DEUS NOS LIVRE DE SERMOS COMO A SUÉCIA!

No último post deste blog, intitulado “Até onde chegará a barbárie?” comentei sobre a nefasta influência da “esquerda humanitária” e sua filosofia do “coitadismo”, que transforma o bandido em vítima e, implicitamente, a vítima em culpada pela violência que sofreu.

O grau de imbecilidade e cegueira ideológica de algumas pessoas é inacreditável!  Uma pessoa (?) que se diz chamar “Léa Imperiana” postou no fórum de uma revista que trazia a notícia do assassinato a facadas do médico ciclista no Rio de Janeiro:

“- Uai, quem me garante que estes jovens não roubaram esta bicicleta para trocar por alimentos? A elite carioca adora exibir seus bens materiais caros na lagoa, esfregar na cara dos mais pobres a sua ótima condição financeira, e depois acham ruim que dois jovens, que na verdade são dois anjos sem asas, façam uma justiça social forçada. Graças a Deus temos um governo de esquerda que tá acabando com as desigualdades no Brasil. Pq se fosse na época do FHC teria mortes todos os dias. Hoje no governo do PT vc vê apenas poucos e isolados casos de violência. Com o PT o Brasil mudou para melhor…”

É mais provável que se trate de uma piada de péssimo gosto, mas quem pode afirmar? Albert Einstein disse certa vez: “Somente duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, e não tenho certeza quanto a primeira.”

Há alguns meses me parecia estranho como um “esquerdista humanitário” pode conciliar a ideia de que a violência no Brasil de hoje tem como causa principal a “exclusão social” e ao mesmo tempo dizer que  Brasil mudou para melhor.

É inegável que nos últimos anos o Brasil cresceu muito, e houve uma enorme redistribuição de renda, reduzindo a desigualdade e tirando dezenas de milhões de brasileiros da miséria. Ninguém pode contestar que o governo do PT resultou em muitas melhorias nas condições de vida para as pessoas mais humildes.

O que é questionável é o projeto daquele partido para eternizar-se no poder a qualquer custo, transformando a corrupção em prática de governo, numa proporção nunca vista antes, e sua tendência congênita ao autoritarismo.

Mas voltando ao ponto central deste post, se a tese do “coitadismo” fosse verdadeira, a lógica e o bom senso indicam que se deveria encontrar uma correlação negativa entre  fatores “bons” (que apontam para a melhoria das condições de vida da população) e um resultado “ruim” (que reflete a violência da sociedade), a taxa de homicídios por 100.000 habitantes [TH]. Correlação negativa quer dizer que se o fator aumenta (diminui) o resultado diminui (aumenta).

Para testar esta hipótese, levantei uma série de dados econômicos e sociais [1], considerando o período de vinte anos entre 1993 e 2012, que compreende os dois mandatos de FHC, os dois de Lula e quase todo o primeiro mandato de Dilma.

De fato, houve nesses anos um tremendo crescimento da país, um enorme aumento na renda per capita e um crescimento do IDH que chegou a ser qualificado pela ONU como notável.

No entanto, verifica-se, por exemplo, que:
– o PIB (em R$ de 2014) aumentou de 2,84 para 5,37 trilhões; a correlação com a TH é +0.599
– o PIB per capita (em R$ de 2014) aumentou de 18,7 para 27,5 mil; a correlação com a TH é +0,549
– o IDH aumentou de 0,614 para 0,730; a correlação com a TH é +0,729!!!

Ou seja, quanto mais melhoram as condições de vida do povo brasileiro mais cresce a violência. Por isto, Deus nos livre de sermos como a Suécia!

Como conciliar isto com a alegação de que a criminalidade tem como causa principal a “exclusão social”?

Volto a afirmar, ainda com mais convicção: a causa principal da violência no Brasil de hoje é a IMPUNIDADE,  que torna atrativo o caminho do crime.

