DONA ZÉLIA

Se ainda estivesse viva, minha mãe, Otávia Zélia Vieira de Azevedo, teria feito 100 anos em 12/09/2017. Mas há 11 anos ela faleceu, poucos dias antes de completar 89 anos. Sinto muita saudade de D. Zélia, mas tenho plena confiança de que a Fé que sempre orientou seu caminho neste mundo ilumina a jornada de seu espírito no outro.

Quando penso nos acontecimentos que cercam sua vida, tenho a nítida impressão de que entrevejo o que chamaria de “flashbacks” sobre a história do século XX. Percebo como o estar no mundo é uma aventura fugaz, mas ao mesmo tempo única em seu significado para nós e para aqueles que conosco se relacionam.

Se, em um sentido cósmico “life is but a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”, em um sentido humano e restrito  a vida é uma estória que contamos e à qual procuramos atribuir um significado da melhor maneira que nos é possível.

Mamãe nasceu em 12/09/1917, filha de Renê Vieira e Otília Lores Vieira. Renê era natural de Guaranésia, MG e advogado por profissão; Otília era natural de Jacutinga, MG . Era filha de Antonio Marcos, tabelião da pequena cidade, e Manoelita.

Renê e Otília tiveram muitos filhos. Alguns morreram ainda na infância, como era comum naquela época, na qual a mortalidade infantil era próxima de 50%. Valia a lei da sobrevivência dos mais fortes, e mamãe e mais quatro irmãos conseguiram a proeza de chegar à idade adulta.

Renê morreu muito jovem, deixando Otília com cinco filhos para criar, o que mesmo naquela época não era fácil. Uma das irmãs de Otília, de nome Maria Esméria, era casada com um abastado fazendeiro e comprador de café,  e o casal não tinha filhos. Assim, mamãe foi “adotada” informalmente por sua tia e passou a viver na casa dela, com o conforto e as benesses que a riqueza proporciona.

Naquela época Pereira (este era o nome de seu “pai adotivo”), que a considerava como filha, estava no auge de sua riqueza e a família viajava com frequência para São Paulo; quando em Jacutinga, desfilavam em um dos poucos automóveis da cidade, naturalmente um Ford-T. Como era costume para as moças de famílias endinheiradas, mamãe começou a aprender piano ainda criança. Não era uma virtuose, mas tocava razoavelmente. Até o fim da vida se distraía tocando músicas como La Cumparsita, Las Golondrinas, e outros tangos e boleros antigos

A vida confortável acabou em 1929, com a Grande Depressão. Como muitos outros homens cuja fortuna estava ligada ao café, Pereira perdeu absolutamente tudo o que possuía; foram-se as fazendas, a empresa comercial e, por fim, a própria casa. Terminou seus dias morando de favor na casa de sua sogra, Manoelita – a matriarca da família Lores, que todos que a conheceram diziam ter  sido uma mulher sábia e bondosa. Amargurado com o desastre financeiro, Pereira faleceu poucos meses depois, com uma infecção generalizada; provavelmente, a tristeza e a depressão minaram a resistência de seu organismo e um pequeno tumor lancetado pelo farmacêutico foi o suficiente para causar sua morte.

 

Mamãe era estudiosa e responsável e mesmo diante de todas as dificuldades manteve o foco nos estudos, preparando-se para exercer a única profissão aberta às mulheres naquele início do século XX: o magistério. Ela não se considerava inteligente (mas era) e para compensar a suposta limitação, dedicava-se ao estudo de forma quase  obsessiva. Em 1934 diplomou-se professora na Escola Normal de Santa Rita do Sapucaí; enquanto estudava em Santa Rita, morou na casa de sua tia Rita Lores Bruce (Tia Nini), casada com o professor Samuel Bruce, com quem gerações de santa-ritenses tiveram aulas de português, latim ou francês no Instituto Moderno de Educação e Ensino, localizado onde hoje se situa o INATEL. Entre 1935 e 1963 mamãe foi professora; lecionou em Santa Rita, em Pouso Alegre, em Jacutinga, em Campestre, e outras cidades. Depois de casada, sua renda era importante para a manutenção da família, até que papai se firmasse na carreira de gestor e executivo em seu trabalho.

Mamãe adorava ensinar e foi uma ótima professora. Nunca fui seu aluno em um curso regular, mas quando terminei o curso primário ela mesma preparou a mim e a um amigo para o exame de admissão, que era então requerido para ingressar no Ginásio. Tive a oportunidade de ver em primeira mão como ela sabia explicar bem as matérias, como sua didática era perfeita e como era bem preparada para o trabalho que exercera por quase três décadas.

