Refletindo sobre Ética: Objetivismo e Relativismo

1.0  Introdução

Os objetivos deste trabalho são identificar as principais linhas de pensamento nas quais os ensinamentos da Ética podem ser classificados e mostrar porque temos que  nos opor à teoria filosófica que tende a tornar-se dominante na atualidade.

2.0  Definições de Ética

Tradicionalmente, uma das grandes divisões da Filosofia é a Ética, também conhecida como Filosofia Moral, ou simplesmente Moral. Esta área da Filosofia pode ser definida como:

“A moral é a ciência das leis ideais que dirigem as ações humanas, e a arte de as aplicar corretamente às diversas situações da vida.” (Lahr, 1952)

Esta definição é muito apropriada, pois em uma única frase engloba as três áreas gerais em que, modernamente,  se divide o estudo da Ética:

a)    a metaética, dedicada a investigar a origem e o significado dos princípios éticos que orientam o comportamento humano e buscar respostas para questões tais como: Existem princípios absolutos do Bem e do Mal? Ou são estes conceitos mera convenção dos grupos sociais? Podem tais princípios serem deduzidos pela razão?;

b)    a ética normativa, que procura definir os padrões de conduta considerados certos e errados, e envolve questões tais como: Quais são nossos deveres para com nossos semelhantes?, Que virtudes devemos cultivar?, e;

c)    a ética aplicada, que se ocupa da análise de assuntos controversos tais como a pena de morte, a eutanásia, o aborto, e outros, e utiliza os conceitos da metaética e da ética normativa para definir a posição a ser adotada acerca de tais assuntos.

Neste trabalho concentramos o foco na metaética e na ética normativa. No entanto é freqüente que as três áreas estejam envolvidas na análise de situações específicas. Uma discussão sobre, por exemplo, a eutanásia – um problema de ética aplicada – sem dúvida envolverá considerações sobre a ética normativa (por exemplo, o direito do paciente à escolha; o dever dos médicos de empregar recursos extraordinários, etc) e sobre a metaética (por exemplo, a origem dos direitos; os direitos e deveres inerentes ao ser humano, etc).

A Filosofia Moral difere marcadamente das demais ciências quanto ao método. Enquanto estas buscam descrever o que é, aquela procura determinar o que deveria ser. Assim, a Ética não se limita a descrever como os homens agem; vai além, prescrevendo como deveriam agir.

3.0  Natureza das leis morais

Provavelmente, a mais importante preocupação da Metaética é prover uma resposta satisfatória à pergunta: “A moralidade existe independentemente dos seres humanos?”.

Uma resposta afirmativa equivale, via de regra, a dizer que alguns atos são intrinsecamente  bons, ao passo que outros são intrinsecamente maus, e que o padrão que define o que é bom e o que é mau é eterno e imutável, aplicável a todos os seres humanos, em qualquer época, qualquer que seja sua cultura.

Esta abordagem se denomina objetivismo, pois afirma que as leis morais podem ser deduzidas da relação necessária entre a natureza humana e seu objetivo. Em essência, as leis morais estariam, como as leis da física, entremeadas ao tecido do Cosmos.

Assim como a matemática, que permaneceria válida mesmo que não existissem seres racionais que apreendessem seus conceitos, da mesma forma as leis morais existiriam como verdades absolutas, independentes da experiência humana.

No entanto, de acordo com o objetivismo, existe uma diferença fundamental entre as leis da física e as leis morais. Enquanto aquelas são necessariamente obedecidas, mas é concebível que fossem diferentes (são ditas objetivamente contingentes, subjetivamente necessárias), estas não são necessariamente obedecidas, mas não é concebível que fossem diferentes (são ditas objetivamente necessárias, subjetivamente contingentes).

Exemplificando, é concebível, ao menos como exercício intelectual, que a aceleração da gravidade em nosso planeta fosse diferente de 9,86 m/s2, o que faria com que os objetos caíssem com velocidade diferente da que caem, mas é inconcebível que o  Bem se transformasse no Mal.

O objetivismo requer que a existência humana possua  um propósito definido, um objetivo para o qual deva tender, de modo que se possa considerar como bom aquilo que conduz a este objetivo e como mau o que faz o ser humano afastar-se do objetivo.

A segunda abordagem, denominada relativismo,  nega a existência de valores morais absolutos e afirma que os conceitos de Bem e Mal são invenções estritamente humanas. O relativismo se apresenta essencialmente sob duas formas.