NOTA EXPLICATIVA:

[1]Foram usados dados  de fontes insuspeitas: (a)  o IBGE para dados sobre o produto interno bruto e a população; (b) Relatório do Desenvolvimento Humano 2013 para informações sobre o IDH; (c) Mapa da Violência 2014 para as TH (d) quando necessário utilizei interpolação linear para suprir dados faltantes; tabela final disponível sob demanda.

ATÉ ONDE CHEGARÁ A BARBÁRIE?

LINS0027 - RJ - 19/05/2015 - CICLISTA/ASSASSINATO - CIDADES OE - O local onde foi assassinado o médico Jaime Gold, na lagoa, zona sul do Rio, recebeu visita da perícia e teve o policiamento reforçado nesta quarta-feira, 20. O local também recebeu cartaz em protesto de moradores da região. O médico foi assaltado por 2 menores enquanto pedalava, pouco depois das 19h30, quando ainda havia bastante movimento na região. Os supostos menores fugiram levando a bicicleta. Na foto, Polical Militar em bicicleta faz patrulha na ciclovia em que aconteceu o assassinato. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO
LINS0027 – RJ – 19/05/2015 – CICLISTA/ASSASSINATO – CIDADES OE – O local onde foi assassinado o médico Jaime Gold, na lagoa, zona sul do Rio, recebeu visita da perícia e teve o policiamento reforçado nesta quarta-feira, 20. O local também recebeu cartaz em protesto de moradores da região. O médico foi assaltado por 2 menores enquanto pedalava, pouco depois das 19h30, quando ainda havia bastante movimento na região. Os supostos menores fugiram levando a bicicleta. Na foto, Polical Militar em bicicleta faz patrulha na ciclovia em que aconteceu o assassinato. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Li recentemente um artigo intitulado “Nem o fuzil, nem a faca”, do advogado                 Dr. Fabrício Rebelo, diretor da ONG Movimento Viva Brasil e pesquisador de assuntos relativos à segurança pública.

O artigo trata dos crimes bárbaros cometidos no Rio de Janeiro com o uso de arma branca e em certo trecho afirma:

“O traço comum a qualquer desses ataques, ainda que variáveis sejam os instrumentos, se estabelece num conceito que atua como cúmplice dos agressores: a impunidade. É ela que aflora quando se esclarece menos de 10% dos nossos quase 60 mil homicídios por ano, a mesma que permite que um menor suspeito de assassinato tenha quinze passagens por casas de acolhimento, de onde sempre saiu no máximo em duas semanas. É igualmente a que concede a criminosos uma inesgotável série de benefícios, como indultos, “saidões” e afrouxamentos de regime, utilizados para reincidir no crime em mais de 75% dos casos.”

O Dr. Fabrício apresentou, a meu ver, uma formulação perfeita sobre a problemática da segurança brasileira.

Em minha opinião, enquanto não tivermos:

(a)uma força policial bem paga, bem treinada, bem equipada e livre da chaga da corrupção;

 (b) um sistema prisional decente, onde os criminosos não disponham de celulares nem possam comandar o crime de dentro dos presídios;

 (c) uma legislação rigorosa que imponha penas severas para crimes violentos, cumpridas integralmente sem possibilidade de progressão;

continuaremos a assistir horrorizados estes crimes bárbaros, cometidos com a certeza absoluta ou quase absoluta da impunidade. Se os assassinos forem menores não sofrerão nenhuma punição efetiva, estarão apenas sujeitos às “medidas socioeducativas”; se forem maiores de idade, terão cerca de 92% de chances de não serem presos (uma vez que no Brasil somente 8% dos homicídios são solucionados); se forem presos dificilmente ficarão mais que 6 ou 7 anos em regime fechado.

É possível fazer (a), (b) e (c)? Sim, desde que haja vontade política para tanto.

Mas (e sei que estou sendo um pouco panfletário)  enquanto o Estado brasileiro for dominado por esta mentalidade de “esquerda humanitária”, covarde, desfibrada e absolutamente favorável aos criminosos, viveremos neste clima de barbárie.

