ADMINISTRADOR MODELO!?

Quanto mais penso sobre a situação brasileira, mais me convenço que nosso problema vai muito além do PT e sua roubalheira. Talvez a foto que melhor ilustre a dificuldade da situação é esta, da deputada Raquel Muniz (PSD-MG) comemorando seu voto a favor da admissibilidade da abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff.

A deputada dedicou seu voto ao Brasil, à Minas Gerais, à sua cidade , aos filhos e ao maridão Ruy Muniz, prefeito da cidade de Montes Claros, citado por ela como exemplo de bom administrador e esperança para o futuro da nova Pátria, enfim renovada e livre da praga da corrupção (veja o video). Pois não é que no dia seguinte o consorte da ilustre deputada foi preso pela Polícia Federal acusado de transferir casos do SUS para hospitais de uma rede privada de propriedade, é claro, dele mesmo e de seus familiares!

O prefeito é acusado de ter desviado para seu hospital, apenas em 2015, 26000 consultas e 11000 exames; responderá pelos crimes de falsidade ideológica majorada, dispensa indevida de licitação pública, estelionato majorado, prevaricação e peculato; as penas somadas ultrapassam os 30 anos. Que modelo de administrador!!!

Não parece haver saída para a crise do atual sistema político. Se não vejamos algumas possibilidades:

1)      Se a presidente Dilma permanecer no governo estará tremendamente desgastada e não terá apoio no Congresso para governar; haverá um aprofundamento da crise econômica que poderá resultar em um salto para o desconhecido. Talvez protestos maciços contra o governo, inquietação e revolta nas cidades, quebra da ordem pública, estado de sítio. Talvez um golpe da esquerda contra as instituições e a implantação de uma república bolivarista, no melhor estilo venezuelano. E os militares ? Bem, a Venezuela também tem e tinha Forças Armadas quando o ridículo ditador Hugo Chaves usurpou o poder. Sabe-se lá o que foi feito nos últimos 15 anos com a estrutura de comando do Exército de Caxias…Ou poderá haver um golpe de direita, com a instalação de um regime autoritário nos moldes da Revolução de 1964. Como escrevi acima, um salto para o desconhecido…

2)      Se a presidente Dilma deixar o cargo, assume o vice-presidente Michel Temer, contra quem já existe um pedido de impedimento tramitando no Supremo Tribunal Federal e não se sabe quantos esqueletos no armário, somente esperando a ocasião certa para assombrar o vice e a todos os aos brasileiros, cujo único desejo é que o governo, que parece absolutamente incompetente para ajudá-los, ao menos não os atrapalhe em sua busca pela felicidade.

Depois de Temer, o próximo na linha de sucessão é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chamado abertamente por muitos deputados, não só do PT como de outros partidos, de ladrão e canalha. Uma única entre as muitas falcatruas de que é acusado pode ter lhe rendido nada menos que 52 milhões de reais. Além de ladrão, o deputado tem uma fantástica, incrível e extraordinária capacidade de mentir sem absolutamente o menor sinal de desconforto. Se for cassado, Cunha deveria tornar-se jogador de poker em Las Vegas, onde provavelmente ganharia mais dinheiro até do que com as propinas.

Se Cunha não puder assumir o mandato, seja por decisão do STF, por renúncia ou por ter sido preso, o próximo na lista é Renan Calheiros, também investigado por corrupção e sobre quem já escrevi um texto neste blog (“A Eleição de Renan Calheiros: o Desencanto com a Democracia”).

Se Renan Calheiros já houver renunciado ou sido preso, o quarto e último da lista é Ricardo Lewandovski, presidente do Supremo Tribunal Federal, contra quem não há nenhum processo por corrupção, mas acusações de comportamento pouco ético e, quem sabe até criminoso; o caso do imóvel em um condomínio luxuoso de São Bernardo nunca foi devidamente esclarecido.