O relativismo cultural, que baseia seus argumentos principalmente na imensa diversidade de costumes encontrada nas diferentes sociedades. Aspectos relativos, por exemplo, às obrigações dos filhos para com os pais, ao infanticídio, à homossexualidade, às obrigações para com os que não pertencem ao grupo,  etc., variam substancialmente quando são comparadas diferentes sociedades,  ou até a mesma sociedade em diferentes épocas. Assim, “certo” significaria apenas “aprovado pela grupo social naquele momento”.

Algumas tentativas de refutação ao relativismo cultural apoiam-se no fato de que há certos princípios éticos comuns a essencialmente todas as culturas, em todas as épocas. Por exemplo, todas as sociedades conhecidas, em todas as épocas,  condenam o ataque irrestrito a membros do próprio grupo e aprovam o auxílio mútuo entre parentes. Isto indicaria a existência de um núcleo de valores absolutos, como propõe o objetivismo.

No entanto, este argumento contrário ao relativismo é refutado com facilidade, porque o fato de haver tais princípios comuns pode ser explicado satisfatoriamente pela biologia. É evidente que restrições à matança indiscriminada entre indivíduos do mesmo grupo e uma certa cooperação entre eles são práticas vantajosas sob o ponto de vista evolucionário, pois significam maior probabilidade de que tais indivíduos transmitam seus genes às gerações vindouras, através de um processo conhecido como seleção a nível do clã (“kin selection”).

Sendo a evolução um processo não direcionado, fundamentalmente baseado no acaso das mutações genéticas, não é possível utilizá-la como avalista do comportamento humano, nem para o bem nem para o mal.

A verdadeira refutação consiste em lembrar que a simples descrição de como os seres humanos agem não é, em si, uma indicação do valor moral de suas ações, nem para o bem nem para o mal. Na Antiguidade a escravidão era aprovada pela grande maioria das sociedades, mas isto não a tornava moralmente correta. De maneira análoga, o fato de que tais ou quais comportamentos são disseminados não lhes confere qualquer característica moral.

O relativismo individual sustenta que os princípios morais são em grande medida criados pelo próprio indivíduo.

O mais conhecido defensor desta idéia foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que condenava a ética do Cristianismo, considerando-a como a ética dos fracos, que detestam e temem a força, o orgulho e a auto-afirmação.  Considerava que as religiões tradicionais estavam acabadas (“Deus está morto.”) e propunha uma “reavaliação de todos os valores.” Estes novos valores levariam também a um ideal: o “Übermensch”, ou super-homem, que criaria sua própria ética. Estes conceitos foram amplamente usados como justificativa filosófica do Nazismo.

Outra  forma de relativismo individual é o existencialismo, cujo mais conhecido representante foi o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). Em sua principal obra, “O Ser e o Nada”, publicada em 1943, Sartre sustenta a não-existência de Deus e afirma que cada ser humano possui, ao menos em princípio, a liberdade de decidir como viver. Na medida em que suas escolhas sejam “autênticas”, no sentido de que provieram de seu livre arbítrio, não há nenhuma justificativa moral para que sua conduta seja criticada.

4.0  Critérios de moralidade

Provavelmente, a mais importante preocupação da Ética normativa pode ser resumida na pergunta: “Como levar uma vida moralmente correta?”.

Diversos filósofos enfatizam que uma vida moralmente correta depende do desenvolvimento de certos hábitos, que se denominam virtudes. As teorias da virtude são das mais antigas tradições filosóficas do Ocidente. Platão (428 – 347 A.C.), por exemplo, enfatizava quatro virtudes, mais tarde denominadas cardinais: Temperança, Justiça, Coragem e Prudência.

Já se disse que toda a filosofia ocidental é uma nota de rodapé para os ensinamentos de Platão.  Este filósofo admitia a espiritualidade da alma e sua existência totalmente distinta do corpo. Para ele, a alma seria um princípio de vida e de movimento, e não apenas imortal como também eterna. Seria dotada de três faculdades, ou composta de três partes, cada qual orientada por uma tendência distinta:

a)    a alma inferior, que possui os desejos ou apetites físicos, e cuja virtude é a temperança;

b)    a alma média, que impele à ação e é o princípio das paixões nobres e generosas; sua virtude é a força, e;

c)    a alma superior, que possui a inteligência e a razão, é a única parte imortal e deve conduzir  cada indivíduo, prevalecendo sobre as outras duas partes; sua virtude é a sabedoria.

