Esparciatas, periecos e ilotas

Existiu na Grécia Antiga uma cidade-estado chamada Esparta, que se tornou famosa pelo militarismo; era basicamente um acampamento em armas, onde todos os aspectos da vida diária conformavam-se ao imperativo da guerra.

Havia em Esparta três classes sociais: esparciatas, periecos e ilotas. Os esparciatas constituíam a classe dominante e somente eles gozavam da plena cidadania; os periecos eram cidadãos livres, que se dedicavam ao comércio e à manufatura. E na base da pirâmide social estavam os ilotas, que cultivavam a terra dos esparciatas como servos da gleba, um regime de semi-escravidão.

A crer-se nos escritos de Aristóteles, no início de cada ano abria-se um período de “caça aos ilotas”, durante o qual os esparciatas podiam eliminar alguns de seus servos, sem maiores justificativas ou complicações.

Isto foi há muito,  mas muito tempo mesmo. Desde então o ser humano se tornou mais civilizado e, até onde  sei, nenhum estado moderno concede permissão legal a um grupo social para que este promova a matança indiscriminada de membros de algum outro grupo. Mas será que todas as sociedades evoluíram da mesma forma?

Terminou o Carnaval, a mais famosa manifestação cultural brasileira, que tanto engrandece e abrilhanta a imagem do país no Exterior. Fico refletindo sobre alguns eventos ocorridos neste período. A garotinha morta na praia por um jet-ski desgovernado, pilotado por um adolescente; a senhora de 54 anos que morreu ao cair de uma altura de 15 metros quando se rompeu o cabo de aço da tirolesa no interior paulista; a jovem ferida que agonizou por alguns dias e veio a falecer devido ao acidente no camarote onde participava do Carnaval bahiano. Em todos os casos ninguém é responsável, foi tudo uma fatalidade…

Desaba o edifício no centro do Rio de Janeiro, ceifando diversas vidas… e ninguém é responsável. Um motorista bêbado em um carro de luxo mata várias pessoas… uma fatalidade. Queima-se vivo o índio… um acidente. Mata-se a jornalista pelas costas em lugar público e à vista de testemunhas… um compreensível e desculpável momento de fraqueza.

Casos como os que mencionei acima, quase que invariavelmente, envolvem um réu primário que acaba aguardando em liberdade pelo julgamento. Se o réu possui uma gorda conta bancária, um bom advogado, conhecedor de todas as brechas e interstícios da lei, lhe garantirá longuíssimo prazo de espera até que o caso vá a juízo. E, exceto em casos raríssimos, a punição, se houver, será extremamente branda: algumas cestas básicas e horas de “serviço comunitário”.

E aí me vem a analogia com a situação de Esparta. A inoperância, ineficácia e ineficiência de nosso sistema judiciário geram tal certeza de impunidade que nossos “esparciatas” sabem que abater um “ileco” não trará maiores conseqüências. E, naturalmente, agem de acordo…

Publicado por

joaoazevedojunior

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  1. Achei que ia aprender história, mas aí o cara começa a falar dos fatos da atualidade e do Brasil ainda, o que não tem nada haver com o mundo grego. sinceramente odiei essa comparação.

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