoto de força espantosa sacudirá o mundo inteiro, e seu poder será tal que as montanhas irão se esboroar e as rochas se partir. Então cada espírito retornará a seu próprio corpo e os corpos dos santos que adormeceram serão levantados.

Depois, seus corpos serão transformados à imagem e semelhança e para a honra dos santos anjos, e no poder da imagem de Meu Pai Santíssimo. Eles serão revestidos com o dom da vida eterna, transmitido pela nuvem de luz que nunca antes foi vista neste mundo; pois esta nuvem desceu do mais alto reino celeste, pelo poder de Meu Pai. E esta nuvem revestirá com sua beleza todos os espíritos que creram em Mim.

Estando todos vestidos, serão levados pelas mãos dos santos anjos, como Eu te havia dito. Serão levantados nos ares e colocados sobre uma nuvem de luz, e Comigo ascenderão jubilosos aos céus. Lá permanecerão na luz de Meu Pai, louvando-O. E lhes será concedida indizível felicidade com Meu Pai e diante dos santos anjos. Estes são os sinais do sexto dia.

E no sétimo dia, na oitava hora, soarão vozes nos quatro cantos do firmamento. E o ar tremerá e se encherá de anjos, que travarão uma guerra entre si durante todo o dia. E naquele dia Meus eleitos serão buscados pelos anjos e salvos da destruição. E todos os homens entenderão que seu fim está próximo. Estes são os sinais do sétimo dia.

Quando os sete dias tiverem se passado, na sexta hora do oitavo dia uma voz doce e suave virá do céu, vinda do oriente. Então será revelado o anjo que tem poder sobre todos os demais; e todos os anjos seguirão adiante com ele, sentados nas carruagens de nuvens de meu Santo Pai, alegrando-se e cruzando os ares abaixo do firmamento para recolher os eleitos que creram em Mim. E todos se alegrarão porque este mundo foi destruído.

Terminaram as palavras do Salvador para Tomé, relativas ao fim do mundo.

[1] A Revelação de Tomé pode ser encontrada on-line (em inglês) em diversos sites. Minha tradução tem como base a versão para o inglês encontrada em James, M. R. ”The Apocryphal New Testament”. Oxford: Clarendon Press, 1924

[2] Aqui termina o manuscrito de Verona; o de Munich continua.

[3] A frase em inglês é there shall be respecters of persons”. O significado de respecter” é “someone or something that is influenced by the social standing, importance, power, or any deterrent put forth by persons or things (used chiefly in negative constructions). Ora, tal coisa não pode ocorrer na Igreja, pois Deus não faz acepção de pessoas (At 10:34, Ro 2:11, Ef. 6:9, Cl 3:25, Tg 2:1, 9, 1Pd 1:17).

[4] Acredita-se que este seja Teodósio, imperador romano nascido na Espanha, Teodósio, cognominado o Grande, governou o Império Romano do Oriente entre 378 e 395 d. C.; eliminou os últimos vestígios de paganismo, pôs fim à heresia ariana no Império, pacificou os godos, tendo reinado no século IV como um soberano justo e poderoso

[5] Arcadius, filho de Teodósio I, morreu em 408.

[6] Honorius, filho de Teodósio I, morreu em 423.

[7] Repete-se a história básica narrada em Dn 3.

[8] ou, alternativamente,

[9] Há aqui uma quebra da narrativa.

[10] ou, alternativamente, “E sabei vós: Sou o Pai Altíssimo: sou o Pai de todos os espíritos.”

[11] O texto da nota anterior é, na verdade, o início de um texto mais antigo e mais curto, e do fragmento de Viena. Neste último, algumas palavras ininteligíveis precedem a frase. Não são todavia as que aparecem no texto de Wilhelm, que é o que está sendo mostrado.

REVELAÇÃO DE TOMÉ (300-400 d. C.) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Por muitos séculos, a Revelação de Tomé era conhecida apenas por uma referência no chamado Decreto Gelasianum[1], que considera o texto como apócrifo e coloca seu nome na lista dos escritos que devem ser rejeitados.

  1. R. James (1910) descreve como este apócrifo tornou-se conhecido no início do século XX. Em 1908 C. Frick publicou um artigo no “Zeitschrift fur Neutestament Wissenschaft” no qual chamava a atenção para um comentário contido no manuscrito da Crônica de Jerônimo, do Codex Philippsianus em Berlin. Esta anotação diz que no décimo-oitavo ano de Tibério: “in libro quodam apocrypho qui dicitur Thomae apostoli scriptum est dominum Iesum ad eum dixisse ab ascensu suo ad celum usque in secundum adventum eius novem iubeleus contineri.”[2]

Há atualmente duas versões da Revelação de Tomé. A mais longa é representada por:

  1. Cod. Clm. 4585 fol. 66-67 (século IX) dos Beneditinos. Este texto foi editado por Wilhelm em seu livro Deutsche Legenden und Legendare, 1907;
  2. Manuscrito da Biblioteca do Capítulo de Verona (século VIII) que foi publicado por M. R. James no Journal of Theological Studies. Veja James (1910)
  3. Cod. Vatic. Palat. nº 220, descoberto por E. von Dobschutz e usado por Bihlmeyer em sua edição do Cod. Clm 4563.

Existe uma antiquíssima adaptação  para o inglês medieval deste texto; ela se encontra na décima-quinta  homilia  do manuscrito anglo-saxão de Vercelli (século IX). Vestígios claros desta versão da Revelação de Tomé são encontrados em outros textos religiosos, conforme, por exemplo, Seymour (1921), Gatch (1964) e Duncan (1999).

A versão mais longa da Revelação de Tomé divide-se em duas partes. A primeira trata dos eventos que precederão o Juízo Final; é muito semelhante às descrições contidas em outros textos apócrifos, tais como a Ascensão de Moisés, a Ascensão de Isaías e os Oráculos Sibilinos. Esta parte pode ser considerada uma interpolação; data provavelmente do século V, devido a certas referências históricas que aparecem no texto.