O que é a mentalidade da “esquerda humanitária”? E o pensamento esquizofrênico, que se recusa a reconhecer a realidade, e se sustenta em dogmas que contradizem o mundo real. Exemplos:

1) O criminoso é vítima da sociedade.
Não é verdade, tanto que a imensa maioria dos pobres não se torna criminosa, mas vive honestamente de seu trabalho. E muitos criminosos provêm da classe média e até mesmo da classe alta. Não somos fantoches nas mãos do destino, todo ser humano é responsável pelos seus atos. A leniência com os criminosos tem o efeito que se vê no Brasil: torna a opção pelo crime mais atrativa…

2) A finalidade do sistema prisional é recuperar o detento.
Sim, quando se trata de crimes menos graves e criminosos não reincidentes. Para criminosos habituais ou condenados por crimes gravíssimos (latrocínio, homicídio qualificado, etc… cabe à sociedade definir isto) a finalidade da prisão é isolar este bandido do convívio  social por décadas.

3) Todos os crimes são perdoáveis.
Sim, para Deus. O criminoso pode se arrepender, encontrar Jesus e a paz interior, mas a sociedade deve sinalizar que certos crimes serão punidos com o máximo rigor. Por exemplo matar alguém de maneira premeditada é um crime gravíssimo; fazê-lo a golpes de barra de ferro enquanto a pessoa dorme, sem possibilidade de defesa, é uma crueldade inominável; fazer isto com duas pessoas, que são seu pai e sua mãe é uma abominação no sentido bíblico; soltar o criminoso após meros 12 anos de prisão mostra que a justiça transformou-se em uma piada de mau gosto

4) Todo ser humano é recuperável.
Não é verdade. Há muitas pessoas que tem má índole ou que tiveram seu caráter deformado a tal ponto que não há mais recuperação e a sociedade tem que se proteger, mantendo-as encarceradas por longos períodos.

Mas o problema fundamental é que talvez nunca tenhamos a vontade política para resolver o problema da violência.

Infelizmente ideias como livre arbítrio, responsabilidade moral, punição efetiva estão muito distantes de nossa cultura enquanto nação; vivemos imersos em um preguiçoso fatalismo, onde tudo é culpa de fatores externos ao agente. Morrem centenas de pessoas em acidente causado por grossa negligência – uma fatalidade; queimam viva a dentista, estripam o médico – coitadinhos, são menores de idade; executam o policial de folga – ah, são vítimas da exclusão social; rouba-se descaradamente o Erário – veja, sempre foi assim.

É claro que um aumento exponencial na prevenção e na repressão ao crime não significa que as causas raízes da violência devam ser esquecidas. Saúde, educação de qualidade, moradia decente, transporte, etc. são direitos da população e obrigação do governo, para o qual cada brasileiro trabalha 150 dias por ano (impostos que paga). Mas a principal função do Estado é garantir que não prevaleça a lei da selva.

DONA SINHÁ MOREIRA – UM EXEMPLO PARA A ELITE BRASILEIRA

Dona Sinhá Moreira era uma legítima representante da aristocracia cafeeira, pertencendo a uma das famílias que constituíam o patronato político brasileiro, usando a denominação que Raymundo Faoro emprega em “Os Donos do Poder”.

Nasceu em 17/09/1907, filha do Coronel Francisco Moreira da Costa, um riquíssimo fazendeiro de Santa Rita do Sapucaí – MG, e de Dona Mindoca Rennó Moreira. Batizada Luzia Rennó Moreira, era chamada de Dona Sinhá pelos capatazes e empregados das fazendas de seu pai, e este apelido praticamente tornou-se seu nome. Teve formação educacional e cultural esmerada, com frequentes e longas viagens à Capital Federal.