Ainda segundo Platão, a virtude consistiria em manter a correta hierarquia de subordinação entre os três componentes da alma, sob a direção da sabedoria, que se torna o fundamento de toda virtude. A subordinação do desejo à paixão nobre gera a temperança; a subordinação da paixão à razão resulta na fortaleza; a harmonia e o equilíbrio resultantes da temperança, da fortaleza e da sabedoria gera a justiça, entendida como a saúde e a perfeição da alma.

Os filósofos cristãos da Idade Média acrescentaram mais três virtudes que deveriam ser cultivadas, e que foram denominadas virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

Além de adquirir bons hábitos, as pessoas deveriam evitar os maus (vícios), tais como preguiça, avareza e vaidade. Isto seria conseguido através da educação moral, adquirida na juventude; instilar tais virtudes nos jovens seria responsabilidade dos mais velhos.

As chamadas teorias do dever acentuam que a moralidade consiste em cumprir certos deveres  e que a obrigação de  cumpri-los independe das conseqüências. Assim, tais teorias são também denominadas deontológicas, ou não-conseqüênciais.

O filósofo alemão Samuel Pufendorf (1632 – 1694)  classificava os deveres em três categorias: deveres para com Deus, deveres para consigo mesmo, deveres para com os outros. Os deveres para com Deus seriam:

a)    conhecer Sua existência e natureza, e;

b)    b) prestar-Lhe culto interno e externo.

Os deveres para consigo mesmo seriam:

a)    deveres da alma, relacionados ao desenvolvimento das habilidades e talentos de cada indivíduo, e;

b)    deveres do corpo, relacionados à manutenção da vida e da saúde.

Finalmente, os deveres para com os outros seriam:

a)    deveres absolutos, tais como não prejudicar o próximo, tratar a todos como iguais e promover o bem de outros, e;

b)    deveres condicionais, relacionados a acordos e promesas.

O também alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) teorizava a existência de um nível mais fundamental do dever, que abrangeria todos os deveres particulares, e seria um princípio único, evidente por si mesmo, denominado “imperativo categórico”.

Segundo Kant, muitas ações são realizadas em virtude de imperativos hipotéticos, que estão ligados à consecução de um objetivo qualquer.  Por exemplo, na frase “Se você quer ser aprovado no exame, então deve estudar” tem-se um imperativo hipotético, pois cabe ao sujeito decidir se irá ou não obedecer, tendo em vista o objetivo a que se propõe.

Já um imperativo categórico simplesmente impõe um dever, que deve ser cumprido independente de qualquer objetivo ou desejo do sujeito. Kant enumera pelo menos quatro imperativos categóricos, mas um deles é particularmente direto: “Trate as pessoas como um fim, e nunca como um meio para alcançar um fim.”

5.0  Objeções ao relativismo moral

As abordagens objetivista e relativista são na verdade a expressão de diferentes formas de ver o mundo. O conceito das verdades absolutas e a premissa de que a vida humana tem um sentido que transcende sua dimensão puramente material supõe que, de algum modo, existe um mundo invisível, isto é, um mundo espiritual.

Por outro lado, o relativismo dispensa, quando não exclui expressamente, a existência de uma dimensão espiritual, uma vez que o Bem e o Mal são apenas invenções humanas. O relativismo cultural e sua conclusão (“certo” significa apenas “aprovado pela sociedade em determinada época”) parece negar o progresso moral da Humanidade e nos leva a concluir que, por exemplo, o “apartheid” na África do Sul foi uma prática “correta” para a minoria branca, que o aprovava.

Minhas convicções pessoais me fazem rejeitar, já de início, qualquer corrente filosófica que negue a existência de Deus. Mesmo deixando de lado este obstáculo fundamental, considero que nenhuma das duas teorias de relativismo individual apresentadas anteriormente é aceitável.

A filosofia de Nietzsche e sua idéia do super-homem, que define a  própria ética, se opõe frontalmente a minhas crenças. Estou plenamente convencido que é dever de cada um de nos tratar a todos os homens, sem distinção de classe e de raça, como seus iguais e irmãos. Quando o povo alemão acreditou ser a encarnação do super-homem, representado pela raça ariana, a Humanidade sofreu conseqüências devastadoras. Assim, é improvável que tais idéias voltem a ser consideradas seriamente.