A segunda parte corresponde em conteúdo e extensão à versão curta da Revelação de Tomé.  Esta versão é representada por:

  1. Codex Vindob. Palatinus 16, fol. 60r-60v (século V)
  2. Codex Clm 4563 fol. 40r-40v (séculos XI ou XII)

Tanto a versão curta como a versão mais longa da Revelação de Tomé sugerem que o texto possa ter se originado antes do século V. Ele parece depender do livro canônico da Revelação e é o único dos apócrifos que determina sete dias para o fim dos tempos. É provável que isto seja uma referência aos sete selos, sete trombetas e sete tigelas mencionadas no livro canônico.

As numerosas versões em latim podem indicar diferentes versões de um original grego.

Referências:

  1. Duncan, E. (1999). Fears of the Apocalypse: The Anglo-Saxons and the Coming of the First Millennium. Religion & Literature, 31(1), 15-23. Disponível em http://www.jstor.org/stable/40059757
  2. Gatch, M. (1964). Two Uses of Apocrypha in Old English Homilies. Church History, 33(4), 379-391. Disponível em http://www.jstor.org/stable/3162832
  3. James, M. R. (1910). Notes on Apocrypha, The Journal of Theological Studies, 11, 188-192. Disponível em https://biblicalstudies.org.uk/pdf/jts/011_288.pdf
  4. James, M. R. (1924).The Apocryphal New Testament. Oxford: Clarendon Press.
  5. Seymour, J. (1921). The Signs of Doomsday in the Saltair Na Rann. Proceedings of the Royal Irish Academy. Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, 36, 154-163. Disponível em http://www.jstor.org/stable/25504228

 

[1] Trata-se de um decreto papal que era atribuído ao Papa Gelasius I, bispo de Roma entre 492-496. Atualmente acredita-se que o decreto está baseado em um texto escrito por um estudioso anônimo, entre 519 e 553. A segunda parte do decreto contém uma lista dos livros considerados canônicos; esta lista é apresentada como tendo sido elaborada em um concílio em Roma, que teria sido convocado pelo Pap Damasio I, bispo de Roma 366-383.

[2] Em latim, no original. Significa, em tradução livre:  “no livro apócrifo o qual se dizia ter sido escrito pelo apostolo Tomé; quando ascendeu ao céu, o Senhor Jesus lhe teria dito que daquele dia até a Sua volta se passariam nove jubileus.”

REVELAÇÃO DE MOISÉS

Traduzido[1] por João Azevedo Jr.

1 Relato da vida de Adão e Eva, as primeiras criaturas humanas, revelado por Deus a Seu servo Moisés, quando este recebeu das mãos do Senhor as Tábuas da Lei da Aliança, instruído pelo arcanjo Miguel.

Esta é a história de Adão e Eva. Depois que foram expulsos do Paraíso, Adão tomou Eva sua mulher, e se dirigiram para o oriente. E lá permaneceram dezoito anos e dois meses, e Eva concebeu e deu à luz dois filhos, Diaphotus chamado Caim, e Amilabes[2] chamado Abel.

2 E depois disto, Adão e Eva permaneceram juntos e, um dia, enquanto estavam deitados, Eva disse a Adão, seu marido: “Meu senhor, vi em um sonho esta noite o sangue de meu filho Amilabes, que é chamado Abel, despejado na boca de Caim seu irmão, e ele o bebia sem piedade. E Abel tentou convencê-lo a deixar-lhe um pouco de sangue, mas Caim não o atendeu, e bebeu todo o sangue, que não permaneceu em suas entranhas, mas foi expelido por sua boca.” E Adão disse a Eva: “Levantemo-nos e vamos ver o que lhes aconteceu, pois talvez o Inimigo esteja de alguma forma combatendo  contra eles.”

3 E foram ambos ver o que havia ocorrido e encontraram Abel morto pela mão de Caim, seu irmão. E Deus disse ao arcanjo Miguel: “Dize a Adão, ‘Não reveles a teu filho Caim o segredo que conheces, porque ele é filho da ira. Mas não vos lamenteis, pois vos darei outro filho no lugar dele, o qual vos mostrará todas as coisas, tantas quantas fizerdes para ele; mas não lhe conteis nada.! Isto disse Deus a seu anjo, e Adão manteve estas palavras  em seu coração, e com ele Eva, tendo ambos se entristecido por Abel, filho deles.

4 E depois disto, Adão deitou-se novamente com sua mulher Eva, e ela concebeu e deu à luz Seth. E Adão disse a Eva: “Vede, tivemos um filho para substituir Abel, a quem Caim  matou; glorifiquemos e ofereçamos sacrifício a Deus.”

5 E Adão gerou[3]  mais trinta filhos e trinta filhas[4]. Depois adoeceu, e clamando em alta voz disse: “Que todos os meus filhos venham a mim, para que eu possa vê-los antes de morrer.” E foram todos trazidos, pois a terra era habitada em uma terças parte, e todos eles vieram até a porta da casa na qual Adão  havia entrado para orar a  Deus. E seu filho Seth disse:

6 “Pai Adão, que doença tendes?” E Adão respondeu: “Meus filhos, perturba-me grave problema!” E seus filhos lhe perguntaram: “Qual  é o problema e qual é a doença?” E Seth perguntou: “É o que se passa que Vós vos recordastes dos frutos do Paraíso que comestes, e vos afligis devido ao vosso desejo por eles? Se assim for, dizei-me e irei e trazer-vos-ei frutos do Paraíso. Pois colocarei esterco sobre minha cabeça, e chorarei e rezarei, e o Senhor me ouvirá, e enviará seu anjo; e vos trarei o fruto[5] para que possa cessar vossa aflição.”  Adão lhe disse: “Não, meu filho Seth; mas estou doente e aflito.” Seth perguntou a seu pai: “E como vos sobrevieram estes males?”

