Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (4)

No início de 1966 papai resolveu comprar um carro. Creio que  foi seu primeiro automóvel, e ele já estava com 54 anos. E, é claro, não tinha carteira de motorista. Hoje, quando o Brasil é o terceiro  maior mercado de automóveis do mundo (atrás apenas da China e dos Estados Unidos)  e tirar a carteira de habilitação é quase um rito de  passagem para a vida adulta, isto pode parecer estranho. Mas em 1966 a situação era outra…

Considerando a fabricação local, a indústria automobilística mal completava dez anos, e um carro ainda era o sonho de consumo da classe média, que só viria a tornar-se realidade em grande escala  durante o “milagre brasileiro” do início dos anos setenta. Basta dizer que a maioria das casas sequer possuía garagem!

A variedade de modelos disponíveis era bastante limitada. Basicamente, a Willys Overland fabricava a Rural, o AeroWillys, o Gordini  e o Dauphini (os dois últimos sob licença  da Renault), a Vemag produzia o sedã Belcar e a perua Vemaguete (sob licença da DKW),  a SIMCA disponibilizava o Chambord e o Tufão e, disparada na liderança das vendas, a Volkswagen oferecia o aparentemente imortal Fusquinha.


Num sábado, talvez em fevereiro ou março, papai e  meu irmão saíram em busca do sonhado veículo. Em casa esperávamos ansiosos. Voltariam com um Fusca? ou seria um Gordini? quem sabe, talvez até mesmo um SIMCA? Mas acredito que papai não tivesse a menor ideia sobre qual marca e modelo desejava comprar; estava decidido a motorizar-se,  porém qualquer automóvel que o levasse de um lado para outro e que estivesse ao alcance de seu bolso poderia ser considerado.

O fato é que no início da tarde ele e meu irmão apareceram de volta em um Chevrolet Belair 1958 hidramático, importado dos Estados Unidos havia alguns anos por um político sabe-se lá como (mas a documentação  estava OK).

Era um autêntico “rabo de peixe”, um dinossauro cujos descendentes ainda dominavam as autoestradas norte americanas: motor de 6 cilindros 3900 cm3 15o HP, câmbio hidramático, 5,3 m de comprimento, 1500 kg de peso, 5 km/litro de gasolina.  Em suma: um carrão! A foto  mostra como era o Belair 1958; o de meu pai era exatamente desta cor: azul e branco.

Belair 1958 - Vista lateralA sede insaciável do  potente veículo não causava preocupação. A gasolina era vendida  então a preço de  banana – ou talvez menos. A OPEP já existia, mas ainda não havia demonstrado seu poder; a Primeira Crise do Petróleo só ocorreria  sete anos depois.

Viajamos muito com este carro, conhecendo diversos lugares de Belo Horizonte e cidades vizinhas. Meu pai não se animou a tirar a carteira de motorista nesta época – só veio a fazê-lo em 1972, de modo que meu irmão sempre foi o condutor. Ubiratan – este era o nome de  meu  saudoso irmão – a quem chamávamos de Bira, e papai fizeram um acordo informal: Bira dirigiria para a família, mas disporia do carro todas as noites como bem lhe aprouvesse. Para um moço de 22 anos, solteiro, numa  época    em que um carro ainda tinha um certo poder de atração junto ao público feminino, não era um mau acordo. Assim, todos saíram ganhando e ficaram satisfeitos com a aquisição do “dinossauro de aço”.

Mas, como nos ensina a sabedoria  popular, “não há bonito  sem senão” e no caso deste carro o senão estava na manutenção, dificílima e caríssima. No início de 1967,  voltando de uma festa, Bira sofreu um acidente ao atravessar um sinal que ele jurava estar aberto; o motorista e os passageiros do ônibus que colidiu com o Belair diziam que o sinal estava sim aberto, mas para o  ônibus.  Felizmente ninguém se machucou, mas o carro ficou de tal forma danificado que o reparo se tornou inviável.

Este incidente azedou bastante o relacionamento entre Bira e papai, que ficou uma fera com o prejuízo – o carro não tinha seguro, aliás nem sei se alguém fazia este tipo de seguro na época – e só voltou a comprar outro veículo em 1971. Mas isto é outra história…

(continua)

Publicado por

joaoazevedojunior

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