SOBRE A CULPA SOCIAL

A morte de uma criança de 10 anos pela polícia é uma tragédia que envergonha (ou devia envergonhar) todos os brasileiros que ainda possuem um mínimo de compaixão pelo próximo. Infelizmente, uma boa parte de nossa população  – basta acompanhar os comentários nas redes sociais – acredita firmemente que o garoto teve o que merecia e que o certo é mesmo “matar no ninho” possíveis futuros delinquentes. Isto mostra até que ponto a barbárie que se instalou no Brasil, um dos países mais violentos do planeta, está destruindo a alma de nosso povo. 

Já a questão da culpa social é mais complicada. Está sobejamente provado que o brasileiro arca com uma das maiores cargas tributárias do mundo, e no entanto o retorno que recebemos pelos impostos é irrisório. Não temos nem saúde, nem educação, nem segurança; o Executivo,  em todos os seus níveis é ineficiente e corrupto; o Legislativo, também em todos os seus níveis, está infestado de malfeitores e não consegue avançar as reformas essenciais para que o país volte a crescer; o Judiciário parece um pouco menos afetado pela corrupção, mas está minado pela ineficiência e historicamente submisso aos poderosos, que se sentem acima da Lei. 

A Constituição Federal transborda de boas intenções, semelhantes às que calçam o Inferno. Mas boas intenções não resolvem problemas; o que resolve são recursos aplicados com eficiência e honestidade pelo Poder Público.  

Porém, ao longo de décadas, construiu-se no Brasil um arcabouço legal que, entre outros malefícios, garante privilégios injustificáveis a categorias específicas, promove a impunidade dos ricos e poderosos, reduz a nada o dever que os políticos deveriam ter de prestar contas aos eleitores e por aí vai. Isto foi obra de uma classe política (a elite predatória?) cujos integrantes, em sua esmagadora maioria, nunca tiveram o bem-comum como objetivo, sempre usaram o Estado para locupletar-se e criaram um sistema que garante a perpetuação destes vícios.  

Assim, não acredito que a sociedade como um todo seja culpada pela morte do garoto, pois se o que eu e os milhões de brasileiros pagamos de impostos caísse nas mãos de um governo decente, provavelmente o Ítalo estaria vivo, estudando e brincando com seus amiguinhos, construindo um futuro digno para si e para a família que teria algum dia.

Publicado por

joaoazevedojunior

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