DELENDUS EST TEMER

A Rede Globo está em campanha aberta para tirar Michel Temer da Presidência da República. Isto fica muito evidente quando se acompanham as edições do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do país.  O alcance e a credibilidade do Jornal Nacional para uma parcela significativa do povo brasileiro, o tornam uma poderosíssima ferramenta para manipular a realidade e influenciar a opinião pública.

É claro que a empresa tem bons jornalistas, que estão sempre buscando a notícia, mas a história (e.g. Campanha pelas Diretas-Já em 1984, debate Lula x Collor em 1989) tem demonstrado que, quando se trata de assunto relevante para a empresa,  o quê vai ao ar e como vai ao ar é definido pela Alta Direção.

Que existem acusações de que Michel Temer é um político corrupto, habituado às piores práticas da política brasileira e cúmplice de Eduardo Cunha em vários negócios escusos, isto até as pedras da Praça dos Três Poderes sabem. Mas corruptos ocupando cargos importantes, e até mesmo a Presidência da República, já houve antes, e nem por isto a Globo demonstrou contra eles este fervor missionário com que se dedica a destroçar o  governo Temer.

O que tem me intrigado é porque a Rede Globo está fazendo isto. Algum motivo deve haver, pois como se sabe, a empresa “não dá ponto sem nó”. Imaginei alguns cenários possíveis se Temer deixasse a presidência, seja por impeachment, seja por renúncia. Para esboçar estes cenários, estou partindo de duas premissas:

1)      Um golpe militar ou parlamentar (e. g. instalação de um parlamentarismo de emergência, como em 1961) enfrentará fortíssima resistência da esquerda, que contará com o “exército de Stedile”, possivelmente apoiado pelos vizinhos bolivarianos e, muito provavelmente, milícias armadas compostas de integrantes do crime organizado, a exemplo do que ocorreu na Colômbia. Assim, desta vez, um golpe contra a esquerda não ocorrerá praticamente sem derramamento de sangue, como em 1964; levará o país a uma guerra civil.

2)      Candidatos declarados ou com ambições presidenciais são, neste momento,  Ciro Gomes, Álvaro Dias, Jair Bolsonaro, João Doria Jr., Geraldo Alckmin e Marina Silva.    Caso Lula não seja candidato em 2018, a maioria da esquerda apoiará Ciro Gomes.

A partir destas premissas, coloco os diversos cenários, divididos em três grupos.

Primeiro grupo: Não há eleições em 2018.

  1. Uma junta militar, no melhor estilo latino-americano, assume o poder e inicia uma perseguição sem tréguas à esquerda.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: As Forças Armadas estão bastante profissionalizadas, e a impressão que se tem é de que não existe um consenso entre os militares para iniciar uma revolta, e muitos menos a figura de um líder para comandá-la. O que há são manifestações esporádicas de saudosistas do governo militar, de oficiais subalternos e de generais de pijama.
    3. Conclusão: Guerra civil.
  2. Partidos de direita (ou de esquerda) convocam uma gigantesca manifestação popular (pelo menos tão grande quanto a Parada Gay em São Paulo ou o carnaval em Salvador); 2.000.000 de brasileiros marcham sobre Brasília e cercam o Congresso Nacional, forçando os deputados e senadores a votar pelas eleições diretas.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: O povo brasileiro, de um modo geral, não está disposto a participar de manifestações de rua e nem a esquerda nem a direita tem hoje lideranças capazes e/ou dispostas a organizar um movimento popular contra o regime.
    3. Conclusão: Confrontos graves entre manifestantes de direita e esquerda; possível escalada do conflito para uma guerra civil.
  3. O Congresso, por acordo político, decide pelas Diretas Já.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: A ideia não prospera no Congresso, onde seria necessário o apoio de 3/5 dos deputados e senadores para sua aprovação, visto que requer alteração do artigo 81 da CF. Além disto, há discussão sobre se o estabelecido no artigo 81 é ou não uma cláusula pétrea, pois é possível argumentar que alterar este artigo fere o disposto no parágrafo 4 do artigo 60. Com certeza, o tempo para resolver a questão judicial é maior que o prazo até as eleições.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.
  4. O Congresso, por acordo político, decide adiar as eleições para 2020, a pretexto de coincidência de todos os mandatos.
    1. Probabilidade: Extremamente pequena.
    2. Racional: Mesmo do cenário C. Nem o regime militar chegou a usar a “coincidência de mandatos” como argumento para aumentar a duração dos mandatos de deputados e senadores; no Pacote de Abril de 1977 reduziu os mandatos de vereadores e prefeitos.
    3. Conclusão: Dentro da normalidade constitucional é praticamente impossível.