Por outro lado, embora possivelmente apenas um número muito reduzido de pessoas haja lido Sartre, mais e mais tornam-se, na prática, existencialistas. Para muitos, Deus é apenas um resquício de antigas superstições, que o progresso da Ciência erradicará definitivamente nas próximas décadas.

O Homem é visto simplesmente como resultado de um acaso; nega-se qualquer sentido ou finalidade à vida, exceto a satisfação dos sentidos e a busca do status. Despido de sua transcendência, visto apenas como um animal dotado de raciocínio, o Outro torna-se um instrumento a ser usado em benefício próprio.

Devemos tomar uma posição clara contra o relativismo moral que permeia os dias de hoje. O pensamento e a prática que regem o comportamento de apreciável parcela da sociedade atual se resumem na frase “Se me agrada ou se me convém está correto.”

Como homens de bem, devemos ter a coragem moral de ir contra esta corrente. declarando com firmeza que nem o prazer nem a conveniência são justificativas morais para as ações do ser humano, e que não transformam em bem aquilo que é intrinsecamente desordenado e mau.

REFERÊNCIAS:

ETHICS (2009). In Encyclopædia Britannica. Disponível em Encyclopædia Britannica Online: http://www.britannica.com/EBchecked/topic/194023/ethics. Acesso em 31.jan.2009

FIESER, James (Ed.); DOWDEN, Bradley (Ed.). The Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em  http://www.iep.utm.edu/. Acesso em: 31.jan.2009.

LAHR, C. Manual de Filosofia.  Tradução e adaptação de Antonio Alves da Cruz. 6 ª ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1952. 847 p. Título original: Cours de Philosophie

RUNES, Dagobert D. (Ed.). Dictionary of Philosophy. s/ local, 1942. Disponível em http://www.ditext.com/runes/index.html. Acesso em: 31.jan.2009.

Refletindo sobre Metafísica: Ciência x Religião

1.0 Introdução

Há algumas semanas, tive a oportunidade de ler um texto bastante provocativo, de autoria do jornalista Roberto Belisário, intitulado “Ciência e religião: um diálogo possível”[1], publicado  na revista eletrônica “ComCiência”. O artigo aborda diversos aspectos do relacionamento entre as duas áreas, para concluir que o diálogo é possível. Minha opinião é diferente, como procuro explicar nos parágrafos que se seguem.

2.0 Comparação entre as metodologias da Ciência e da Religião

Um dos estudiosos citados no artigo é o teólogo Eduardo Rodrigues da Cruz, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Cruz considera que a diferença de métodos não implica em uma incompatibilidade entre as duas áreas e prefere falar em uma relação entre Ciência e Teologia – ao invés de entre Ciência e Religião – considerando que a Teologia é “um estudo racional baseado em fontes empíricas.”

O método científico consiste na observação dos fenômenos, na coleta de dados, na formulação de hipóteses que expliquem os dados observados e na experimentação para verificar a validade  ou não das hipóteses formuladas. Karl Popper, citado no artigo, afirmava que uma teoria somente pode ser considerada científica quando for falsificável, ou seja, quando for possível conceber uma observação que a torne falsa. Um corolário desta afirmação é que uma teoria científica possui, necessariamente, conseqüências observáveis.

De fato, as grandes teorias científicas tem não só conseqüências observáveis, como possuem  geralmente a capacidade de predição, ou seja, explicam fenômenos que só mais tarde são observados. É o caso, por exemplo, da Mecânica Quântica, da Teoria da  Relatividade e do Darwinismo.

Outra característica absolutamente fundamental do método científico é que as hipóteses formuladas são abertas à discussão e à crítica e sofrem um processo constante de revisão, aperfeiçoamento e, eventualmente, substituição.

3.0 Considerações sobre a Metafísica

Por outro lado, a Teologia Racional é uma das divisões da Metafísica, que engloba também a Cosmologia Racional (Metafísica da Natureza) e a Psicologia Racional (Metafísica da Alma). A Metafísica pressupõe que é dado ao ser humano alcançar através da razão o conhecimento das causas primeiras e finalidades últimas do ser, demonstrar a existência e, em certa medida, compreender a natureza de Deus, provar a existência e compreender o destino do espírito, e assim por diante.  Mas, será tal conhecimento atingível pela razão?

Há várias correntes filosóficas que negam a possibilidade mesma da Metafísica. Entre estas podem ser destacados o Criticismo, formulado por Immanuel Kant, e o Positivismo de Augusto Comte.

