APOCALIPSE GREGO DE ESDRAS (c. 150) – INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS

Existem apenas duas cópias do Apocalipse Grego de Esdras, contidas nos manuscritos: (a) Paris. gr. 929, ff. 510-32, and; (b) Paris. gr. 390, ff. 50-59. O manuscrito nomeado em (a) foi traduzido e editado por K. von Tischendorf[i] e traduzido para o inglês por A. Walker (ANF 8. Pp. 571-74).

A maioria dos estudiosos acredita que se trata de um texto elaborado por cristãos, embora alguns afirmem ser provável que um texto-base originado por religiosos judeus tenha sido retrabalhado por cristãos.

O texto não está dividido em capítulos, mas nota-se muito claramente uma divisão interna em quatro partes:

  1. Esdras ascende ao céu e suplica a Deus em favor dos pecadores;
  2. Conduzido pelos arcanjos Miguel e Gabriel, desce ao inferno, onde testemunha os tormentos a que estão submetidos Herodes e outros pecadores, um dos quais é descrito como o Anticristo.
  3. Esdras retorna aos domínios celestiais e observa mais castigos aos pecadores, mesmo no Paraíso, onde encontra Enoque, Elias, Moisés, Pedro, Paulo, Lucas e Mateus.
  4. O profeta é conduzido novamente pelos anjos, desta vez às regiões mais profundas do inferno, onde observa os tormentos de outros pecadores. Nos parágrafos finais, Esdras consegue de Deus a promessa de bençãos para aqueles que acreditarem em suas visões e maldições para os incrédulos. Esdras, após alguma relutância, entrega sua alma a Deus e morre.

Acredita-se que o texto tenha sido escrito entre 150 e 850 d.C.; esta datação toma como base possíveis referências cruzadas entre este e outros  documentos da mesma época.

O principal aspecto teológico do texto é o questionamento de Esdras quanto a justiça de Deus, que pune os seres humanos por pecarem, mas os criou inclinados ao pecado. Neste trecho o profeta indaga ao Senhor quem fez o primeiro homem, pergunta que o Altíssimo responde dando a entender que Adão o desobedeceu utilizando seu livre arbítrio: E o profeta disse: Quem fez Adão, o primeiro formado? E Deus disse: Minhas mãos imaculadas. E eu o coloquei no paraíso para guardar o fruto da árvore da vida, e depois tornou-se ele   desobediente e cometeu sua transgressão.”

Ora, sendo Deus todo poderoso, é evidente que poderia ter criado o homem inclinado ao bem. A ideia de que o homem pecou por sua livre escolha parece não convencer Esdras. A conclusão do profeta é de que, do ponto de vista humano, a justiça divina é puramente arbitrária: Mas se não tivésseis lhe dado Eva, a serpente não o teria enganado; mas àqueles que Vós desejais, salvais, e àqueles que Vós desejais, destruís.”

O profeta expõe diversas vezes a ideia de que melhor seria ao homem não ter nascido, porquanto estamos todos sujeitos ao pecado e à condenação eterna.  Angustiado diante da visão dos almas atormentadas dos pecadores, Esdras pergunta: Ó Senhor Deus, e que homem que tenha nascido não pecou?”

A questão da existência do mal em um Universo criado por um Deus de infinita bondade é um dos Mistérios (com M maiúsculo) da Teologia. Vale dizer, é algo que simplesmente não está ao alcance de nosso intelecto e que aceitamos somente pela Fé.

Neste sentido, vale a pena mencionar os ensinamentos do calvinismo, que colocam o crente ainda mais à mercê da Fé. Essencialmente, os calvinistas afirmam que Deus escolheu, desde antes do início dos tempos, por Sua exclusiva e soberana decisão, as pessoas que serão salvas. Mas aqueles que são condenados, o são por sua própria culpa, uma vez que Deus não pratica o mal. Assim, as igrejas reformadas afirmam como verdadeiros dois pontos reconhecidamente incompatíveis: a soberania de Deus e a responsabilidade do ser humano.

[i] Lobegott Friedrich Constantin (von) Tischendorf (1815 – 1874) foi um teólogo e professor alemão, considerado um dos mais importantes especialistas em estudos bíblicos do século 19. Entre suas realizações destacam-se: (a) a descoberta do mais antigo exemplar completo da Bíblia incluindo a Septuginta e o Novo Testamento; esta bíbliat65 se denomina Codex Sinaiticus, e; (b) uma edição crítica do Novo Testamento, intitulada  “Novum Testamentum Graece. Ad antiquos testes recensuit. Apparatum criticum multis modis.” (Novo Testamento Grego. Revisado de acordo com testemunhas antigos. Aparato crítico de várias maneiras.), publicado em 1849 e contendo as regras básicas da crítica textual, com exemplos de aplicação utilizados até hoje no ensino desta especialidade.

Publicado por

joaoazevedojunior

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