Segundo Grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula é candidato.

  1. Lula vence no primeiro turno.
    1. Probabilidade: Pequena.
    2. Racional: Lula tem alto índice de rejeição. Nas eleições de 2016 o PT foi massacrado nas urnas, e também parece ter alto índice de rejeição. Hoje Lula não tem mais votos para vencer no primeiro turno.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Convocação de uma Assembleia Constituinte; nova constituição estabelece a República Popular do Brasil, que se torna, progressivamente, um regime de partido único; os meios de comunicação passam a ser controlados pelo Estado.
  2. Lula vai para o segundo turno contra qualquer um dos candidatos listados, exceto Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Nenhum dos candidatos tem projeção nacional. Álvaro Dias, Doria e  Alckmin são candidatos regionais; no primeiro debate, Bolsonaro demonstrará seu completo despreparo para governar o Brasil e perderá apoio de parcela significativa da classe média; Alckmin não tem o menor carisma; Doria passa a imagem do “gestor” quando o que o povo quer é um “líder” e a imagem de honesto será muito questionada em função de sua passagem pela Embratur; Marina não consegue explicar a que veio e, além disto, depois do desastre “Dilma” uma mulher não tem a mínima chance na próxima eleição. Álvaro Dias pode ser a surpresa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta.
  3. Lula vai para o segundo turno contra Ciro Gomes, e chega à presidência.
    1. Probabilidade: Média
    2. Racional: Pelo quadro atual, Ciro Gomes é disparado o candidato mais preparado e pelo visto vem se preparando a anos. Não tem um único processo contra ele nos seus 38 anos de política, desistiu de aposentadorias no valor de R$82.000,00 a que teria direito legal e é conhecido nacionalmente, por já ter sido candidato à presidência. Mas numa eventual disputa com Lula, Ciro terá o voto da classe média (pois é mais “coxinha”) e Lula atrairá o voto dos mais pobres (pois é mais “mortadela”). Como há muito mais brasileiros de baixa renda e baixa escolaridade do que brasileiros de alta renda e alta escolaridade, Lula vence a disputa.
    3. Conclusão: Consolidação do PT no poder. Os objetivos anteriores (Constituinte e da República Socialista do Brasil) ainda continuam no programa do governo, mas sua implementação será mais lenta do que no cenário acima, pois Ciro Gomes tentará se firmar como a alternativa para evitar que o PT atinja seus objetivos.

Terceiro grupo: As eleições de 2018 são realizadas e Lula não é candidato.

 

  1. Ciro Gomes vence as eleições.
    1. Probabilidade: média.
    2. Racional: Ciro Gomes vai se revelar como o mais bem preparado dos candidatos, projetando a imagem de um candidato experiente, honesto e profundo conhecedor dos problemas brasileiros; venderá ainda a ideia de que é o único que tem um projeto para o Brasil alternativo ao de Lula e do PT e sem a mancha da corrupção.
    3. Conclusão: O Brasil terá um governo de esquerda moderada.

Espero que a maioria dos leitores considere que minha descrição acima é uma avaliação relativamente fiel do que poderá acontecer no Brasil nos próximos meses.

Se isto for verdade,  voltando à questão original, qual o interesse da Globo na destruição do governo Temer? Oque ela tem a ganhar em qualquer destes cenários?

SOBRE O LIVRO “JESUS HISTÓRICO E OUTROS ENSAIOS”

Esta é uma apresentação sobre o livro “Jesus Histórico e Outros Ensaios”, na qual menciono as versões disponíveis e comento cada um dos cinco ensaios apresentados no livro.

https://1drv.ms/p/s!AkSwEbk18YAdgpIMFLGn_1V_Zpd50A

 

 

 

 


 

Todos Contra Todos

Esta semana terminei a leitura de “Todos Contra Todos: o ódio nosso de cada dia”, livro recentemente lançado pelo historiador e professor da Universidade de Campinas, Leandro Karnal. A seguir os pontos que me pareceram mais relevantes.