Lecionava em Santa Rita do Sapucaí quando conheceu meu pai, durante uma visita a sua amiga Marisa, filha de Cincinato e Anália. Cincinato era tio materno de papai. Minha avó paterna, Josefa, faleceu em 1913 com apenas 33 anos. Incrivelmente, isto não constituía uma exceção; no início do século XX a expectativa de vida ao nascer era de 29 anos para os homens e 33 anos para as mulheres!

Depois de alguns anos de namoro, casou-se com João Batista de Azevedo em 15/07/1941. A primeira filha, Marilena,  veio em 42; dois anos depois, em 1944  chegou meu saudoso irmão Ubiratan. Eu fui a “rapa do tacho”, nascido em 1956.

Mamãe era uma pessoa sentimental, muito sensível, que se comovia até as lágrimas com livros, filmes e novelas; ela sonhava o casamento como um desdobrar de uma paixão infinita. Papai, ao contrário, era um homem extremamente racional, prático e lógico; para ele o casamento era um contrato com a finalidade de perpetuar a espécie e fornecer certa estabilidade na vida rotineira das partes.

Talvez por isto. o casamento de Zélia e João foi apenas relativamente feliz. Longe de um mar de rosas, mas também muito distante de um inferno. Ambos eram pessoas educadas e nunca presenciei entre os dois uma briga realmente séria , agressões verbais, gritos, palavrões e muitos menos uma agressão física. Isto seria inconcebível para qualquer um deles. Mamãe acreditava sinceramente que a mulher devia ser submissa ao marido; a ideia de uma separação era absoluta, total e completamente inadmissível. Assim, estiveram casados por 54 anos.

Mamãe tinha alguns problemas de saúde. Sofreu durante muitos anos com asma; cheguei a ver alguns ataques, mas depois de nossa mudança para Belo Horizonte as crises foram se tornando mais espaçadas e finalmente desapareceram. Nos últimos anos de sua vida, sofreu bastante com o reumatismo e se locomovia com grande dificuldade, amparada em um andador.

Extremamente religiosa, aceitava com plena convicção a doutrina do catolicismo romano. Foi durante muitos anos participante da Legião de Maria. Quando a idade não lhe permitiu mais sair de casa, costumava rezar durante horas todos os dias e suas leituras eram quase que totalmente circunscritas â literatura religiosa católica.

Permaneceu lúcida até as últimas semanas de sua vida. Com 88 anos já completos, gostava de ler, assistir televisão e conversar sobre os acontecimentos da atualidade. Em seus últimos anos recebeu o cuidado devotado de minha irmã, Marilena. Faleceu em 4/9/2006, após uma semana de hospitalização.

 

Mamãe era uma representante perfeita de uma época que, para o bem ou para o mal, passou. Naquela época havia poucas dúvidas e muitas certezas:

1         sobre o certo / errado e o bem / mal

a. o certo é o que está de acordo com o ensinamento da Igreja (quase sempre a católica); o errado é o que contraria este ensinamento;

b. a religião (quase sempre a católica) é essencial para o ser humano e deve ser ensinada aos filhos; ir a missa aos domingos, fazer a primeira comunhão, rezar antes de dormir e ao levantar-se; confessar e comungar com regularidade é uma obrigação, não uma opção;

c. o pecado conduz ao inferno.
2         sobre os comportamentos socialmente adequados

a. respeitar os mais velhos;

b. dizer “obrigado”, “por Favor”, “com licença”, “desculpe” quando a situação o exige;

c. o seu direito termina onde começa o do outro;

d. não faça ou diga gratuitamente coisas que ofendam, humilhem, entristeçam, aborreçam outras pessoas.

3         sobre a educação dos filhos

a. os filhos devem obedecer e respeitar os pais; desde pequenos deve ter horários, tarefas e responsabilidades;

b. umas palmadas (não espancamentos) quando necessário são um poderoso auxiliar na educação;

c.cada um é responsável por tornar-se “alguém” na vida; para isto você tem que estudar, esforçar-se e lutar para conseguir o que quer; os pais podem ajudar, mas você e responsável por sua vida;

d. se você não aprender o que os pais tentam ensinar-lhe com amor, a vida vai lhe ensinar da pior maneira possível.

4         sobre a família

a. o homem é o chefe da família e como tal deve ser respeitado e ter suas decisões acatadas;

b. o homem é essencialmente o provedor; a educação dos filhos está mais a cargo da mãe;

c. o casamento é indissolúvel.
5         sobre o sexo

a. a mulher deve se casar virgem;

b. ao homem permite-se o sexo casual;

c. o homossexualismo é um pecado; que o pecador ao menos seja discreto.

Publicado por

joaoazevedojunior

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