LÁ COMO CÁ? DOIS CORRUPTOS CONCEDEM ENTREVISTAS

A raiz de muitos dos males que desgraçam esta nação  é uma só: a impunidade. Nascem daí frutos malditos como a violência assassina e a corrupção. Colocado de maneira simples: no Brasil o crime compensa e está em situação vantajosa aquele que tem a consciência suficientemente flexível para se tornar um canalha; a ele tudo será dado e nada lhe será tirado… .

Deixando de lado os argumentos históricos, sociológicos, psicológicos, etc., permito-me limitar este comentário à narrativa de fatos ilustrativos de por que o Brasil é o que é e não o que poderia ser. São casos extremos, mas servem para ressaltar a questão central..

Cena I: Estados Unidos,  final da década de 1980: um dos secretários de estado de New York, se não me falha a memória da área de transportes,  foi apanhado num esquema de propinas. Ao ser acusado, e ciente de que havia provas incontestáveis de sua culpa, este senhor convocou a imprensa para uma entrevista coletiva e, no decorrer da mesma, tirou de um envelope pardo um revolver de grosso calibre e matou-se com um tiro na boca. Ele sabia que seria preso, condenado a longos anos de prisão, teria que devolver todo o dinheiro roubado, além de pagar multas pesadíssimas, ou seja, perderia a liberdade e ficaria arruinado.

Pano rápido.

Cena II: Brasil, início da década de 2010: funcionários da prefeitura de São Paulo são pegos envolvidos em fraude na arrecadação de ISS (estimativa do valor roubado: R$500.000.000,00). Um dos auditores fiscais envolvidos, criminoso confesso, é entrevistado por um repórter da rede Globo; está na internet, basta fazer uma procura por “Fantástico corrupção prefeitura São Paulo”. No final da entrevista, durante a qual o entrevistado descreve a vida nababesca que o dinheiro sujo lhe proporcionava, o repórter lhe pergunta: “Você não se arrepende de ser um corrupto?”; o jovem senhor responde, com um meio sorriso nos lábios, “Esta pergunta eu não sei lhe responder…”.

Quem quiser saber o que aconteceu com os envolvidos, faça uma busca na internet e depois julgue por si mesmo que resposta o entrevistado provavelmente daria hoje….

Enquanto não tivermos uma Justiça rápida e eficaz, que assegure a punição efetiva do desrespeito às leis, a corrupção e a violência só irão aumentar, simplesmente devido à
relação custo/benefício.

CANDIDATOS E ELEITORES

Dentro de um mês elegeremos o presidente ou a presidente, governadores, senadores e deputados federais  e estaduais. Pouco menos de 143.000.000 de eleitores devem comparecer às urnas para escolher  seus representantes.

A propaganda eleitoral demonstra de forma cabal a inadequação de nosso sistema político. Para começo de conversa, são 32 partidos! É possível imaginar que existam 32 linhas de pensamento na política, tão distintas que exijam um partido exclusivo? É claro que não! O bom senso e a história parecem indicar que dois a cinco partidos são suficientes para abrigar todas as tendências. A consequência da proliferação descontrolada de partidos políticos é que a grande maioria consiste em legendas inexpressivas e de caráter personalista, sem uma proposta séria para governar o país

Estes 32 partidos, aliados nas mais esdrúxulas combinações, apresentam 12 candidatos a presidente, dos quais apenas dois ou três possuem chances reais de disputar o cargo. Os outros apenas marcam posição ou, o que é pior, se cacifam para negociar cargos e privilégios em troca do apoio a um dos concorrentes em eventual segundo. Bem ou mal, as ideias dos presidenciáveis são discutidas ao longo da campanha. Há debates entre os candidatos e se conhece em linhas gerais a proposta de cada um. O mesmo pode ser dito quanto aos candidatos ao Senado, no mais das vezes políticos muito conhecidos.

O grande enigma que o eleitor enfrenta é com relação aqueles que pleiteiam os cargos proporcionais:   7140 candidatos a deputado federal e 16994 candidatos a deputado estadual. O que pensam estas pessoas? Porque estão se candidatando? Qual a proposta partidária da  legenda pela qual se apresentam?

Nem mesmo o mais consciente dos eleitores teria tempo e paciência para ler os programas dos 32 partidos e basear sua decisão de voto em tal ou qual candidato nesta informação. E se o fizer, não há qualquer garantia de que as ideias que o partido diz defender sejam apoiadas pelo candidato em quem votou. Este poderá trocar de partido no dia seguinte ao da posse, bandeando-se para outra agremiação cujo programa é completamente diferente do programa do partido pela qual foi eleito!

Se os programas partidários pouco adiantam para que o eleitor saiba o que os futuros legisladores pensam, a propaganda gratuita também nada esclarece. O que se vê é uma ridícula sucessão de imagens onde desconhecidos pronunciam frases desconexas ou banalidades como: “Sou a favor da educação e da saúde!” (alguém é contra?) Assim, os votos para deputados federais e estaduais é muito mais baseado em fatores pessoais do que em ideias e propostas. Pessoas conhecidas (por exemplo: Tiririca,  Clodovil, Romário, etc.) ou pertencentes a uma “dinastia” política (por exemplo: os Andrada em Mina Gerais, os Sarney no Maranhão, etc.) costumam eleger-se sem grande dificuldade; em outros casos o voto representa um interesse difuso, em geral  religioso, profissional  ou de classe social ( empresários, ruralistas, etc.).

O sistema eleitoral cria uma classe política distante do eleitorado, a quem não dá maiores satisfações por seu desempenho e por seu comportamento ético. Os eleitores, por sua vez, consideram que sua participação se limita ao momento do voto. Quem se lembra do deputado federal em quem votou na última eleição? E no estadual? Se eleitos, o que eles fizeram nestes últimos quatro anos? Que projetos apresentaram? Honraram o mandato recebido, ou tiveram seu nome ligado a algum dos inúmeros escândalos e negociatas que a imprensa noticiou amplamente? Antes de votar em algum candidato à reeleição, vale a  pena consultar a Transparência Brasil.

Dizem que cada povo tem o governo que merece e fico  pensando se isto não é mesmo verdade. Em  alguns estados, uma parcela significativa dos eleitores vota em candidatos comprovadamente desonestos, julgados e condenados em juízo. Estes eleitores pecam por ação. Mas a imensa maioria, na verdade quase todos nós, pecamos por omissão.