Ao longo de nove capítulos o autor procura desmontar o mito do “homem  cordial”, passado de geração a geração como parte da história oficial do Brasil, analisar a questão do ódio que sempre permeou a relação entre os homens, e questionar os efeitos e os perigos da intensa polarização que se pode observar na política brasileira atualmente.

Já no primeiro paragrafo do livro, Karnal coloca em xeque a visão da história que nos é ensinada desde os bancos escolares.  Escreve ele: ”O quadro pintado é idílico. Somos uma terra sem terremotos e furacões. Sem guerras civis nem fundamentalismos extremados que levam a genocídios. Somos pacíficos. Não violentos. Não somos agressivos. Não odiamos. Não somos preconceituosos. Não somos racistas. Esse quadro não resiste ao teste da história.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 160-162). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Enquanto a libertação dos escravos nos Estados Unidos provocou uma guerra civil que, de acordo com as melhores estimativas, custou a vida de 1.030.000 pessoas (3% da população daquele país na época), por aqui bastou a assinatura de uma lei pela princesa Izabel. Segundo a história oficial nunca houve guerra civil nestas terras, ignorando as inúmeras revoltas e convulsões internas que ocorreram durante o Império e a República. Para lembrar algumas destas lutas internas: Cabanada (1835-1840, Pará), Sabinada (1837-1838, Bahia), Balaiada (1838-1841, Maranhão), Revolução Farroupilha (1835-1845, Rio Grande do Sul), a revolta de Canudos(1896-1897, Bahia), a revolta do Contestado (1912-1916, Paraná / Santa Catarina), a Revolução de 32, etc. Ou seja, temos uma história pontuada por lutas internas.

A ideia do brasileiro como “homem cordial” foi difundida   e incorporou-se ao imaginário popular com um sentido bem diferente daquele que Sergio Buarque de Hollanda lhe emprestava em “Raízes do Brasil”. Aquele autor queria dizer que o homem cordial age guiado pelas emoções, que tanto podem ser positivas como negativas.

Após discutir  o mito da não violência, Karnal propõe uma interessante discussão sobre a tendência de diminuirmos e piorarmos os fatos históricos, tomando como exemplo a ideia recorrente de que fomos colonizados por degredados e gente da pior espécie, que Portugal enviava para o Brasil. Na realidade, vieram para o Brasil pessoas de todas a classes sociais,  inclusive bacharéis, professores e intelectuais.

De forma semelhante, Karnal questiona o mito de  que não somos racistas, mostrando que o racismo no Brasil existe e  assume a forma insidiosa de uma prática social que faz com que suas vítimas se sintam elas mesmas inferiores e, portanto, aceitem as praticas racistas como naturais, ou seja, “conheçam o seu lugar”.

Concluindo que somos, ao contrário da imagem que fazemos de nós mesmos, um povo  violento, racista, preconceituoso e que sente ódio. Karnal faz uma longa análise sobre a questão do sentimento de ódio, suas bases psicológicas e seu uso político. A questão do preconceito contra mulheres, negros, homossexuais é apresentada. Diz o autor:” Mas não posso dizer que negros são inferiores, porque, além de obviamente ser falso e de ser uma idiotice, essa é uma maneira de incitar o ódio. [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 612-613). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

E continua adiante: “Não tenho direito ao preconceito. Isso não só tem que ser reprimido como criminalizado para que as pessoas entendam que racismo, misoginia, homofobia ou demofobia (desconfiança do povo), todos constituem gestos de ódio. Esse gesto de ódio institui a violência real.”[Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 619-621). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Neste ponto tem-se a impressão de que Karnal gostaria que qualquer manifestação de preconceito fosse proibida, ou criminalizada. A questão que se coloca é como definir exatamente o que é preconceito, quando ele se transforma em discurso de ódio e até que ponto deve a liberdade de expressão ser restringida para combater o preconceito e seus derivados. Um destes subprodutos do preconceito é o  chamado  discurso do ódio (em inglês, “hate speech”). O discurso do ódio, é aquele que visa a disseminar e promover o ódio em  função  da  raça,  religião,  etnia, nacionalidade, gênero, orientação  sexual,  etc.