Casou-se em 27/04/1929 com um primo, o diplomata Antônio Moreira de Abreu, obtendo a oportunidade de conhecer o mundo, fato raro para a época. Em 1942 retornou definitivamente para Santa Rita do Sapucaí, onde desenvolveu sua vocação de articulação política. Sobrinha do ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente da República Delfim Moreira, participava ativamente na política local.

Há pessoas milionárias que veem no dinheiro um objetivo em si. Pensam somente em acumular mais e mais bens, e ostentar sua fortuna adquirindo carros de luxo, iates, mansões principescas, etc., de forma a deixar claro que são “extraordinárias”, “superiores” ao comum dos mortais.

Quão iludidas estão! Tem a oportunidade de praticar o bem e não o fazem; não sabem usar suas fortunas da única forma que efetivamente poderia torná-las especiais: contribuindo para o bem-comum. Quando se forem, não serão lembradas senão pelo egoísmo, ainda assim apenas por alguns meses.

Dona Sinhá Moreira era riquíssima, mas tinha sabedoria e consciência social, usando o dinheiro como meio para exercer a filantropia e incentivar a cultura e o desenvolvimento de sua terra.

Todavia, Dona Sinhá não queria limitar-se ao assistencialismo. Sonhava mais alto e desejava proporcionar aos jovens a oportunidade de acesso a um curso profissionalizante de alto padrão e que lhes permitisse ingressar no mercado de trabalho já aos 18 anos. Em suma, um curso técnico de nível médio (antigo 2º grau). Após uma visita às instalações e conversas com professores do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) decidiu que o curso deveria ser voltado para a Eletrônica.

Em 1959 inaugurou a primeira escola de eletrônica da América Latina, a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa, cuja administração entregou aos padres jesuítas, e que foi a semente do Vale da Eletrônica (clique aqui para assistir ao vídeo sobre como Santa Rita do Sapucaí se transformou em um polo de tecnologia).

Na época, a grande escritora Rachel de Queiroz escreveu a respeito: “Na sua modéstia, na sua simplicidade, Dona Sinhá Moreira dá um lindo quinau nos nossos ricaços de vistas curtas, que cuidam só de servir o dinheiro para luxos de novo-rico, e exibições no El morocco e no Elephant Blanc. Milionário brasileiro ainda não aprendeu que, no mundo de hoje, o rico tem de se fazer perdoar pela sua riqueza, suprindo, com iniciativas de cultura e assistência social, as lacunas do serviço público. E então aqui, onde o imposto de lucros extraordinários não funciona, e o imposto de renda só onera realmente os assalariados, eles deviam, mais que nenhum outro, pensar um pouco nos problemas de seu país.”(Raquel de Queiroz. Revista “O Cruzeiro”, 14/03/1959)

Quis o destino que Dona Sinhá não pudesse estar presente à formatura da primeira turma da escola que havia criado. Abatida pelo câncer, veio a falecer em 03/03/1963. Deixou boa parte de sua fortuna para a Fundação “Dona Mindoca Rennó Moreira”, mantenedora da ETE.

As ações de Dona Sinhá, orientadas por uma visão extremamente lúcida do futuro, mudaram o destino de Santa Rita e beneficiaram milhares e milhares de pessoas de todas as partes do Brasil. É por isto que, mais de 50 anos após sua morte, esta extraordinária senhora é ainda amplamente lembrada na cidade, com admiração e respeito.

Para assistir um vídeo sobre a vida de D. Sinhá Moreira, clique aqui (são três partes).

