Entre o Medo e o Ódio (III) – o Medo

Recordando o que já foi apresentado nos posts anteriores, coloquei como premissa para esta discussão a ideia de que um candidato à Presidência da República deveria ter ao menos três características: autoridade moral, experiência política e administrativa  e conhecimento profundo dos problemas brasileiros.

O deputado Jair Bolsonaro tem, pelo menos até o momento, a reputação de homem honesto o que, entre os políticos de nossos dias e tão raro quanto um diamante de 20 quilates. Bolsonaro não é citado em nenhum inquérito da Lava Jato, não consta da relação dos parlamentares comprados pela JBS, não consta que tenha recebido propina de nenhuma empreiteira nem participado do assalto à Petrobrás. Ou seja, um lírio no pântano asqueroso em que se transformou o Congresso Nacional. Como diz o próprio deputado, honestidade não é virtude, é obrigação. Mas nas circunstâncias atuais são raríssimos os que cumprem com esta obrigação.

Por outro lado, quando se fala em experiência política e administrativa, Jair Bolsonaro tem problemas. O deputado está em seu sétimo mandato na Câmara, mas sua atuação como parlamentar é inexpressiva. Além disto, nunca ocupou um cargo executivo: nunca foi ministro, nem secretário estadual e muito menos prefeito ou governador.

De acordo com as informações recentes em seus 27 anos como parlamentar apresentou 171 propostas legislativas, das quais 3 (três) foram aprovadas. Trata-se de dois projetos de lei e de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional); um dos projetos de lei trata da isenção fiscal para bens de informática e o outro autoriza o uso da fosfoetanolamina; a PEC exige a impressão do voto eletrônico.

Como escrevi na primeira parte desta série, um presidente “deve possuir também uma extensa rede de relacionamento envolvendo a classe política, as  lideranças empresariais de todos os setores (indústria, comércio, agro negócio, sistema financeiro), os sindicatos de trabalhadores, as universidades, etc.” Ao que eu saiba, o deputado Jair Bolsonaro não tem absolutamente nenhum prestígio em qualquer destas entidades ou grupos.

Sua liderança entre os próprios colegas de legislatura pode ser avaliada lembrando que  Bolsonaro foi candidato à presidência da Câmara em fevereiro de 2017 e obteve 4 (quatro votos) dos 513 possíveis.

Tendo em vista a  reduzida expressão do deputado em sua área específica de atuação (o Congresso Nacional) e sua reduzida influência junto a entidades da sociedade civil, fica a questão: porque Bolsonaro se tornou um aspirante à Presidência da República?

Desde o seu primeiro mandato, Jair Bolsonaro manteve-se sob os holofotes da mídia através de constantes declarações polêmicas, ora contra a democracia, ora contra os homossexuais, ora a favor da tortura, e assim por diante. Algumas frases famosas   de sua lavra estão abaixo:

  1. Entrevista para a revista Veja (2/12/98)
    Afirmou que a ditadura chilena de Augusto Pinochet “devia ter matado mais gente”; elogiou o peruano Augusto Fujimori por intervir militarmente contra o judiciário e o legislativo.
  2. Programa Câmera Aberta (1999)
    Declarou ser “favorável à tortura”, chamou a democracia de “porcaria”,  disse que se fosse presidente “fecharia o Congresso” e “daria um golpe no mesmo dia”.
  3. Programa Jô Soares (1999)
    Explicando porque defendeu o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmou que “barbaridade é privatizar a Vale e as telecomunicações, entregar as nossas reservas petrolíferas ao capital externo.”
  4. Entrevista ao jornal Folha de São Paulo (Mai/2002)
    Disse que poderia agredir homossexuais: “se eu ver dois homens se beijando na rua, vou bater.”
  5. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Nov/2003)
    Disse à deputada “Jamais iria estuprar você, porque você não merece.”
  6. Discussão com manifestantes (Dez/2008)
    Disse que “o erro da ditadura foi torturar e não matar.”
  7. Entrevista ao jornal “Folha de São Paulo” (Nov/2010)
    defendeu surras em filhos homossexuais: “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele.”
  8. Entrevista ao Jornal de Notícias (Jun/2011)
    Associou a homossexualidade à pedofilia ao afirmar que “muitas das crianças que serão adotadas por casais gays vão ser abusadas por esses casais homossexuais.”
  9. Entrevista à revista Playboy (Jun/2011)
    Afirmou que “seria incapaz de amar um filho homossexual” e que preferia que um filho seu “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”
  10. Documentário “Out There” (2013)
    Declarou que “nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay” e que “nós, brasileiros, não gostamos dos homossexuais.”
  11. Discussão com a deputada Maria do Rosário (Dez/2014)
    Discursando no plenário, disse “você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece.”
  12. Entrevista ao jornal Zero Hora (Fev/2015)
    Afirmou que não acha justo que mulheres e homens recebam o mesmo salário porque as mulheres engravidam
  13. Discurso na Câmara (Out/2015)
    Afirmou que “violência se combate com violência e não com bandeiras de direitos humanos”, afirmou que a Anistia Internacional é formada por “canalhas e idiotas”, disse que “a Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.”
  14. Discurso ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff (2016)
    Dedicou o voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador
  15. Discurso em Campina Grande (Fev/2017)
    “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. […] as minorias tem que se curvar para as maiorias.”

