POIS É…

Nós, engenheiros, somos uma turma que gosta de números; se não fosse assim, não teríamos escolhido esta carreira. Então vejam ao que leva este interesse pelo que é quantitativo, que a nós parece mais firme, mais concreto, mais confiável do que as impressões ou intuições.

Vamos começar pelo princípio. Apesar de não ser advogado, acompanho com muito interesse as publicações do “site” JusBrasil. Há alguns dias o JusBrasil publicou um interessante artigo do advogado Dr. Pedro Magalhães Ganem, intitulado “Choque de Realidade”[1]. Vale a pena ler todo o texto, mas o foco do mesmo é a resposta que um promotor de justiça ouve de um jovem de 15 anos durante uma audiência. Reproduzo abaixo este trech0:

“Diante do questionamento do MP, o menino disse que quando tinha 10/11 anos “mexia” com reparo de ventilador, tanquinho de lavar roupa, dentre outros, e que hoje, com 15 anos, trabalhava em uma marmoraria, como cortador de mármore.

Nesse momento, o Promotor, assustado com a “gravidade” do fato de o menor trabalhar em uma marmoraria, lhe questionou: “Mas você não sabe que isso (exercer a função de cortador de mármore como menor) é errado?”

A “criança”, de pronto, sem pestanejar, retrucou: “Mas cê qué que eu faça o que?! Trafique? Mate os poliça?

A resposta demonstra que ele, assim como milhões de outros jovens – na realidade a imensa maioria – tem boa índole e, mesmo lutando contra todas as adversidades, procura ganhar a vida honestamente.

Mas, ao mesmo tempo, esta resposta nos envergonha ou deveria nos envergonhar a todos como cidadãos brasileiros. É claro que um garoto de 15 anos não deveria estar trabalhando em uma marmoraria, e muito menos traficando drogas ou matando policiais! Deveria estar estudando e trabalhando, se fosse o caso, como aprendiz. Estaria assim recebendo uma formação adequada e se preparando para ter um futuro melhor para si e para a família que, com grande probabilidade, viria a constituir um dia.

Educação: esta é a única forma de romper o círculo maldito de miséria e exclusão social que é uma, embora não a única, das causas do estarrecedor nível de violência que assola o país.

Mas proporcionar uma educação de qualidade para milhões de jovens custa muito caro e não há dinheiro para isto, dirão alguns. E será que não há mesmo? Vieram-me à memória diversas notícias que havia lido recentemente e resolvi fazer algumas contas.

Estima-se que a corrupção no Brasil abocanhe algo como 1,4 a 2,3 do Produto Interno Bruto (PIB). Estes percentuais foram obtidos através de um estudo elaborado pelo Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, estudo este intitulado “Corrupção: custos econômicos e propostas de combate” [3], publicado em Março de 2010. Acredito sinceramente que ninguém irá discordar da premissa a seguir: “De 2010 até hoje a corrupção não diminuiu”. Com base  nesta premissa, usarei os percentuais de 1,4%  e 2,3% em relação ao PIB na estimativa dos valores atuais.

O PIB brasileiro atingiu em 2014 o valor  de 5.521.156 MR$ [4], ou seja, aproximadamente 5,521 Trilhões de Reais. Assim é razoável supor que a corrupção custe ao pais algum valor  entre 77 e 127 bilhões de reais por ano; digamos, a média, que é 102 bilhões de reais

O que isto poderia representar para o futuro de jovens como este que é citado no artigo do Dr. Ganem?

Em março deste ano, o Congresso Nacional aprovou a proposta do Orçamento da União para 2015 [5]. O Orçamento destina 101,3 bilhões de reais para a Educação e 109,2 bilhões de reais para a Saúde.

Sabemos que a  corrupção não afeta somente a União, pois muitos Estados e Municípios são também por ela contaminados. Mas, numa primeira aproximação, parece lícito dizer que se o Estado brasileiro (entendido como os três poderes do regime democrático, em todos os seus níveis de atuação) conseguisse se livrar do vírus da corrupção haveria recursos suficientes para DOBRAR o orçamento da Educação ou DOBRAR o orçamento da Saúde, ou aumentar a ambos de maneira significativa.

É claro que isto mudaria para melhor as oportunidades do jovem depoente, e de todos os outros em situação semelhante.

Em meu entender uma das características que legitima um governo democrático é exatamente garantir a todos tanto quanto possível a igualdade de oportunidades. Quando a corrupção atinge um nível tal que afeta seriamente a capacidade do Estado para atuar na redução da desigualdade social, até mesmo o regime democrático passa a ser questionado.

Notas:

[1] O artigo do Dr. Pedro M. Ganem está disponível em http://pedromaganem.jusbrasil.com.br/artigos/186226264/choque-de-realidade?utm_campaign=newsletter-daily_20150508_1143&utm_medium=email&utm_source=newsletter

[2] Um dos vários artigos do JusBrasil sobre o assunto pode ser acessado em http://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/121932082/o-preco-da-corrupcao-para-o-brasil

[3] O texto completo do relatório pode ser acessado e/ou baixado de http://www.fiesp.com.br/indices-pesquisas-e-publicacoes/relatorio-corrupcao-custos-economicos-e-propostas-de-combate/

[4]  Conforme dados do IBGE, que podem ser acessados em http://www.seriesestatisticas.ibge.gov.br/lista_tema.aspx?op=1&no=1&nome=brasil; na lista de séries, acessar SE17

[5] Conforme noticiado no Portal do Governo Federal, em http://www.brasil.gov.br/governo/2015/03/orcamento-de-2015-e-aprovado-pelo-congresso

Publicado por

joaoazevedojunior

I am a retired electronic engineer. who likes to write about issues that I consider interesting. I welcome your comments and constructive criticism.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s