7 Adão lhe respondeu: “Quando Deus nos criou, a mim e a tua mãe, por cujas ações também me tornei mortal, Ele nos deu todas as plantas do Paraíso, mas a uma delas nos ordenou que não comêssemos seu fruto, pois se o fizéssemos haveríamos de morrer. E em dado momento, enquanto os anjos que protegiam tua mãe haviam subido aos céus para prestar adoração a Deus, o Inimigo deu a ela o fruto da árvore, e ela o comeu, sabendo que eu não estava por perto, nem os santos anjos; então ela também a mim deu do fruto para comer.

8 E quando nós dois tínhamos comido, Deus se enfureceu conosco. E o Senhor, vindo ao Paraíso, sentou-se em Seu trono, e chamou-me com voz terrível, dizendo: “Adão, onde estás? E por que estás escondido de minha face? Deve uma casa estar oculta daquele que a construiu? Porquanto abandonaste Minha aliança, serão desferidos sobre teu corpo setenta golpes[6]. O primeiro golpe te ferirá os olhos, o segundo nos ouvidos, e assim em sequência, todos os golpes te atingirão.”

9 E Adão tendo assim falado a seus filhos, soltou um forte gemido, e disse: “O que devo fazer? Estou em grande sofrimento.” E Eva também chorou, dizendo: “Meu senhor Adão, levanta-te e dá-me metade de tua doença, e deixa-me suportá-la junto contigo , porque através de mim isto te aconteceu; por minha causa estás em dor e aflição.” E Adão disse a Eva: “Levanta-te, e vai com nosso filho Seth até próximo do Paraíso, e ponde terra sobre vossas cabeças, e chorai, suplicando ao Senhor para que Ele tenha compaixão de mim, e envie Seu anjo ao Paraíso, e me dê da árvore da qual escorre o óleo,  e que este óleo o possais trazer-me; e eu me ungirei com ele, e descansarei, e vos mostrarei como fomos enganados da primeira vez.”

10 E Seth e Eva foram para as proximidades do Paraíso. E enquanto estavam caminhando até lá, Eva avistou seu filho, e uma fera selvagem lutando contra ele. E Eva chorou, dizendo: “Ai de mim, ai de mim; pois quando chegar o dia da ressurreição, todos os que pecaram irão amaldiçoar-me, dizendo, ‘Eva não observou o mandamento de Deus.’”

11 E Eva gritou para a fera selvagem, dizendo: “Ó maligna fera, não te atemorizas de lutar contra aquele que foi criado à imagem de Deus? Como foi aberta tua boca? Como se arreganharam teus dentes? Como não estás ciente de tua sujeição, de que estavas antes sujeita àquele que foi criado  à imagem de Deus?” Então a fera selvagem gritou, e disse: “Ó Eva, não dirijas contra nós tua admoestação, nem teu pranto,  mas sim contra ti mesma, pois o início das feras selvagens deve-se a ti. Como foi tua boca aberta, para comeres da árvore sobre a qual Deus te havia advertido para que não comesses de seu fruto? Foi por causa disto que nossa natureza mudou também. Agora, portanto, tu não serás capaz de defender-te, caso eu comece a repreender-te.”

12 E Seth disse à fera selvagem: “Fecha tua boca e cala-te, e afasta-te daquele que foi criado à imagem de Deus até o Dia do Juízo.” Então a fera selvagem retrucou: “Vede, Seth, aparto-me daquele que foi criado à imagem de Deus.”. Então a fera fugiu, e o deixou ferido, e retirou-se para seu covil.

13 Seth dirigiu-se com sua mãe Eva até as proximidades do Paraíso, e eles lá choraram, implorando a  Deus que enviasse Seu anjo, para lhes dar[7] o óleo da misericórdia. E Deus lhes enviou o arcanjo Miguel, que lhes disse estas palavras: “Seth, homem de Deus,  não te ocupes orando e suplicando pela árvore na qual flui o óleo para ungir teu pai Adão; pois ele não te será dado agora, mas somente nos últimos tempos. Então se levantará toda a descendência de Adão, do princípio até aquele grande dia, tantos quantos forem um povo santo; e lhes serão dadas todas as delícias do Paraíso, e Deus estará no meio deles. E não haverá mais pecadores diante Dele, porque os de coração mau serão separados, e lhes será dado um coração feito para discernir o que é bom, e adorarão somente a Deus. Volta para teu pai, pois a medida de sua vida foi completada, igual a três dias[8]. E quando a alma de teu pai se for, verás a terrível passagem.”

14 E o anjo, tendo dito isto, deixou-os. Seth e Eva voltaram para a tenda onde Adão estava deitado. E Adão disse a Eva: “Por que nos prejudicaste, e trouxeste sobre nós a grande ira, que é a morte, a qual agora tem o domínio sobre toda a nossa raça?” E Adão continuou: “Chama nossos filhos, e os filhos de seus filhos, e conta a eles como ocorreu nossa transgressão.”

15 Então Eva os reuniu e assim lhes falou: “Ouvi todos vós, meus filhos e filhos de meus filhos, pois relatarei a vós como nosso Inimigo nos enganou. Sucedeu que, quanto habitávamos o Paraíso, mantínhamos cada um a respectiva parcela que fora a nós designada por Deus. E eu ocupava os lotes do sul e do oeste. E o Maligno foi até a parte de Adão, onde ficavam os animais selvagens machos, pois Deus havia repartido os animais entre nós, e dado todos os machos a vosso  pai e todas as fêmeas as deu Ele a mim, e cada um de nós olhava pelos seus.

16 E o Maligno dirigiu-se à serpente dizendo: “Vem até mim, e eu te contarei uma coisa na qual podes ser útil.” Então a serpente foi até ele, e o Maligno assim se dirigiu a ele: Dizem que és o mais astuto entre os animais selvagens, e vim até aqui para conhecer-te[9]; e constatei que és a maior entre todas as bestas selvagens, e que elas se associam a ti. Não obstante, fazes reverências a um que é muito inferior a ti.  Por que comes os restos[10],[11]  de Adão e sua mulher Eva, e não o fruto do Paraíso? Vem comigo, e faremos com que Adão seja expulso do Paraíso através de sua mulher, assim como nós também fomos expulsos através dele. A serpente lhe respondeu: “Tenho medo de que Deus se enfureça comigo.” E o Maligno lhe disse: “Nada temas, apenas torna-te meu instrumento, e eu falarei por tua boca as palavras através das quais serás capaz de enganar Adão.”