Notas explicativas:

  1. A idéia de escrever este post surgiu após ler uma resenha sobre o livro Sonho Grande (clique aqui para ver a resenha), onde consta que Jorge Paulo Lemann (o homem mais rico do Brasil segundo a revista Forbes) “tem se dedicado muito à educação, acreditando que assim poderá mudar o país também.” Pensei imediatamente no caso de D. Sinhá Moreira, que através de sua generosidade e suas ações, efetivamente mudou o futuro de uma cidade e de milhares de brasileiros de todos os cantos deste país.
    Esperemos que o sr. Lemann e muitos outros milionários brasileiros sigam o exemplo de D. Sinhá Moreira e realmente contribuam para a melhoria de nosso cenário social, ainda tão marcado pela desigualdade.
  2. Na internet há um biografia muito resumida de D. Sinhá, que usei como fonte para alguns dados; a referência é: Sinhá Moreira. In: Wikipédia, a enciclopédia livre [Em linha]. Florida: Wikimedia Foundation, 2015, rev. 2 Maio 2012. [Consult. 22 mai. 2015]. Disponível em WWW:<http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Sinh%C3%A1_Moreira&oldid=29930379

SOBRE O LIVRO: “THE FIRST COMING – HOW THE KINGDOM OF GOD BECAME CHRISTIANITY”

The First Coming: How the Kingdom of God Became ChristianityThe First Coming: How the Kingdom of God Became Christianity by Thomas Sheehan

Meu conceito: 5 de 5 estrelas

“The First Coming – How the Kingdom of God Became Christianity”, escrito por Thomas Sheehan e publicado em 1986, é um livro muito perturbador, Quando o li pela primeira vez, há mais de 25 anos, minha impressão foi de que o autor colocava em dúvida os fundamentos do cristianismo.

Mesmo nos dias atuais, creio que muitos cristãos se sentirão confusos e talvez até um pouco indignados com a leitura deste livro, visto que os assuntos nele abordados não são conhecidos pela maioria dos fiéis, embora estejam em discussão a pelo menos dois séculos e provavelmente sejam familiares à hierarquia das várias denominações cristãs.

Em resumo, o livro procura responder duas questões:
1. Como Jesus, que nunca se declarou o Messias, e muito menos um ser divino, passou a ser interpretado como Deus Encarnado?
2. O que Jesus pensava sobre si mesmo e sua missão?

É a busca do Jesus histórico, a partir das informações disponíveis sobre o Cristo da Fé. Para os Cristãos que adotam a interpretação literal da Bíblia, como é o caso de várias denominações evangélicas, esta empreitada é inútil e até herética, pois a vida de Jesus está narrada em detalhes nos Evangelhos; tudo que ele disse e fez está nestes livros.

No entanto, há outras igrejas cristãs que aceitam que a Bíblia foi inspirada por Deus mas escrita por homens e mulheres comuns, sujeitos às circunstâncias de seu tempo e de sua cultura. As igrejas protestantes tradicionais e a Igreja Católica não consideram que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente [1]. Por exemplo, a Pontifícia Comissão Bíblica, em um documento de 1993 intitulado “A Interpretação da Bíblia na Igreja” expressa claramente este posicionamento:

“O método histórico-crítico é o método indispensável para o estudo científico do sentido dos textos antigos. Como a Santa Escritura, enquanto « Palavra de Deus em linguagem humana », foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes, sua justa compreensão não só admite como legítimo, mas pede a utilização deste método. (meu destaque)

É claro que, mesmo aceitando que o texto bíblico deve ser interpretado, as religiões organizadas colocam limites às conclusões aceitáveis, ou seja, aquelas que não questionam os pontos centrais da doutrina.[2]

O autor permanece nestes limites quando explica as teorias geralmente aceitas sobre como os Evangelhos foram escritos, o fato de que estes livros não são uma biografia de Jesus, no sentido moderno da palavra, mas sim textos religiosos, que expressam os pontos de vista de diferentes comunidades cristãs sobre Jesus.

Considerando a cronologia dos textos das Escrituras cristãs (Epístolas de Paulo / Marcos / Mateus / Lucas / João) verifica-se uma progressiva elevação dos status de Jesus, que evolui de mártir tornado o Messias após a sua morte até o Filho Unigênito de Deus pré-existente ao Cosmos.