A Constituição de 1988 não menciona os crimes de ódio e requer apenas a criminalização da prática do racismo. Não há qualquer restrição à expressão do discurso do ódio que possa ser imposta com base na Constituição; casos concretos devem ser levados à justiça. E de certa forma é bom que assim seja, pois quando se inicia um processo de restringir a  liberdade de expressão não se sabe onde ele vai parar.

Darei três exemplos para que o leitor analise o que deveria ser feito em cada caso.

1)      O livro “The Bell Curve”, de autoria de Richard Herrnstein e Charles Murray, dois professores da renomada Universidade de Harvard, publicado em 1994, traz os resultados de um amplo estudo que, segundo os autores, comprova que os negros tem o quociente de inteligência menor  que o dos brancos. (Para verificar porque todas as conclusões apresentadas neste livro são falsas, veja este documento e as referências nele citadas. Para uma discussão mais ampla sobre o mau uso da ciência a favor do racismo e do preconceito,  leia “The Mismeasure of Man” de Stephen Jay Gould.)

2)      A assembleia anual de uma denominação cristã fundamentalista divulga a seus 2.000.000 de membros um documento que condena severamente o homossexualismo, afirmando com base em Ro 1:25-32  que: (a) a prática de atos homossexuais representa uma condenação certa ao inferno; (b)  o que se pode esperar dos que praticam tais atos é “injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade”, e; (c) essas pessoas são “murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia.”

3)      Uma comunidade de índios do grupo étnico conhecido como hopi deixa o Arizona e adquire uma área no Pará. Constatando que os habitantes recém chegados vivem sob um regime matriarcal, um jornal de Belém decide fazer uma campanha incitando os homens deste grupo a “tomarem uma atitude de macho” e acabarem com o domínio das  mulheres.

 

Há uma ampla discussão sobre amor, ódio,  inveja, cristianismo, xenofobia, etc. É de notar-se a afirmação de Karnal  a respeito das utopias: “Sejam quais forem os projetos utópicos de melhoria da sociedade, essa sociedade provoca uma impressionante quantidade de mortes.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1007). Leya Brasil. Edição do Kindle.] De fato, quando um líder começa a falar sobre “a construção do homem novo”, “nova sociedade”, “revolução cultural” e que tais, o que vem a seguir é com certeza o totalitarismo e derramamento de sangue em quantidades espantosas. Foi assim na Russia de Stalin, na Alemanha de Hitler e na China de Mao; será assim em qualquer país que tente mudar a natureza humana pela força.

Chegamos assim à conclusão do livro, onde Karnal analisa a influência das redes sociais, a atual polarização da discussão política e explica os fenômenos que diferenciam  a consciência política e a vontade de participação manifestada pelos eleitores atualmente em relação ao passado.

Algumas citações do autor: “Desde a última eleição presidencial, em 2014, passando pelo processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff até as crises do governo Michel Temer, somos invadidos, via internet, por textos duros, ataques de lado a lado, análises corrosivas, escárnio e agressão verbal. O Brasil descobriu-se raivoso na política, exibindo uma inquietante carga de ódio que fluiu pela rede.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1244-1247). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Qualquer pessoa que acompanha os posts sobre política percebe isso. O ódio escorre pelas telas do Facebook; não há mais adversários políticos, apenas inimigos em um confronto cósmico entre o Bem e o Mal. Cada um dos lados se considera a encarnação de tudo o que é bom, limpo, decente, democrático, enquanto o outro lado é demonizado. Os comentários não raro se desviam para a grosseria pura e simples. Como exemplo, dois comentários colhidos ao acaso sobre pronunciamentos da senadora Gleise Hoffmann:

“Essa mulher precisa um pau no rabo acho bonito ela fala classe rica ela é uma pobre coitada rouba os aposentados é vem querer senta no rabo pra falar dos outros vai a merda piranha”