17 Logo a seguir, a serpente se pendurou na muralha do Paraíso, por volta da hora na qual os anjos de Deus subiam ao céu para adorá-Lo. E Satã veio na forma de um anjo e louvou a Deus como faziam os outros anjos; e olhando a partir da muralha eu o via como um anjo. E Satã indagou-me: “És tu Eva?” E eu lhe respondi: “Sim, sou.” E ele fez nova pergunta: “Que fazes no Paraíso?” E dei-lhe esta resposta: “Deus colocou-me e a Adão, meu marido,  no Paraíso para que cuidássemos dele e dele tirássemos nosso alimento.” O Maligno retrucou, falando através da boca da serpente: “Sois afortunados, mas não comeis de todas as árvores.”. E eu lhe disse: “Sim, comemos o fruto de todas as árvores, exceto daquela que está no meio do Paraíso, sobre a qual Deus ordenou que não comêssemos seu fruto, pois se o fizéssemos haveríamos de morrer.”

18 Ao que a serpente retrucou: “Assim como Deus vive, sinto pena de vós, porque sois como gado. Não desejo que permaneçais ignorantes disto! Levanta-te, vem aqui, ouve-me. Come e descobre o valor da árvore, tal como Deus nos contou.” Mas eu disse a ele: “Temo que Deus se enfureça comigo.” E a serpente respondeu: “Não temas, pois no instante em que tu e teu marido  comerdes do fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como os deuses no conhecimento do Bem e do Mal. Mas Deus, sabendo disso, que seríeis como Ele, aborreceu-se convosco e vos ordenou, ‘Vós não comereis do seu fruto!’ Mas observa a árvore, e perceberás a glória que a rodeia.” E contemplei a árvore e vi a glória que a rodeava. E disse à serpente: “É uma visão maravilhosa!” e estava atemorizada em colher o fruto. E ele me disse: “Vem, eu te darei o fruto, segue-me. E eu cedi, e ele entrou no Paraíso, e seguiu caminhando à minha frente.

19 Tendo caminhado um pouco, virou-se, e disse-me: mudei de ideia, e não te darei o fruto para o comeres. E isso ele disse, desejando enganar-me completamente, e destruir-me. E continuou: “Jura-me que darás também do fruto  para teu marido.”  E eu lhe disse: “Não sei que juramento devo prestar a ti; mas aquele que sei te digo: Pelo trono do Senhor, e pelo querubim, e pela Árvore da Vida, darei também do fruto a meu marido para que o coma.” E depois de ouvir meu juramento, ele subiu pela  árvore. E pôs sobre o fruto, que me deu para que comesse, o veneno de sua perversidade, de seu desejo; pois o desejo é  a cabeça[12] de todo pecado. E verguei um galho até o chão, e apanhei o fruto e o comi.

20 E no mesmo instante meus olhos se abriram, e percebi que estava despida[13] da virtude que antes me revestia; e chorei, dizendo: “O que me fizeste, pois fui privada da glória que me revestia?” E chorei também em razão do juramento. E ele desceu da árvore, e sumiu de vista. E procurei folhas em minha área[14] , para que pudesse cobrir minha vergonha; e não encontrei nenhuma nas árvores do Paraíso, pois no instante em que comi do fruto, as folhas de todas as plantas de minha parcela caíram, exceto as da figueira.

21 Tirei alguma folhas da figueira e fiz com elas um avental. Foi daquela planta que comi. E gritei bem alto: “Adão, Adão, onde estás? Levanta-te, vem até mim, e te revelarei um grande mistério.” E vosso pai veio e eu lhe falei palavras de perversidade, que provocaram nossa queda da glória. Pois no momento em que ele chegou abri minha boca e o Maligno falou por ela; e eu comecei a convencê-lo, dizendo: “Vem aqui, meu senhor Adão, ouve-me e come o fruto da árvore da qual Deus ordenou que não comêssemos, e serás como Deus.” E vosso pai respondeu e disse, “Tenho medo que Deus se enfureça comigo.” E eu lhe disse: “Não temas, pois tão logo comeres deste fruto terás o conhecimento do Bem e do Mal.” E logo o convenci, e ele comeu, e seus olhos se abriram, e ele percebeu sua nudez. E ele me disse: “Ó mulher perversa, por que fizeste tal coisa? Tu nos separaste da glória de Deus.”

22 E naquele instante ouvimos o arcanjo Miguel soar sua trombeta, conclamando os anjos, e dizendo: “Assim falou o Senhor, vinde comigo ao Paraíso, e ouvi meu juízo sobre Adão.” E  ficamos temerosos, e nos escondemos. E Deus veio ao Paraíso, trazido por uma carruagem de querubins,  e os anjos o louvavam. Quando Deus entrou no Paraíso, as plantas dos lotes de Adão e dos meus lotes floresceram, e todos se levantaram; e o trono de Deus foi preparado  debaixo da Árvore da Vida.

23 E Deus chamou Adão, dizendo, “Adão, onde estás escondido, pensando  que não te encontrarei? Deve a casa permanecer oculta de quem a construiu?” Então vosso pai respondeu e disse, “Não nos escondemos acreditando que Vós não nos encontraríeis, mas porque estou nu e estou deslumbrado por Vosso poder ó Senhor.” Deus lhe respondeu, “Quem te mostrou que estavas nu? Não perceberias tua nudez, a menos que tenhas desobedecido Meu mandamento que te dei para que o guardasses.” Então Adão lembrou-se das palavras que eu lhe havia dito quando desejava enganá-lo, que eu o poria fora do alcance da ira do Senhor. E ele virou-se para mim e disse: “Por que fizeste isso?” E eu também lembrei as palavras da serpente, e disse:

24 “A serpente me enganou.” Deus disse a Adão, “Como desobedeceste meu mandamento, e obedeceste tua esposa, maldita é a Terra que cultivares, pois sempre que plantares, ela não cederá sua força, mas te produzirá espinhos e abrolhos;  e com o suor do teu rosto comerás o teu pão. E estarás em aflição por diversas razões. Te inquietarás e não descansarás; serás afligido pela amargura, e não provarás a doçura; serás atormentado pelo calor e oprimido pelo frio; e trabalharás muito e não te tornarás rico; e te apressarás[15]  [16]  mas não atingirás a meta; e as feras selvagens, das quais eras o senhor, se levantarão em revolta contra ti, porque não obedeceste meu mandamento.”

