Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (5)

Em 1966 o ensino público era bom, mas nem todos tinham acesso a ele. Quando se terminava o 4º ano do chamado curso primário, a continuação dos estudos em uma escola pública não era garantida. Não havia vagas suficientes, e para iniciar o curso ginasial, que durava quatro anos – corresponde ao que hoje seriam  a 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries – era necessário fazer um exame de admissão.

Era um mini-vestibular e quem era reprovado tinha duas opções: (1) preparar-se melhor, talvez fazendo um curso de admissão,  e tentar novamente no ano seguinte, ou; (2) matricular-se em uma escola particular.

Em 1966 eu cursava o 4º ano primário, portanto já estava na hora de começar a pensar no exame de admissão. No caso, a melhor opção era o Colégio Estadual de Minas Gerais, um dos mais prestigiosos do estado, considerado um referencial de excelência.

Sala de aula: “a régua”

Havia duas unidades da Colégio Estadual próximas de casa. Uma era a Central, projetada por por Oscar Niemeyer; seus prédios tinham formas que lembravam objetos usados em uma escola.

Auditório: “o mata-borrão”

Na unidade Central funcionava somente o curso científico; as classes do curso ginasial se localizavam no Anexo Santo Antônio, que tinha este nome porque ficava no bairro Santo Antônio  e era adjacente à unidade central.  Na realidade, os fundos das duas unidades ficavam em calçadas opostas da mesma rua e ambas compartilhavam as quadras e a piscina semi-olímpica.

A entrada do Anexo Santo Antônio ficava na Rua Felipe dos Santos. Eram três ou quatro quarteirões de onde morávamos – é verdade que uma subida íngreme, mas isto não era então um problema. O problema é que o Colégio Estadual era um dos mais concorridos, de modo que uma boa classificação no exame era essencial para conseguir uma vaga.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre esta escola, e o exame de admissão, recomendo a  leitura da tese de doutorado da Prof. Dra.  Aleluia Heringer Lisboa Teixeira, intitulada “Uma Escola Sem Muros”: Colégio Estadual de Minas Gerais (1956-1964).

Mamãe havia sido professora durante quase trinta anos e se aposentara pouco antes de nossa mudança para Belo Horizonte. Ensinar era sua vocação natural, refinada por décadas de experiência. Assim, em meados de 1966 comecei a me preparar para o exame de admissão, em casa mesmo, tendo mamãe como professora.

 Quando  prestei o exame havia 120 vagas para o Anexo Santo Antônio e pelo menos meia dúzia de candidatos por vaga; fui classificado em 22º lugar. No início de 1967 comecei o curso ginasial.

A disciplina era rigorosa. Os portões se fechavam às 7:30 e ninguém entrava após este horário.  Não se entrava também sem o uniforme completo: calça cinza, camisa impecavelmente branca de mangas compridas, com um friso verde na gola e nos punhos e o distintivo do colégio no bolso; sapatos e meias pretas. No verão admitia-se uma versão do uniforme com camisa de mangas curtas.

Tínhamos uma carteira para registro de notas e de frequência, que era entregue a um bedel na entrada e devolvida ao aluno na saída; não se entrava na escola sem a carteira. As provas eram bimestrais; depois que as notas eram lançadas na carteira, não se permitia a entrada do aluno se não houvesse a assinatura do paí ou responsável indicando que tivera conhecimento das mesmas.

De maneira geral, os professores eram muito bons e vários eram excelentes.  Até hoje recordo a competência com que ministravam   suas aulas, embora me falhe o nome de alguns. Graças a estes mestres, adquiri uma formação  básica que foi muito útil ao longo de minha vida.  Foram professores que realmente sabiam ensinar e, mais importante, estimular os alunos a querer aprender. Cito alguns como D. Cleuza (Inglês, 1ª série – 1967) e sua irmã  D. Giselda (Matemática,   1ª série – 1967), Dr. Janot Pacheco (Ciências, 3ª série – 1969), Prof. Waldir (Inglês, 3ª série – 1969), Prof. Celso (Português, 4ª série – 1970), Prof. Carlos (Geografia, 2ª série – 1968) e D. Vera (História, 4ª série – 1970).

Havia alguns poucos que não estavam no nível de excelência dos demais.  Lembro-me, por exemplo, de um senhor já bastante idoso que ensinava Geografia e era dado a repentinos acessos de fúria, durante os quais esmurrava mesas e jogava cadeiras para o alto. Houve também uma professora de Educação Moral e Cívica – matéria usada pelo regime militar para  tentar doutrinar a juventude – que provavelmente considerava o General Guarrastazu Médici um simpatizante  do comunismo. Mas eram exceções que apenas confirmavam a regra…

Embora a disciplina fosse rígida e o currículo exigente,  houve muitos momentos divertidos, sobre os quais  falarei no próximo post…

(continua)

Publicado por

joaoazevedojunior

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