BART D. EHRMAN: O SUICÍDIO DO PENSAMENTO

O livro “Misquoting Jesus: Who Changed the Bible and Why”  (B. D. Ehrman) aborda temas geralmente não discutidos entre os fiéis das diversas denominações cristãs. Em síntese a obra  procura responder a seguinte questão, com foco no Novo Testamento:

“Como pode a Bíblia ser a Palavra de Deus se não temos sequer certeza quanto ao texto original?”

Bart D. Ehrman, professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hills, é um conhecido e respeitado estudioso da história do cristianismo primitivo com mais de 20 livros publicados.

Destinado ao público leigo, o texto não ignora a complexidade do tema, mas oferece uma explanação clara e acessível sobre o que vem a ser a crítica textual, talvez a melhor disponível em português, conforme bem assinala Vitor Grando (Grando) em sua resenha à edição brasileira.

No capítulo inicial, o autor faz um resumo de sua biografia, admitindo de maneira transparente e honesta que suas convicções pessoais influenciam as conclusões que atinge. Trata-se de uma conduta que deveria ser disseminada entre os estudiosos que escrevem textos sobre ciências humanas (Teologia, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Ciência Política, etc.) para o público em geral. É comum que textos desta natureza, versando sobre tais assuntos, apresentem como verdades científicas afirmações que, na realidade, decorrem das convicções pessoais do autor.

Esta parece ser a mais séria limitação do livro: o autor apresenta suas conclusões de forma unilateral, como se fossem consenso entre os estudiosos, quando na realidade tratam-se de objeto de debate no meio acadêmico. Em seu artigo Grando mostra que algumas divergências apontadas por Bart Ehrman como exemplos de alterações intencionais introduzidas no texto são, quando analisadas de maneira imparcial,   irrelevantes sob o ponto de vista doutrinário (Grando).

É possível encontrar na rede inúmeros textos que apresentam conclusão idêntica, entre os quais limito-me a citar: (a) resenha escrita por  Dan Wallace, professor de Estudos do Novo Testamento no Dallas Theological Seminary, afirmando que “variantes textuais significativas que alterem as doutrinas centrais do Novo Testamento não foram ainda descobertas” (Wallace); (b) um longo e detalhado artigo acadêmico escrito por Thomas A. Howe, professor de Bíblia e Linguagens Bíblicas no Southern Evangelical Seminary, que analisa uma a uma as alegações de Bart Ehrman sobre a crítica textual e expõe as falácias de raciocínio, exageros e interpretações discutíveis existentes no livro (Howe).

Ehrman foi criado em uma familia que professava o Episcopalismo. Durante a adolescência passou por uma experiência de conversão religiosa, tornando-se um cristão renascido (“born-again christian”) adepto de uma das muitas igrejas fundamentalistas que proliferam nos Estados Unidos.

Convertido ao fundamentalismo religioso, cursou Teologia Bíblica no Moody Bible Institute e prosseguiu seus estudos no Wheaton College. Iniciou ali seu aprendizado do grego, que foi de fundamental importância para deflagar o processo de mudança de seu posicionamento religioso. À medida que progredia em seus estudos, o jovem teólogo envolveu-se intensamente na crítica textual, que consiste em determinar o texto original a partir do estudo das diversas versões disponíveis em fontes muito antigas. Confrontado com as divergências entre as diversas fontes, sintetiza sua reação como:

“Eu continuava voltando a minha questão básica: de que adianta dizermos que a Bíblia é a Palavra inerrante de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus, de maneira inerrante, inspirou, mas apenas as palavras copiadas pelos escribas – algumas vezes corretamente, mas outras vezes (muitas!) incorretamente?”

Terminado seu curso em Wheaton, Bart Ehrman iniciou seus estudos de pós-graduação no Seminário Teólogico de Princeton, sob a orientação de Bruce M. Metzger – considerado na época o mais importante estudioso da crítica textual do Novo Testamento. Após alguns anos de estudo, Ehrman deixou de acreditar na inspiração divina do texto bíblico e atualmente declara-se agnóstico.

A crítica ao livro “Misquoting Jesus”, no que se refere à questão da análise textual em si e das conclusões questionáveis de Ehrman, já foi mencionada. Porém, talvez mais do que divergências textuais entre manuscritos milenares, que em última análise são um detalhe técnico e relativamente abstruso para a maioria dos leitores, é a história de vida narrada pelo autor que pode fazer vacilar a crença de alguns.

Eventualmente, um leitor pode ser induzido ao seguinte raciocínio: “Se um dos mais importantes estudiosos da crítica textual, após anos de análise e reflexão, concluiu pela natureza plenamente humana das Escrituras, será que ele não está certo?”