25 E voltando-se para mim, o Senhor disse: “Visto que tu obedeceste à serpente, e desobedeceste meu mandamento, passarás por aflições[17]  e dores insuportáveis; darás à luz teus filhos, com grandes tremores; e alguma vez os darás à luz,[18] e perderás tua vida em consequência de complicações e dores insuportáveis. E suplicarás, e dirás, Senhor, Senhor, salvai-me; e não mais cometerei o pecado da carne. E de acordo com tuas palavras Eu te julgarei, devido à inclinação pecaminosa que o Inimigo colocou em ti; e retornarás a teu marido e ele será teu senhor.[19]

26 Após dizer-me isso, Ele dirigiu-se à serpente, em grande ira, e disse: “Dado que fizeste isso, e te tornaste vil instrumento para enganar aqueles de coração negligente, serás maldita entre todos os animais. Serás privada do alimento que comias, e do pó comerás todos os dias de tua vida; rastejarás sobre teu peito e teu ventre, pois te serão tirados os pés e as mãos; não te serão dados nem ouvidos, nem asas, nem qualquer membro que tem aqueles que seduziste por tua perversidade, e por tua causa foram expulsos do paraíso. Porei inimizade entre ti e a descendência de Adão. Ele ficará à espera[20] por tua cabeça, e tu pelo seu calcanhar, até o dia do julgamento.”

27 E tendo dito isso, ordenou a Seus anjos que nos expulsassem do Paraíso. Enquanto éramos conduzidos para fora, e nos lamentávamos, vosso pai Adão implorou aos anjos, dizendo: “Dai-me algum tempo, para que eu possa suplicar a Deus, para que ele tenha compaixão de mim, e tenha piedade, pois somente eu pequei.” E eles pararam por um momento. E Adão clamou a Deus, em prantos, dizendo: “Perdoai-me, Senhor, pelo que fiz.” Então o Senhor dirigiu-se a Seus  anjos: “Por que interrompestes  a tarefa que vos determinei, de conduzir Adão para fora do Paraíso? Considerais que é Meu o pecado, ou que fui injusto em Meu juízo?” Então os anjos prostraram-se ao solo em adoração ao Senhor, dizendo: “Justo sois Vós, Ó Senhor, e sempre correto Vosso julgamento.”

28 E voltando-se para Adão, assim falou o Senhor: “De hoje em diante, não te será permitido entrar no Paraíso.” E Adão dirigiu-se ao Senhor e implorou: “Senhor, dai-me o fruto da Árvore da Vida, para que eu possa comê-lo  antes que seja expulso.” E o Senhor lhe respondeu: “Não comerás do fruto agora, pois determinei aos querubins com espadas flamejantes que se postassem junto à Árvore, para que não possas comer de seu fruto e livrar-te para sempre da morte; terás assim que travar a guerra na qual o Inimigo te colocou. Todavia, após deixares o Paraíso, se te guardares do mal, mesmo destinado a morrer, Eu te levantarei dos mortos quando vier a ressurreição, e então te será dado do fruto da Árvore da Vida, e estarás livre da morte para todo o sempre.”

29 E, tendo dito isso, o Senhor ordenou que fôssemos retirados do Paraíso. E vosso pai chorou diante dos anjos que guardavam o Paraíso. E os anjos lhe disseram “Que desejas que façamos por ti?” E vosso pai lhes respondeu: “Vede, vós me expulsais. Eu vos suplico, permiti-me colher ervas olorosas do Paraíso, de modo que após deixar este lugar eu possa oferecer sacrifícios a Deus, e Ele me ouça. E os anjos, avançando, disseram a Deus: Jael, Rei eterno, ordenai que seja dado a Adão sacrifício[21] com as ervas docemente olorosas do Paraíso. E Deus  ordenou a Adão fosse  e colhesse ervas perfumadas do Paraíso. E os anjos o deixaram ir, e ele colheu os dois tipos:  açafrão e nardo, e cálamo[22] e canela e outras sementes para seu alimento; e as tendo apanhado, saiu do Paraíso. E viemos para a terra.[23]

30 Assim, meus filhos, terminei de vos revelar de que modo fomos enganados. Mas guardai-vos a vós mesmos, para que não abandoneis o que é bom.

31 E após ter Eva assim falado entre seus filhos, Adão jazia doente e lhe restava apenas um dia até que sua alma deixasse o corpo. E disse-lhe Eva: “Por que tu morres, e eu vivo? Ou quanto tempo me quedarei aqui após tua morte? Dize-me.” E Adão lhe respondeu: “Não te preocupes com tal assunto, pois não te quedarás aqui muito tempo após minha partida, pois morreremos ambos da mesma maneira e repousarás no meu lugar[24]. E quando eu tiver morrido, tu me deixarás[25] e não permitirás a ninguém que toque em mim; pois Deus não me esquecerá, e buscará o vaso que Ele mesmo criou. Levanta-te pois, e ora a Deus até que eu entregue em suas mãos o espírito que Ele me deu; porquanto não sabemos como iremos encontrar Aquele que nos fez, se ele estará enfurecido conosco  ou, diversamente, se terá misericórdia de nós.”

