O BRASIL E A CRISE 2017 (I) – O PONTO FUNDAMENTAL

 

Ouvir os depoimentos de Emílio Odebrecht e seu filho Marcelo fornece o retrato completo e acabado do que se tornou o Brasil. Com clareza e desenvoltura os dois executivos revelaram como funciona o Estado em nosso país. São duas narrativas semelhantes, que descrevem o mesmo fenômeno sob diferentes perspectivas.

Emilio fala como o fazedor de reis, o homem que escolhe e elege presidentes, que detêm de fato o poder de mando e, delicadamente, como convém às eminências pardas, manipula os cordéis dos  fantoches que nós, o comum dos mortais, acreditamos exercer o poder em nosso nome. Emilio não ordena, não faz ameaças, não levanta a voz, sequer insinua as consequências de uma eventual desobediência. Entretanto, os presidentes, ministros, senadores e demais autoridades com as quais conversa sabem perfeitamente que devem obedecê-lo, e que aquilo que convêm a Emílio terá que forçosamente convir ao Brasil.

Já Marcelo representa a corrupção elevada ao nível de uma  disciplina de Administração. Ouvindo o herdeiro de Emílio discorrer sobre a corrupção, é possível imaginar que se trata de uma palestra oferecida em um curso da Harvard Business School. Há procedimentos operacionais complexos e detalhados, refinados por anos de utilização, boas práticas de gestão a serem seguidas, controles sofisticados e ofertas de inovadores serviços aos clientes.

Alguns programavam suas retiradas (planejamento da corrupção), muitos exigiam pagamentos através de depósitos em contas bancárias no exterior, enquanto outros preferiam o pagamento em dinheiro vivo no Brasil. Marcelo tinha em seu organograma invisível um departamento que coordenava o uso do que era eufemisticamente denominado recursos não  contabilizados (em bom português, propina), e tratava de oferecer o melhor serviço ao cliente.

Havia contas correntes para pagamentos de propinas, que continham os valores disponíveis para cada cliente; por exemplo, o Amigo (codinome do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva) dispunha de um crédito de 40 milhões de reais.

Além dos dois principais, quase 80 outros gerentes e executivos da Odebrecht aderiram ao programa de delação premiada. O conjunto  dos depoimentos destes criminosos de colarinho branco demonstra que não há no Brasil praticamente uma só obra pública, quer seja federal, estadual ou municipal, cuja execução não tenha sido manchada pela desonestidade. São concorrências de cartas marcadas, preços superfaturados propinas distribuídas aos agentes envolvidos.

Corrupção sempre houve no Brasil, assim como em todos os países e em todas as épocas. Mas nos últimos anos a corrupção tornou-se institucionalizada, uma forma de governar. No entender de muitos políticos, governar é vender benefícios e facilidades, e o poder que emana do povo, não é exercido em nome deste mas sim em nome de quem paga o melhor preço.

Esta filosofia de governo destruiu o que restava de respeitabilidade aos poderes da Republica, colocando sob suspeição quaisquer atos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A corrupção mostrou-se de tal forma disseminada que hoje todo decreto assinado pelo presidente, toda lei aprovada no Congresso, toda sentença emitida pelo STF pode, em princípio, suscitar as perguntas: a quem interessa? quanto está sendo pago?

A desmoralização dos poderes coloca em risco a própria democracia e não faltam pessoas que pregam abertamente uma intervenção militar, seguida provavelmente pela caça e extermínio de corruptos e esquerdistas. Pelo lado da esquerda não é difícil encontrar proponentes de uma reação armada contra as ações de um governo que consideram ilegítimo e golpista; uma eventual prisão do ex-presidente Lula é citada abertamente por alguns próceres da esquerda como o sinal para a deflagração de uma guerra civil.  

Não me parece que uma aventura autoritária, da direita ou da esquerda. seja uma solução adequada.

O Brasil  possui dimensões continentais, economia complexa e diversificada,  imensos recursos naturais inexplorados e um mercado consumidor com potencial de  crescimento sem paralelo em qualquer  outro lugar do mundo, exceto talvez na China e na Índia. Temos ainda uma profunda desigualdade social e nota-se, como mencionado acima, uma crescente e perigosa polarização nas discussões políticas. 

A mediação de conflitos e a negociação pacífica, entre os diversos grupos de interesse, das divergências quanto à alocação de recursos são funções tradicionalmente exercidas pelo Parlamento. Para evitar uma catástrofe de dimensões apocalípticas. como seria uma guerra civil. é imprescindível que o Parlamento continue funcionando normalmente.

Vivenciamos atualmente uma crise moral, uma crise política e uma crise econômica. Creio que somente dentro do regime democrático será possível solucionar estas crises e retomar o caminho do desenvolvimento sustentado.

Aventuras autoritárias são inadmissíveis a esta altura de nossa história e podem causar um desastre  cujo custo em termos humanos e econômicos é simplesmente inimaginável.

MAIS SOBRE SANTA RITA DO SAPUCAÍ

Esta reportagem traz mais algumas informações sobre minha terra adotiva. Por exemplo, somente 45 cidades do mundo, sendo 3 no Brasil, foram escolhidas pelo Facebook para realizar seu evento F8, uma conferência anual de desenvolvedores e empresários que utilizam esta plataforma. Uma destas cidades é a pequena Santa Rita do Sapucaí, o que ilustra a excelência do trabalho que aqui se realiza.

Para ler a reportagem, clique neste link: Cidade mineira atrai jovens talentos pelo estilo de vida pouco convencional.