RELIGIÃO E CIÊNCIA PODEM CAMINHAR LADO A LADO?

Você acredita que religião e ciência podem caminhar lado a lado ou acha que elas são muitos divergentes para seguir na mesma direção? 

CONTEXTO DA QUESTÃO: Esta pergunta foi discutida em um fórum do qual participo. No contexto em que foi colocada a  pergunta, a palavra religião se refere ao cristianismo ou, mais propriamente, à Teologia Cristã, daqui em diante designada simplesmente como Teologia.

Para responder à questão colocada, vale a pena apresentar primeiramente alguns conceitos que permitem descrever de maneira clara dois diferentes posicionamentos filosóficos no que diz respeito à divindade. Estes conceitos são:

(a) teísmo – é a crença em um princípio criador, distinto e separado de sua criação, que dirige e suporta a existência continuada do mundo físico, e lhe dá significado e propósito;

(b) ateísmo – é a negação absoluta da existência da divindade; o ateu afirma categoricamente que Deus não existe.

MÉTODO CIENTÍFICO:  O método científico consiste na observação dos fenômenos, na coleta de dados, na formulação de hipóteses que expliquem os dados observados e na experimentação para verificar a validade  ou não das hipóteses formuladas. Karl Popper afirmava que uma teoria somente pode ser considerada científica quando for falsificável, ou seja, quando for possível conceber uma observação que a torne falsa. Um corolário desta afirmação é que uma teoria científica possui, necessariamente, consequências observáveis.   De fato, as grandes teorias científicas tem não só consequências observáveis, como possuem  geralmente a capacidade de predição, ou seja, explicam fenômenos que só mais tarde são observados. É o caso, por exemplo, da Mecânica Quântica, da Teoria da  Relatividade e do Darwinismo. Outra característica absolutamente fundamental do método científico é que as hipóteses formuladas são abertas à discussão e à crítica e sofrem um processo constante de revisão, aperfeiçoamento e, eventualmente, substituição.

IMPOSSIBILIDADE DE UMA TEOLOGIA ISENTA: Já a Teologia não é uma atividade intelectual isenta, como o são, em princípio, a física e a matemática, por exemplo. Ela é desenvolvida a partir de certas noções aceitas como verdades reveladas, que estão acima e além da possibilidade de comprovação empírica.

O teísmo cristão se fundamenta em dois axiomas: (a) crença em um Deus que se faz presente na história e na vida de cada um de nós; (b) visão dualista da autoconsciência, ou seja, a identidade de cada indivíduo não se reduz a um fenômeno puramente físico, mas possui uma dimensão espiritual que persiste após o fim do organismo.

A construção axiomática do pensamento cristão parece-me extremamente bem sintetizada neste trecho do Evangelho: “De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3:16)

O professor John Cavadini da Universidade de Notre Dame destaca em uma palestra [1] cinco pontos que definem a Teologia:

  1. A Teologia tem como ponto central a figura de Jesus Cristo.
  2. A Teologia estuda o Mistério irredutível do amor de Deus para conosco.
  3. A Teologia é a Fé procurando entender o Mistério.
  4. A Teologia tem como fontes as Escrituras e o magistério da Igreja (este último na minha tradição religiosa).
  5. A Teologia deve contribuir para a concretização do Reino de Deus.

Portanto é impossível esperar que a Teologia seja estudada ou praticada de forma isenta e impessoal, uma vez que alguns pontos fundamentais da doutrina não estão abertos ao questionamento e, mais que isso, não são passíveis de comprovação ou refutação.