32 Então Eva levantou-se e saiu e, prostrando-se ao solo, clamou: “Ó Deus, pequei; Ó Pai, pequei contra Vós, pequei contra Vossos anjos escolhidos, pequei contra o querubim, pequei contra Vosso Trono inabalável; pequei, Ó Senhor, pequei muito, pequei contra Vós,  e através de mim todos os pecados[26] adentraram a criação.” E enquanto Eva ainda estava orando, ajoelhada, eis que veio até ela o anjo da humanidade e a fez levantar-se, dizendo: “Levanta-te, Eva, de teu ato de arrependimento; pois teu marido Adão deixou seu corpo; levanta-te e vê o espírito de Adão sendo levado Àquele que o criou[27], para encontrá-Lo.”

33 Eva levantou-se, e cobriu o rosto com as mãos, e o anjo lhe disse: “Põe-te acima das coisa da terra.” E Eva fitou o céu, e viu a carruagem de luz que vinha, carregada por quatro águias brilhantes – e a ninguém que fora nascido de mulher[28] era possível  descrever a glória ou ver as faces das águias – e anjos iam à frente da carruagem. E quando chegaram ao local onde jazia o corpo de vosso pai Adão , a carruagem parou, e os serafins[29] se postaram entre vosso pai e ela. E vi três turíbulos de ouro e três frascos; e eis que todos os anjos com incenso, com os turíbulos e com os frascos, aproximaram-se do altar, e sopraram, e a fumaça do incenso cobriu o firmamento. E os anjos se prostraram e adoraram a Deus, suplicando e dizendo: “Santo Jael, perdoai Adão, pois ele tem a Vossa imagem, é a obra de Vossas santas mãos.”

34  E novamente, eu Eva vi dois grandes e terríveis mistérios postados diante de Deus. E chorei de medo, e gritei a meu filho Seth, dizendo: “Levanta-te, Seth, afasta-te do corpo de teu pai Adão, e vem até aqui, para que possas ver aquilo que nenhum olhar humano jamais viu; e eles estão orando por teu pai Adão[30].“

35 Então Seth levantou-se e foi até sua mãe, e disse a ela: “O que te aflige? E por que choras?” E ela lhe respondeu: “Olha com teus olhos, e vê os sete céus abertos, e vê com teus próprios olhos como o corpo de teu pai está deitado sobre a face, e todos os santos anjos estão com ele, orando por ele, e suplicando: Perdoai-o, Ó Pai do universo; pois ele é a Vossa imagem. O que então será isso, Seth, meu filho, e quando será ele entregue às mãos de nosso Deus e Pai invisível? E quem são aqueles dois seres de rosto negro que estão postados ao lado dos que oram por teu pai?”

36 E Seth respondeu a sua mãe: “Aqueles são o sol e a lua e eles estão caindo e orando por meu pai Adão.” E Eva lhe perguntou: “Onde está a luz deles, e por que se tornaram negros?” E Seth lhe respondeu: “Eles não podem brilhar na presença da Luz do Universo[31] e  por esta razão é que a luz deles ocultou-se.”

37 E enquanto Seth falava com sua mãe, os anjos prostrados diante de Deus soaram suas trombetas, e proclamaram com voz terrível: “Bendita seja a glória do Senhor sobre toda Sua criação, pois Ele teve compaixão de Adão,  obra de Suas mãos.” Depois que os anjos fizeram essa proclamação, veio um dos serafins de seis asas, e levou Adão rapidamente até o lago Acheron[32], e lavou-o na presença de Deus. E ele jazeu ali por três horas[33], e então o Senhor do universo assentado em Seu trono sagrado, estendeu as mãos, e ressuscitou Adão, e o entregou ao arcanjo Miguel, dizendo-lhe: “Conduze-o ao paraíso, até mesmo ao terceiro céu, e deixai-o lá até o grande e terrível dia que trarei sobre o mundo.” E o arcanjo Miguel, tomou Adão e o levou, e o ungiu, conforme Deus lhe havia dito ao perdoar Adão.

38 Após se passarem todas estas coisas, o arcanjo indagou sobre os ritos funerários dos restos mortais, e Deus ordenou a todos os anjos que se reunissem na Sua presença, cada qual de acordo com sua classe. E todos os anjos se reuniram, alguns com turíbulos, outros com trombetas. E o Senhor dos Exércitos subiu[34] e os ventos o acompanhavam, e querubins corriam sobre os ventos, e os anjos do céu iam antes da carruagem; e chegaram até onde o corpo de Adão estava, e o levaram. E chegaram ao paraíso, e todas as árvores do paraíso agitaram suas folhas, de modo que todos os gerados por Adão inclinaram suas cabeças, adormecidos pelo suave odor, exceto Seth, porque ele havia sido gerado de acordo com a determinação de Deus. O corpo de Adão, jazia então no solo do paraíso, e Seth estava muitíssimo entristecido com sua  morte.

39 E o Senhor Deus disse: “Adão, por que fizeste isto? Se tivesses observado meu mandamento, aqueles que te fizeram sair daqui não teriam se rejubilado. Não obstante, Eu transformarei a alegria deles em pesar, e teu pesar transformarei em alegria; e tendo feito isto, estabelecer-te-ei em teu reino, no trono daquele que te enganou; e ele será lançado neste lugar, de modo que possas sentar-te acima dele.

40 Então deverão ser condenados, ele e os que o ouvirem; e eles estarão contristados e prantearão, ao ver-te sentado no trono glorioso que a ele pertenceu.” E então ele disse ao arcanjo Miguel: “Entra no paraíso, no terceiro céu,  e traz-me três panos de fino linho e seda.” E Deus disse a Miguel, Gabriel, Uriel, e Rafael[35]: “Cobri o corpo de Adão com os panos, e trazei azeite de doce perfume, e despejai o azeite sobre ele.” E assim tendo feito, eles prepararam o corpo de Adão para o sepultamento. O Senhor disse: “Trazei também o corpo de Abel.” E, tendo trazido outros panos, eles também o prepararam para o sepultamento, pois ele não havia sido preparado desde o dia em que seu irmão Caim o matara. Pois o maldoso Caim, tendo tomado grande cuidado para esconder o corpo, não havia conseguido enterrá-lo; pois a terra não o recebeu, dizendo: “Não receberei o corpo em companhia[36] até que o pó que me foi tirado, e que sobre mim foi transformado, retorne a mim.” E então os anjos o pegaram e deixaram-no sobre a pedra, até a morte de seu pai.  E ambos foram sepultados, conforme a ordem de Deus, nas  regiões do Paraíso, no lugar onde Deus encontrou o pó[37]. E Deus enviou sete anjos ao Paraíso, e eles trouxeram muitas ervas aromáticas e as depositaram no solo; e depois trouxeram os dois corpos e os sepultaram no lugar que haviam cavado e construído.