Todavia, neste trabalho optei por apresentar o que um defensor da validade da Metafísica diz sobre ela.            Transcrevo alguns trechos de um compêndio de Filosofia[2], extraídos do tópico  “Certeza própria das verdades metafísicas”.

Lê-se em um trecho:
Aqui os problemas são tão complexos e ao mesmo tempo tão subtis; supõe observações tão delicadas e tão numerosas, deduções tão longas, que o espírito raramente é capaz de abranger numa vista de conjunto toda a série de raciocínios.

E mais adiante:
Tanto mais que muitas vezes estas conclusões não podem ser comprovadas pela experiência direta, como na física, nem pelo absurdo de seus contrários, como na matemática; porque a natureza e a íntima constituição das causas e das substâncias do universo são ao mesmo tempo contingentes em si mesmas e estão fora do alcance do sentidos.

É de se perguntar como seria  possível conceber uma observação que possa falsificar uma hipótese sobre algo que está fora do alcance  dos  sentidos. Ou seja, tais conclusões não possuem conseqüências observáveis e, portanto, não podem nem ser refutadas, nem                ser comprovadas.

E o parágrafo final do tópico conclui:
“Por todas estas razões muitas das conclusões da Metafísica serão sempre analógicas. Só poderia encontrar as fórmulas adequadas quem conhecesse perfeitamente a essência do ser e nele contemplasse diretamente a razão dos fenômenos. Ora, isto é privilégio só de Deus.”

Salta aos olhos a falácia conhecida como raciocínio circular ou tautologia[3], na qual se incide quando a conclusão ou alegação é meramente a reafirmação de uma das premissas. Se um dos objetivos da Metafísica é demonstrar racionalmente a existência de Deus, como se pode afirmar que somente Deus possui as formulações adequadas para a Metafísica?

Finalmente, não é incomum que muitas questões metafísicas sejam respondidas com base na Revelação, na Autoridade ou na Tradição. Muitas vezes, o debate não é realmente livre, mas sim delimitado por condições de contorno estabelecidas a priori. Novas idéias são  silenciadas quando julgado necessário (por exemplo, Teilhard de Chardin, Leonardo Boff, Hans Küng, e outros).

4.0 Estereótipos relativos às metodologias da Ciência e da Teologia

É comum considerar-se  que a Ciência está sempre associada ao empirismo puro e a Teologia sempre associada à Revelação Divina.
Como qualquer empreendimento humano, a Ciência opera no contexto de uma sociedade e seus valores. Por exemplo, nas Ciências Sociais e na Biologia é claramente visível o racismo e o etnocentrismo de muitos grandes cientistas do século XIX, quando os países  europeus dominavam o restante do mundo.

Thomas Kuhn, também citado no artigo,  explica que as grandes revoluções no pensamento científico se processam através da mudança de paradigmas: a) inicialmente, existe uma teoria aceita por todos; b) novas descobertas e experimentos conduzem a resultados não explicáveis pela teoria dominante; c) surge uma nova teoria que explica satisfatoriamente as observações citadas;  d) a nova teoria ganha aceitação geral e substitui a anterior como novo paradigma. O exemplo clássico é a mecânica newtoniana e a mecânica relativística.

Cumpre observar que o paradigma vigente determina até certo ponto as experiências que são feitas. Por exemplo, existem hoje mais de 200  partículas sub-atômicas conhecidas. À medida que são construídos aceleradores maiores e mais poderosos, mais e mais partículas serão descobertas.

Alguns críticos dizem que isto ocorre porque é isto o que os experimentos estão buscando, e sugerem alternativas. Um destes cientistas chamava-se David Bohm (1917 -1992), um físico que, quando jovem, trabalhou com Einstein. Bohm  teorizava sobre uma “ordem intrínseca”[4] que existiria ao nível das partículas sub-atômicas – algo como o “Efeito Borboleta”[5] – cuja observação exigiria experimentos totalmente diversos dos que são hoje realizados.

Por outro lado, se é fato que a Teologia Racional não se baseia apenas e tão somente na Revelação, já foram comentados os limites aos quais o estudo desta matéria está sujeito.

Assim, creio ser bastante discutível a avaliação de que “o grau de racionalidade comum entre a Teologia e a Ciência é grande”.

