Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (7)

Em 1968, no dia7 de julho, no final da tarde, vi o mar pela primeira vez. Como bom mineiro, fiz questão de experimentar um gole da água, para comprovar que era salgada.  O “tira-teima” ocorreu na praia de São Francisco, município de São João da Barra,   estado do Rio de Janeiro.

A foz do rio Paraíba situa-se em São João da Barra; o rio  divide o município em duas partes. A sede fica na margem sul e o restante – uma área muito maior, que se tornou mais tarde o município de São Francisco do Itabapoana – fica na margem norte. Neste  território,  entre os  rios Paraíba e Itabapoana, na divisa com o Espírito Santo, é que se localiza a praia de São Francisco. Há muitas outras praias neste trecho, tais como Tropical, Santa Clara, Sonhos, Sossego e Guaxindiba, todas contíguas, formando uma faixa de areia com extensão de pouco menos de 40 km.

Esta praia era tida como a mais próxima de Belo Horizonte em linha reta. O problema era que não havia como ir até lá seguindo em linha reta, visto que ninguém tinha asas. Na realidade, chegar até a Praia de São Francisco era uma pequena odisseia.

Uma das opções era ir de BH até Juiz de Fora, de Juiz de Fora até Itaperuna, de Itaperuna até Campos dos Goytacases e de Campos até a praia de São Francisco. Em cada uma das baldeações (Juiz de Fora, Itaperuna e Campos) era necessário esperar algumas horas pelo próximo ônibus.

O trecho Campos – São Francisco era de terra e viajava-se em uma lotação caindo aos pedaços, com umas 80 pessoas a bordo. Levava-se pouco menos de 24 horas para vencer os 800 km que separam a Cidade Jardim e o mar oceano…

O que tem esta praia a ver com Belo Horizonte? Tem tudo a ver, porque a quase totalidade dos turistas que a visitavam procediam daquela cidade. E a razão disto era o fato de que o pioneiro na promoção do turismo naquela região tinha vindo de Belo Horizonte. Chamava-se Oswaldo Barbosa de Rezende, o “seu” Oswaldo como era conhecido por todos.

“Seu”Oswaldo fora durante muitos anos um pequeno empresário em Belo Horizonte.  Era um empreendedor e visionário; a certa altura de sua vida decidiu mudar-se para a praia e ali construir um hotel, que se chamaria Mar-y-sol. Quando o conhecemos, ele e a esposa, Dona Eny, e três dos quatro filhos do casal moravam na praia. Eram um casal boníssimo e se tornaram muito amigos de meus pais.

Em 1968 a praia de São Francisco e toda a região circunvizinha estava ainda alheia ao progresso. Não havia luz elétrica, as estradas eram de terra, o transporte coletivo era inexistente e o comércio local se resumia a algumas vendas. Não havia então mais que umas 50 casas de alvenaria na  praia.

O hotel, como estava nos sonhos de “seu” Osvaldo, nunca chegou a tornar-se realidade,  e a hospedagem na praia funcionava de forma incomum. “Seu” Oswaldo e sua família residiam no segundo andar de um casarão; o primeiro andar abrigava a sala de estar, o refeitório e a cozinha do hotel. Havia um gerador no casarão, de modo que era possível assistir televisão até as 22 horas, quando o gerador era desligado.

As acomodações dos hóspedes ficavam em uma edificação situada a cerca de 1 km de distância. Isto significa que, logo após acordar o hóspede tinha que andar uns 15 minutos à pé para tomar o café da manhã…

Apesar das condições primitivas de hospedagem, foram ótimas férias.  Meu pai, que já estava se preparando para a aposentadoria, não fez por menos – comprou uma casa em frente ao hotel.  Pouco mais de dois anos depois, no início de 1971, meus pais vieram morar nesta praia e eu fui estudar eletrônica em Santa Rita do Sapucaí – mas isto é outra história.