Com alguma dificuldade, ainda é possível acomodar esta leitura a uma interpretação ultraliberal das escrituras, admitindo que a evolução gradual da cristologia ocorreu sob a inspiração divina, que aos poucos foi revelando aos primeiros cristãos a verdadeira natureza de Jesus. Numa entrevista, Thomas Sheehan chama esta interpretação de “a última trincheira dos teólogos liberais”

.
Quando discorre sobre a ressurreição, o autor nega que esta seja um evento histórico, sugerindo que, assim como as aparições aos discípulos, trata-se de uma visão religiosa.
Estas ideias seriam certamente condenadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, órgão do Vaticano encarregado de preservar a pureza doutrinária, protegendo-a de interpretações que não estejam de acordo com a ortodoxia vigente.

Em 2004, o documento “Notificação sobre o livro “Jesus Symbol of God” do Padre Roger Haight, S. J.” [3] condena explicitamente a interpretação simbólica da ressurreição:

“A apresentação que o Autor faz da ressurreição de Jesus é guiada pela sua concepção da linguagem bíblica e teológica como “simbólica de uma experiência que é historicamente mediada” (p. 131) e pelo princípio de que “ordinariamente não se deveria supor que se tenha verificado no passado uma coisa que hoje é impossível” (p. 127).[…]
A interpretação do Autor leva a uma posição incompatível com a doutrina da Igreja. Ela é elaborada com base em pressupostos erróneos e não com base nos testemunhos do Novo Testamento, segundo os quais as aparições do Ressuscitado e o sepulcro vazio estão na base da fé dos discípulos na ressurreição de Cristo e não o contrário.”

Outro ponto elaborado no livro é que Jesus não anunciava o Reino de Deus como algo que viria a concretizar-se num futuro próximo, através de um confronto final entre o Bem e o Mal, precedido por cataclismos em escala cósmica e seguido pela criação de um universo novo e perfeito. Em outras palavras. Jesus não seria um profeta apocalíptico; seus ensinamentos teriam porém sido inseridos no contexto apocalíptico do judaísmo no século I.

De acordo com Sheehan, Jesus pregava que o Reino de Deus já se manifestava entre nós e que se concretizaria através da mudança interior e de um novo relacionamento entre os seres humanos, pautado pela justiça e pela fraternidade.

O debate sobre o caráter apocalíptico ou não apocalíptico dos ensinamentos de Jesus continua até os dias de hoje, e há teólogos renomados em ambos os lados da questão.[4]

Em última análise, a ideia-força que sustenta o livro é de que o que hoje entendemos como cristianismo é apenas uma das possíveis interpretações dos ensinamentos do Jesus histórico (e nem sequer a melhor) .

Notas:
[1] Dado que Thomas Sheehan provém de uma tradição católica (foi seminarista por 10 anos) e lecionou na Loyola University (jesuíta) entre 1972 e 1999 citarei apenas documentos publicados pela Igreja Católica.
[2] Esta é a principal razão pela qual considero que as metodologia da Ciência e da Teologia são incompatíveis; veja o post “Refletindo sobre Metafísica: Ciência x Religião” neste blog.
[3] Em 2009 o padre Roger Haight, S. J. foi proibido de publicar livros ou artigos sobre Teologia e de dar aulas, mesmo em instituições não católicas.
[4] A este respeito, veja-se por exemplo:.ALLISON, Dale C. et al. The Apocalyptic Jesus: a Debate. Santa Rosa: Polebridge Press, 2001

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SOBRE O LIVRO: “PET SEMATERY”

