AS QUATRO FERAS EM DANIEL 17

No segundo ensaio do livro “Jesus Histórico e Outros Ensaios” aborda-se a controvérsia relativa a datação do Livro de Daniel, o que enseja uma prolongada argumentação. Mas esta decisão é crucial para determinar o sentido deste livro bíblico.

Se Daniel escreveu seu livro no século VI AC, trata-se realmente de uma profecia, que descreve com um nível de detalhes impressionante eventos futuros, em especial os acontecimentos que se envolveram as dinastias ptolomaica e selêucida.

Se o livro de Daniel foi escrito no século II, com o objetivo de infundir ânimo e esperança aos judeus que combatiam a tentativa de suprimir o Judaísmo, empreendida pelo rei selêucida Antíoco IV, então não há profecia envolvida, pois os eventos descritos já teriam ocorrido.

Admitindo-se que Daniel seja um livro que contém previsões sobre eventos futuros, a primeira de suas visões proféticas é descrita no capítulo 7. Vejamos algumas interpretações, descritas no comentário de cada versículo.

1. No primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia, teve Daniel, na sua cama, um sonho e visões da sua cabeça. Então escreveu o sonho, e relatou a suma das coisas.
Comentário: Conforme discutido no segundo ensaio do livro “Jesus Histórico e Outros Ensaios”, Belsazar nunca teve o título de rei. Atuou como regente durante a ausência de seu pai Nabonidus, que retirou-se para em Taima entre 552 e 542 AC. Portanto, este sonho teria acontecido em 552 AC.

2. Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando, numa visão noturna, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o Mar Grande.
Comentário: O mar representa a humanidade, espalhada pelos quatro cantos do mundo agitada pelos acontecimentos.

3. E quatro grandes animais, diferentes uns dos outros, subiam do mar.
Comentário: As quatro feras que saem do mar representam impérios que  dominaram a região.

4. O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em dois pés como um homem; e foi-lhe dado um coração de homem.
Comentário: Este animal representa o império babilônico, no qual esta represemtação era bastante comum.

5. Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne.
Comentário: A Média e a Pérsia, unificadas  por Ciro II, o Grande, constituíram o império medo-persa, representado pelo urso. Em 639 AC, Ciro conquistou a capital Babilônia, pondo fim ao império babilônico.

6. Depois disto, continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças; e foi-lhe dado domínio.
Comentário: O terceiro animal representa o chamado império grego, que foi criado por Alexandre, o Grande. Em poucos anos (leopardo = rapidez) , Alexandre conquistou um imenso território, que se estendia da Grécia ate a Índia. Sua morte prematura em 323 AC, com apenas 33 anos de idade, levou à divisão do imenso território entre quatro de seus generais, Lisímaco, Cassandro, Seleuco e Ptolomeu, que se declararam reis de suas respectivas áreas.

7. depois disto, eu continuava olhando, em visões noturnas, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres.
Comentário: Se, quanto aos três primeiros animais, não há muita divergência na interpretação, o simbolismo do quarto animal é muito controverso.  Vejamos algumas interpretações que podem ser encontradas  na internet.
Os
Adventistas (http://www.adventistas.org/pt/espiritodeprofecia/4-bestas-de-daniel-capitulo-7/) acreditam que o quarto animal representa o império romano. Os dez chifres seriam os povos que teriam originado a Europa: Anglos (Inglaterra) – Burgundos (Suíça) – Francos (França) – Germanos (Alemanha) – Hérulos (Sul da Itália) – Lombardos (Norte da Itália) – Ostrogodos (Áustria) – Suevos (Portugal) – Vândalos (Sul da Espanha) – Visigodos (Norte da Espanha). Afirmam também que o chifre pequeno representa o Poder Papal e, por extensão, a Igreja Católica Apostólica Romana.  A Assembleia de Deus  e as Testemunhas de Jeová também concordam com a associação entre a quarta fera e o Império Romano, mas não são tão específicas a ponto de associar o líder da Igreja Católica ao Anticristo. Outras possibilidades ventiladas para a identidade da quarta fera são a Rússia, os Estados Unidos, o Estado Islâmico e diversas outras

Uma interpretação aceitável e é compatível com as duas datas que podem ser atribuídas ao livro de Daniel está abaixo. Postula-se que a quarta fera representa o reino selêucida o qual, no reinado de Antíoco IV,  tentou efetivamente destruir o Judaísmo. Portanto, para os israelitas, este reino parecia muito mais terrível e pernicioso do que as potências que os haviam subjugado até então.

