O DIA SEGUINTE

Assistimos ontem, ao vivo e a cores, a votação histórica da Câmara Federal e a aprovação do envio ao Senado do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Acompanhei  boa parte das sessões da Câmara dos Deputados, que começaram na sexta-feira de manhã e prosseguiram quase sem interrupções até o final da votação, na primeira hora da segunda-feira. Ouvi centenas de discursos, e é alarmante ver o clima de ódio que se instalou no Brasil. A ideologia lulo-petista, que tem várias teses em comum com a extrema esquerda, parte do princípio de que o mundo se divide entre os bons (eles) e os maus (nós).

Eles são bons porque se consideram como os únicos defensores dos pobres, os melhores governantes que o Brasil (e qualquer outro país do mundo) jamais teve, os redentores dos excluídos. Ora, deixam implícito, tanto bem fizeram que se devia permitir que assaltassem os cofres públicos com desenfreada ganância, que destruíssem a economia do país, que lançassem milhões de brasileiros no desemprego, que transformassem a alta direção da Petrobrás num quadrilha de meliantes, que roubassem a esperança de um futuro melhor, que esta brava gente brasileira mantém, contra todas as evidências.

Quem somos nós para questioná-los? Como ousamos duvidar da integridade de Dilma Rousseff apenas porque ela permitiu que mais de US$ 1.000.000.00 (isso mesmo, um bilhão de dólares americanos) fosse jogada fora na compra de um monte de sucata em Pasadena? Quem trabalhou na iniciativa privada não consegue imaginar que a alta direção de uma empresa permitia a concretização de um negócio deste porte sem sequer olhar o que estava comprando.

Como presidente do conselho da Petrobrás e ex-ministra das Minas e Energia, será possível que Dilma não percebesse o escândalo, a roubalheira e a destruição gradativa da Petrobrás, tudo acontecendo de maneira tão ostensiva? Se não percebia, sua incompetência é de tal magnitude que merece entrar no Livro dos Recordes; se percebia e não fazia nada, é culpada de conivência com o crime; se percebia e participava do esquema…

A pregação do ódio é bastante clara no discurso de alguns deputados petistas e seus companheiros de ideologia. Quando deputados como, por exemplo, Ivan Valente (PSOL-SP), Jandira Feghali (PC do B-RJ) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) discursam, lembro-me de um trecho da Primeira Catilinária, onde Cícero se dirige ao conspirador Catilina dizendo “Immo vero etiam in senatum venit, fit publici consili particeps, notat et designat oculis ad caedem unum quemque nostrum.” que se pode traduzir como: “Mais ainda: até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos com o olhar, um a um, para a chacina.”

Uma parte dos parlamentares eleitos pelo povo parece entender que nós, os 70 ou 80% dos brasileiros que consideram o governo de Dilma ruim ou péssimo, e concordam com seu impedimento, somos um bando de canalhas que deveria ser executado na primeira oportunidade. Tem-se a impressão de que eles lamentam o fato de que aqui não vivemos a democracia cubana! E de que gostariam de erguer paredões nas praças das principais cidades do país e justiçar a burguesia reacionária!

O discurso desta esquerda radical tem alguns pontos que se repetem indefinidamente. Em primeiro lugar, a votação de ontem é acusada de ser um “golpe parlamentar orquestrado pela grande imprensa, em conluio com as “elites” (fica no ar quem são as “elites”; o discurso indica que eles consideram como “elite” os brasileiros que não vivem do Bolsa Família”…).

Depois, o povo organizado (isto é, os manifestantes trazidos pelo PT com o nosso dinheiro) ouve a exortação para reagir. Há várias maneiras de reagir, mas os radicais não dizem como, de modo que ficam pendentes várias possibilidades. Reagirão fazendo democraticamente uma campanha contra a eleição de seus adversários? Organizando uma greve geral que pare o país por alguns dias? Invadindo o Congresso Nacional? Queimando ônibus? Trucidando os manifestantes a favor do impedimento com os facões e foices do MST? Não se sabe que reação os parlamentares recomendarão a seus partidários, pois esta exortação incendiária e irresponsável não é acompanhada de um esclarecimento.

Um terceiro ponto é a ideia de que se continuarem no poder os esquerdistas passarão a orientar suas ações segundo projetos apresentados pelas forças populares, esvaziando as atribuições do Congresso Burguês. É o caminho certo para a ditadura e não pode de maneira alguma acontecer no Brasil, sob pena de nos tornarmos uma versão um pouco melhorada da Venezuela.

Houve também alguns excessos da direita, como o do deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto ao cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador. É uma homenagem infeliz, pois o sr. Ustra não representa de maneira alguma a formação moral e a nobreza de caráter que o treinamento do Exército de Caxias infunde e que se pode esperar de seus oficiais.

Apesar das grandes manifestações a favor e contra o impedimento de Dilma Roussef, não se registraram confrontos sérios entre os manifestantes. Isto é um sinal encorajador de que a maioria do povo brasileiro está cada vez mais acostumado ao regime democrático, onde ser adversário não significa ser inimigo e que a vitória de um lado não significa o aniquilamento do outro. Resta ver como decorrerão as próximas semanas.

Publicado por

joaoazevedojunior

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