Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (6)

Já mencionei as escolas onde estudei e muitos dos professores e professoras que tanto contribuíram para que eu pudesse vencer os desafios que viriam no futuro. Mas, é claro, a vida não se resumia ao  estudo;   havia muito tempo para brincar e envolver-se no que hoje eu chamaria de aventuras.

Recordo com saudade os amigos daquele tempo, que nunca mais tive a oportunidade de reencontrar. De uns lembro o nome completo (que  vou preservar) , de outros apenas o primeiro nome, de todos a amizade. Nos parágrafos seguintes lembranças sobre alguns deles.

Sérgio, filho do Dr. Sylvestre e da D. Maria Luiza, ambos de tradicionalíssimas famílias de Minas Gerais; era craque no futebol, que  jogávamos no pátio  do prédio, e também no futebol de botão, que jogávamos no hall de entrada. Ainda tenho livros que me foram dados pelo Dr. Luis,  avô materno de Sérgio.

Flávio, filho do Dr. Caio e de D. Lourdes, de quem me tornei amigo após apertar acidentalmente seus dedos ao fechar uma porta no Grupo Escolar Pandiá Calógeras. O Flávio possuía um autorama,   brinquedo caríssimo para a época; quase toda semana eu pegava o troleibus na Avenida do Contorno e ia até a casa do Flávio, onde brincávamos horas e  horas, apostando corridas no circuito em forma de oito.

Vianey,  nome adotado pelo garoto Yuen, cujo pai era dono de um  ótimo restaurante chinês que, acredito, funciona até hoje; talvez pertença à mesma família.

Túlio, criador da série SATÚLIO de veículo lançadores  – ou quase, pois não sei se algum deles chegou a sair do chão – que era a versão curumim dos  poderosos SATURNO da NASA. É bom lembrar que, não estando  disponível o oxigênio sólido usado como combustível pelos norte-americanos, os SATÚLIO eram movidos (?) a pólvora.

Marco Antônio, cujo pai era jornalista e ativista político. O pai de Marco foi perseguido pelo regime militar e  refugiou-se no consulado chileno, onde ficou até obter um salvo-conduto. Foi para o Chile e sua família o seguiu algum tempo depois. Isto foi em 65 ou 66 e não sei o que lhes aconteceu mais tarde, visto que em 1973 instalou-se naquele país uma brutal  ditadura militar, liderada pelo ultra-direitista General Augusto Pinochet.

Alberto, que estava dispensado de frequentar as aulas de sábado, porque era o Sabath, dia consagrado à adoração do Altíssimo, na milenar tradição de seu povo.

E tantos outros, que deixo de mencionar para que este texto não se torne demasiadamente longo. Quem sabe algum dos meus  antigos amigos e colegas leia estes escritos e possa também lembrar-se de como era BH e de como éramos nós.

Cada época havia uma  brincadeira que era mais popular. Algumas tradicionais, como bola de gude, finca ou pebolim, outras que alguém inventava e que não eram tão disseminadas,   porque exigiam instalações ou equipamento especial.

Um exemplo do primeiro caso (instalações especiais) foi um “esporte” que praticamos durante  algum tempo no ginásio. O Anexo Santo  Antônio tinha um terreno enorme, que não era nem cimentado nem gramado, mas de terra batida, e servia de pátio. As quadras de esporte ficavam em um nível bem mais alto que o pátio e entre os dois níveis havia uma rampa íngreme, esparsamente gramada.

A topografia do local deu origem ao que chamávamos de “Guerra no Morro”. As regras eram  simples: uma turma ficava no alto, outra turma ficava em baixo, os de baixo tinham que subir e os de cima não podiam descer; a partida acabava quando um “baixista” chegava ao topo ou um “altista” despencava até o pé da rampa; enquanto isto não acontecia, valia quase tudo – rasteiras, empurrões, dois ou mais contra um só adversário, etc; socos, pontapés, cotoveladas não eram permitidos,  embora ocorressem de vez em quando. Na realidade, uma espécie de rugby sem bola e em plano inclinado.

Um exemplo do segundo caso (equipamentos especiais) foi um outro “esporte” extremamente perigoso e que, felizmente, praticamos poucas vezes, acho que não mais que duas: o tiro com “pistolas” caseiras, sobre cuja fabricação prefiro não dar detalhes, pois esta maluquice pode mutilar ou matar o atirador e/ou outras pessoas.

Até trabalhos escolares eram fonte de aventuras e descobertas. No segundo ginasial, se não me falha a memória, o trabalho de Ciências era montar uma coleção de insetos, usando caixas de papelão forradas com uma placa de isopor e organizando os exemplares de acordo com a ordem. Besouros espetados em alfinetes na seção dos coleópteros, mosquitos e pernilongos colados em pedacinhos de cartolina na seção dos dípteros, tudo de acordo com o livro “Entomologia para Você”, de Messias Carrera, adquirido espeecialmente para o trabalho, e que ainda está em minha biblioteca.

Na busca de insetos mais exóticos do que aqueles normalmente encontrados em uma residência, andei bastante pelo bairro de Lourdes e adjacências, tentando capturar novos exemplares nos muitos terrenos baldios que existiam na região. Não havia ainda esta violência desenfreada que desgraça nosso país, e um garoto de 12 anos podia andar sozinho por Belo Horizonte sem maiores preocupações.

Nas férias escolares viajávamos eu e minha mãe para o sul de Minas ou, a partir de 1968, para uma praia que estava muito ligada a Belo Horizonte. No próximo post falarei sobre estas viagens.

[continua]

Publicado por

joaoazevedojunior

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