AS REVELAÇÕES OCULTAS

Sem dúvida, um dos livros mais intrigantes da Bíblia é o livro do Apocalipse de João, também denominado Revelação . De fato, esse é o único livro apocalíptico que faz parte do cânon das Escrituras Cristãs, e mesmo assim sua inclusão na lista de livros considerados inspirados foi  tardia e controversa. Até os dias de hoje, a Igreja Católica Ortodoxa não inclui qualquer trecho deste livro na Liturgia da Palavra de suas missas, embora o reconheça como canônico.

O apocalipse de João é um texto escatológico. Escatologia é um sistema de crenças e doutrinas sobre o final dos tempos. Quando se analisa a história das religiões, verifica-se que a escatologia envolve temas como, por exemplo, a imortalidade da alma e seu destino (reencarnação, ressurreição, migração, etc.), a justiça divina afinal explicada e o triunfo definitivo do Bem sobre o Mal. As expectativas escatológicas podem assumir forma individual ou coletiva, abrangendo indivíduos, grupos, nações, a humanidade como um todo e até mesmo o Universo inteiro.

O conceito de escatologia se aplica mais propriamente às religiões judaica, cristã e islâmica, que vêem a história como um desenrolar de eventos com início e fim definidos; trata-se da chamada escatologia histórica.

Em contraste, muitas religiões não-bíblicas concebem a história como uma sucessão de ciclos, sem um começo ou fim claramente estabelecidos; à criação da ordem a partir do caos, sucede eventualmente a dissolução da ordem no caos e o ciclo se repete infinitamente. Nessas religiões a escatologia  é classificada como mítica e o sentido da história é captado através da celebração da eternidade do cosmos e da repetitividade dos eventos de criação, destruição e renovação.

A escatologia histórica apropria-se da história como uma sequência temporal de eventos que conduzem a um fim definido. Os rituais e celebrações tem como objetivo recordar eventos importantes que demonstram a fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas e evidenciam como o cumprimento de tais promessas no futuro pode ser discernido a partir dos eventos do passado. E o futuro necessariamente significa o fim dos tempos e o fim da história, pois esta não se repete.

A escatologia judaica é histórica, e se fundamenta na escolha de Israel como o povo eleito; o foco é a revelação da glória de Javé como o Deus de todas as nações. Também é histórica a escatologia cristã, que se baseia na morte e ressurreição de Jesus e tem como foco a  Sua volta gloriosa e o estabelecimento do Reino de Deus.

A escatologia histórica se apresenta em três formas distintas, conforme o aspecto que é enfatizado: messianismo, milenarismo e apocalipticismo.

Na escatologia messiânica, a ênfase reside na figura redentora de um messias (palavra de origem hebraica que significa “ungido”) que iria liderar o povo de Deus, então oprimido e sofredor, na concretização de um futuro melhor. O messianismo frequentemente evoca visões de vingança contra determinados grupos, locais e / ou estrangeiros, considerados como opressores; neste sentido, a visão messiânica não implica necessariamente no final dos tempos.

A escatologia apocalíptica, por sua vez, promete uma intervenção súbita e cataclísmica de Deus na história para salvar um grupo específico – santos ou eleitos são denominações comuns. O mundo tal como o conhecemos, é destruído e completa-se em sua plenitude o estabelecimento dos Reino de Deus  Em Rev 21:4, lê-se: 4Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” A teodiceia recorre à ressurreição dos mortos e ao Juízo Final; os justos são recompensados com uma eternidade gloriosa; os ímpios recebem a condenação eterna.

Finalmente, a escatologia milenarista acentua o período de 1000 anos durante o qual os justos governarão o mundo novo, junto com Jesus Cristo. O milênio é seguido pela batalha final entre o Bem e o Mal, e o fim definitivo da história.

O Apocalipse é, apropriadamente, o último dos 27 livros do Novo Testamento. Grande parte dos cristãos conhece este livro como o Apocalipse, imaginando talvez que se trata do único livro desta natureza que jamais foi escrito. Na realidade, nas décadas imediatamente anteriores e posteriores ao início da era cristã, ideias apocalípticas foram comuns tanto  entre os judeus como entre os cristãos.

Povo dominado havia séculos por potências estrangeiras, Israel aguardava com ansiedade a vinda de um Messias, poderoso neste mundo, como o Filho do Homem descrito em Da 7:13-14, onde se lê: 13Em imagens noturnas tive esta visão. Entre as nuvens do céu vinha alguém semelhante a um filho do homem. Chegou até perto do ancião ; foi levado à sua presença. 14Foi-lhe dada a soberania, a glória e a realeza. Todos os povos, nações e línguas hão de servir-lhe. Seu poder é um poder eterno que nunca lhe será tirado e sua realeza é tal que jamais será destruída!”

Para os cristãos, consolidava-se o entendimento de que Jesus era o tão esperado Messias, que havia vencido um inimigo mais poderoso que qualquer nação ou império terreno: a Morte. A expectativa do apocalipse era fortíssima no Cristianismo nascente. Em Mc 13:29-30 lê-se que Jesus afirmou: 29Assim também vós, quando virdes sucederem essas coisas, sabei que ele [o Filho do Homem] está próximo, mesmo às portas. 30Em verdade vos digo que não passará esta geração, até que todas essas coisas aconteçam.”

A expectativa do fim da história, tanto no Judaísmo do Segundo Templo como no Cristianismo, deu origem a inúmeros textos apocalípticos, dos quais  alguns chegaram até nós. Mas por serem apócrifos  (literalmente, “ocultos”) são pouco conhecidos. Há alguns meses iniciei um estudo sobre os textos apocalípticos apócrifos e decidi traduzir alguns deles para o português.

Nas próximas semanas farei a postagem de algumas destas traduções de textos apocalípticos, textos esses que são absolutamente desconhecidos pela maioria das pessoas. Lembrando que apocalipse quer dizer “revelação”, posso dizer que publicarei uma série de “Revelações Ocultas”.

A leitura dos textos apocalípticos apócrifos é interessante em si mesma, pois eles estão eivados de um conteúdo mitológico, que até hoje faz parte do imaginário popular. Através deles é também possível entrever a cosmovisão de judeus e cristãos em um período crítico da história: o início da Era Cristã.

Publicado por

joaoazevedojunior

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