O BRASIL E A CRISE (III) – AS ILUSÕES DESARMADAS

Em sua obra magistral, “As Ilusões Armadas” o jornalista e intelectual Elio Gaspari apresenta um relato minucioso da história do regime militar no Brasil entre os anos de 1964 e 1979. Em 1979 o general Ernesto Geisel, após enquadrar a linha dura do Exército, transmitiu o cargo de presidente ao sucessor que havia escolhido. Tratava-se do general João Baptista de Figueiredo, que completou o processo de abertura e devolveu o poder aos civis.

Em 1985 José Sarney tornou-se 0 primeiro presidente civil  desde 1964, dando início ao que na época se costumava chamar de   Nova República. Entre aqueles que eram favoráveis ao novo regime havia um clima de otimismo e esperança no futuro do país. Talvez daqui a algumas décadas um historiador resolva escrever sobre a Nova República e  as expectativas da sociedade civil; o livro poderia ser intitulado, com propriedade, “As Ilusões Desarmadas”.

Hoje, passados trinta anos de governo civil, e num clima de preocupação geral com o que nos reserva 2016, talvez possamos fazer um contraponto entre a ilusão e realidade e ver que já passamos por maus bocados e nem tudo deu errado.

Eu e, acredito, boa parte dos brasileiros que se interessavam pelo futuro do país, imaginávamos que:

  1. Teríamos algum dia uma moeda estável.
    Demorou ainda uma década, mas depois de sete planos econômicos e três mudanças na moeda, conseguiu-se afinal derrotar a inflação, ou pelo menos mantê-la sob controle. O controle da inflação foi fundamental para que o Brasil experimentasse algum crescimento econômico nos últimos tempos.
  2. A miséria e a desiguaLdade social diminuiriam.
    Houve, sem sombra de dúvida, uma redução significativa na pobreza e na pobreza extrema, bem como melhoria na distribuição  de renda. A avaliação quantitativa do fenômeno depende de como são definidos os patamares de renda que indicam pobreza  ou extrema pobreza, conforme o artigo “Desigualdade e Pobreza”, do pesquisador Rafael Osório, apresentado em recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ([PEA)
  3. A Democracia iria consolidar-se no país.
    Neste ponto o grau de sucesso foi mais limitado. Vivemos, felizmente, sob um regime onde prevalece o respeito aos direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição Federal (liberdade de expressão, de consciência e crença, de reunião, de associação,  etc.), onde as eleições são realizadas conforme o calendário estabelecido e não há evidência de fraudes escandalosas; enfim, somos um país formalmente democrático.
    Mas há algumas questões preocupantes no que diz respeito à democracia brasileira

    • o efeito devastador da cleptocracia sobre a conduta e a imagem do Congresso: Ouvi há muitos anos uma entrevista de Ciro Gomes, que conhece muito bem o meio, na qual ele dizia o seguinte: cerca de 20% dos parlamentares são  absolutamente honestos, cerca de 20% são irremediavelmente “picaretas” e os demais “dançam conforme a música.” Ou seja, um Executivo honesto governa com um Congresso mais honesto (ou menos desonesto), e o contrário é verdadeiro. O que se vê hoje parece confirmar a opinião de Ciro Gomes: quando o Executivo transformou a propina em política de Estado, o Congresso apodreceu…
    • a falta de responsabilidade dos parlamentares para com os eleitores: Fala-se, há anos, na Reforma Política, envolvendo, entre outras coisas,  a introdução de alguma forma de voto distrital e mais rigor na fidelidade partidária. Mas efetivamente nada foi feito. No sistema atual não existe uma cobrança mais efetiva dos deputados por parte dos eleitores, que estão espalhados por todo o estado; o deputado não é pressionado para cumprir suas promessas de campanha; muitos partidos são irrelevantes; parlamentares trocam de partido de acordo com a conveniência  do momento. Este quadro não contribui para fortalecer a democracia.
  4. O povo brasileiro se tornaria mais politizado.
    Infelizmente, isto não aconteceu. Até por uma questão cultural, o brasileiro aceita e tolera a corrupção. Em países com alta “distância de poder”, como é o caso do Brasil, a seguinte visão do mundo está profundamente entranhada no sentimento popular[1]: “Os poderosos gozam de diversos privilégios e espera-se que usem o poder para aumentar sua riqueza pessoal. Estas pessoas adotam um comportamento simbólico destinado a reforçar seu status. O poder deriva de laços familiares, amizades pessoais, carisma ou o uso da força. Espera-se a ocorrência de escândalos envolvendo os poderosos, e da mesma forma espera-se que não haja punição, ou que sejam punidos apenas os subalternos.”
    Ora, como é esperado que os políticos sejam corruptos, o povo elege e reelege pessoas desonestas seguidas vezes, sem se importar com o caráter do candidato. Para ficar apenas em casos mais conhecidos, todos políticos condenados pela justiça ou com sinais evidentes de enriquecimento ilícito: os anões do orçamento, Paulo Maluf, Orestes Quércia, Newton Cardoso, Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros. Ninguém se torna deputado ou senador sem o voto popular.

  5. Teríamos uma economia moderna e eficiente.
    Tivemos uma década perdida, um período de arrumação da casa e um ciclo de crescimento muito expressivo, agora seguido pela crise. Nestes 30 anos houve mudanças significativas, entre as quais poderiam ser lembradas: privatizações, liberação das importações, fim das reservas de mercado, em especial na área de informática, , e diversas  outras. Mas o estado brasileiro continua atrasado, patrimonialista, clientelista, paternalista, e  pessimamente gerenciado. Não consegue desempenhar sua função básica de prover saúde, educação e segurança, com qualidade razoável, aos contribuintes. e criar as condições necessárias ao crescimento da economia, investindo com eficiência e transparência a imensa quantia que arrecada em impostos.Dessa vez é por aí que tem que começar a arrumaçã0 da casa!
[1] HOFSTEDE, Geert; HOFSTEDE, Gert Jan; MINKOV,Michael. Cultures and Organizations:Software of the Mind. 2010.3rd ed. McGraw-Hill, NY

Publicado por

joaoazevedojunior

I am a retired electronic engineer. who likes to write about issues that I consider interesting. I welcome your comments and constructive criticism.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s