Excelsior! Um poema de Henry Wadsworth Longfellow

Introdução

Surfando pela internet, encontrei uma versão em latim (!) do poema “Excelsior! ” do escritor americano Henry Wadsworth Longfellow. Excelsior quer dizer “mais alto” e conta a história de um jovem que perece numa escalada pelos Alpes; há todo um simbolismo no poema, que pode ser lido de várias maneiras.

Há uma tradução primorosa deste poema para o português, feita por Alexei Bruno, que pode ser encontrada, juntamente com a biografia de Longfellow, no endereço: (http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html).

Reuni nas prócimas páginas o original inglês, a tradução para o português e a adaptação para o latim.

UM POEMA DE HENRY WADSWORTH LONGFELLOW

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)

The shades of night were falling fast,
As through an Alpine village passed
A youth, who bore, ‘mid snow and ice,
A banner with the strange device,
Excelsior!

His brow was sad; his eye beneath,
Flashed like a falchion from its sheath,
And like a silver clarion rung
The accents of that unknown tongue,
Excelsior!

In happy homes he saw the light
Of household fires gleam warm and bright;
Above, the spectral glaciers shone,
And from his lips escaped a groan,
Excelsior!

“Try not the Pass!” the old man said;
“Dark lowers the tempest overhead,
The roaring torrent is deep and wide!
And loud that clarion voice replied,
Excelsior!

“Oh stay,” the maiden said, “and rest
Thy weary head upon this breast!”
A tear stood in his bright blue eye,
But still he answered, with a sigh,
Excelsior!

“Beware the pine-tree’s withered branch!
Beware the awful avalanche!”
This was the peasant’s last Good-night,
A voice replied, far up the height,
Excelsior!

At break of day, as heavenward
The pious monks of Saint Bernard
Uttered the oft-repeated prayer,
A voice cried through the startled air,
Excelsior!

A traveler, by the faithful hound,
Half-buried in the snow was found,
Still grasping in his hand of ice
That banner with the strange device,
Excelsior!

There in the twilight cold and gray,
Lifeless, but beautiful, he lay,
And from the sky, serene and far,
A voice fell, like a falling star,
Excelsior!


 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems 1842)
Tradução para o português de Alexei Bueno[1]

 

A noite com suas sombras cai depressa;
A aldeia alpina aos poucos atravessa
Um jovem, que ergue, em meio à neve em sanha,
Uma bandeira, com a divisa estranha,
Excelsior!

Sua cor é triste, mas sua vista alçada
Lembra uma espada desembainhada,
E a sua voz qual clarim de prata erguida
Lança os sons de uma língua nunca ouvida,
Excelsior!

Casas felizes ele vê, brilhando
Ao fogo quente, familiar e brando;
Mais ao alto espectral geleira ao vento,
E de seus lábios se escapa um lamento,
Excelsior!

“Não tentes a Passagem”, diz-lhe um velho,
“Já ergue a tormenta o seu manto vermelho,
Rugem as águas sem olhar que as sonde!”
E a alta voz de clarim só lhe responde,
Excelsior!

“Oh! fica”, diz-lhe a virgem, “e em meu seio
Deita a fronte cansada sem receio!”
Nubla-lhe um pranto o olhar azul erguido,
Mas ele ainda responde, com um gemido,
Excelsior!

“Teme os galhos na treva borrascosa!
Teme a uivante avalanche pavorosa!”
São o último boa-noite de quem fica,
E uma voz, longe no alto, lhes replica,
Excelsior!

Nascido o sol, no divino resguardo
Dos santos ermitões de São Bernardo
Quando o salmo de sempre é repetido,
Uma voz grita no ar estremecido,
Excelsior!

Na neve um viajor, semi-enterrado,
Pela matilha fiel é encontrado,
Tendo em sua mão de gelo branca e lisa
A bandeira, com a estranha divisa,
Excelsior!

Lá, onde a noite fria e cinza pousa,
Sem vida, mas tão belo, ele repousa,
E do céu, sereníssima e clemente,
Desce uma voz, como estrela cadente,
Excelsior!

[ 21-12-1987]


 

 

Excelsior!

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems, 1842)
Adaptação para o Latim de Ray Cui[2]
Leitura de Ray Cui / Leitura de João Azevedo

Cadēbant noctis umbrae, dum
Ībat per vīcum Alpicum
Gelū nivequ(e) adolēscēns,
Vēxillum cum signō ferēns,
Excelsior!

Frōns trīstis, micat oculus
Velut ē vāgīnā gladius;
Sonantque si’milēs tubae
Accentūs lingu(ae) incognitae,
Excelsior!
In domibus videt clārās
Focōrum luces calidās;
Relūcet glaciēs ācris,
Et rumpit gemitūs labrīs,
Excelsior!

Dīcit senex, “Nē trānseās!
Suprā nigrēscit tempestās;
Lātus et altus est torrēns.”
Clāra vēnit vōx respondēns,
Excelsior!
Iam lucescēbat, et frātrēs
Sānctī Bernardī vigilēs
Ōrabānt precēs solitās,
Cum vōx clāmāvit per aurās,
Excelsior!

Sēmi-sepultus viātor
Can(e) ā fīdō reperītur,
Comprēndēns pugnō gelidō
Illud vēxilum cum signō,
Excelsior!
Iacet corpus exanimum
Sed lūce frīgidā pulchrum;
Et caelō procul exiēns
Cadit vōx, ut stella cadēns,
Excelsior!


[1] Poeta, Editor, ex-Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento; disponível em http://literaciaalexeibueno.blogspot.com/2011/02/poema-de-longffelow-ha-muitos-anos.html e acessado em 26/10/2011.