 

Como se vê pela pequena amostra acima, Bolsonaro conseguiu manter-se em evidência todo este tempo devido às suas declarações polêmicas e, em muitos casos, carregadas de preconceito.

Mas se a criação de factoides é suficiente para a manter o deputado na mídia, ela não vai ajudar em nada a solução dos imensos problemas que o Brasil enfrenta. Por exemplo, implicar com os gays é uma estratégia excelente para não sair do noticiário. O movimento LGBT conta com a simpatia dos meios de comunicação e possui recursos para bancar uma batalha jurídica; isto representa uma primeira página na certa. No entanto, é difícil entender como implicar com a vida sexual de adultos plenamente capazes vai contribuir para, por exemplo, diminuir o desemprego.

Quando se diz que a “Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais.” fica a dúvida: mais quem? jovens da classe média cuja demanda sustenta o tráfico? Jovens pobres e negros que traficam pequenas quantidades de drogas? Os soldados do tráfico, guerrilheiros urbanos armados de fuzis de assalto,  que controlam as favelas da cidade do Rio de Janeiro? Os grandes comandantes do tráfico, perfumados e impecáveis em seus ternos Armani, no conforto de seus moderníssimos escritórios…

O que se percebe é que, até este momento a pregação de Bolsonaro é uma gritaria de palavras vazias. São fórmulas quase mágicas para traduzir o medo que boa parcela dos brasileiros sente no dia a dia. É o medo de ser assaltado, de ser atingido por uma bala perdida, de morrer assassinado por um marginal, de perder um filho….

É o medo de que aquilo que era uma certeza absoluta há alguns anos já não seja mais tão certo. É o medo de que aquelas pessoas que são diferentes de mim talvez não estejam erradas. E finalmente o maior dos medos: o de que eu não seja capaz de construir o meu próprio destino numa sociedade livre e plural. Assim, tenho que   entregar meu destino  a um chefe, um líder, um “fuhrer”, que por sua vontade soberana fará o mundo tornar-se o que deveria ser.

Após a desastrosa entrevista com Marina Godoy ficou patente que falta ao candidato um projeto para o país. É verdade que o presidente não precisa ser um especialista em tudo, mas faltando menos de um ano para a eleição seria de se esperar que Bolsonaro fosse capaz de discorrer de forma articulada sobre a questão econômica, pelo menos em termos gerais. Ele é um liberal, ou pretende (re)criar empresas estatais?  E também discorrer sobre suas ideias com relação à segurança, acima do slogan estúpido e vazio “Bandido bom é bandido morto.” No entanto, Bolsonaro demonstrou estar, neste momento, completamente despreparado para discutir seriamente o Brasil.

Um outro ponto questionável é se Jair Bolsonaro seria capaz de negociar com a sociedade um plano de governo. Quando se vê o deputado discutindo algum assunto fica a nítida impressão de que ele é um péssimo negociador, incapaz de discutir racionalmente, entender a posição do oponente e buscar o consenso possível.

As perspectivas não são boas. Uma avaliação sobre o deputado, na época em que este ainda estava no Exército, realizada pelo Coronel Carlos Alfredo Pellegrino

“[Bolsonaro] tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

 

 

Publicado por

joaoazevedojunior

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