Resumindo a extensão do pesadelo, integram a linha de sucessão presidencial na República Federativa do Brasil, país de 206 milhões de habitantes, quinto mais extenso do mundo e, até pouco tempo, a sexta maior economia do planeta, Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Ricardo Lewandovski. É de dar medo ao Conde Drácula ou, em nosso país tropical, à mula sem cabeça!

3)      Se é assim que venham as eleições gerais…
É uma solução que não resolve nada. Quem assistiu à votação de domingo pôde ver praticamente todos os nossos 513 deputados federais, dos quais pelo menos 180 estão envolvidos com o esquema de corrupção montado pelo PT. Ouvindo os discursos daqueles que legitimamente representam o povo brasileiro, é difícil não chorar e impossível não rir.

Entretanto, por mais ridículos e despreparados que muitos deputados sejam, por maior que seja o número de parlamentares desonestos, o fato é que nenhum deles estava na Câmara por acaso: todos foram eleitos democraticamente pelo povo através do voto livre e secreto, em eleições limpas.

Uma explicação para a má qualidade de nossos parlamentares, que agrada a direita e os saudosistas do regime militar, atribui a culpa ao povo, que não saberia votar. De fato, o povo não sabe votar. Elege e reelege representantes sobre os quais pesam fortes suspeitas de corrupção, quando não condenações judiciais. Elege comediantes e jogadores de futebol simplesmente porque são famosos, sem indagar que ideias defendem; vota em pastores simplesmente por filiação religiosa, sem questionar a história de vida e a proposta política que apresentam; vende seu voto por uma dose de cachaça ou um par de botinas; acredita no infame “rouba mas faz” e entope o Parlamento com canalhas.

No entanto, o povo somente aprenderá a votar praticando a democracia. E, como disse Winston Churchill, “A democracia é a pior das formas de governo, exceto todas as outras.”

Além da falta de consciência política do povo brasileiro, temos um sistema eleitoral viciado, onde a falta de compromisso entre eleitos e eleitores é estrutural. Este sistema tem que ser aperfeiçoado, com urgência, através de uma verdadeira reforma política, que tenha como pauta mínima: redução do número de partidos políticos, exigência de fidelidade partidária (o mandato é do partido, não do candidato), estabelecimento do voto distrital,  fim do voto obrigatório, fiscalização rigorosa e implacável do financiamento das campanhas eleitorais, proporcionalidade estrita entre a população de cada estado e o número de representantes na Câmara dos Deputados, obrigação de que todo ocupante de cargo eletivo e seus parentes até o segundo grau sejam auditados anualmente pela Receita Federal.

Com toda estas dificuldades, há ainda uma luz no fim do túnel? Felizmente sim, e esta luz se chama Justiça. Somente o fim da impunidade para os poderosos pode revolucionar a maneira como se faz política no Brasil. Se os corruptos e os corruptores tiverem a certeza de que serão rigorosamente punidos caso apanhados, e que a chance de serem apanhados é razoavelmente grande, a corrupção cairá vertiginosamente (veja meu post “Lá como Cá? Dois Corruptos Concedem Entrevistas”).

As grandes mudanças sociais ocorrem quando um grupo com ideias mais avançadas do que a média da sociedade alcança um nível de poder que lhe permite colocar-se na vanguarda de um movimento reformista e mostrar à sociedade que aquilo que sempre foi assim pode e deve ser diferente. Os jovens procuradores e juízes envolvidos na operação Lava Jato mostraram ao Brasil que os poderosos não precisam necessariamente estar acima da lei.

  Eles apresentam ao Brasil a ÚNICA alternativa que pode nos levar a sermos um país decente. A continuidade e ampliação desta forma de agir, que demonstra de maneira efetiva a todos os cidadãos a imprescindível igualdade de todos perante a lei, é a melhor base sobre a qual se pode construir uma nação. É assim em todos os países do Primeiro Mundo e será assim também no Brasil. Fora disto não há alternativa: continuaremos no charco, no mar de lama em que chafurda o Estado brasileiro.

Publicado por

joaoazevedojunior

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