“Cala a boca sua vaca quem quebrou o brasil ,aposentados,escolas,hospitais foram voces os politicos e o partido do PT.NOJENTA EGUA CALA A BOCA VA LAVAR ESSA BOCA IMUNDA”

Conforme bem assinala Karnal, retornamos ao clima que antecedeu a intervenção militar de 1964: ”A partir daquele momento, houve uma regra ressuscitada na Era Dilma: “Não apenas me oponho a você, mas você é o obstáculo para o progresso brasileiro.” Ou: “O Brasil seria um bom lugar se você não existisse.” Daí cresce o ódio diante das mazelas políticas, porque interpreto que tudo de ruim que ocorre no Brasil nasce do outro.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1266-1269). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Um momento delicado, mas o que se vê no debate político, tanto no Congresso como nos partidos, tanto nas organizações patronais como nos sindicatos, nas universidades e na sociedade como um todo é uma troca de acusações mútuas e ofensas. O debate tornou-se completamente polarizado. E Karnal aponta com muita propriedade: “O problema da polarização é que ela não pensa. A polarização adjetiva. No momento que eu digo que você é petralha ou coxinha, deixo de pensá-lo como um ser humano dialético, contraditório, orgânico, em evolução, e paro de discutir as suas ideias e apenas o rotulo.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1288-1290). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Por outro lado, os acontecimentos dos últimos anos demonstraram de forma cabal a verdadeira natureza da política. Aqui, como em qualquer outro lugar do mundo, o exercício da política não tem como determinante exclusivo ou mesmo principal a busca do bem comum. Passado o discurso eleitoral, política é o controle do estado para o benefício de determinados grupos. Mas no Brasil este processo atingiu um grau de exacerbação e imeddiatismo que leva o autor a afirmar: “Mas a corrupção é institucional e endêmica. Portanto, não seria a solução a queda de uma pessoa para resolver o problema da corrupção.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1275-1276). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Então há hoje uma percepção clara por parte da sociedade de que é preciso tornar o estado mais eficiente e mais voltado para o bem comum. Segundo Karnal: “Então, em parte, todo esse debate é sobre uma tentativa de criar o que não existe: que é a política coletiva, do bem comum, administradora da maioria, um projeto de Estado, e não um projeto de governo. Esse é um desejo coletivo neste momento.” [Karnal, Leandro. Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia (Locais do Kindle 1318-1320). Leya Brasil. Edição do Kindle.]

Concordo totalmente com esta colocação e espero que tenhamos como iniciar o processo em 2018. Não fazer isto é caminhar para o desastre…

O ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) E A IDEOLOGIA

Recentemente mencionei em um post do Facebook que ainda  tinha  a esperança de  que algum dia o Brasil se tornasse um país de Primeiro Mundo, especificando entre parênteses que isto seria atingir um IDH similar ao dos Estados Unidos da América.

Esta minha colocação foi criticada por  um amigo esquerdista, que afirmou:

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Com o devido respeito, estes referenciais de “primeiro mundo” não servem para mim. O Brasil não deve ser melhor nem pior do que o país A, B ou C. O Brasil deve ser Brasil. E é justamente por isso que não haverá eleições ano que vem – pois a corrente ideológica, a qual coaduno, que quer o Brasil como Brasil corre o sério “risco” de ganhar as eleições. Golpistas deram o golpe por que querem o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada. Aliás, sempre foi assim, antes de 2002.

Chega a ser impressionante como pessoas com elevado grau de escolaridade  e extremamente cultas tem a capacidade de raciocinar de maneira lógica seriamente prejudicada quando a ideologia se infiltra na discussão

Reconheço que os referenciais Primeiro / Segundo / Terceiro Mundos estão obsoletos, pois o Segundo Mundo, formado pelos países socialistas, desapareceu após a falência da URSS. Parece-me que hoje restam no mundo dois paraísos socialistas: a Coréia do Norte com seu patético culto a uma dinastia de tiranetes ridículos e o esclerosado regime cubano, que sobrevive graça às remessas dos milhares de exilados nos Estados Unidos e às atitudes habituais das ditaduras: partido único, censura à imprensa e prisão de dissidentes, A China é um caso especial: uma ditadura nominalmente comunista, com uma economia de mercado em amplas áreas do país.