41 E Deus chamou Adão e disse: “Adão, Adão.” E o corpo respondeu de dentro  da terra: “Aqui estou, meu Senhor.” E o Senhor assim falou: “Eu te disse que eras pó[38] e ao pó retornarias. Novamente te prometo a ressurreição. Levantar-te-ei ressurreto no último dia, assim como a todos os homens que se originarem de tua semente.”

42 E após proferir tais palavras Deus fez um selo de três cantos, e selou o sepulcro, de modo que ninguém pudesse fazer alguma coisa ao corpo nos seis dias até que sua costela retornasse a ele. E tendo o Deus benevolente e os santos anjos deixando-o ali, seis  dias depois também Eva faleceu. Enquanto viveu, ela chorou por ter adormecido, pois não sabia onde seu corpo seria enterrado. Pois quando Deus estivera presente no Paraíso, quando Adão era sepultado, tanto ela quanto seus filhos haviam adormecido, exceto Seth, como eu disse. E Eva, até o momento de sua morte, suplicou para ser sepultada junto a seu marido Adão, proferindo esta prece: “Meu Senhor, Senhor e Deus de toda a virtude, não  separeis Vossa serva do corpo de Adão, pois de seus membros me fizestes Vós; assegurai-me pois, mesmo a mim, indigna e pecadora, ser enterrada ao lado dele. Eu estava com  ele no paraíso, e não me separei dele após a queda; assim, não permitais que  alguém nos separe.” Após ter orado, ela olhou para o céu, levantou-se e bateu no peito, dizendo: “Deus de todas as coisas, recebei meu espírito.” E imediatamente, entregou seu espírito a Deus.

43 E após sua morte o arcanjo Miguel postou-se a seu lado, e vieram três anjos, tomaram seu corpo e o sepultaram onde estava o corpo de Abel. E o arcanjo Miguel disse a Seth: “Sepulta deste modo todo homem que morrer, até o dia da ressurreição.” E após ter dado esta lei, o arcanjo Miguel continuou: “Não guardes luto por mais de seis dias. E no sétimo dia, descansa e alegra-te, porque nisto se alegram Deus e Seus anjos, quando a alma de um justo parte da terra.”

44 Tendo dito isto, o arcanjo Miguel subiu ao céu, glorificando e entoando o Aleluia[39]. “Santo, Santo, Santo, Senhor,  para a glória de Deus Pai porque a Ele são devidas glória, honra e adoração, com seu Espírito Incriado e Fonte de Vida, agora e para sempre, pelas eras das eras. “Amém.

 

[1] A Revelação de Moisés pode ser encontrada on-line (em inglês) em diversos sites. Minha tradução foi baseada na versão apresentada em Schaff (1885), pp. 565-570, no site Christian Classics Ethereal Library < http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf08.vii.xxxviii.html >, que,  por sua vez, reproduz o texto de uma fonte de domínio público.

[2] NOTA ORIGINAL: há uma grande variação entre os diversos manuscritos, relativamente a estes nomes. A leitura correta é provavelmente διαφύτωρ ou διαφυτευτής, um agricultor, e  μηλατάς ou μηλοβότης, um guardador de ovelhas.

[3] NOTA ORIGINAL: Literalmente, “fez”.

[4] NOTA ORIGINAL: Um manuscrito acrescenta “Adão viveu 930 anos e, quando chegou o seu fim, bradou […]”

[5] NOTA ORIGINAL: Um manuscrito traz: “e ele trará para mim o fruto da árvore na qual flui a misericórdia, e vossa aflição haverá de cessar. “

[6] NOTA ORIGINAL: ou. “pragas”.

[7] NOTA ORIGINAL: literalmente,  “e ele dará”

[8] NOTA ORIGINAL: Talvez ao invés de ἴσον (igual) deveríamos ter lido εἴσω (dentro). Outra leitura é “pois os dias de sua vida foram completados, e ele viverá de mais três dias a contar de hoje, e então morrerá.”

[9] NOTA ORIGINAL: Em C consta “aconselhar-me contigo.” C é um manuscrito de Viena, escrito no século XII; veja pag. 358 [deste livro] e “Apocalypses Apocrypha”, pp. xi-Vicia sativaxii de Tischendorf.

[10] NOTA ORIGINAL: Parece haver acordo que a palavra “zizania” dos gregos, e “zawân“ dos árabes deve ser traduzida como “darnel”; mas pelas associações conectadas com a palavra é melhor manter a tradução costumeira.

[11] Trecho de difícil tradução. A palavra inglesa “darnel” designa uma erva daninha, em particular a Visa sativa. Em grego encontra-se ζιζάνια (como em Mt 13:25) traduzida como “tares” na KJV, que em português se traduz, nas versõrs mais antigas, como joio. No contexto do diálogo entre Satanás e a serpente pareceu-me mais adequado traduzir “comes os restos”, pois “tare” significa também “algo que se joga fora”.

[12] NOTA ORIGINAL:  C traz “raiz e origem”.

[13] NOTA ORIGINAL: Literalmene, “nua”.

[14] NOTA ORIGINAL: i. e., do paraíso

[15] NOTA ORIGINAL: minha leitura foi ταχυνθσει ao invés de παχυνθσει, “tu engordarás”.