CONFLITO ENTRE RELIGIÃO E CIÊNCIA: Em alguns casos, o conflito se torna visível quando a Teologia pretende impor-se à Ciência, geralmente a partir de uma exegese  errônea das Escrituras Sagradas. Há um conflito aberto e declarado entre a doutrina de algumas denominações cristãs fundamentalistas que qualificam a Bíblia como absolutamente inerrante em todos as áreas e assuntos (cosmologia, história, geografia, biologia, etc.). Não há dúvida que o fundamentalismo é incompatível com o conhecimento científico e expõe a religião ao ridículo. Por exemplo, baseando-se numa interpretação literal do Gênesis, os fundamentalistas negam a evolução das espécies, a despeito da evidência incontestável de que a evolução ocorreu. Este criacionismo tosco ignora, entre outras áreas da Ciência, as descobertas da Geologia (evidências de que bilhões de anos  transcorreram desde a formação do planeta), e da Paleontologia (evidências do surgimento e extinção de imenso número de espécies ao longo do tempo, mapeando assim a seqüência evolutiva). Nos Estados Unidos esta disputa se transfere algumas vezes para os campos político e jurídico, quando os fundamentalistas tentam retirar dos currículos escolares o ensino do evolucionismo [2] ou colocar nestes currículos o chamado criacionismo científico [3], [4], [5].

O conflito também surge quando a Ciência pretende impor-se à Teologia, geralmente a partir de um entendimento incorreto do que seja a Fé e de um orgulho desmedido, derivado das inegáveis conquistas do método científico. Este movimento pode ser caracterizado como ateísmo militante e seus representantes mais visíveis incluem              Richard Dawkins [6], Christopher Hitchens, Daniel Dennett [7] e Sam Harris, todos eles intelectuais renomados em seus campos de atuação. O ateísmo militante combate abertamente as crenças religiosas de qualquer natureza, tentando demonstrar a irracionalidade da Fé e provar que a humanidade deve “evoluir” para uma visão completamente materialista do Cosmos. O ateísmo militante expõe abertamente o absurdo das ideias fundamentalistas sobre a Criação, apontadas como exemplo da ignorância e do obscurantismo aos quais a religião pode levar. Ao apontar outros aspectos da religião que qualifica como ridículos, o ateísmo militante se aproveita também das frequentes declarações, invariavelmente incorretas, de um sem número de seitas milenaristas que a cada ano alertam os fiéis sobre a iminência do Juízo Final, a partir de uma interpretação desinformada das profecias bíblicas.

Mas um dos argumentos mais fortes do ateísmo militante é que a economia de hipóteses (navalha de Ockham) favorece o ponto de vista ateísta. Segundo eles, a hipótese de um propósito super-natural é desnecessária para explicar a evolução das espécies ou, de modo geral, a existência do universo físico. A formação casual de aminoácidos autoreplicantes, a mutação aleatória do material genético e a seleção natural dos indivíduos melhor adaptados ao ambiente são mecanismos suficientes para explicar a origem e a evolução dos seres vivos. Como a idéia de um propósito divino nada acrescenta em termos de explicação do fenômeno, o princípio lógico de economia de hipóteses recomenda sua exclusão.

De acordo com este argumento, o ônus da prova recairia sobre a Teologia, a quem caberia demonstrar a existência de Deus e de seu plano para a humanidade.

MAGISTÉRIOS SEPARADOS: Religião e Ciência têm áreas de atuação e objetivos distintos. A Ciência, aplicando o método que lhe é peculiar, procura desvendar o “como” dos fenômenos naturais e do universo sensível. Em princípio, está ao alcance do método científico desvendar todos os mistérios do Universo, vale dizer, o sistema de relações causais que rege as transformações do universo físico, inclusive o papel do acaso.

Por sua vez, a Religião busca unir (re-ligar) a finitude do homem ao sentido maior do Cosmos, respondendo o “por quê” da condição humana. A Teologia admite que está fora do alcance da criatura compreender plenamente o Mistério irredutível de Deus. O ônus da prova não recai sobre a Teologia porque, queiram ou não os ateus, não é possível encontrar Deus somente através da razão, que não O pode compreender minimamente. Apenas a Fé e a busca incessante do progresso espiritual permitem que o ser humano entreveja a realidade que se situa além da experiência sensível.

Assim, considero que Religião e Ciência são magistérios separados [8], que abrangem diferentes aspectos de nossa existência, procuram responder perguntas completamente distintas, partem de pressupostos de natureza diversa e empregam abordagens e metodologias fundamentalmente incompatíveis.