5.0 Interpretação literal do Gênesis e o debate Criacionismo versus Darwinismo

De acordo com o artigo, a “grande maioria dos teólogos abomina a postura fundamentalista.” Neste contexto, fundamentalismo refere-se especificamente a algumas denominações cristãs cuja doutrina se baseia na interpretação literal da Bíblia, “atitude que poderia levar, por exemplo, a admitir que o mundo tem apenas seis mil anos de idade.”

Respeito as idéias destes  grupos, enquanto crenças religiosas, mas não há dúvida que o fundamentalismo é incompatível com o conhecimento científico.

Baseando-se numa interpretação literal do Gênesis, os fundamentalistas negam a evolução das espécies, a despeito da evidência incontestável de que a evolução ocorreu. Este  criacionismo tosco ignora, entre outras áreas da Ciência, as descobertas da Geologia, evidenciando os bilhões de anos que transcorreram desde a formação do planeta, e da Paleontologia, que demonstram o surgimento e extinção de imenso número de espécies ao longo do tempo, mapeando assim a seqüência evolutiva[6], [7].

É fácil rebater o criacionismo fundamentalista, porém é bem mais complexo apontar o problema de consistência lógica no que chamo “criacionismo teísta”. Esta corrente de pensamento, que  é hoje prevalente nas denominações protestantes tradicionais (por exemplo, luteranos, metodistas, presbiterianos) e no catolicismo, aceita sem restrições as descobertas científicas sobre a evolução e, de maneira geral, não vê qualquer conflito entre Ciência e Religião.

De acordo com este ponto de vista, as leis naturais foram criadas por Deus com um propósito, e regem a evolução do universo, desde a formação das partículas elementares até o desenvolvimento da consciência humana, e além.

Há, também, uma longa tradição de buscar provas da intervenção divina na criação partindo de argumentos focados na beleza e complexidade da natureza[8]. Um dos argumentos mais conhecido foi apresentado por um teólogo do século XVIII, chamado William Paley.

Em uma passagem célebre de sua obra “Teologia Natural – ou Evidências da Existência e dos Atributos da Divindade Coletadas nas Manifestações da Natureza”,  publicada em 1802, o teólogo discorre sobre a complexidade de um relógio e afirma que ao nos depararmos com tal aparelho somos forçados a concluir que “o relógio tem que ter tido um fabricante; que deve ter existido, em algum tempo, em um lugar ou outro, um artífice ou artífices, que o construíram para a finalidade que realmente possui; que compreendiam sua construção, e previram seu uso.”

Em seguida, estende esta conclusão afirmando que “todos os indícios de propósito, todas as manifestações de projeto, que existiam no relógio, existem nas obras da natureza, com a diferença, a favor da natureza, de serem maiores e mais numerosas, num grau que excede qualquer avaliação.”

 

O problema lógico com o criacionismo teísta, colocado de maneira bastante clara, é que  a hipótese de um propósito super-natural é desnecessária para explicar a evolução das espécies ou, de modo geral, a existência do universo  físico.

A formação casual de aminoácidos autoreplicantes, a mutação aleatória do material genético e a seleção natural dos indivíduos melhor adaptados ao ambiente são mecanismos suficientes para explicar a origem e a evolução dos seres vivos. Como a idéia de um propósito divino nada acrescenta em termos de explicação do fenômeno, o princípio lógico de economia de hipóteses recomenda sua exclusão.

É claro que, ao excluir a hipótese de um propósito para a evolução, a Ciência tira do ser humano a veleidade de considerar-se como o pináculo da criação. Nos termos do Darwinismo, tal como aceito pela quase totalidade dos cientistas, o “homo sapiens” nada mais é que o resultado do acaso, assim como o “canis canis” ou a “blattella germanica”. Em termos evolucionários, nenhuma destas espécies é superior às outras; tanto os homens como os cães e as baratas estão adaptados ao respectivo meio ambiente e as três espécies tem sido bem sucedidas do ponto de vista reprodutivo.

6.0 Positivismo e a influência da religião

Resumindo o que foi apresentando até o momento, pode-se sumarizar minha exposição em duas idéias centrais que são:

(1)   a impossibilidade e inutilidade da metafísica, e;

(2)   a superioridade e prevalência do método científico como forma de aquisição do conhecimento.

Estas idéias não são, de forma alguma, novas ou originais. De maneira geral, qualquer sistema filosófico que se limita a considerar os dados da experiência e exclui especulações a priori ou metafísicas, denomina-se positivismo[9]. Mais especificamente, o termo positivismo designa o pensamento do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857). No que se segue, será este o significado desta palavra.

