A SÍNDROME DO FRACASSO

São 4:14 do dia 12/05/2016. Assistia a sessão do Senado Federal que decidiu pela continuação do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, e seu afastamento do cargo até o julgamento definitivo das acusações. Entre os inúmeros discursos que ouvi ontem e hoje, o do Senador Cristovam Buarque (PPS-DF) pareceu-me o mais profundo e bem articulado. A íntegra do discurso está disponível neste local.

O senador coloca diversas questões sobre a crise brasileira e o projeto de nação que estamos construindo para as futuras gerações e afirma que o atual modelo social, econômico e político se esgotou.

Neste post desejo comentar um trecho específico do discurso do senador, no qual ele coloca várias questões que deveriam ser discutidas pela sociedade e seus representantes.

Uma questão bastante geral é colocada logo no início deste trecho

“Por que não fomos capazes de transformar um território rico e uma população sem divisões em em uma nação rica, feliz e saudável?”

Esta dúvida parece assombrar os brasileiros de todas as classes sociais, embora obviamente não seja sempre articulada com a clareza alcançada no discurso. É o sentimento difuso de frustração por ter nascido aqui e não em um país de Primeiro Mundo, o desgosto com a brasilidade, a crença de que somos um “povinho ordinário”. Tudo isto está profundamente enraizado no imaginário popular, bastando lembrar as piadas sobre a criação do Brasil, sobre o inferno brasileiro, etc.

Ao final das contas, tudo isto se reduz ao que denomino a “SÍNDROME DO FRACASSO”, que traz efeitos devastadores e que se manifesta como descrito a seguir. Em primeiro lugar, nos consideramos uma nação fracassada, incapaz de criar um Estado decente, cuja atuação seja norteada pela governança, pela competência e pela honradez. Já que, no íntimo, nos consideramos um “povinho ordinário”, que constitui uma nação fracassada, não fazemos o que é certo e justo, simplesmente nos conformamos e convivemos com as manifestações de descontrole, incompetência e desonestidade da máquina estatal. Mas um povo que se tornou extremamente tolerante com a mediocridade, a incompetência e até mesmo o crime, jamais será capaz de criar um Estado decente, portanto será sempre uma nação fracassada.

Ora, trata-se claramente de um círculo vicioso e a grande questão é como quebra-lo. Este ponto é abordado brevemente no final deste texto.

Em uma série de postagens que escrevi sobre a crise atual, há uma intitulada “O Brasil e a Crise (III) – As Ilusões Desarmadas”. Naquele texto expresso a ideia de que, findas “as ilusões armadas” com a falência do projeto dos militares para o Brasil, a sociedade civil assumiu o protagonismo no cenário político com um conjunto de expectativas que, acredito, a maioria dos cidadãos alimentava com relação ao futuro do país. Seriam “as ilusões desarmadas”.

Tenho a impressão que as questões que o senador coloca refletem de fato as inquietações que muitos brasileiros, em especial os de minha geração, experimentam ao pensar sobre os rumos que o Brasil tomou, os acontecimentos que testemunhamos nestes trinta anos de governo democrático e as ilusões que tínhamos.

O senador pergunta: “Por que não pusemos o Estado a serviço do povo?”  Uma das ilusões desarmadas era de que “Teríamos uma economia moderna e eficiente.” Constata-se que o estado brasileiro continua atrasado, patrimonialista, clientelista, paternalista, e  pessimamente gerenciado. Não consegue desempenhar sua função básica de prover saúde, educação e segurança, com qualidade razoável, aos contribuintes e criar as condições necessárias ao crescimento da economia, investindo com eficiência e transparência a imensa quantia que arrecada em impostos.

Diz o senador: “Não fizemos avançar a consciência popular. Fizemos consumidores,  não cidadãos.” Uma outra das ilusões desarmadas era “O povo brasileiro se tornaria mais politizado.” Mas, infelizmente, isto não aconteceu. Até por uma questão cultural, o brasileiro aceita e tolera a corrupção. Em países com alta “distância de poder”, como é o caso do Brasil, a seguinte visão do mundo está profundamente entranhada no sentimento popular[1]: “Os poderosos gozam de diversos privilégios e espera-se que usem o poder para aumentar sua riqueza pessoal. Estas pessoas adotam um comportamento simbólico destinado a reforçar seu status. O poder deriva de laços familiares, amizades pessoais, carisma ou o uso da força. Espera-se a ocorrência de escândalos envolvendo os poderosos, e da mesma forma espera-se que não haja punição, ou que sejam punidos apenas os subalternos.” Ora, como é esperado que os políticos sejam corruptos, o povo elege e reelege pessoas desonestas seguidas vezes, sem se importar com o caráter do candidato. Para ficar apenas em casos mais conhecidos, todos políticos condenados pela justiça ou com sinais evidentes de enriquecimento ilícito: os anões do orçamento, Paulo Maluf, Orestes Quércia, Newton Cardoso, Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros. Ninguém se torna deputado ou senador sem o voto popular.

Voltando ao ponto central que proponho, a Síndrome do Fracasso somente pode ser eliminada através da consolidação da democracia e do fortalecimento das instituições.

Para isto precisa haver um Judiciário forte e atuante, que reduza a impunidade, em todos os níveis e áreas do governo e da sociedade em geral. É fundamental que se demonstre na prática do dia a dia que todos são iguais perante a lei, até que este conceito seja um pressuposto básico de nossa cultura.

E precisa haver um Legislativo independente que promova as inúmeras reformas que o país exige: política, previdenciária, tributária,  e outras.

É uma tarefa hercúlea, que demandará algumas décadas.

 

 

Publicado por

joaoazevedojunior

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