[16] A nota anterior e a próxima mostram como ocorriam erros na cópia dos manuscritos. Esta é uma das razões que justifica o trabalho secular dos estudiosos da crítica textual, as edições críticas das Escrituras, e o imenso esforço exigido para garantir que temos uma versão bastante próxima dos textos originais. Refira-se a meu livro “Jesus Histórico e Outros Ensaios” para mais informações.

[17] NOTA ORIGINAL: o texto traz  ματαοις, “inútil”; o correto é provelmente καμτοις ou μχθοις.

[18] NOTA ORIGINAL: inserido pelo manuscrito C.

[19] NOTA ORIGINAL: O manuscrito B acrescenta:”E Eva tinha doze anos quando o demônio a enganou, e lhe deu desejos pecaminosos. Noite e dia ele não cessava de mutrir seu ódio contra eles, porque ele próprio estava anteriormente no paraíso; e portanto os enganou por não poder suportar vê-los no paraíso.” [B é do século XIII ou XIV; veja Tischendorf, Apocal. Apocr., p. xi.—R.]

[20] NOTA ORIGINAL: Isto segue a versão da LXX e é também a interpretação de Gesenius do hebraico “shûph”, Gen 3: 15.

[21] NOTA ORIGINAL: ou, “incenso”.

[22] NOTA ORIGINAL: Esta é a “caule doce” mencionada em Isa. 43:24; Jer. 6:20. Veja também Ex. 30:23; Cant. 4:14; Eze. 27:19.

[23] NOTA ORIGINAL: ou “nos achamos sobre a terra.”

[24] NOTA ORIGINAL: talvez ταφον, seja melhor que τοπον.

[25] NOTA ORIGINAL: ou, “ungirás”

[26] NOTA ORIGINAL:  ou, “todo o pecado”.

[27] NOTA ORIGINAL: no texto consta πονησαντα, um erro na cópia de ποιησαντα.

[28] NOTA ORIGINAL: literalmente, “de útero”.

[29] Serafins são criaturas celestes que estão continuamente à volta do trono de Deus entoando cânticos de louvor. Em Isaías 6:3 lê-se: 3Exclamavam um para o outro: “Santo, santo, santo é  Senhor dos exércitos, a terra inteira está repleta de sua glória.”

[30] NOTA ORIGINAL: A última sentença não consta de C.

[31] NOTA ORIGINAL: O manuscrito A termina aqui, com as palavras: “o Pai, e o Filho, e o Esp´rito Sano, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amem.” [A é o manuscrito de Veneza, originado por volta do século XIII Tischendorf, Apocal. Apocr., p. xi.—R.)

[32] Acheron é um lago mencionado em diversos textos escatológicos, tais como o Apocalipse de Paulo e os Oráculos Sibilinos.. As almas dos mortos  atravessariam este lago para entrar no reino celestial.

[33] NOTA ORIGINAL: Os manuscritos traziam originalmente “dias”; a palavra foi riscada e substituída por “horas” por outra pessoa.

[34] NOTA ORIGINAL: i. e., entrou em sua carruagem.

[35] NOTA ORIGINAL: De acordo com a tradição judaica, estes eram os quatro anjos que se quedavam ao redor do trono de Deus.

[36] NOTA ORIGINAL: Provavelmente a texto deveria ser ετερον, “outro”, e não εταιρον. Ou a passagem pode significar “não receberei um  corpo amigo”, i. e., um  corpo sobre o qual não tenho direitos..

[37] NOTA ORIGINAL: i. e., do qual Adão foi feito.

[38] NOTA ORIGINAL: literalmente, “terra”

[39] NOTA ORIGINAL: O manuscrito D termina aqui, com:  “àquele que é glória e poder pelas eras das eras.” [D é o o manuscrito  de Milão, ao qual Tischendorf atribui origem por volta do século XI, Apocalypses Apocryphæ, p. xi.—R.]

REVELAÇÃO DE MOISÉS (séc. I) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Trata-se originalmente de um texto judaico cuja autoria é falsamente atribuída a Moisés (pseudoepígrafo). Na realidade, Moisés é citado uma única vez, no primeiro parágrafo, como tendo recebido esta revelação de Deus, através do arcanjo Miguel, no Monte Sinai, juntamente com as Tábuas da Lei.

O texto aqui apresentado na realidade conta a vida de Adão e Eva, desde a expulsão do Jardim do Éden até a morte de ambos. Há diversas versões desta narrativa; manuscritos em grego latim, eslavo, armênio e copta são conhecidos. As versões diferem bastante no comprimento e no palavreado, mas parecem ter sido todas derivadas de um mesmo original, ainda desconhecido.

Aqui apresentamos a versão conhecida como o Apocalipse Grego de Moisés, traduzido do idioma original por Tischendorff (já mencionado anteriormente), que baseou sua tradução em quatro manuscritos denominados A, B (com muitas interpolações feitas por copistas cristãos), C e D (provavelmente o mas próximo do orginal). Isto explica as menções encontradas nas notas explicativas.

As cópias existentes datam dos séculos III a V, mas existe consenso entre os estudiosos de que o original foi escrito em uma lingua semítica no século I da Era Cristã.

 

Os principais pontos teológicos deste texto são as  consequências da desobediência do homem aos preceitos divinos. Tais consequências incluem a doença e a morte. Outros temas incluem o estado de graça original do homem no Jardim do Éden, antes da Queda, a tentação da mulher por Satanás, que trouxe à raça humana o pecado da luxúria e a promessa da ressurreição dos mortos.

Algumas ideias expressas neste texto podem ser também encontradas em 2 Coríntios:

  1. Eva como a fonte do pecado. Em 2Co 11:3 lê-se 3Mas temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos entendimentos e se apartem da simplicidade e da pureza que há em Cristo.
  2. Satanás assumindo a forma de um anjo de luz para iludir Eva. Em 2Co 11:14 lê-se: 14E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz.
  3. a localização do paraíso no terceiro céu. Em 2Co 12:2 lê-se: 2Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu.

Isto sugere que o autor original pode ter sido contemporâneo do apóstolo Paulo, reforçando a idéia da antiguidade do texto.