Em síntese, a doutrina positivista:

(a)   propõe que a experiência sensível é a única capaz de produzir, a partir de dados concretos, a verdadeira ciência, que subordina a imaginação à observação,  tomando como base apenas o mundo físico ou material;

(b)   considera tudo aquilo que não pode ser comprovado cientificamente como pertencente ao domínio teológico-metafísico, caracterizado por crendices e superstições, e;

(c)    nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, e voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis).

O positivismo teve grande influência na formação da sociedade brasileira no final do século XIX e início do século XX. Um exemplo desta influência: o lema “Ordem e Progresso” inscrito no pavilhão nacional deriva da máxima positivista “O amor por princípio, a ordem como base, o progresso como  fim”.

Inúmeros brasileiros esposaram o ideário positivista, o que provoca a seguinte questão: é o positivismo, seja na versão de Comte, seja em outras versões, compatível  com o sentimento religioso tão característico do nosso povo?

A hipótese da existência de Deus não pode ser comprovada cientificamente e um adepto do positivismo poderia rejeitar esta hipótese, classificando-a como crendice e superstição. Esta pessoa tornar-se-ia um ateu, e não professaria qualquer religião.

Para responder à questão colocada, vale a pena apresentar primeiramente alguns conceitos que permitem descrever de maneira clara os diferentes posicionamentos filosóficos  no que diz respeito à divindade. Estes conceitos são:

a)       teísmo – é a crença em um princípio criador, distinto e separado de sua criação, que dirige e suporta a existência continuada do mundo físico, e lhe dá significado e propósito;

b)      deísmo – é a crença em um princípio criador, distinto e separado de sua criação, que estabeleceu as leis naturais e não intervem no curso dos acontecimentos posteriores;

c)      panteísmo – é a crença em um princípio criador, idêntico e unido à sua criação, de modo que a divindade e o mundo físico se fundem e se confundem;

d)      ateísmo – é a negação absoluta da existência da divindade;  o ateu afirma categoricamente que Deus não existe.

Todas as denominações cristãs são teístas, assim como o são o judaísmo e o islamismo. Mas valorizar a razão como forma de compreender a realidade não leva necessariamente ao ateísmo. O artigo cita uma pesquisa feita com cientistas, abordando a relação pessoal de cada um com a religião; os resultados foram publicados em 1997 por Edward Larsone e Larry Witham na revista britânica “Nature”. Segundo a pesquisa 39% dos cientistas crêem em um deus, 45% não crêem e 15% têm dúvida  ou são agnósticos.

A Encyclopaedia Britannica nos ensina que o agnosticismo[10] (do grego agnōstos, “incogniscível; que não pode ser conhecido”) é a doutrina de que é impossível aos seres humanos compreender algo que transcende os fenômenos de sua experiência; o termo está hoje associado ao ceticismo a respeito de assuntos religiosos em geral, e particularmente à rejeição dos ensinamentos tradicionais do cristianismo quando interpretados à luz do conhecimento científico moderno.

A palavra “agnosticismo” foi criada pelo biólogo T. H. Huxley e utilizada publicamente pela primeira vez em 1869, em uma reunião da Sociedade Metafísica de Londres. Huxley foi um dos mais ativos divulgadores e defensores do Darwinismo.

É possível falar de agnosticismo religioso, mas para que esta expressão não seja contraditória, ela deve ser entendida como referindo-se à aceitação do princípio agnóstico (incogniscibilidade do Absoluto), associado:

a)      à convicção de que um mínimo de doutrina afirmativa pode ser estabelecida, ou;

b)      a uma religião ou religiosidade que não faz exigências doutrinárias substanciais.

7.0 Bases éticas para o progresso científico

O artigo original aborda em seu final a questão do afetivo na religiosidade dos cientistas e afirma que, em uma pesquisa feita entre cientistas da USP, “nenhum deles optou pelo repúdio ou pela aceitação da religião por motivos relacionados à sua ciência.

De fato, não há necessidade de fazê-lo, pois Religião e Ciência têm áreas de atuação e objetivos distintos. Enquanto a Ciência procura desvendar o “como” dos fenômenos naturais e do universo sensível, a Religião busca unir (re-ligar) a finitude do homem ao sentido maior do Cosmos, respondendo o “por quê” da condição humana.