Quando se tem uma casa na praia, a tendência é sempre ir para este lugar em todas as férias. E, de fato, entre 1968 e 1973 passei todas as férias – eram então quatro meses por ano – na praia São Francisco.

Fomos muitas vezes para a praia com minha irmã e sua família; algumas vezes  meu irmão e família se juntaram a nós e estivemos todos reunidos.  Hoje, quando tantos já partiram, alguns de maneira trágica e inesperada, e a saudade e a dor da perda me enchem os olhos de lágrimas, tenho plena consciência de como foram preciosos aqueles momentos que passamos juntos.

Na praia vi muita coisa nova e vivi muitas experiências interessantes. Há algumas que estão inseparavelmente ligadas àquele local. Alguns pensamentos que me ocorrem e vale a pena mencionar:
– o esplendor do céu estrelado, quando não havia luz elétrica, era infinitamente superior ao que se observa nas cidades;
– a natureza ainda bem preservada, com vários pássaros e plantas e frutas que não conhecia até então;
– os longos passeios de bicicleta, nas ruas de terra quase planas e na estrada à beira mar que levava até o porto de Gargaú, a cerca de 8 km de distância;
– as pescarias na beira da praia, cujo horário dependia do fluxo das marés, e era calculado usando o “Almanaque do Penamento”; as chumbadas, com garras e umas 250g de peso, nós mesmo fazíamos usando formas enterradas na areia;
– os arrastões que os pescadores faziam todas as manhãs, vendendo  peixes e camarões ainda vivos, ali mesmo na praia (nota para os mais jovens: originalmente, arrastão NÃO significa “grupo de marginais assaltando cidadãos desemparados pela absoluta incompetência do Estado brasileiro em garantir a segurança pública”, mas sim “tipo de pescaria realizado no mar, com redes de centenas de metros de comprimento”);
– os passeios de carro com “seu” Oswaldo ou seu filho mais velho, Ricardo; quando víamos que eles iam sair, eu e um ou mais de meus sobrinhos corríamos até o carro e perguntávamos se podíamos ir; geralmente a resposta era “sim” e lá íamos nós no banco de trás, conhecendo as estradas  e vilas da região.

Para encerrar este texto, narro um fato que presenciei e para o qual nunca tive uma explicação convincente. Isto ocorreu no final de janeiro de 1970, não me lembro exatamente o dia. Recordo com clareza que não havia lua e que era um dia de semana, de modo que recorrendo a uma tabela de lunações minha conclusão é que deve ter sido entre os dias 26 e 30 de janeiro.

Tinha 13 para 14 anos, não consumia álcool e muito menos drogas, não tomava qualquer  medicamento e nunca tivera problemas neurológicos, o que me leva a crer que o que vi foi real e não apenas uma ilusão.

Passava um pouco de uma hora da madrugada e todos haviam ido dormir; não havia qualquer movimento de pessoas ou veículos nas ruas e só se ouvia o ruído do vento e do mar. Eu estava no quintal, olhando o céu maravilhosamente estrelado; estava voltado para o oeste, ou seja, o lado da terra. De repente, observei à esquerda um ponto luminoso, semelhante ao planeta Venus em termos de brilho, a meia altura entre a linha do horizonte e o topo da abóboda celeste. De repente, este ponto se moveu a uma velocidade incrível – seria mais adequado dizer que sumiu e reapareceu – e em questão de um ou dois segundos vi o ponto luminoso do lado direito. Mais alguns segundos e novamente um movimento, desta vez para o centro  e para o alto, desaparecendo em seguida. Nenhum ruído, nenhum rastro luminoso.

Isto, tanto quanto consigo recordar, foi o que vi naquela noite. Quem puder que me explique, pois até hoje não sei o que possa ter sido.

Publicado por

joaoazevedojunior

I am a retired electronic engineer. who likes to write about issues that I consider interesting. I welcome your comments and constructive criticism.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s