Observando a cronologia dos reis selêucidas temos: Seleuco I, Antíoco I, Antíoco II, Seleuco II, Seleuco III, Antíoco III.  O filho mais velho de Antíoco III sucedeu o pai e, com o nome de Seleuco IV, reinou entre 187 e 175 AC; era, portanto, o sétimo rei da dinastia selêucida. Seleuco IV foi assassinado por Heliodorus, um de seus ministros, que tentou sem sucesso tomar o lugar dos selêucidas. O rei assassinado deixou dois filhos: o mais velho era Demetrius,  de 12 anos, que estava em Roma como refém, para garantir o pagamento de indenizações de guerra exigidas pelos romanos; e o mais novo,  Antíoco, que se encontrava em Damasco. Antíoco IV aproveitou-se da oportunidade e assumiu o poder como co-regente, ao lado de seu sobrinho, o filho mais novo de Seleuco IV. Temos nesta lista os 10 reis da dinastia selêucida, que correspondem aos 10 chifres da fera.

8. Eu considerava os chifres, e eis que entre eles subiu outro chifre, pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.
Comentário: Quando o primogênito de Antíoco IV nasceu, ele providenciou a eliminação do sobrinho co-regente, de forma a garantir o trono para seu filho no futuro. Isto ocorreu em 168 AC e fica claro porque o “chifre pequeno” (Antíoco IV não era o sucessor natural de Seleuco IV), ao subir, arrancou “três dos primeiros chifres” (Seleuco IV, Demétrius e Antíoco). Nesta época, Antíoco IV iniciou sua campanha de helenização forçada, e por isto se diz que “neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.”, vale dizer bazófias e blasfêmias contra o Deus de Israel.

Referências

Contributor:The Editors of Encyclopædia Britannica .Article Title: Seleucid kingdom. ·   Website Name: Encyclopædia Britannica. Publisher: Encyclopædia Britannica, inc.    Date Published: Maio 24, 2007. URL: https://global.britannica.com/place/Seleucid-kingdom. Access Date: Março 08, 2017

Contributor:Hans VolkmannArticle Title: Antiochus IV Epiphanes. Website Name: Encyclopædia Britannica . Publisher: Encyclopædia Britannica, inc. Date Published: Março 13, 2003. URL: https://global.britannica.com/biography/Antiochus-IV-Epiphanes. Access Date: Março 08, 2017

Article Title: Antiochus . Website Name: Jewish Virtual Library. Publisher: American-Israeli Cooperative Enterprise. URL: http://www.jewishvirtuallibrary.org/antiochus .      Access Date: Março 08, 2017

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Article Title: Seleucus IV Philopator .Website Name: Jewish Virtual Library. ·         Publisher: American-Israeli Cooperative Enterprise . URL: http://www.jewishvirtuallibrary.org/seleucus-iv-philopator . Access Date: Março 08, 2017

Article Title: Antiochus IV. Website Name: Into his Own. URL: http://virtmualreligion.net/iho/antiochus_4.html . Access Date: Março 08, 2017

Article Title: Seleucus IV . Website Name: The Genealogy of the Seleucids .       Publisher: McGill University . URL: http://www.seleucid-genealogy.com/Seleucus_IV.html . Access Date: Março 08, 2017

Article Title: CHEGOU A HORA Um estudo sobre a segunda vinda de Cristo à luz da Bíblia e de Ellen G. White.     URL: http://jonatanconceicao.blogspot.com.br/ . Access Date: Março 08, 2017

 

 

 

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joaoazevedojunior

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