SOBRE O LIVRO: “THE FIRST COMING – HOW THE KINGDOM OF GOD BECAME CHRISTIANITY”

The First Coming: How the Kingdom of God Became ChristianityThe First Coming: How the Kingdom of God Became Christianity by Thomas Sheehan

Meu conceito: 5 de 5 estrelas

“The First Coming – How the Kingdom of God Became Christianity”, escrito por Thomas Sheehan e publicado em 1986, é um livro muito perturbador, Quando o li pela primeira vez, há mais de 25 anos, minha impressão foi de que o autor colocava em dúvida os fundamentos do cristianismo.

Mesmo nos dias atuais, creio que muitos cristãos se sentirão confusos e talvez até um pouco indignados com a leitura deste livro, visto que os assuntos nele abordados não são conhecidos pela maioria dos fiéis, embora estejam em discussão a pelo menos dois séculos e provavelmente sejam familiares à hierarquia das várias denominações cristãs.

Em resumo, o livro procura responder duas questões:
1. Como Jesus, que nunca se declarou o Messias, e muito menos um ser divino, passou a ser interpretado como Deus Encarnado?
2. O que Jesus pensava sobre si mesmo e sua missão?

É a busca do Jesus histórico, a partir das informações disponíveis sobre o Cristo da Fé. Para os Cristãos que adotam a interpretação literal da Bíblia, como é o caso de várias denominações evangélicas, esta empreitada é inútil e até herética, pois a vida de Jesus está narrada em detalhes nos Evangelhos; tudo que ele disse e fez está nestes livros.

No entanto, há outras igrejas cristãs que aceitam que a Bíblia foi inspirada por Deus mas escrita por homens e mulheres comuns, sujeitos às circunstâncias de seu tempo e de sua cultura. As igrejas protestantes tradicionais e a Igreja Católica não consideram que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente [1]. Por exemplo, a Pontifícia Comissão Bíblica, em um documento de 1993 intitulado “A Interpretação da Bíblia na Igreja” expressa claramente este posicionamento:

“O método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. Como a Santa Escritura, enquanto « Palavra de Deus em linguagem humana », foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes, sua justa compreensão não só admite como legítimo, mas pede a utilização deste método. (meu destaque)

É claro que, mesmo aceitando que o texto bíblico deve ser interpretado, as religiões organizadas colocam limites às conclusões aceitáveis, ou seja, aquelas que não questionam os pontos centrais da doutrina.[2]

O autor permanece nestes limites quando explica as teorias geralmente aceitas sobre como os Evangelhos foram escritos, o fato de que estes livros não são uma biografia de Jesus, no sentido moderno da palavra, mas sim textos religiosos, que expressam os pontos de vista de diferentes comunidades cristãs sobre Jesus.

Considerando a cronologia dos textos das Escrituras cristãs (Epístolas de Paulo / Marcos / Mateus / Lucas / João) verifica-se uma progressiva elevação dos status de Jesus, que evolui de mártir tornado o Messias após a sua morte até o Filho Unigênito de Deus pré-existente ao Cosmos.

Com alguma dificuldade, ainda é possível acomodar esta leitura a uma interpretação ultraliberal das escrituras, admitindo que a evolução gradual da cristologia ocorreu sob a inspiração divina, que aos poucos foi revelando aos primeiros cristãos a verdadeira natureza de Jesus. Numa entrevista, Thomas Sheehan chama esta interpretação de “a última trincheira dos teólogos liberais”

.
Quando discorre sobre a ressurreição, o autor nega que esta seja um evento histórico, sugerindo que, assim como as aparições aos discípulos, trata-se de uma visão religiosa.
Estas ideias seriam certamente condenadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, órgão do Vaticano encarregado de preservar a pureza doutrinária, protegendo-a de interpretações que não estejam de acordo com a ortodoxia vigente.

Em 2004, o documento “Notificação sobre o livro “Jesus Symbol of God” do Padre Roger Haight, S. J.” [3] condena explicitamente a interpretação simbólica da ressurreição:

“A apresentação que o Autor faz da ressurreição de Jesus é guiada pela sua concepção da linguagem bíblica e teológica como “simbólica de uma experiência que é historicamente mediada” (p. 131) e pelo princípio de que “ordinariamente não se deveria supor que se tenha verificado no passado uma coisa que hoje é impossível” (p. 127).[…]
A interpretação do Autor leva a uma posição incompatível com a doutrina da Igreja. Ela é elaborada com base em pressupostos erróneos e não com base nos testemunhos do Novo Testamento, segundo os quais as aparições do Ressuscitado e o sepulcro vazio estão na base da fé dos discípulos na ressurreição de Cristo e não o contrário.”

Outro ponto elaborado no livro é que Jesus não anunciava o Reino de Deus como algo que viria a concretizar-se num futuro próximo, através de um confronto final entre o Bem e o Mal, precedido por cataclismos em escala cósmica e seguido pela criação de um universo novo e perfeito. Em outras palavras. Jesus não seria um profeta apocalíptico; seus ensinamentos teriam porém sido inseridos no contexto apocalíptico do judaísmo no século I.

De acordo com Sheehan, Jesus pregava que o Reino de Deus já se manifestava entre nós e que se concretizaria através da mudança interior e de um novo relacionamento entre os seres humanos, pautado pela justiça e pela fraternidade.

O debate sobre o caráter apocalíptico ou não apocalíptico dos ensinamentos de Jesus continua até os dias de hoje, e há teólogos renomados em ambos os lados da questão.[4]

Em última análise, a ideia-força que sustenta o livro é de que o que hoje entendemos como cristianismo é apenas uma das possíveis interpretações dos ensinamentos do Jesus histórico (e nem sequer a melhor) .

Notas:
[1] Dado que Thomas Sheehan provém de uma tradição católica (foi seminarista por 10 anos) e lecionou na Loyola University (jesuíta) entre 1972 e 1999 citarei apenas documentos publicados pela Igreja Católica.
[2] Esta é a principal razão pela qual considero que as metodologia da Ciência e da Teologia são incompatíveis; veja o post “Refletindo sobre Metafísica: Ciência x Religião” neste blog.
[3] Em 2009 o padre Roger Haight, S. J. foi proibido de publicar livros ou artigos sobre Teologia e de dar aulas, mesmo em instituições não católicas.
[4] A este respeito, veja-se por exemplo:.ALLISON, Dale C. et al. The Apocalyptic Jesus: a Debate. Santa Rosa: Polebridge Press, 2001

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Publicado por

joaoazevedojunior

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