SOBRE A CULPA SOCIAL

A morte de uma criança de 10 anos pela polícia é uma tragédia que envergonha (ou devia envergonhar) todos os brasileiros que ainda possuem um mínimo de compaixão pelo próximo. Infelizmente, uma boa parte de nossa população  – basta acompanhar os comentários nas redes sociais – acredita firmemente que o garoto teve o que merecia e que o certo é mesmo “matar no ninho” possíveis futuros delinquentes. Isto mostra até que ponto a barbárie que se instalou no Brasil, um dos países mais violentos do planeta, está destruindo a alma de nosso povo. 

Já a questão da culpa social é mais complicada. Está sobejamente provado que o brasileiro arca com uma das maiores cargas tributárias do mundo, e no entanto o retorno que recebemos pelos impostos é irrisório. Não temos nem saúde, nem educação, nem segurança; o Executivo,  em todos os seus níveis é ineficiente e corrupto; o Legislativo, também em todos os seus níveis, está infestado de malfeitores e não consegue avançar as reformas essenciais para que o país volte a crescer; o Judiciário parece um pouco menos afetado pela corrupção, mas está minado pela ineficiência e historicamente submisso aos poderosos, que se sentem acima da Lei. 

A Constituição Federal transborda de boas intenções, semelhantes às que calçam o Inferno. Mas boas intenções não resolvem problemas; o que resolve são recursos aplicados com eficiência e honestidade pelo Poder Público.  

Porém, ao longo de décadas, construiu-se no Brasil um arcabouço legal que, entre outros malefícios, garante privilégios injustificáveis a categorias específicas, promove a impunidade dos ricos e poderosos, reduz a nada o dever que os políticos deveriam ter de prestar contas aos eleitores e por aí vai. Isto foi obra de uma classe política (a elite predatória?) cujos integrantes, em sua esmagadora maioria, nunca tiveram o bem-comum como objetivo, sempre usaram o Estado para locupletar-se e criaram um sistema que garante a perpetuação destes vícios.  

Assim, não acredito que a sociedade como um todo seja culpada pela morte do garoto, pois se o que eu e os milhões de brasileiros pagamos de impostos caísse nas mãos de um governo decente, provavelmente o Ítalo estaria vivo, estudando e brincando com seus amiguinhos, construindo um futuro digno para si e para a família que teria algum dia.

UM FILÓSOFO NO “CALDEIRÃO”

Costumo assistir televisão usando meu laptop ao mesmo tempo; fico mais concentrado no computador e olho para a TV quando ouço algo que me chama a atenção. Pois ontem eu “assistia” o “Caldeirão do Huck” na TV Globo quando ouvi o apresentador mencionar que o professor Michael Sandel participaria do programa. Na hora pensei ter entendido errado, mas de fato o conceituado filósofo e professor de Harvard mediou uma interessante discussão sobre ética e o “jeitinho” brasileiro, que pode ser acessada (e podem ter certeza de que vale a pena assistir!) através deste link.

Luciano Huck falou um pouco sobre o currículo do inédito convidado, mas não havia tempo disponível para entrar em muitos detalhes. Tenho tido algum contato com o trabalho do Dr. Sandel, e passei a admirá-lo por sua extraordinária capacidade de explicar de maneira clara assuntos extremamente complicados, uma característica que fica patente em seus escritos e nas aulas que ministra.

Sua obra mais famosa se chama “Justice: What’s the Right Thing to Do?”, traduzida para vários idiomas, inclusive o português (Justiça – O Que É Fazer a Coisa Certa?, Editora Civilização Brasileira). Esta obra seria, digamos, o livro texto para o curso “Justice” que o professor ministra em Harvard e que é considerado um dos mais populares da história da universidade, chegando a contar com mais de 1000 alunos em uma turma!

Versões deste curso estão disponíveis na internet, inclusive na plataforma edX através da qual é possível completar as atividades requeridas e interagir com outros participantes espalhados ao redor do mundo. A ementa do curso o descreve assim:

“Este curso é uma introdução à filosofia moral e política. Ele explora as teorias clássicas e contemporâneas sobre a justiça e aplica estas teorias a controvérsias legais e políticas da atualidade. Os tópicos abordados incluem quotas raciais, distribuição de renda, uniões homo afetivas, o papel dos mercados, debates sobre direitos humanos e direitos de propriedade, argumentos a favor e contra a igualdade e dilemas sobre o patriotismo na vida pública e privada. O curso estimula os alunos a submeter seus próprios pontos de vista sobre estes assuntos controversos ao exame crítico de outros colegas. As leituras principais são textos de Aristóteles, John Locke, Immanuel Kant, John Stuart Mill e John Rawls. Lemos também trechos de alguns processos judiciais contemporâneos e artigos sobre assuntos políticos que levantam questões filosóficas.”

São 14 semanas, durante as quais há tópicos para discussão, cinco testes e um exame final; os fóruns para debate das questões estão disponíveis em inglês, chinês, espanhol, português, e alemão, refletindo a diversidade cultural do público.

A produção acadêmica de Michael Sandel é de altíssimo nível, como seria de se esperar de um professor de Harvard. Ele tem sido descrito, talvez com certo exagero, como “o mais relevante dos filósofos vivos”. Mas há muitos professores que são autoridades em sua área de conhecimento, mas não tem nenhuma didática; ao invés de estimular os alunos ao estudo e ao aprendizado, transformam as aulas em uma chatice interminável, que só se suporta por estrita necessidade. Quem não se lembra de ter tido um ou mais professores assim?

O professor Sandel é o oposto. Sua didática é fantástica e fica-se ansioso para ouvir a próxima palestra. Foi o único curso que fiz em minha vida no qual o professor foi interrompido em mais de uma ocasião pelos aplausos dos alunos! O material é mesmo excelente.

Atualmente Michael Sandel está conduzindo um programa trimestral na BBC 4, com um formato similar ao usado no programa do Luciano Huck. Chama-se “The Global Philosopher” e ele atua como moderador do debate de uma questão da atualidade; os participantes estão espalhados pelos cinco continentes. O primeiro programa foi dia 26/03 e o assunto discutido foi imigração (“Should Borders Matter?”); o vídeo pode ser assistido acessando este link. O próximo programa está marcado para 07/07/2016 e o tema será a mudança climática.