Creio que o diálogo entre Religião e Ciência, no sentido de aprendizado e troca de experiências, não só é impossível, como não faz sentido, pois as perguntas que se busca responder são completamente distintas, assim como também o são os pressupostos e as metodologias.

Não é possível encontrar Deus através da razão[11], que não O pode compreender minimamente. Apenas a Fé e a busca incessante do progresso espiritual permitem que o ser humano entreveja a realidade que se situa além da experiência sensível.

Entretanto, a comunicação entre a Religião e a  Ciência é fundamental para que esta última se desenvolva em benefício do ser humano. Sem esta comunicação não é exagero considerar que a própria sobrevivência da espécie e, quem sabe, a continuidade da vida no planeta, estarão ameaçadas.

Absolutamente isento de qualquer propósito confessional, mas simplesmente pela clareza e elegância do texto, cito um trecho do Catecismo da Igreja Católica[12] que trata deste tema:

§2293 A pesquisa científica de base, como a pesquisa aplicada, constituem uma expressão significativa do domínio do homem sobre a criação. A ciência e a técnica são recursos preciosos postos a serviço do homem e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos; contudo, não podem indicar sozinhas o sentido da existência e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, do qual provêm sua origem e seu crescimento; portanto, encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua finalidade e a consciência de seus limites.

§2294 É ilusório reivindicar a neutralidade moral da pesquisa científica e de suas aplicações. Além disso, os critérios de orientação não podem ser deduzidos nem da simples eficácia técnica nem da utilidade que possa derivar daí para uns em detrimento dos outros, e muito menos das ideologias dominantes. A ciência e a técnica exigem, por seu próprio significado intrínseco, o respeito incondicional dos critérios fundamentais da moralidade; devem estar a serviço da pessoa humana, de seus direitos inalienáveis, de seu bem verdadeiro e integral, de acordo com o projeto e a vontade de Deus.

Em conclusão, acredito que a Ciência é, pela natureza mesma de seu método e objetivo,  intrinsecamente incapaz de responder questões relativas ao sentido e à finalidade da existência humana; paradoxalmente, respostas a estas questões são extremamente necessárias, pois fundamentam os princípios éticos essenciais para que o conhecimento científico não se volte contra o próprio homem.


[1] O artigo pode  ser acessado através do link http://www.comciencia.br/reportagens/cultura/03.htm

[2] LAHR, C. Manual de Filosofia.  Tradução e adaptação de Antonio Alves da Cruz. 6 ª ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1952. 847 p. Título original: Cours de Philosophie

[3] SHERMER, M., 1997. Why People Believe Weird Things, W. H. Freeman and Company, New York.

[4] BRIGGS, J.  P. & PEAT, F. D., 1984. Looking Glass Universe, Simon & Schuster, Inc., New Yotk

[5] A rigor, efeito borboleta é uma metáfora que resume o conceito de dependência sensível às condições iniciais na área  da matemática denominada Teoria do Caos; especificamente, a idéia de que em um sistema complexo uma pequena mudança em determinado lugar pode ter efeitos significativos em outro ponto. Outro sentido, mais difundido popularmente e utilizado neste texto, é a noção de que tudo está interconectado.

[6] BERRA, T. M., 1990. Evolution and the Myth of Creationism, Stanford University Press, Stanford

[7] KITCHER, P., 1986. Abusing Science – The Case against Creationism, MIT Press, Cambridge

[8] DAWKINS, R., 1987. The Blind Watchmaker, W. W. Norton & Company, New York.

[9] POSITIVISM (2011). In Encyclopædia Britannica. Disponível em Encyclopædia Britannica Online: http://www.britannica.com/EBchecked/topic/471865/positivism. Acesso em 10 fev 2011

[10] AGNOSTICISM (2011). In Encyclopædia Britannica. Disponível em Encyclopædia Britannica Online: http://www.britannica.com/EBchecked/topic/9356/agnosticism. Acesso em 10 fev 2011

[11] Meu pai, João Batista de Azevedo (1912 – 1995), tratou deste tema em um belíssimo soneto, intitulado “Ele?!…”, cujo primeiro quarteto diz:

Por mais que Te buscasse em vão nos alfarrábios,

                               na Ciência, nula e vã, que quase nada alcança,

na louca pretensão dos que se dizem sábios,

de Te encontrar perdi, também, toda esperança…

[12] O texto completo do Catecismo da Igreja Católica pode ser acessado na internet, em português, em: http://www.vatican.va/archive/ccc/index_po.htm