Pet SemataryPet Sematary by Stephen King
Meu conceito: 4 de 5 estrelas

O Dr. Louis Creed, um médico de Chicago, muda-se para a pequena cidade de Ludlow, no Maine, com sua esposa Rachel e dois filhos, para trabalhar como chefe da enfermaria do campus local da Universidade do Maine. A família se instala em um belo casarão e rapidamente tornam-se amigos de Jud e Norma Crandall, um casal de idosos que mora do outro lado da estrada e sempre viveu naquela área. Os Creed logo descobrem que a trilha que adentra a mata, localizada atrás do casarão, leva a um cemitério de animais, onde as crianças costumavam enterrar seus bichos de estimação. No primeiro dia de trabalho do Dr. Creed na Universidade um jovem fatalmente ferido é levado à enfermaria. Ele tem o pescoço quebrado e perda de massa encefálica. Mas o rapaz agonizante diz ao médico: “Não é o cemitério real” e então algo que o Dr. Creed ouvirá novamente num futuro próximo “O solo do coração de um homem é mais pedregoso; ele cultiva o que é possível e cuida disso…. ”
Algumas semanas mais tarde, Louis está sozinho em casa; os filhos e a esposa haviam viajado para visitar os pais dela. O gato de sua filha morre e Louis está muito preocupado sobre como dar a notícia triste para uma garotinha de 5 anos. É então que Jud Crandall conta a ele sobre o outro cemitério de animais, bem mais distante no interior da mata. De agora em diante, a narrativa se torna uma arrepiante história de morte, maldade e loucura. O ritmo da narrativa é bom e achei as descrições das jornadas noturnas para a floresta bem elaboradas e capazes de transmitir o pavor dos personagens.

Recomendo este livro para aqueles que apreciam o gênero literatura de horror. Publicado no Brasil como “O Cemitério.

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COM REFERÊNCIA AO POST SOBRE O LIVRO “NUCLEAR WAR….”

Recentemente postei um comentário sobre o livro “Nuclear War: What’s in it for you?” no qual afirmei: “Hoje a possibilidade de um holocausto nuclear parece ser muito menor do que 30 ou 40 anos atrás, e a maioria do livro é datada. No entanto, o fato é que a humanidade ainda tem o poder de aniquilar a si mesma, possivelmente levando junto a maioria das formas de vida do planeta Terra.”

Sem dúvida, a possibilidade é bem menor, mas este artigo analisa a situação atual da Rússia e fala sobre eventos que poderiam levá-la a uma guerra com os Estados Unidos. Veja em U.S. and Russia stumbling to war?, um artigo referenciado no blog Political Violence @ a Glance, que venho seguindo há algum tempo  e que enfoca o trabalho de cientistas políticos e publicações sérias.

Quero dizer, não é coisa daqueles malucos que ficavam anunciando que o mundo ia acabar em 2012 porque estava determinado pelo calendário maia…

The Benefits of Learning a Language

Ótimos infográficos neste site da Kaplan; este é sobre os benefícios de aprender um idioma estrangeiro. Permito-me uma recordação a este respeito.
Consegui meu primeiro emprego como engenheiro em 1979, e um fator determinante para ser admitido foi o fato de que eu conseguia me comunicar em inglês, pelo menos bem o suficiente para passar por uma entrevista técnica com um engenheiro americano. Uma grande empresa multinacional americana estava construindo uma nova fábrica no Brasil e precisava contratar vários engenheiros e enviá-los para a Califórnia para treinamento no trabalho. Portanto, saber um pouco de inglês era essencial para obter o emprego. Em 1979, engenheiros recém-formados que falassem inglês razoavelmente bem não eram tão comuns.
Atualmente, saber inglês nível avançado é quase uma exigência padrão para trabalhar em uma multinacional; algumas empresas estão agora a pedir uma terceira língua (acho que em poucos anos o mandarim chinês será uma obrigação…). O mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e o pessoal mais jovem tem que se preparar muito bem, o que inclui aprender outros idiomas..

Mert Arkan's WordPress Blog

Here’s a great infographic from Kaplan and found here:

Kaplan: Benefits of Learning a Language, post by Mert Arkan http://www.kaplan.com/ and found on http://larryferlazzo.edublogs.org/2013/09/04/the-best-infographics-about-teaching-learning-english-as-a-second-or-third-language/

Do you speak another language fluently?

– Mert Arkan

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