[2] Disponível em PHONETICA LATINÆ(http://la.raycui.com/), acessado em 26/10/2011.

Aprendendo um novo idioma: a questão da inteligibilidade

Sempre tive interesse no aprendizado de idiomas e ao longo dos anos vim a adquirir alguns conhecimentos, em graus amplamente variados, de inglês, espanhol, francês e alemão.

Um modo efetivo de avaliar o nível de conhecimento de uma língua estrangeira é o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (“Commom European Framework of Reference for Languages”). Este quadro de referência é a base comum do aprendizado de  línguas estrangeiras na Europa. Ele abrange as competências linguísticas em diferentes áreas e classifica tais competências em pelo menos seis níveis:

  • Nível A1 | Iniciante: Conhece frases e expressões simples e é capas de descrever situações simples ou o lugar em que vive.
  • Nível A2 | Comunicação básica: Capaz de se fazer entender sobre assuntos simples e descrever suas necessidades, por exemplo, ao fazer compras.
  • Nível B1 | Preparado para o dia a dia: Ao viajar pelo país estrangeiro, é capaz de lidar com as situações mais comuns que deve encontrar; consegue falar sobre experiências e eventos, além de manifestar sua opinião claramente.
  • Nível B2 | Segurança ao conversar: Capaz de comunicar-se de forma espontânea e fluente – mesmo em longas conversas com falantes nativos. É capaz de acompanhar textos e discussões complexas e expressar sua opinião sobre temas abstratos.
  • Nível C1 | Comunicar-se fluentemente: Não precisa procurar por palavras e utiliza a língua estrangeira de forma flexível no trabalho, lazer ou em treinamentos; compreende sem problemas textos longos e complicados.
  • Nível C2 | Lidar facilmente com temas difíceis: Compreende tudo o que lê ou escuta; é capaz de expressar-se de maneira espontânea e fluente e pode comunicar-se de forma ampla.

Ao estudar um idioma estrangeiro, sempre tive preocupação com algumas questões, que foram respondidas pela leitura do artigo que está em anexo.

Vale a pena ler o documento, que ajuda a entender algumas dificuldades que são encontradas no processo de aprendizado de uma nova língua, principalmente quando isto ocorre no dia-a-dia da vida em um país estrangeiro.

As questões a que me referi anteriormente são as seguintes:

1)      Mesmo que eu aprenda a falar muito bem este idioma, vou sempre falar com sotaque? A resposta é  sim. Conforme dizem os autores, Although some work suggests that adult L2 learners may occasionally achieve native-like speech patterns, this phenomenon appears to be restricted to a very small number of highly motivated individuals (Moyer, 2004) and to those with special aptitude (Ioup, Boustagi, El Tigi, & Moselle, 1994). Studies of ultimate attainment in general suggest that native-like pronunciation among those who acquire an L2 after early childhood is actually exceedingly rare (Flege, Munro, & Mackay, 1995; Scovel, 2000).

2)      Devo concentrar meus esforços buscando alcançar um nível razoável de integibilidade, mesmo falando com sotaque? A resposta é sim. Embora seja possível falar um idioma estrangeiro de um modo “which may well exceed the minimum required for basic intelligibility”, o problema de fazer-se entender não está propriamente no sotaque. “Though it is often assumed that greater accentedness automatically entails reduced intelligibility and comprehensibility, the situation is not so straightforward. In fact, one of the most robust ndings in studies examining the relationships among these dimensions is that they are partially independent. Although listeners who nd specic L2 utterances to be both unintelligible and incomprehensible always perceive such samples as heavily accented, the reverse is not necessarily true. Thus, listeners often assign good comprehensibility ratings to speech samples that they have also rated as heavily accented. Moreover, transcription studies indicate that some heavily accented speech samples are completely intelligible, while others are not (Derwing & Munro, 1997; Munro & Derwing, 1995).”            

3)      Como atingir rapidamente a faixa de inteligibilidade?O artigo sugere que conhecer quais são os desvios em relação à pronúncia padrão que mais prejudicam a inteligibilidade seria uma das direções para melhorias no processo de aprendizado. ”With the heightened interest in pronunciation now evident among pedagogical professionals, applied linguists need to undertake programmatic research that will extend knowledge of pronunciation learning. We see several directions in which this work should proceed. First, more research should be conducted on intelligibility to establish the most effective ways of assessing it and to identify the factors that contribute to it.”

Lembro-me de uma situação que possivelmente esteja relacionada à questão da pronúncia da L2 em função da língua nativa do  falante, exatamente como mencionado no artigo. É notório que os falantes nativos do português brasileiro tem muita dificuldade de articular os sons associados ao “th”, /θ/ e /δ/, que não existem em  nosso idioma.

Vivi alguns anos nos Estados Unidos, integrando um time de funcionários brasileiros alocado num dos laboratórios de desenvolvimento da IBM. Nesta mesma época, havia um grupo de funcionários da IBM Espanha trabalhando lá. Não tenho dúvidas de que o sotaque deles era bem mais acentuado que o nosso. Porém, em várias ocasiões, pareceu-me que os americanos entendiam com mais facilidade o que eles falavam.

Após ler o “paper”, ocorreu-me a idéia de que talvez um das causas disto é o fato de que existe no espanhol da Espanha um som muito semelhante ao /θ/, que é o da letra “C”.  Ou seja, embora com sotaque mais carregado, provavelmente os colegas espanhóis pronunciavam de maneira mais inteligível, para os americanos, sons que são muito comuns no idioma inglês.