Recordações de Belo Horizonte 1964-1970 (3)

O dia 31/03/1964 marcou o início do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e implantou no Brasil um regime autoritário que durou quase 21 anos. A quem estiver interessado em saber mais sobre o que se passou nestes anos, recomendo a leitura da monumental obra de Elio Gaspari, composta (até o  momento) de duas partes: “As Ilusões Armadas” (dois volumes:  “A Ditadura Envergonhada” e “A Ditadura Escancarada”) e “O Sacerdote e o Feiticeiro” (dois volumes: “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”). Mas o que interessa no momento  é dizer que o golpe começou em Minas Gerais, quando o  General Olympio Mourão Filho se declarou rebelado contra o governo federal e partiu com sua tropa de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.

Para mamãe e eu 31/03 foi muito divertido. Recém-chegados à Belo Horizonte, e completamente alheios à política, aproveitamos o dia  para conhecer a cidade. Passeamos pelo centro, explorando o território, conhecendo e admirando as lojas afamadas, admirando a quantidade de cinemas e a variedade de filmes em cartaz.

Naquela época, eu acompanhava mamãe de bom grado em suas compras; hoje tenho verdadeiro horror a entrar em uma loja para olhar as mercadorias. É que, como escreveram João Bosco e Aldir Blanc, “Na idade em que estou / Aparecem tiques, as manias / Transparentes, transparentes / Feito bijuterias / Pelas vitrines, / Da Sloper da alma”. Aliás, a Casa Sloper deve ter sido uma das lojas que visitamos então.

Confesso que não recordo com exatidão onde fomos naquele dia há 48 anos. Mas é possível dizer onde poderíamos ter ido, com base em minhas lembranças sobre os lugares onde costumávamos ir. Poderíamos, por exemplo, ter almoçado no Restaurante Giratório, que ficava no Edifício Helena Passig na Praça Sete. Neste restaurante as mesas ficavam sobre uma esteira, como estas de bagagem que se vê nos aeroportos. A esteira girava lentamente; uma volta levava mais ou menos o tempo de uma refeição e eu, creio que como todas as crianças de Belo Horizonte, achava aquele restaurante sensacional! Ou, invés de almoçar, poderíamos ter feito uma refeição mais leve nas Lojas Americanas, cuja lanchonete era famosa pelos ótimos sanduíches, o bolo com sorvete e um prato que só nos animamos a pedir depois de muitas semanas de ensaio e hesitação. Era o tal de “waffle”, palavra que nem eu nem mamãe sabíamos como pronunciar; hesitávamos entre “uáfle”, “váfle” ou “uáfelê” e não queríamos passar recibo de nossa ignorância interiorana. O assunto só foi esclarecido quando meu irmão, que já tinha estudado inglês, nos explicou que o certo era “uáfol” ou “uófol”.

Seja  como for, só chegamos em casa no final da tarde. Ao passarmos pela Mercearia  Bandeirante notamos algo de estranho: as prateleiras estavam vazias. Não havia mais nada para comprar: nem arroz, nem feijão, nem óleo, nem açúcar, nada mesmo! É que a população, alarmada com o cenário que se desenhava, havia feito um estoque de gêneros de primeira necessidade, que certamente iriam faltar se houvesse uma guerra civil, uma possibilidade real naqueles dias conturbados. Quando entramos no apartamento, papai nos recebeu muito nervoso, pois só conseguira encontrar na mercearia um quilo de farinha de milho e uma lata de óleo; era este nosso estoque de alimentos para enfrentar as agruras da guerra civil…

No dia seguinte fui visitar minha professora, D. Olga – sobre a qual já escrevi no “post” anterior –  e lá estava quando chegou seu irmão. Ele usava uma braçadeira amarela com um triângulo vermelho                     e relatou orgulhoso que havia se alistado como voluntário para lutar na defesa de Minas Gerais. Nunca vi isto mencionado em qualquer livro ou artigo sobre o movimento de 64, e já procurei várias vezes  na internet, sem sucesso, mas afirmo: chegou a haver alistamento de voluntários em Belo Horizonte, prevendo a eventualidade de uma luta prolongada contra o governo federal.

Feliz ou infelizmente (depende do ponto de vista de cada um)  o “dispositivo militar” de Jango mostrou-se tão real quanto a mula sem-cabeça e não houve qualquer guerra, batalha ou escaramuça entre rebelados e legalistas.

Em casa, a farinha de milho e o óleo foram consumidos em clima de paz, e a vida seguiu normalmente em Belo Horizonte. Até que papai comprou um carro…

(continua)

Publicado por

joaoazevedojunior

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