Entretanto, a comunicação entre a Religião e a Ciência é fundamental para que esta última se desenvolva em benefício do ser humano. Sem esta comunicação não é exagero considerar que a própria sobrevivência da espécie e, quem sabe, a continuidade da vida no planeta, estarão ameaçadas. Esta questão é abordada com muita clareza no Catecismo da Igreja Católica [9] (minha tradição religiosa) que trata deste tema:

  • 2293 A pesquisa científica de base, como a pesquisa aplicada, constituem uma expressão significativa do domínio do homem sobre a criação. A ciência e a técnica são recursos preciosos postos a serviço do homem e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos; contudo, não podem indicar sozinhas o sentido da existência e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, do qual provêm sua origem e seu crescimento; portanto, encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua finalidade e a consciência de seus limites.
  • 2294 É ilusório reivindicar a neutralidade moral da pesquisa científica e de suas aplicações. Além disso, os critérios de orientação não podem ser deduzidos nem da simples eficácia técnica nem da utilidade que possa derivar daí para uns em detrimento dos outros, e muito menos das ideologias dominantes. A ciência e a técnica exigem, por seu próprio significado intrínseco, o respeito incondicional dos critérios fundamentais da moralidade; devem estar a serviço da pessoa humana, de seus direitos inalienáveis, de seu bem verdadeiro e integral, de acordo com o projeto e a vontade de Deus.

Em conclusão, acredito que a Ciência é, pela natureza mesma de seu método e objetivo, intrinsecamente incapaz de responder questões relativas ao sentido e à finalidade da existência humana; paradoxalmente, respostas a estas questões são extremamente necessárias, pois fundamentam os princípios éticos essenciais para que o conhecimento científico não se volte contra o próprio homem.

NOTAS EXPLICATIVAS

[1] Aula “Our Study of Scripture and Tradition” no curso TH120.1x Jesus in Scripture and Tradition na plataforma edX (www.edx.org)

[2] “Epperson v. Arkansas.” Oyez. Chicago-Kent College of Law at Illinois Tech, n.d. Nov 8, 2015. <https://www.oyez.org/cases/1968/7>

[3] BERRA, T. M., 1990. Evolution and the Myth of Creationism, Stanford University Press, Stanford

[4] KITCHER, P., 1986. Abusing Science: The Case against Creationism, MIT Press, Cambridge

[5] “Edwards v. Aguillard.” Oyez. Chicago-Kent College of Law at Illinois Tech, n.d. Nov 8, 2015. <https://www.oyez.org/cases/1986/85-1513>

[6] Veja-se por exemplo DAWKINS, R., 1987. The Blind Watchmaker, W. W. Norton & Company, New York; nesta que talvez seja sua obra mais conhecida, Hawkins procura demonstrar que a evolução não supõe nem requer a influência de qualquer inteligência ou força criadora. O título “O Relojoeiro Cego” é uma contraposição direta a uma passagem célebre da obra “Teologia Natural – ou Evidências da Existência e dos Atributos da Divindade Coletadas nas Manifestações da Natureza”,  publicada em 1802, na qual o teólogo inglês William Paley discorre sobre a complexidade de um relógio e afirma que ao nos depararmos com tal aparelho somos forçados a concluir que “o relógio tem que ter tido um fabricante; que deve ter existido, em algum tempo, em um lugar ou outro, um artífice ou artífices, que o construíram para a finalidade que realmente possui; que compreendiam sua construção, e previram seu uso.”, concluindo pela necessidade de um Criador.

[7] Veja-se, por exemplo, DENNETT, D.C., 1991. Consciousness Explained, Penguim Books, New York; nesta obra, de leitura notavelmente difícil, o filósofo propõe as bases de uma explicação absolutamente material dos fenômenos mentais, negando a existência de qualquer transcendência no fenômeno da autoconsciência.

[8] GOULD, S. J., 1999. Rock of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life, Ballantine Books, NewYork.

[9] O texto completo do Catecismo da Igreja Católica pode ser acessado na internet, em português, em: http://www.vatican.va/archive/ccc/index_po.htm

Publicado por

joaoazevedojunior

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