A resposta a esta pergunta é um sonoro “NÃO!”. Apesar da inegável erudição de Bart Ehrman parece-me que sua descrença atual resulta sobretudo de decepção com a abordagem fundamentalista de interpretação bíblica, que havia abraçado com entusiasmo na juventude.

Um documento da Igreja Católica (Pontifícia Comissão Bíblica) discute os mais diversos métodos e abordagens empregados na exegese bíblica e afirma que todos podem contribuir positivamente para o entendimento da Palavra, exceto o método fundamentalista, que é fortemente criticado.

No parágrafo que conclui a análise sobre a abordagem fundamentalista lê-se:

“A abordagem fundamentalista é perigosa, pois ela é atraente para as pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas da vida. Ela pode enganá-las oferecendo-lhes interpretações piedosas mas ilusórias, ao invés de lhes dizer que a Bíblia não contém necessariamente uma resposta imediata a cada um desses problemas. O fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele coloca na vida uma falsa certeza, pois confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substancia divina dessa mensagem.”

Ainda na introdução do livro “Misquoting Jesus”, Bart Ehrman afirma sua desilusão com o fundamentalismo, que acabou por levá-lo ao agnosticismo, e descreve a transformação radical em seu modo de pensar:

É uma transformação radical deixar de ver a Bíblia como um plano sem erro para nossa fé, vida e futuro e passar a encará-la como um livro muito humano, com pontos de vista muito humanos, muitos dos quais diferem entre si e nenhum dos quais fornece um guia sem erro sobre como devemos viver. Esta e a transformação que ocorreu em meu modo de pensar, com a qual estou plenamente comprometido.

Fica patente que, não obstante seu notável conhecimento, o professor foi vítima de um entendimento distorcido da natureza das Sagradas Escrituras, com grande probabilidade legado nefasto de sua experiência com o fundamentalismo religioso, tal como adverte o documento da Pontifícia Comissão Bíblica.

 Analisando o texto sobre a transformação, frase a frase:

“É uma transformação radical deixar de ver a Bíblia como um plano sem erro para nossa fé, vida e futuro…” – isto equivale a deixar de ver a Bíblia como ela não é; no entanto a abordagem fundamentalista pode enganar muitas pessoas com ”… interpretações piedosas mas ilusórias, ao invés de lhes dizer que a Bíblia não contém necessariamente uma resposta imediata a cada um desses problemas.”

“… e passar a encará-la como um livro muito humano, com pontos de vista muito humanos, muitos dos quais diferem entre si…” – a diferença de pontos de vista é natural, compreensível e a exegese sadia não tem dificuldade em aceitá-la sem perder de vista o caráter divino do texto; porém a abordagem fundamentalista ”…confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substancia divina dessa mensagem.”

“…e nenhum dos quais fornece um guia sem erro sobre como devemos viver.” – como observado acima, uma exegese sadia não leva a esperar que isto aconteça; todavia, a abordagem fundamentalista ”…coloca na vida uma falsa certeza.”

“Esta é a transformação que ocorreu em meu modo de pensar, com a qual estou plenamente comprometido.” – uma transformação que não condiz com o entendimento correto da mensagem que Deus transmite à humanidade através da Bíblia; mas a abordagem fundamentalista ”…convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento.”

Referências

Ehrman, Bart D. Misquoting Jesus: Who Changed the Bible and Why. Harper-Collins e-books, 2008. Kindle Edition.

Grando, Vitor. “Resenha: Ehrman, Bart D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. São Paulo: Prestígio, 2006. 245 p.” REVELETEO – Revista Eletrônica Espaço Teológico Jan-Jun 2015: 183-187. Acesso em 18 Outubro 2015.  Disponível em <http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo/article/view/22429/17030&gt;.

Howe, Thomas A. A Response to Bart D. Ehrman’s Misquoting Jesus. 2006. Acesso em 19 Outubro 2015. Disponível em <http://isca-apologetics.org/sites/default/files/papers/Jared%20Martinez/Howe-AResponseToBartEhrman.pdf&gt;.

Pontifícia Comissão Bíblica. A Interpretação Bíblica na Igreja. Cidade do Vaticano, 15 Abril 1993. Acess em 18 Outubro 2015. Disponível em <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html&gt;.

Wallace, Dan. Book Review: Misquoting Jesus. Dallas, 6 Dezembro 2012. Acesso em 19 Outubro 2015. Disponível em <http://www.xpastor.org/strategy/theology/who-changed-the-bible-and-why/&gt;.