Assim, nos dias atuais parece mais adequado agrupar os países de acordo com o Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), um índice que a ONU calcula para 188 países. Utilizando a descrição da própria ONU (veja o site), numa tradução quase literal:

O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado para enfatizar que pessoas e suas capacidades devem ser o critério último para avaliar o desenvolvimento de um país, não apenas o crescimento econômico. O IDH pode ser também usado para questionar a escolha de políticas nacionais, ao mostrar como dois países com o mesmo nível de renda per capita podem ter níveis de desenvolvimento humano diferentes. Estes contrastes podem estimular o debate sobre as prioridades das políticas governamentais,

O IDH é um indicador resumido do nível atingido em dimensões chave do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. A dimensão de saúde é avaliada pela expectativa de vida ao nascer; a dimensão relativa à educação é medida usando a média de anos de escolaridade para adultos com 25 anos ou mais e o número de anos de escolaridade esperados para crianças que estão entrando na escola.  A dimensão relativa ao padrão de vida é medida pela renda nacional bruta per capita; o IDH usa o logaritmo da renda, para refletir a diminuição da importância deste fator à medida que a renda nacional aumenta. Os escores destes três índices são agregados em um índice composto usando a média geométrica.

 A tabela abaixo mostra a evolução do IDH para alguns países: USA, Chile. Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai desde 1990, quando o índice começou a ser apurado (entre colchetes a posição no ranking em 2015).

USA [10] CHI [38] ARG [45] URU [54] BRA[79] PAR [110]
1990 0,860 0,700 0,705 0,692 0,611 0,580
2000 0,884 0,761 0,771 0,742 0,685 0,624
2010 0,910 0,820 0,816 0,780 0,724 0,675
2011 0,913 0,826 0,822 0,784 0,730 0,679
2012 0,915 0,831 0,823 0,788 0,737 0,679
2013 0,916 0,841 0,825 0,791 0,747 0,688
2014 0,918 0,845 0,826 0,794 0,754 0,692
2015 0,920 0,847 0,827 0,795 0,754 0,693

Uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente! Acredito que a quase totalidade dos brasileiros (e dos seres humanos em geral) gostaria que estas condições fizessem parte de sua história de vida.  Neste sentido acho que o Brasil deveria ser governado com o objetivo de ser cada vez melhor, o que se traduz por um IDH crescente, tendendo a aproximar-se do americano.

Há alguns anos a ONU passou a calcular  o IDH ponderado pela desigualdade (hoje há dados para 155 países) e neste ponto é interessante verificar o que ocorre. Vejamos os índices de 2015 para USA. Venezuela e Brasil.

IDH RANK IDH-AD RANK EVAN EE EA RPC
USA 0,920 10 0,796 20 79,2 16,5 13,2 53245
VEN 0,767 71 0,618 82 74,4 14,3 9,4 15129
BRA 0,754 79 0,561 98 74,7 15,2 7,8 14145

Começando pelo Brasil, temos um IDH de 0,754 e ocupamos a 79ª posição no ranking; quando se faz o ajuste pela desigualdade, o IDH-AD é 0,561 e caímos 19 posições, para o 98º lugar. Isto é um reflexo de nossa má distribuição de renda.

Os Estados  Unidos tem um IDH de 0,920 e ocupam o 10º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é 0,796 e o país cai 10 posições, para o 20º lugar no ranking.

A Venezuela tem o IDH de 0,767 e ocupa o 71º lugar no ranking; quando ajustado pela desigualdade o IDH-AD é de 0,618, caindo 11 posições no ranking, para o 82º  lugar.

Portanto, numa primeira aproximação os Estados Unidos e a Venezuela tem aproximadamente o mesmo índice de desigualdade Mas o que é melhor: ser desigual com uma renda per capita de 53000 dólares ou igualmente desigual com uma renda per capita de 15000 dólares?

A mórbida fascinação da esquerda brasileira com o camarada Maduro e a sinistra ditadura que ele tenta implantar na Venezuela mostram claramente quem deseja “o Brasil como latrina e os brasileiros como limpadores de privada” Aliás, sempre foi assim, depois de 2002.